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3 de julho de 2020

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Primeiro dia de bares abertos no Leblon
Primeiro dia de abertura de bares e restaurantes no Rio


Os jornais da TV têm mostrado, recentemente, cenas dos boêmios da Zona Sul carioca desfrutando de bares e restaurantes noturnos, no primeiro dia de liberação destes estabelecimentos pela prefeitura. Antes, tais desleixos com relação ao necessário isolamento social eram vistos frequentemente nas periferias, gerando críticas e indignação da sociedade de forma geral. 

Imagine a situação: o Brasil atingindo recordes de internação e mortes por conta do coronavírus, e o povo saindo às ruas tranquilamente, aproveitando até shopping que permite a entrada de veículos, como no interior de São Paulo. 

Será que o brasileiro enlouqueceu? 

Na verdade eu acredito que existam explicações para cada um dos casos, ou seja, o desrespeito ao isolamento tanto nas altas classes médias quanto nas periferias pobres. Na falta de verba para uma pesquisa de opinião científica, resta-nos uma análise que embora seja de caráter especulativo, lança mão de um certo empirismo que é fácil de verificar.


No caso dos boêmios do Leblon, ou dos passeadores do shopping, acredito que sejam guiados por uma certa tradição individualista liberal, que desconfia de qualquer imposição vinda das autoridades — muito embora, como veremos, essa imposição seja mais das grandes mídias do que das instâncias governamentais. 

Nessa tradição, cada um se sente livre para determinar, inclusive, os riscos a que se submete, sem que o Estado possa intervir nesta questão. Num caso extremado dessa postura, temos a tradição estadunidense que não obriga motociclistas a usarem capacete, tendo em vista que esta é uma decisão que cabe ao indivíduo.

Nas periferias, ao contrário, por um lado existe uma maior dependência de seguir as determinações dos órgãos governamentais, e estes, no Brasil, não dão diretrizes claras. Uma hora, existe a recomendação vinda dos governadores de que a quarentena é importante; outra hora o presidente diz que a pandemia mundial é apenas uma "gripezinha"; e por fim os próprios governadores e prefeitos cedem ao lobby do empresariado para que afrouxem as medidas de isolamento. Podemos culpar as pessoas por terem ligado aquele famoso botão que começa com "F"?  

Elas pensam: se podemos trabalhar, podemos nos divertir. E assim as aglomerações acontecem, contrariando todas as recomendações internacionais que alertam para esse perigo. 


E por fim, as diferenças de classes sociais com relação à renda também determinam, curiosamente, o mesmo desrespeito à quarentena. 

As classes mais abastadas se garantem na possibilidade de terem o melhor tratamento possível assegurado por seus planos de saúde privados, o que os fazem ter menos medo do contágio. 

Por outro lado, a falta de leitos de UTI, ou sequer a falta de leitos, ou ainda, a falta de mero atendimento em hospitais públicos é uma realidade cotidiana na vida dos mais pobres. O fato das UTIs estarem lotadas e, portanto, com falta de vagas para o atendimento de possíveis casos de covid-19 entre a população mais carente dependente do SUS não assusta essa parcela da população, tendo em vista que a falta de atendimento médico em qualquer caso, seja de qualquer problema de saúde, é uma situação absolutamente natural em suas vidas. 


A única coisa que poderia ter evitado essa situação de desrespeito ao isolamento social, seria a atuação enérgica e focada do governo federal desde o princípio da crise. Mas infelizmente calhou do Brasil ter o presidente da República mais irresponsável e desumano da sua história bem no momento mais crucial, em que um líder precisava tomar as rédeas da situação e ter o controle das ações. 

Antes de culpar o povo, deveríamos culpar nossos incompetentes e estapafúrdios dirigentes por estarem completamente perdidos na condução da crise. 


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