Por que Ciro se virou contra o PT

É o fim da antiga parceria? 

Devido ao grave momento político por que passa o nosso país após a eleição de Jair Bolsonaro, é cada vez mais forte o movimento que clama pela união das esquerdas, para o possível enfrentamento da onda reacionária que tomou conta do Brasil.

Neste cenário, muitos lamentam que haja um racha no seio do espectro político esquerdista, provocado especialmente por Ciro Gomes e o PT, ou, no que ele chama, a fração lulopetista que insiste no necessário protagonismo do líder máximo do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, em detrimento de outras lideranças.

Há poucos anos a aliança entre Ciro Gomes e o PT ocorria de forma natural em várias ocasiões, especialmente em época de eleição, quando era necessário derrotar a candidatura neoliberal tucana para a presidência da República. Ciro Gomes, inclusive, chegou a ser parte do governo petista como ministro.



Por que agora o provável presidenciável pelo PDT em 2022 resolveu bater tanto no PT, causando o ressentimento dos militantes da legenda petista, quando todos clamam pela união dos setores progressistas?

Ao que parece, tudo isso faz parte de uma tática bastante firme, porém discutível, do candidato pedetista, na sua pretensa candidatura ao Palácio do Planalto.

Os treze anos que o PT passou na presidência da República incomodaram a mídia corporativa tradicional do país, alinhada com os interesses financeiros capitalistas. Muito menos por algum grande prejuízo que Lula ou Dilma tenham causado nos seus arraigados privilégios, seja no setor financeiro, seja no monopólio das poucas famílias que controlam a informação no país, e muito mais por uma simples questão ideológica: por mais que tenha passado por uma metamorfose no poder, deixando de ser o partido radical que outrora agitava sindicatos e causava medo na grande burguesia, o PT continuou e continua sendo visto pela elite brasileira como tal.



O PT sofreu com acusações, reportagens tendenciosas, mentiras, verdades, malfeitos, corrupções, tudo exposto quase que diariamente nos principais veículos de mídia do país durante anos a fio. Criou-se a percepção na opinião pública de que a corrupção não era um fato inerente ao sistema político burguês e sim uma prática eminentemente petista de fazer política.

Ciro Gomes, durante todo esse período, se portou com aliado do PT, defendendo a legenda dos ataques que oscilavam da mídia para o Congresso, do Congresso para o judiciário.

Os ataques de anos tiveram como desfecho o Impeachment de Dilma Rousseff, condenado por Ciro Gomes como golpe parlamentar como de fato foi; e com a prisão de Lula, condenada por Ciro como lawfare, conceito que afirma o uso político do judiciário para condenar com provas controversas importantes figuras indesejáveis para o grande capital.

Mas parece que a partir de então, Ciro Gomes mudou radicalmente sua postura. De aliado de primeira hora, passou a atacar o PT de forma pública e cada vez mais contundente.

Qual a explicação dessa atitude?

Primeiro, Ciro Gomes deve ter percebido que o ataque ao PT perpetrado pela imprensa burguesa resvalava em qualquer político de esquerda, ainda mais se fosse aliado direto dos petistas como ele. Era preciso descolar a imagem do PT, assim como os tucanos descolaram a sua imagem de FHC, cuja mera menção nas propagandas eleitorais causava uma queda imediata nas intenções de voto.



Segundo, Ciro Gomes ainda assim poderia colocar sua carreira política em risco para continuar ao lado do PT e de Lula, mas chegou à conclusão de que, mesmo os ataques diários tendo clara conotação política por parte das mídias, o PT também teve grande parcela de culpa, ao se imiscuir com o que há de mais podre no chamado Centrão, com práticas que Ciro Gomes afirma que Lula não é capaz de dizer que não tinha conhecimento. Pra que comprar um barulho que não é seu?

Além disso, há o fato de Lula não ter sido leal em diversas ocasiões com Ciro, pedindo por exemplo para que abrisse mão de sua candidatura própria em 2010 em favor do apoio ao PT — posição que Ciro de fato tomou — com a promessa de ser apoiado pelo PT numa futura candidatura (fato que jamais ocorreu), como também a negativa influência petista nos partidos de esquerda, que dificultou propositalmente as necessárias alianças do PDT de Ciro com o PSB e o PCdoB na última eleição.

A eleição de Bolsonaro foi uma estratégia das grandes burguesias e das classes dirigentes do país, que perceberam o cansaço do eleitorado com a polarização entre PT e PSDB nos últimos 25 anos, que se refletiu na baixa proporção de votos dos tucanos na última eleição e na alta taxa de rejeição de Haddad, candidato do PT; apesar de, por conta seu discurso contra os bancos e a favor das grandes fortunas, Ciro ter noção de não poder pleitear o voto do grande baronato, sente que é capaz de fisgar o eleitorado médio que votou em  branco/nulo ou até mesmo em Bolsonaro pela desilusão tanto com o PSDB quanto com o PT. Ciro teve a menor taxa de rejeição e venceria Bolsonaro se tivesse chegado no segundo turno.

Sua estratégia é controversa porque o PT ainda tem um grande capital eleitoral que chegaria facilmente na casa dos 20 por cento, percentual que faria falta num eventual segundo turno, por conta de toda a antipatia que vem causando entre os petistas com sua nova postura. Mas Ciro deve ter chegado à conclusão de que não é uma coisa que lhe deixe opção, tendo em vista a postura arrogante do PT nacional, que continua com pretensões de hegemonia, não obstante tenha cedido em algumas cidades, como no Rio de Janeiro, onde aceitaria uma chapa como vice de Marcelo Freixo. Como ainda tem justas pretensões e grandes chances de uma boa performance em 2022, a Ciro só cabe o papel de se descolar cada vez mais do PT, carregando as consequências de não poder contar com o grande eleitorado petista numa hipótese de segundo turno.

Não é a melhor estratégia, mas, para Ciro, é a única viável. A outra seria assistir o PT levar para a campanha presidencial todo o desgaste da rejeição antipetista, inflada de forma politiqueira pela mídia sim, mas, segundo o pedetista, causada também pelo próprio PT. Se queimaria num apoio inócuo que Ciro estrategicamente já se recusou a dar nesta última eleição. Ciro resolveu deixar o PT definitivamente pra trás, e seria o caso de nos perguntarmos se não é hora das esquerdas fazerem o mesmo.

O PT que todos sonhamos chegar ao poder, e que de fato chegou em 2002, a rigor nunca existiu a não ser em nossas ilusões.





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