19 de agosto de 2019

Mercado livre só pros outros: por que o Brescia conseguiu levar Batotelli

Mesmo com menor poder financeiro, Brescia vence disputa com Flamengo e leva Mario Balotelli


Recentemente, o Clube de Regatas do Flamengo chamou a atenção do mercado internacional de negociação de jogadores pela sua grande capacidade de investimento. Depois de fazer algumas grandes contratações no mercado interno, como do uruguaio De Arrascaeta e do zagueiro Rodrigo Caio, pagou alguns milhões de euros para repatriar jovens jogadores como Vitinho e Gerson direto da Europa.

Mas a capacidade de contratar do rubro-negro foi ainda mais longe, a ponto de negociar recentemente a vinda da estrela do futebol internacional Mario Balotelli. No entanto, apesar de ter a melhor oferta do rubro-negro carioca, o jogador decidiu ir jogar no modesto Brescia da Itália, ganhando apenas 30 por cento do que ganharia no clube carioca.




A princípio, questões pessoais foram dadas como justificativa pela escolha do jogador, como por exemplo, voltar à cidade onde cresceu, o que seria compreensível. Mas, recentemente, a verdade veio à tona, de acordo com a publicação de um jornal italiano. Graças ao desconto de impostos previsto pela nova lei italiana sobre a chamada "fuga de cérebros", Massimo Cellino, empresário e dono do Brescia, economizará muito dinheiro em descontos de impostos para o governo italiano.

Em 29 de junho a lei foi aprovada na Itália. É assim que funciona: de agora em diante, para jogadores estrangeiros ou para quem volta do exterior depois de pelo menos dois anos, apenas 50% do lucro tributável é tributado. Simplificando: metade dos ganhos dos jogadores não está mais sujeita a tributação.

Saiba mais: 
Como o livre mercado prejudica países em desenvolvimento: o caso do futebol 

Uma enorme poupança que permite aos clubes italianos oferecer salários líquidos mais altos, como foi o caso da Espanha com a lei de Beckham. Uma grande assistência para as equipes da Série A. A Juventus se beneficiou, por exemplo, no caso De Ligt. Sem o desconto do imposto, o Brescia nunca poderia ter garantido a Balotelli 3 milhões de euros líquidos para a primeira temporada e 4,5 para os outros dois.

O acordo é de um ano com renovação automática. Porém, para acessar a facilitação, o jogador deve permanecer na Itália por pelo menos dois anos. E como a regra entrará em vigor em 1º de janeiro de 2020, Mario deve jogar pelo menos três temporadas de futebol. Se sair antes, o valor economizado deve ser devolvido às autoridades fiscais italianas. Resumindo: você terá que, por um tempo, permanecer no clube. O que no caso de Balotelli, não deixa de ser uma grande dúvida.




O que temos então aqui é a interferência de uma lei estatal sobre os pressupostos da livre concorrência do mercado. O Flamengo, por seus próprios esforços e mérito, depois de 6 anos colocando as finanças em ordem, foi capaz de propor um contrato a nível europeu a Balotelli, coisa que ele não teria igual, a não ser com a mãozinha do governo italiano, que teve em vista proteger o mercado do futebol naquele país e dar capacidade de investimento a clubes que, de outra maneira, não teriam essa capacidade.

O que europeus e americanos, ou dito de outra maneira, os principais países capitalistas defendem, na verdade, é o mercado livre para os outros. Para si, não se furtam a lançar mão de leis e determinações especiais de protecionismo, ferindo os preceitos do livre mercado. Não só no futebol, haja vista os fazendeiros franceses estarem com medo do acordo UE-Mercosul porque vai abrir o mercado europeu para os competitivos produtos agrários brasileiros. Vão perder os subsídios do governo.

Está na hora dos clubes brasileiros demandarem condições iguais de competição no mercado, seja exigindo que a FIFA tome providências contra interferências externas nas livres negociações econômicas, ou que o governo do Brasil crie também facilidades fiscais para aumentar o poder de investimento dos clubes nacionais, uma espécie de Lei de Beckham nacional.

O mercado livre, se tem que existir, que seja para todos. Ou então que sejamos capazes de proteger nossa maior matéria-prima, os jogadores brasileiros, para que, em vez de brilharem nas ligas europeias, possam cada vez mais reforçar os times brasileiros.


16 de agosto de 2019

Guia prático do posicionamento político

Tem circulado nas redes sociais um interessante e controverso "meme", definindo, aparentemente de forma irônica, mas certamente crítica, os posicionamentos políticos mais relevantes no Brasil.



Muitas pessoas não acreditam que seja dessa forma, que é apenas uma postagem tendenciosa de algum militante da esquerda. Mas o meme, de fato, reflete exatamente a realidade. Vejamos.

Por que ser de centro é ser de direita

Primeiro, o que é ser "de direita"? Poucas pessoas costumavam se referir a si mesmos como de "direita" até recentemente. Afinal, além de ter uma carga pejorativa desde há muito tempo, por conta de estar atrelada a uma tendência reacionária a qualquer tipo de mudança na ordem social, piorou muito com o advento da ditadura militar no Brasil (de direita, com todos os seus crimes e autoritarismos assassinos no período).

