Caso 3M: quando uma transnacional pode desafiar o Estado mais forte do mundo



Durante muito tempo, a força dos Estados nacionais era incontestável no mundo que começou a emergir junto com a Revolução Francesa. No entanto, naqueles fins de Segunda Guerra Mundial, no século XX, eles começaram a experimentar um declínio que é, hoje, explícito perante os nossos olhos.

Trump e a 3M


Em tempos de pandemia mundial como a que estamos vivendo, coube ao presidente do Estado mais forte e poderoso do último século no mundo — os Estados Unidos — evocar uma lei nacional dos anos 50, a Lei de Produção para a Defesa, ou "P Act",  para obrigar empresas privadas, como as de automóvel, a produzir respiradores mecânicos e uma outra, a 3M, a parar de exportar máscaras hospitalares para o Canadá e a América Latina, para beneficiar o estadunidense local.

De todas as famosas empresas automobilísticas estadunidenses, apenas a GM parece disposta a acatar o pedido de Donald Trump; já a 3M declarou abertamente que não vai cumprir a determinação, coisa impensável, por exemplo, na época em que a própria lei fora promulgada.

O que aconteceu desde aqueles longínquos anos 50 até esse momento atual?


O globalismo, a pós-modernidade, o pós-fordismo, ou seja lá como queira chamar a mudança de paradigma por que passou o mundo com a crise do estado de bem-estar social nos anos 70, na economia, ajudou a derrubar barreiras tarifárias, comerciais, leis nacionais de proteção ao produtor local, etc., deixando as fronteiras nacionais menos nítidas.



Na política, a consequência disso foi o enfraquecimento do Estado, da democracia, consequentemente dos governos nacionais perante o irresistível poder das chamadas empresas transnacionais que começaram a surgir, cujos negócios passavam por cima de qualquer lei de qualquer país.

É por isso que a 3M hoje, consolidado o enfraquecimento dos Estados nacionais, pode dizer não à uma lei estadunidense sem maiores consequências. É preciso lembrar que não estamos julgando o mérito da determinação de Donald Trump, não estamos emitindo juízo de valor em si, e sim demonstrando como uma lei, seja ela qual for, pode ser desrespeitada por uma empresa sem maiores consequências nos dias de hoje.



O que pode fazer o presidente Trump, mandar fechar a sede da 3M nos Estados Unidos? Isso seria ineficaz, pois é provável que a matriz norte-americana nem sequer seja hoje a mais importante e lucrativa de todas as sedes da 3M espalhadas pelo planeta. Um exemplo no mundo automobilístico: há alguns anos, a Fiat italiana iria fechar as portas, se a Fiat brasileira não tivesse batido recordes de venda, salvando a marca mundial de fechar na sua própria matriz.

Pelo fim da autonomia mundial das empresas


O que o coronavírus veio colocar em xeque foi justamente essa nossa realidade onde o capitalismo triunfante se sobrepõe, inclusive, aos próprios governos mundiais, desrespeitando a vontade dos eleitores locais para atender a necessidade de lucro das empresas no mercado mundial, terra sem lei onde o deus Mamon é onipotente.

Este mundo neoliberal estará na berlinda assim que os governos e os povos estiverem em condições de reivindicar uma nova ordem mundial, quando superarmos esta grave crise epidêmica, onde não só as empresas mas todo o sistema financeiro capitalista volte a estar sujeito aos ditames das leis e dos Estados nacionais, que precisamos reforçar ante o mito neoliberal do Estado minimo, e assim devolver o controle da soberania política à população que vota e elege seus governantes locais.




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