Para quem os militares baterão continência em 2022? 

A pandemia está longe de estar sob controle no Brasil. Ainda morrem centenas de pessoas todos os dias no nosso país, e segundo uma recente pesquisa divulgada, no ritmo atual, atravessaremos todo esse ano e mais o ano que vem sem que 80 por cento dos brasileiros estejam devidamente imunizados. 

Mas, 2022 também é ano de eleição, e, neste cenário, como não poderia deixar de ser, as discussões que geralmente ocorrem em meados de abril do ano eleitoral, quando se definem as chapas, foram antecipadas para este momento crítico. 

A conjuntura mostra alguns detalhes que nos ajudam a entender o que teremos pela frente. A princípio, a esquerda teria um caminho fácil para eleger um presidente da República. Pelo menos em teoria. Seria ainda mais tranquilo se PT e PDT não estivessem em lados irremediavelmente opostos, tendo dois dos três principais candidatos das pesquisas, Lula e Ciro Gomes

Direita política chegará sem candidato forte em 2022

Um dos fatores principais que ajudam a diagnosticar a suposta alta probabilidade de um candidato de esquerda ou centro esquerda chegar ao poder em 2022 é a divisão e consequente fraqueza do campo da direita ou centro-direita. 

Não há absolutamente, neste momento, nenhum candidato viável para representar a alta burguesia, as camadas médias e o empresariado nacional. 

A título de exemplo, até o comediante Danilo Gentili chegou a ser especulado como um balão de ensaio que, obviamente, não decolou. 


Outro ilustre representante do entretenimento nacional, Luciano Huck, parece ter tomado prudência e se retirado de uma seara a qual domina tanto quanto a geologia do planeta Vênus. 

Dos candidatos realmente levados a sério, os menos inviáveis, se podemos assim chamar, são João Dória e Henrique Mandetta. O primeiro tiraniza o PSDB para ser o candidato do partido, mas até em São Paulo, seu reduto eleitoral, ele perde força. Não é um candidato a nível nacional. 

Mandetta pretende surfar numa marola, a única carta que tem para jogar, que é sua atuação modesta e questionável no Ministério da Saúde no momento da chegada da pandemia. Fora isso, seria mais conhecido por ser um defensor do fim do SUS... 

João Amoedo é um nanico que fala apenas aos grandes círculos empresariais e financeiros, não tem carisma nem penetração nas camadas populares. Sérgio Moro, outra aposta de primeira hora da burguesia, foi metralhado pela divulgação dos áudios referentes ao seu comportamento absolutamente abominável na Lava Jato. Ressecou e foi embora do Brasil atrás de um para-quedas dourado, um prêmio do imperialismo por seus bons serviços prestados na destruição das até então competitivas empresas nacionais no exterior. 

Restam, portanto, dois obstáculos no caminho de uma vitória fácil da esquerda em 2022: o próprio presidente atual, Jair Bolsonaro, e o "partido fardado", oficiais militares que usam de sua influência para interferir na política nacional. 


Bolsonaro já vem dando sinais claros, não é de hoje, de que não pretende aceitar qualquer resultado nas urnas ano que vem que não seja a sua reeleição. Pra falar a verdade, é realmente difícil imaginar a tradicional imagem protocolar da transferência da faixa presidencial de Bolsonaro a Lula, por exemplo. 

O presidente tem usado a estratégia, copiada do ex-presidente estadunidense Trump, de quem é um notório capacho, de por em xeque a confiabilidade das urnas eleitorais. Vem afirmando que o voto impresso é a condição para que não haja no Brasil "algo pior do que ocorreu nos Estados Unidos", referindo-se à invasão do Capitólio, numa clara ameaça antecipada. 

As armas antidemocráticas da burguesia para deter a esquerda

Por um lado, se a falta de quadros relevantes no centro e na direita civilizada é um fator facilitador para a esquerda em 2022, por outro é um fator de risco também. A história da República no Brasil demonstra que, quando o jogo eleitoral não favorece a eleição de seus quadros, o golpe está sempre no radar da burguesia, através de seus aparatos ideológicos de Estado. Vejamos alguns exemplos. 

