23 de maio de 2020

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A polêmica reunião ministerial de 22 de abril. Loucura com método? 

Se você acompanha este blog, então eu imagino que política faça parte do leque dos seus assuntos preferidos. Portanto, é praticamente certo que você também já assistiu a divulgação do estarrecedor vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, o,u pelo menos, parte dele. Assim sendo, eu te pergunto: o que mais pode ser dito sobre tamanha patacoada ?

Está tudo lá bem explícito; todos os disparates, as grosserias, os crimes contra a honra, as interferências indevidas... Tudo já devidamente condenado, logo a seguir, com as famosas notas de repúdio de entidades e partidos.

Só nos resta, então, ir por outro caminho: seria toda essa constante aberração produzida por esta patuleia reunida no governo obra do acaso, da pura coincidência que atuou para agrupar pessoas tão abomináveis? Ou existiria uma intenção premeditada por trás de cada loucura que assistimos pasmados diante da TV todos os dias?




Não é de hoje que o presidente dá demonstrações de que não bate bem da cabeça. Quando era capitão do exército, bolou um plano mirabolante para explodir o gasômetro do Rio de Janeiro, para culpar os comunistas — plano esse que, se executado, causaria uma tragédia descomunal.

Uma vez julgado e, hoje se sabe, erroneamente inocentado pelas Forças Armadas, foi fazer uma carreira medíocre na política por quase 30 anos até parar, pelo capricho zombeteiro do destino, na cadeira de presidente da República.

Durante esse período, deu declarações que não foram devidamente levadas a sério na ocasião. Em 1999, numa entrevista na TV, disse que só uma guerra civil poderia mudar alguma coisa no Brasil. Também disse que nessa guerra "morreriam uns 30 mil". Gente inocente também, como em toda guerra.




Nessa mesma entrevista, o então deputado Jair Bolsonaro diz que mandaria fechar o Congresso no mesmo dia em que fosse presidente da República.

Vendo o vídeo de hoje, da inacreditável reunião ministerial, fiquei com essa impressão estranha. Estaria Bolsonaro colocando em andamento suas antigas "profecias"?

Não foi no primeiro dia, mas cada dia que passa, o presidente prepara o terreno para o ataque final às instituições republicanas. Ele e seus asseclas, incluindo um dos filhos, já mencionaram como sentem que o STF e o Congresso são empecilhos para suas ações no poder, apoiando manifestações que defendem seu fechamento.

Jair quer dar um golpe? Se assim for, podemos entender seu método.




Para desmoralizar os políticos, Calígula nomeou seu próprio cavalo para o senado romano. Será que Bolsonaro não elegeu diversos cavalos para os ministérios premeditadamente, no intuito de desmoralizar senão o Congresso Nacional, mas a própria política institucional de modo geral? Isso explicaria por exemplo a Damares, o Weintraub, o Ricardo Salles...

Como isso ajudaria os planos de Bolsonaro? Causaria a reação das instituições republicanas e democráticas que já começam a acenar com alguma forma de impedimento do presidente.

Mas Bolsonaro não mobilizou e inflamou sua cota de 27 a 30 por cento de insanos terraplanistas para abrir mão do poder assim tão facilmente. Conta com o respaldo dos diversos militares que colocou no governo, especialmente o general Heleno, que nos deu uma pequena indicação do que pode acontecer com o que ele chama de "estabilidade nacional", caso a justiça queira investigar pra valer os desmandos do presidente: "haverá consequências imprevisíveis"...

Uma límpida e inequívoca ameaça a um poder constituído como é o STF, cujo ministro Celso de Mello sugeriu a apreensão dos celulares de Bolsonaro, causando a afirmação citada acima. Um grupo de militares da ativa assinou um manifesto em apoio ao general Heleno, falando, inclusive — imaginem só —, em risco de... guerra civil.

Caso isso venha a acontecer, ou seja, um golpe de Estado — mais um na conta das nossas velhas Forças Armadas — bem podemos especular que seria apenas o desfecho de todo o antigo plano do ex-deputado Bolsonaro.

Criou as condições ideais, com toda a sua conduta hedionda no poder, para a intervenção das instituições democráticas, que por sua vez seria a senha para a reação dos militares, que, recorrendo ao artigo 142 da Constituição, poderiam se amparar legalmente para um golpe.

Alguns podem argumentar: mas, um golpe em si mesmo?

Não seria a primeira vez. Em 1992 Alberto Fujimori deu um golpe de Estado no próprio governo com a ajuda das Forças Armadas quando era presidente do Peru.

Por fim: e as 30 mil mortes profetizadas pelo então jovem Bolsonaro em 1999 na entrevista?

Bem, enquanto escrevo essas linhas, já são 21.048 mortos, senão numa guerra civil, numa pandemia de coronavírus, cujos números elevados têm a contribuição direta e sistemática do descaso do governo. Sem falar da intenção direta do presidente de envenenar e matar grande parte da população doente com um medicamento controverso que o mundo médico internacional condena.

Sem nenhuma dúvida alcançaremos e ultrapassaremos a macabra meta de Jair Messias Bolsonaro. Ou seria Jair "Elias", o profeta?





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