11 de dezembro de 2019

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Desde que o Partido dos Trabalhadores foi golpeado do poder executivo federal, existe a ideia da necessidade de uma autocrítica dos erros do partido durante sua década e meia no poder. Autocrítica é uma tradição antiga no seio das esquerdas. Marx já falava de sua necessidade para a correção dos rumos da revolução, e Lênin a defendeu diversas vezes em seus escritos.

Mas esse tema ganhou ares de vulgaridade, principalmente em relação ao PT.

Recentemente, Mauro Lopes, colunista do site 247, de tendência abertamente petista, trouxe novamente à baila a questão da autocrítica. Mas não como sugestão, necessidade interna ao próprio PT por suas ações durante o governo, mas sim como revanchismo contra aqueles que, supostamente de esquerda, apoiaram a Operação Lava-Jato, acreditando inocentemente que era um movimento apartidário de combate à corrupção política.

O que Mauro Lopes faz, de fato, é banalizar o conceito de autocrítica, tirando-o do contexto histórico-revolucionário para uma mera mudança de juízo de valor. E assim contribui, conscientemente ou não, para minimizar a própria falta de autocrítica do PT no poder.

É claro que a autocrítica deve ser feita de maneira cuidadosa, criteriosa. Josef Stalin já advertia que não só a burguesia mas os próprios trotskistas do seu tempo estavam ávidos por fazer publicidade negativa dos erros admitidos pela própria revolução.

E isso nós vemos cotidianamente, de fato. Pessoas de "esquerda" (trotskistas), jornalistas do mainstream burguês e vários comentadores de política de fora do próprio PT exigindo sua tão esperada "autocrítica". Certamente com as mesmas más intenções dos seus antepassados citados por Stalin.

Mas o fato é que, hoje, pouco adiantaria uma "autocrítica", por mais sincera que fosse, dos quadros petistas, elencando seus diversos e notórios erros de condução do governo.

Seguindo a tradição leninista, Stalin afirma que

Às vezes falam que a autocrítica é boa para um Partido que não está no poder ainda e “nada tem que perder”, mas que é perigosa e nociva para um partido que já se encontra no poder rodeado de forças inimigas, que podem usar contra ele as suas debilidades postas a descoberto
Isso é errado. Absolutamente errado! Ao contrário, precisamente porque o bolchevismo chegou ao poder, precisamente porque os bolcheviques podem lhes subir os êxitos da nossa edificação à cabeça, precisamente porque os bolcheviques podem não se advertir de suas debilidades e, desta forma, facilitar a obra de seus inimigos, a autocrítica é necessária e mais ainda agora, fundamentalmente após a tomada do poder.
Claro que devemos relativizar o que diz Stalin sobre a revolução bolchevique e a chegada do PT ao poder. Mas a lição implícita no comentário continua válida. A autocrítica deve ser feita não antes, nem depois do partido chegar ao poder, mas durante, ajudando a corrigir os rumos enquanto ainda se exerce o governo, para evitar "ser surpreendidos por todo o tipo de 'eventualidades' e 'casualidades', para a alegria dos inimigos da classe operária".

Lênin também afirma que 

A atitude de um partido político perante seus erros é um dos critérios mais importantes e mais seguros para julgar a seriedade desse partido e do cumprimento efetivo de seus deveres para com sua classe e para com as massas trabalhadoras. Reconhecer abertamente os erros, pôr a descoberto suas causas, analisar a situação que os gera e discutir atentamente as formas de corrigi-los: isso é o que caracteriza um partido sério; nisso consiste o cumprimento de seus deveres; isso é educar, é instruir a classe e depois as massas
Mas, reforçamos, para que a autocritica pudesse servir a seus propósitos deveria ter sido feita durante o governo, não antes, não depois. Por isso, é vazia a iniciativa de certos grupos exigirem, agora, a autocrítica petista, que nada mais pode ser do que expôr o partido a ataques de liberais, direitistas e trotskistas, sem uma função de aprendizado e correção de rumos. 

E se observarmos a atitude de notórios petistas, ex-candidatos a presidente, ex-presidentes e grande parte de sua militância, como o próprio Mauro Lopes, até esse tipo de autocrítica, atrasada, inoportuna e contraproducente está longe dos planos, já que o PT não considera muitas de suas ações, condenáveis na condução do governo, passíveis de crítica, estando disposto a repeti-las, como admitem abertamente. Recentemente, por exemplo, reelegeram Gleisi Hoffmann como presidente do partido com um discurso de reaproximação com o centro político, com o apoio de Lula! 

Mesmo que fosse um erro do ponto de vista teórico, nem sequer uma correção de rumos tendo em vista os equívocos no poder que levaram a um impeachment e a uma prisão de dois dos seus ex-presidentes o PT está disposto a fazer. 



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