Fundação Ford: como os Estados Unidos criaram as condições para a ascensão da extrema-direita

Henry Ford, fundador da companhia de automóveis e da fundação que leva seu nome

O fim da Segunda Guerra Mundial trouxe como legado para o mundo uma economia mais equilibrada, fruto do maior controle estatal sobre os desmandos das competições desenfreadas do mercado livre — o mesmo que nos levou a sucessivas crises e conflitos no começo do século XX, como a Grande Depressão de 1929 e a duas Grandes Guerras. Esse período que, curiosamente, coincide em grande parte com o da Guerra Fria, ficou conhecido como os Trinta Anos de Ouro.

Mas os grandes capitalistas financeiros, colocados na coleira, não estavam satisfeitos. Apenas se resignaram diante da inequívoca evidência de que o liberalismo econômico sem controle leva a consequências perigosas. Isso, pelo menos, até a primeira grande crise do modelo pós-guerra, no começo dos anos 70.

Uma série de fatores nesse período iria contribuir para o renascimento dos grandes capitalistas, que, agora chamados de neoliberais, saíram de novo da toca: o fim do sistema de Bretton Woods, quando os Estados Unidos determinaram o fim unilateral da paridade ouro-dólar; a grande crise do Petróleo em 1973, que colocou em xeque a capacidade dos Estados nacionais manterem as conquistas do welfare state (estado de bem-estar social); a decadência do socialismo real, que representava um contrapeso mundial à tendência destruidora do capitalismo selvagem, dentre outros fatores.



Aos poucos, o neoliberalismo substituiu o modelo equilibrado do pós-guerra, com a queda de Allende no Chile e a ditadura Pinochet, que transformou o país em laboratório do neoliberalismo, mas principalmente com a ascensão de Ronald Reagan no governo dos Estados Unidos e Margareth Thatcher no Reino Unido, nos anos 80.

Não por acaso, é a partir deste momento que a Ford Foundation (FF) começa a investir em ONGs e entidades de esquerda em todo o mundo, no intuito de reprogramar as narrativas das lutas sociais.

Mas o que é a Ford Foundation?

Henry Ford, o criador da empresa de automóveis que leva o seu nome, era não só simpatizante do nazifascismo, mas contribuidor direto de Adolf Hitler, chegando a ser por este condecorado. Depois de uma tentativa frustrada de dar um golpe de Estado para a implementação de um governo fascista nos EUA em 1934, a justiça norte-americana resolveu retaliá-lo, taxando 70 por cento de sua fortuna através de uma nova lei.

Para burlar o fisco, foi criada a "Fundação Ford", entidade "filantrópica", portanto livre de taxação, para que o dono da Ford pudesse transferir e proteger 90 por cento da sua riqueza.

Saiba mais sobre as origens da Ford Foundation

A partir do final da Segunda Guerra Mundial, a Ford Foundation passou a direcionar suas atenções para a política internacional, estreitando laços com os interesses do governo e do complexo industrial-militar dos Estados Unidos, atuando em parceria com o Departamento de Estado e com a recém-inaugurada CIA. Nos anos 50 a FF passou a atuar no projeto de contenção do comunismo, sendo acusada pela União Soviética de fomentar atividades clandestinas no país.

Saiba mais sobre as relações íntimas da Ford Foundation com os interesses do governo norte-americano

Em 1962, no contexto do "perigo" comunista representado pela Revolução Cubana na América Latina, a Ford Foundation abre uma filial no Brasil, atuando como entidade "filantrópica". Logo no ano seguinte, contribuiu financeiramente com o complexo IPES/IBAD, órgão que reunia conspiradores que viriam a participar do Golpe de 64. Em 69, a FF financiou a nefanda Operação Bandeirantes, que tinha o intuito de caçar e exterminar militantes comunistas no país, além do DOI-CODI, centro de interrogatório e torturas.

Saiba mais sobre a colaboração da Ford Foundation com a ditadura militar no Brasil 

A partir dos anos 70, como foi dito, o Brasil e o mundo passavam por grandes transformações. E nesse momento a Ford Foundation resolveu também sofrer uma grande metamorfose, mudando a sua tática para a defesa de bandeiras como o multiculturalismo e os direitos humanos. A única coisa que não mudou, no entanto, foram suas relações íntimas com os interesses estratégicos do governo estadunidense pelo mundo.

A partir de então, a FF passa a atuar no patrocínio de ONGs que fomentam a defesa de grupos identitários. Segundo Marcos Correa do site esquerdaonline:

Um dos objetivos da utilização de ONGs e fundações privadas para a política externa dos EUA é desburocratizar e encobrir atividades de inteligência no exterior, como o financiamento de grupos locais cujas causas coincidam com os interesses estratégicos do império, seja na aquisição de novos mercados seja na desestabilização de governos ou regimes considerados “não-alinhados” seja para uma política soft de contra insurgência.
Este último caso consiste em influenciar pessoas, por meio de ONGs e entidades filantrópicas, a se engajarem em “causas” liberais, supostamente progressistas, embora não anticapitalistas tampouco comunistas e, assim, promover protagonistas políticos de orientação política não-classista, eclipsando e dificultando a militância das organizações comunistas-marxistas

O começo dos anos 90 representou a queda da União Soviética e o apogeu do neoliberalismo no Brasil e no mundo. Mas, uma década depois, o fracasso do mercado se evidenciou mais uma vez no aumento da pobreza, desemprego e aumento da desigualdade social, trazendo para muitos países a eleição de governos alinhados com os setores progressistas e da esquerda política, inclusive nos Estados Unidos, com a vitória de Barack Obama.