Poucas pessoas gostariam de assumir esse fardo, e portanto, era mais sutil se dizerem "de centro".

A definição esquerda e direita na política começou, como a maioria das pessoas sabe, durante a Revolução Francesa. Conservadores, fossem eles burgueses ou nobres, sentavam-se à direita na Assembleia. "Radicais", jacobinos e progressistas à esquerda.

De lá pra cá, pouco mudou nessas características iniciais. Já naquela época, quem era de centro era mais identificado com a direita, com medo da revolução sair do controle das elites e ir parar na mão do povo, como acabou acontecendo durante um certo período, pelas mãos de Robespierre.

Quando o povo foi fazer valer a revolução de fato, as elites a chamaram de Terror. Porém, isso é outra história.

Mas existe alguém realmente de centro na política?

Óbvio que não. É diferente ser de centro em países governados pela social-democracia, pelo socialismo ou pelo capitalismo, como é o caso notório do Brasil. Mas todos eles acabam corroborando sempre um lado, o lado que estiver no poder.



Ser de centro na Finlândia é achar que as políticas públicas estão indo muito bem, que a sociedade é bem servida pelos órgãos públicos, que não existe nenhuma demanda muito séria a que se envolver, tomar partido, como por exemplo a diminuição da desigualdade ou a taxação de grandes fortunas, coisas que eles já resolveram há muito tempo.

Ou seja, ser de centro é apoiar a social-democracia do governo.

O Brasil é um país capitalista (ou seja, de direita), embora periférico, e ostenta centenas de problemas mal resolvidos causados por este mesmo sistema, dentre eles o autoritarismo e a violência do Estado contra pobres. Ser de centro, "neutro", defender apenas algumas pequenas reformas diante da colossal mudança estrutural que precisamos, é não querer mexer nas estruturas do governo de direita do sistema, ou seja, é ser de direita.

"Não sou de esquerda nem de direita"


Hoje esse tipo é conhecido como o "isentão", aquele que do alto da torre de marfim em que se colocou, aponta o dedo para ambas as vertentes políticas e se diverte criticando-as, colocando, por exemplo, bolsominions e lulistas no mesmo pé de igualdade, embora em polos opostos.

Nada mais nocivo para a sociedade do que o isentão.

A política perpassa todas as esferas de nossa vida. O isentão acredita ser tolice tomar partido, defender uma causa, já que, em sua visão, todas as causas são iguais, inúteis ou perdidas.

Quando diz não ser nem de esquerda e nem de direita, ele levanta essa bandeira como mérito. Mas não sabe que é apenas um tolo com preguiça de pesquisar sobre o tema, se inteirar das coisas, e está fadado a ser governado por aqueles que ele justamente detesta.

Os políticos da direita, aqueles que se aproveitam dos menos engajados para destilar e emplacar suas fake news, suas mentiras e suas propagandas, encontrando terreno fértil de manipulação das mentes menos politizadas, são os que estão no poder no Brasil.

Ou seja, não tomar partido, não se envolver, não ser "nem isso nem aquilo", só ajuda a quem tira proveito dessa atitude: a direita, que está no poder e quer continuar.

"Não tenho preferência / "Não gosto de política"


Essas são vertentes irmãs, idênticas nos resultados práticos. Na verdade, podem se equiparar também ao isentão, com a diferença de que este ainda se interessa um pouco por ironizar a política, embora não de forma efetiva e sim para criticar, se colocar acima das disputas.

Enquanto isso, os que não têm preferência nem gosto por política nem sequer se importam com ela. A não ser naquelas semanas da época de campanha eleitoral, onde esta personagem subitamente descobre por vias mágicas (mentira, é induzido através das mídias mesmo) qual é o melhor candidato, aquele que vai salvar o Brasil da lama da corrupção e das safadezas, o herói, o mito... E logo depois de ter feito a cagada eleito um presidente despreparado e tosco que vai lhe tirar todo e qualquer resquício de direito social que ainda tenha restado, este ser volta tranquilamente a seu estado de hibernação política, como quem não é com ele, proferindo frases secas, como "não tenho preferência", "não gosto de política".

Pelo menos até a próxima eleição, onde talvez descubra com toda a certeza do mundo que o melhor para o país agora é Luciano Huck...

E assim, o Brasil vai caminhando a passos largos rumo a uma realidade onde as políticas econômicas da direita seguem fazendo seus estragos por onde passam, às vezes numa espécie de segundo round, depois de terem feito um primeiro estrago (como os tucanos no poder nos anos 90); terem sido derrotados e agora trazidos de volta à baila na carona de um golpe e de um afastamento ilegal de um ex-presidente, preso para não impedir o cataclismo que hoje o governo atual nos causa.

O que diriam aqueles centristas, isentões e desgostosos da política ao serem cobrados por terem ajudado a eleger um governo de (extrema-)direita, mesmo ele, o cidadão, "não sendo" de direita?

"Mas e o PT?". É o que diriam. Claro que isso não tem nada a ver com ser de direita...