12 de novembro de 2019

Bolívia: extrema-direita + cristãos: golpe

Luis Fernando Camacho (centro) junto a policiais e apoiadores do golpe
Dia 30 de setembro de 2019: Evo Morales, então presidente da Bolívia, testa um carro elétrico cem por cento produzido naquele país, uma façanha que simboliza o momento econômico altamente positivo por que passa o país sob seu comando.

Dia 10 de novembro: Fernando Camacho, líder do movimento golpista que ora irrompe no país vizinho, adentra o Palácio de Governo e sobre a bandeira boliviana abre uma bíblia.

Não chega a ser grande novidade que a extrema-direita de qualquer país ocidental lance mão do cristianismo como arma reacionária contra povos nativos, pobres e periféricos. O que ainda causa espanto é que discutir a participação de católicos e evangélicos em movimentos racistas e xenófobos ainda seja um grande tabu entre as esquerdas, inclusive na Academia.

Por que caiu Evo Morales? Certamente não foi por crise econômica. Precisamos enxergar mais um golpe na América Latina através de um contexto maior, dentro do quadro dos diversos golpes que têm ocorrido na região.

Os grupos de direita, na América Latina especialmente, perceberam que o jogo da democracia tem levado o eleitor a escolher políticos alinhados com o campo progressista. Se eles respeitassem a democracia, lutariam na oposição para convencer o eleitorado de que seus candidatos são os melhores, como todo partido de esquerda sempre aprendeu a fazer, pacientemente, durante anos, muitas vezes décadas, até conseguir furar todo o bloqueio que a própria democracia impõe a estes partidos.

Mas, para a direita, a democracia só vale a pena enquanto mantiver no poder seus representantes. Do contrário, diversas revoltas, sabotagens, campanhas difamatórias, perseguições políticas, prisões e acusações levianas são produzidas com o apoio dos diversos aparatos burgueses que instrumentalizam para esta intenção, como o judiciário, o parlamento, as igrejas e as forças armadas.

Pressionado por suspeitas em torno da sua vitória apertada no primeiro turno das recentes eleições bolivianas, Evo Morales se colocou à disposição para novas eleições, ou recontagem de votos. Nada disso foi aceito. Para o analista internacional Amauri Chamorro,

A direita boliviana não aceitou a realização de uma nova eleição e não quis sequer recontar os votos da eleição [...]. Se a direita  tivesse capacidade de vencer uma eleição, teria ido pra eleição. Só que o que eles querem nesse momento, é impedir a continuidade de um processo de transformação que foi implementado na Bolívia depois de 12 anos de governo Evo Morales

Chamorro confirma que o golpe no governo não tem tanto a ver com questões econômicas, e sim de classe. A extrema-direita racista da Bolívia saiu do armário com o mesmo pretexto que desencadeou a crise das instituições brasileiras, a partir do momento que Aécio Neves (por onde tem andado?) se recusou a aceitar a derrota apertada para Dilma Rousseff nas eleições de 2015. A partir daí, todo descalabro e loucuras passaram a fazer parte da nossa vida política, culminando com a eleição de um dos maiores boçais que este país já foi capaz de produzir — e olha que não foram poucos.

Agora existem suspeitas, a partir do vazamento de um áudio divulgado pelo jornal El Periódico, da participação de grupos evangélicos e do governo Bolsonaro neste evento golpista no país vizinho.

Sabemos que a família Bolsonaro tem ligações estreitas com Steve Bannon, o artífice da ascensão da direita no mundo através de mentiras, baixarias e jogo sujo. Aliás, teria outra forma? O hipócrita moralismo conservador é a nova arma da direita para conquistar o apoio das classes médias urbanas e dos pobres doutrinados pelo mundo, incomodados com a conquista de espaço cada vez maior de populações minoritárias. São grupos xenófobos, preconceituosos, medrosos de perder status social, que sentem raiva do outro, e que encontram muitas vezes respaldo para o seu modo de vida no seio do cristianismo. Exatamente como o líder golpista boliviano, saído diretamente das hostes católicas. Segundo recente reportagem do Globo,

O ativismo de Camacho começou aos 23 anos, como vice-presidente da organização cívica União Juvenil Cruceñista, descrita por organismos de direitos humanos locais como uma espécie de grupo paramilitar que realizava atos de racismo e discriminação contra indígenas

Recusa em aceitar derrota na eleição; protestos nas ruas dos bairros das classes médias brancas de Santa Cruz; ameaça de prisão do presidente; milícias policiais, Forças Armadas e religião unidas no golpismo. Esse filme que acaba de começar na  Bolívia também passou no Brasil.

Podemos prever agora algumas partes da metade desse filme que ora se desenrola: eleição de um capacho local do sistema financeiro apoiado pelos Estados Unidos, provavelmente Carlos Mesa; desmonte do estado de bem estar, dos direitos dos pobres; privatização das riquezas naturais bolivianas e paralisação do crescimento recorde do país nos últimos anos para transferir renda aos mais ricos.

Como será o final deste filme? O povo do  Chile nos dá spoilers...
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Professor de História, Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), carioca, usa este espaço para comentar sobre os assuntos da política e da sociedade de forma simples e clara, sem, no entanto, abrir mão do rigor da checagem dos fatos.

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