Deu o que falar a notícia de que o consumo de carne bovina no Brasil caiu a níveis de 1996, o ano em que o Conab (Companhia Nacional de Abastecimento, órgão que oferece ao governo informações detalhadas sobre a produção agropecuária nacional, por meio de levantamentos de previsão de safras, de custos de produção e armazenagem, etc.) começou a série histórica. 

Ano passado, a média de consumo de carne bovina por habitante foi de 26,4 kg, cerca de 14 por cento a menos do que no ano anterior. 


Alguns setores da população começaram a especular, de forma polêmica, sobre quais teriam sido os reais motivos desta queda. Dentre estes, o filho de Claudia Raia e Edson Celulari, Enzo, "empreendedor social", se destacou no twitter, ao considerar se a diminuição não era em decorrência de alguma suposta tendência lúcida do consumidor à causa vegana: 


A partir de então deu-se a celeuma na internet. De um lado, aqueles que criticaram a falta de senso de realidade do filho dos atores famosos; do outro, aqueles que o defenderam, seja por afirmarem ser o post no twitter uma pergunta sincera ou porque deveríamos acolher esse tipo de pessoa alienada com carinho para lhe mostrar o bom caminho sem arrogância e ataques. 


O defensor mais destacado do empreendedor social foi o já conhecido polemista de internet, Felipe Neto. Segundo ele, a "esquerda" deveria saber argumentar, pois o coitado do Enzo realmente vive numa bolha, mas "é do nosso lado contra o Bozo", dando a entender que cobranças mais severas poderiam fazer com que ele e outros como ele virassem para o outro lado. 

Isso procede?

É uma questão interessante. De fato, em minha visão, tomando como exemplo a militância feminista burguesa moderna, muito da antipatia, da oposição e dos ataques que o movimento vem recebendo tem como justificativa a postura arrogante de uma parte desta militância, principalmente no começo desta nova onda, que repelia possíveis aliados do sexo masculino por quaisquer escorregadas machistas que dessem nos comentários em grupos de redes sociais.

Bastava um conselho, uma sugestão ou até uma crítica bem intencionada, para chover ataques coordenados, do tipo linchamento virtual, com rótulos como "mascu", "esquerdomacho", e outros ainda menos "elegantes". 

Mas também é fato que o machismo é muito maior e muito mais grave do que os possíveis erros de atuação da militância feminista neste caso. Machistas usam da desculpa desses erros para se solidarizar entre si, reforçando o próprio machismo.   


No caso do twitter do Enzo Celulari, apesar da temática diferente (o consumo de carne) o mesmo fenômeno parece estar em ação: a solidariedade de classe, e por que não dizer, até de cor. 

É fato que a burguesia brasileira padece de uma alienação espantosa com relação a tudo o que não diga respeito ao seu mundo da fantasia. Até aqueles que defendem uma causa progressista são afetados por esta bolha. É o caso de Enzo, e o caso também de muitos dos seus defensores, como o próprio Felipe Neto; o Gregório Duvivier, que também se manifestou a favor do filho dos atores; Maria Bopp, dentre outros. 

O argumento de que devemos ser cuidadosos com nossas críticas para não espantar os pobres burgueses supostamente inclinados para a esquerda, por cometerem algum deslize perdoável, não se sustenta aqui. 

Uma queda tão brusca no consumo de carne de um ano para outro (2020 em comparação a 2019), evidentemente, só pode ter sido causada por algum episódio excepcional e não um processo de reeducação alimentar nacional, e os mais atentos já perceberam a crise econômica causada pela dobradinha pandemia/Paulo Guedes em 2020 na clara razão dos brasileiros abrirem mão do tradicional consumo de carne. 

Expor a ideia equivocada de um bem-nascido, sobre as condições de alimentação das camadas mais pobres do país, deve ser um dever mais elevado para a causa da esquerda neste momento do que relativizar o comentário infeliz sob o pretexto de que devemos ganhá-lo para a nossa causa. 


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