Em 1950, Getúlio foi eleito perfeitamente dentro do jogo democrático. Sofreu tanta pressão da imprensa, principalmente através do vigarista quinta-coluna Carlos Lacerda, que se suicidou como ato político para adiar um golpe de Estado contra seu governo nacionalista; 

Em 1964 foi a vez da burguesia lançar mão não da imprensa preferencialmente, mas das Forças Armadas para tirar do poder João Goulart, herdeiro político de Getúlio e eleito vice-presidente pelo voto, com era de praxe na época, que havia assumido a presidência com a renúncia de Jânio Quadros, como mandava a Constituição; 

Passados quase 40 anos depois da ditadura e de governos de vieses neoliberais, assume Lula, cuja primeira tentativa de golpe contra ele se deu ainda no seu primeiro mandato, com o chamado mensalão, prática corriqueira que havia sido inventada e praticada pelos tucanos, que no entanto jamais foram denunciados. 

Agora o instrumento utilizado pela burguesia era o golpe parlamentar. Por sorte Lula tinha bastante apoio popular que inviabilizava um impeachment e a estratégia de "fazê-lo sangrar" até a eleição de 2010 não funcionou. Ele se reelegeu. 

Em seguida veio Dilma, tolerada por conta da estrondosa popularidade que Lula conseguiu transferir à presidenta no seu primeiro mandato. Quando Dilma se reelegeu de forma já não tão absoluta, a direita achou que já era hora de dar de novo um basta nas regras da democracia que não estavam funcionando a seu favor. 


Além do golpismo parlamentar, entrou em cena um novo aparato ideológico a serviço da burguesia: o judiciário, através da chamada Operação Lava Jato. Junto com o Impeachment da Dilma por meio de um simulacro, veio a prisão de Lula, assumindo Michel Temer, que começa a colocar o navio do rumo da direita. 

O que não se esperava então é que a Lava Jato atingisse a reputação não só dos petistas mas também dos tucanos. Afinal, a estratégia do "combate à corrupção política" não poderia deixar de atingir o partido da privataria, mesmo protegido pela mídia. 

Sem saída, a burguesia apostou na equação Paulo Guedes/Bolsonaro em 2018. Desde então, se na área econômica as decisões têm sido amplamente de acordo com os anseios das classes dominantes, na política a posição personalista do presidente impediu a ascensão de um quadro da direita que fosse mais palatável ao eleitorado de centro. Eis o impasse que se apresenta para a direita em 2022. 

Um novo golpe no horizonte?

Com a provável eleição de Lula, Bolsonaro saberá lançar mão de pelo menos algumas acusações alarmistas para tirar partido da histórica rejeição ao PT pelas elites. 

Se, pelo que temos visto, não pode contar com o golpismo parlamentar a seu favor — pelo contrário, é apenas a frágil adesão do presidente da Câmara que impede a votação das já dezenas de pedidos de Impeachment do presidente e com uma CPI altamente prejudicial acontecendo no Senado —, muito menos com a simpatia da imprensa, a qual ataca diariamente, Bolsonaro terá como último recurso o velho levante do partido fardado, outro grande e tradicional reduto de antipetismo. 

Estará, portanto, nas mãos das Forças Armadas o destino do Brasil em 2022, na sua ação ou inação, na muito provável iminência de uma eleição de esquerda para a presidência. 

No levante do Capitólio, ano passado, as Forças Armadas estadunidenses não entraram em nenhuma aventura golpista, assegurando a eleição da oposição. 

Como reagirão nossos militares, a última esperança da burguesia brasileira de deter a volta do PT ao poder? 




2 Comentários

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  1. Esta questão militar (a quanto tempo já não se falava numa "questão militar" no Brasil) também foi perguntada por Flávio Dino se não me engano.
    Acho que muita coisa ainda vai acontecer até a eleiçao, de repente o bolsonaro nem disputa, tem uma cpi aí, então..
    Mas se disputar vai ser difícil, imagina ele abrir mão do poder tão simples assim.

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    1. É verdade que Flávio Dino já tinha levantado essa dúvida uns meses atrás. É uma preocupação de todos nós da esquerda, de fato.
      Acredito que haja uma pequena possibilidade de impeachment do Bolsonaro. Na verdade, seria a solução mais complicada, já que daria a oportunidade dele faturar politicamente como um suposto perseguido político.
      Que as urnas lhe deem uma derrota acachapante.

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