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5 de maio de 2020

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Ator Flávio Migliaccio tirou a própria vida e deixou uma carta 

Não sei se o ator Flávio Migliaccio, que ontem tirou a própria vida, sofria de depressão. Mas se levarmos em conta a carta que deixou, a realidade brasileira e as pessoas com quem teve que lidar durante a vida foram grandes fatores determinantes para a sua radical decisão. O que nos faz refletir.

De fato, todos nós que guardamos ainda um senso crítico da realidade estamos um pouco doentes. Pasmados de ver acontecimentos absurdos, indignos, vis, se sucedendo cotidianamente diante dos nossos olhos.

O surgimento de uma parcela de pessoas de estirpe raivosa, que mistura um cristianismo cruzadista com um patriotismo tosco, embalado num pacote de irracionalismo no seio de uma classe média já por si só majoritariamente reacionária no protagonismo da política, é o grande símbolo deste momento de absurdos de gestos, palavras e ações que se refletem no governo federal que ajudaram a eleger.



Neste governo, o absurdo é o protagonista. Temos no poder um homem cuja sanidade mental todos começam a duvidar, tamanha a postura não condizente com os ditames do cargo. Não precisamos aqui enumerar o show de horrores protagonizado por Jair Bolsonaro diariamente no poder. Os noticiários abundam deles.

Num governo vil e irracional que se encontra completamente perdido no combate da mais perigosa pandemia mundial dos últimos cem anos, temos por baixo dos panos Paulo Guedes, um medíocre agente da perversidade contra os mais pobres, que são vilipendiados com propostas de reformas econômicas draconianas, que tiram do cidadão e do trabalhador o menor dos direitos. Perversidade sádica que se escancarou quando este mesmo ministro chegou ao disparate de propor 200 Reais a cada trabalhador impedido de exercer sua função durante a quarentena*, quando na primeira hora da crise, liberou mais de um trilhão para os bancos.

Junto a tudo isso, a participação de oficiais militares no governo, os mesmos militares que jamais pediram perdão à nação pelos atos de autoritarismo e violência na ditadura de 64-85, agora dando suporte a esta vergonha que representa a entrega das riquezas e do patrimônio nacionais ao estrangeiro, combinado com a eterna bajulação canina referente aos Estados Unidos, sem nenhum protesto oficial.



Todo este momento certamente influenciou a medida drástica de Migliaccio, que do alto dos seus 85 anos de idade, não poderia cultivar muitas esperanças de ver um país melhor a curto prazo.

Por isso, por mais que estejamos pasmados e até certo ponto paralisados pelo espetáculo de horrores incivilizados que assistimos todos os dias diante de nossos olhos, seja protagonizado por militantes tresloucados e imbecilizados, seja por algum agente do governo, quando não pelo próprio presidente, devemos reunir forças e lutar.

Já nascem focos de reação em algumas parcelas da sociedade. A grande questão agora é não deixar os setores da direita, grandes responsáveis por criar o monstro que agora nos assola, protagonizar os protestos que visam a derrubada deste governo. Foram os Dórias, as Zambellis, os Frotas e os Moros, além da grande imprensa, ressentidos com as seguidas derrotas nas urnas para o PT, que abriram a caixa de pandora e fomentaram o golpe em 2016 e inflaram as parcelas raivosas da população a eleger o "mito".

Cabe agora às esquerdas retomarem suas ações, para que possamos colocar as coisas nos trilhos de uma vez por todas. Para que, citando Migliaccio, possamos cuidar das nossas crianças, pois à direita só interessa cuidar das suas finanças. Mesmo às custas do desmoronamento do país.

* A proposta de 200 Reais foi depois reajustada para 600 Reais no Congresso.



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