De que lado ficariam as Forças Armadas brasileiras caso a crise de sucessão que ocorreu nos Estados Unidos viesse a ocorrer no Brasil? A pergunta, feita pelo governador do Maranhão Flávio Dino, no seu twitter, é pertinente. Temos também um tresloucado no executivo nacional com teorias da conspiração de que as eleições no país são fraudadas. 2022 é logo ali, e o presidente já deu indícios de que a confusão que aconteceu lá  também acontecerá aqui, "caso a urna eletrônica não emita o voto impresso". 

O colunista Chico Alves do UOL publicou uma oportuna entrevista com o general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz a respeito dos acontecimentos em Washington no dia de ontem, e em vez de tranquilizar as preocupações do governador maranhense e de tantas outras pessoas, deixou ainda mais dúvidas sobre a posição das Forças Armadas por ocasião de uma crise semelhante em 2022. 


Segundo o general, a invasão do Capitólio nos Estados Unidos era uma situação previsível, tendo em vista a grande divisão da sociedade estadunidense. Para que tais cenas não ocorram no Brasil, ele sugere "responsabilizar, de acordo com a lei, autoridades, pessoas e grupos, que tentem manipular a população através de ações ilegais, criminosas e que estimulem o descrédito nas instituições".

Até aí, nada demais. Poderíamos concordar ou não com tal análise, normal. Mas o grande X dessa entrevista vem a seguir, quando o ex-ministro da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro dá a condição para que não ocorra no Brasil em 2022 o que aconteceu nos EUA em 2021: "Uma medida prática é incluir a impressão do voto nas eleições, aperfeiçoando o processo e eliminando a possibilidade de proselitismo e demagogia contra o modelo". 

Questionado pelo entrevistador que nos EUA o voto é impresso e que isso não impediu a população de contestar o resultado das urnas, o general deu uma resposta obscura, contraditória e sem sentido, nitidamente constrangido por ter sido pego no contrapé: "Contra o fanatismo não tem remédio. O fanatismo é a negação da racionalidade"

O ex-ministro Santos Cruz já não faz parte do governo há quase um ano. De lá pra cá tem evitado criticar diretamente o presidente, seus filhos ou quaisquer grupos radicais identificados no chamado "gabinete do ódio". 


Em sua mais recente entrevista, chama a atenção o detalhe do apontamento da "divisão da sociedade" nos Estados Unidos como principal causadora da crise. 

Isso porque, historicamente, as Forças Armadas brasileiras sempre se arrogaram o papel de árbitros, guardiões da normalidade quando esses conflitos atingem momentos de grande tensão, como ontem. Caberia neste caso, como em tantos outros no passado, a intervenção militar para a volta da "lei e da ordem"(seja lá o que eles interpretem como lei e ordem). Por isso chama a atenção a escolha da causa "divisão da sociedade" como a principal fonte da crise. 


Outro fator que chama a atenção é que Santos Cruz condiciona a paz na eleição brasileira de 2022 à impressão do voto eletrônico, exatamente como deixou claro Bolsonaro recentemente, no que muitos interpretaram como um aviso prévio de golpe. 

Ora, esse voto impresso não tem razão de ser e muito provavelmente não será implementado. Na ausência deste fator, e na possibilidade de um candidato de esquerda vencer o pleito presidencial no ano que vem, por exemplo, Lula, na iminência de recuperar seus plenos direitos políticos no Supremo, está mais do que claro que o atual presidente não aceitará o resultado. 

E aí voltamos à pergunta feita pelo governador do Maranhão, Flávio Dino: de que lado ficarão as Forças Armadas neste cenário? Do governo, que acusará a ficção da fraude das urnas, ou da Constituição? 

Tendo em vista o histórico das nossas Forças Armadas, nem de um lado, nem de outro: ficarão a favor de si mesmas, usando como muleta legal uma interpretação tendenciosa da Constituição, como mediadores de conflitos políticos que se arrogam ser, até que se mude o mal-fadado artigo 142 da Carta Magna que lhes dá este perigoso poder.  

O que vimos nos Estados Unidos há dias não é nem sombra pálida do que pode estar por vir no Brasil em 2022. 

2 Comentários

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  1. Bolsonaro planeja um golpe contra o resultado das eleições, caso perca, com ou sem o apoio das FAs.

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