Polícias Militares no novo golpe de 2022? 


Um olhar de historiador sobre o momento que vive o nosso país é capaz de revelar que chegamos a uma fase de encruzilhada no Brasil. Como em poucos momentos na nossa história, teremos que enfrentar um ponto de ruptura institucional em 2022. As disputas pela sucessão presidencial, que muito provavelmente chegarão às raias de uma guerra civil, irão definir que país sairá da crise que se avizinha para as eleições de 2022 e após. 

Exagero? 

Basta olhar os diversos indícios que o presidente Jair Bolsonaro demonstra todos os dias. Talvez só no plebiscito de janeiro 1963, que definiu a volta do presidencialismo e dos plenos poderes ao presidente João Goulart, tivemos uma conspiração tão aberta nos antecedentes de uma crise. Naquela ocasião, o golpe empresarial-militar aconteceu também pouco mais de um ano depois, em abril de 1964, como se espera agora para outubro de 2022. 

Se naquela ocasião a justificativa foi um "golpe preventivo" contra a suposta iniciativa de Goulart para implementar uma "República-sindicalista", dessa vez usa-se o argumento de que a urna eletrônica seria passível de fraude, como teria acontecido na reeleição da Dilma (Bolsonaro alega sem apresentar provas de que o eleito em 2014 seria Aécio Neves) e que, sem o voto impresso em 2022, "teremos problemas". 


Os "problemas" são que Bolsonaro não aceitará o resultado das urnas em caso de derrota. Com essa determinação na cabeça, ele procura se cercar dos seus apoiadores militares para apoiar a causa golpista. 

Até agora, as instituições republicanas parecem estar pagando pra ver. As dezenas e dezenas de fundamentos para afastá-lo do poder, seja por interdição, devido a seu comportamento totalmente destemperado, seja por seus crimes de prevaricação, corrupção e tantos outros, até agora não foram suficientes para uma atitude mais severa dos outros poderes. Estariam com medo da reação das Forças Armadas (FF.AA.)? 

A participação do exército, da marinha e da aeronáutica neste governo, aliás, é um capítulo à parte. Alguns estudiosos do assunto afirmam que desde a participação — desastrosa— do exército brasileiro nas forças de paz do Haiti que elas retomaram a coragem para almejar um maior protagonismo nas decisões políticas, saindo das sombras em que se encontravam desde o fim da ditadura. Encontraram em Jair Bolsonaro a oportunidade perfeita. 


Bolsonaro soube tirar vantagem do apoio, e as FF.AA., por seu turno, também. Os militares ficaram de fora de todas as reformas liberais draconianas do governo, tendo de fato se beneficiado em diversos aspectos. Mais de seis mil militares da reserva e da ativa fazem parte dos diversos escalões do governo, duplicando ou triplicando seus soldos. A farra das compras de carnes, churrascos e leite condensado apenas expuseram para a opinião pública a luxúria de uma corporação que há mais de cem anos não dá um tiro para defender a nação de qualquer perigo. Transporte de drogas em aviões da FAB trouxeram mais uma mancha indelével aos militares, e agora vemos o envolvimento de diversos deles na compra superfaturada de vacinas com direito a propinas bilionárias, vacinas  que deveriam estar salvando a vida dos brasileiros. 

Diante de tantas acusações, as FF.AA. reagiram. Não com a intenção de apurar os fatos e depurar seus quadros, mas sim de acusar os órgãos de investigação, como a CPI da Covid, com palavras ameaçadoras

Fora tudo isso, vários oficiais estão há muito tempo reforçando a tese de que somente com o voto impresso, se aceitará o resultado das urnas em 2022. 

Imagina se o favorito em todas as pesquisas, Luis Inácio Lula da Silva, logo ele, confirmar sua eleição... Alguém é capaz de imaginar uma transição pacífica e democrática, com Bolsonaro entregando a faixa presidencial ao petista? 

Alguns analistas como Reinaldo Azevedo desdenham da capacidade das Forças  Armadas colocarem os tanques nas ruas como em 64, com o respaldo da Operação Brother Sam na ocasião, que não ocorreria agora. De fato, um golpe desse tipo seria inviável. Mas dessa vez, graças às excrescências implantadas na Constituição de 88 (CF88), as Polícias Militares poderiam muito bem ser as protagonistas do novo golpe. 

Não podemos esquecer a intenção astuciosa de Bolsonaro em apoiar os projetos de lei orgânica que a Folha de São Paulo revelou em janeiro deste ano para maior autonomia das policias civil e militar estaduais frente aos governadores. O projeto cria novas patentes superiores, dificulta a exoneração de delegados pelos governadores, define uma padronização nacional dos uniformes e veículos e ao fim e ao cabo, cria uma força militar nacional. 

É muito claro o que este movimento representa. 


As forças policiais estão cada vez mais contaminadas pela politização bolsonarista. Além disso, pela CF88, estão subordinadas às Forças Armadas como força auxiliar e reserva. 

Numa provável crise na eleição de 2022, outra aberração constitucional dá às Forças Armadas o papel de garantidoras da lei e da ordem. Em última instância, em defender prováveis golpismos bolsonaristas sob o manto da legalidade. Mesmo que não vejamos nas ruas os tanques do Exército como em 64, podemos sim assistir a um assalto das polícias militares nos Estados, em grande parte alinhadas com a ideologia militarista do presidente, para combater aqueles que por ventura venham a defender o resultado das urnas que não seja a reeleição de Bolsonaro. 

Vai ser uma batalha muito forte, sangrenta e imprevisível nas ruas. Se perdermos, cai junto qualquer resquício de democracia que nem sequer chegamos a experimentar plenamente neste país, com casos de arbítrio como a prisão de opositores políticos e membros do Supremo Tribunal Federal e a implementação de uma república miliciana. 

Se vencermos, porém, não poderemos nos dar ao luxo de repetir os erros do passado. Seria demais esperar por uma grande revolução (quem sabe o que a conjuntura trará) mas no mínimo, nada de anistia para golpistas ou chamados para uma conciliação nacional. Devemos instaurar uma nova constituinte para extirpar principalmente o nefando artigo 142 da atual Constituição, reformar o ensino obsoleto e ideológico das escolas militares, desmilitarizar as polícias e proibir qualquer manifestação ou participação política de militares da ativa. 

O Brasil está cansado da tutela militar e seus sistemáticos golpismos, mas vai precisar lutar talvez uma luta definitiva para dissipar de uma vez por todas a sombra do golpismo militar que paira há mais de cem anos no Brasil. 

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