Mas essas esquerdas já não eram as mesmas. Já tinham sido contaminadas pelos novos modismos, pela nova narrativa de valorização das lutas fragmentárias, políticas inclusivas e discriminação positiva financiadas pela Ford Foundation.



Há o caso, por exemplo, da Fundação Geledés - Instituto da Mulher Negra, que recebeu da Ford Foundation entre 2004 e 2008, segundo Reinaldo Azevedo, a quantia de U$ 870 mil.

De acordo com o jornalista, os programas apoiados pela FF representam "praticamente o roteiro de reivindicações seguido por boa parte das esquerdas brasileiras", como programas voltados para a sexualidade, saúde reprodutiva, direitos humanos, etc. com gastos de mais de 25 milhões de dólares.

Não há problema em lutar pela causa feminista, do negro, dos homossexuais e dos oprimidos de forma geral. Isso, o socialismo já faz há muito tempo. O problema é que a nova narrativa, os conceitos e as táticas de atuação desses grupos foram importados de fora, patrocinados por uma entidade com ligações estreitas com o governo estadunidense e se tornaram bastante agressivos aos olhos de sociedades bastante conservadoras como é a brasileira, ao mesmo tempo que desmobilizaram a esquerda clássica e seus conceitos tradicionais. Como resultado, tais movimentos foram rejeitados, atacados e causaram a reação contrária — exatamente como o esperado pelo governo dos EUA?



Nesse contexto, sai de cena a Ford Foundation e entram novos atores, estrategistas e financiadores de grupos opostos. Dentre os mais destacados, Steve Bannon e os irmãos Koch.

David e Charles Koch são dois bilionários que, coincidentemente, desde os anos 70, tal qual a FF, investem dinheiro na política, mas no sentido contrário: segundo o site El País, durante décadas os irmãos "financiavam cadeiras universitárias, centros de estudo, campanhas políticas, toda uma máquina formidável dedicada a um único objetivo: o descrédito e a anulação da capacidade reguladora e de redistribuição do Estado, e de qualquer limite fiscal, social e ambiental à exploração dos recursos naturais e ao enriquecimento dos mais ricos".

Dentre os grupos financiados pelos irmãos, está o Students for Liberty, onde os fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre, um grupo liberal que critica as pautas identitárias) receberam a doutrinação e o apoio financeiro para atuar na política do Brasil, um dos vários grupos semelhantes que surgiram no país na mesma época. Seu prestígio aumentou entre as classes conservadoras, como era de se esperar, na medida em que aumentavam os ataques a gays, lésbicas, conquistas sociais dos negros, das feministas... Tudo aquilo que a Fundação Ford ajudou a fomentar, e que grande parte das esquerdas transformou em bandeira.

A seguir, Steve Bannon, assessor e estrategista do governo Trump, ajudou Olavo de Carvalho, o guru da direita brasileira, a criar a narrativa mítica que ajudaria a embalar os devaneios das classes conservadoras brasileiras: o marxismo-cultural, ou seja, a ideia de que existe uma conspiração nas artes, na academia, na imprensa, em todos os lugares, para um golpe comunista. O cerco para as esquerdas estava fechado.



Dos Estados Unidos, vieram, portanto, o veneno e o antídoto que ajudaram a derrotar as esquerdas no Brasil. Com a própria adesão de significante parcela de militantes, partidos políticos e entidades de esquerda, a narrativa da Ford Foundation colou entre nós, gerando a forte oposição de uma sociedade altamente conservadora — devido à linguagem agressiva e excludente dos grupos identitários — que recebeu de presente a narrativa perfeita para enfrentar a ascensão das minorias: além do combate ao suposto perigo comunista, a campanha em favor da família .

As esquerdas abriram mão dos seus próprios conceitos, tidos como ultrapassados, anacrônicos, para abraçar causas que foram estrategicamente fomentadas por instituições com ligações íntimas com os interesses externos dos Estados Unidos, como a FF. E agora, sofrem com um movimento que flerta com o fascismo aberto, sem ter as armas mentais, os conceitos que no século XX ajudaram a confrontar o nazifascismo original. Diante desse cenário, tudo o que restou para grande parcela dos movimentos de esquerda é empunhar as velhas bandeiras do liberalismo e da democracia, as mesmas que ora são pisoteadas sem piedade pelos grupos reacionários.

A solução é o necessário resgate dos conceitos teóricos do socialismo, do comunismo e do marxismo de forma geral. Não abandonar a luta das minorias, totalmente legítima, mas trazê-la para uma outra narrativa, em que todas elas dialogam na luta maior contra o sistema que as oprime, em vez de aterem-se a filigranas particulares.








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