O perigoso evangelismo xiita brasileiro

Por que as seitas neopentecostais no Brasil são tão xiitas? Por que os evangélicos flertam com tanta alegria com a extrema-direita? Essas são perguntas nada fáceis de responder.

Mas suas consequências nefandas são bastantes claras.

Para alguns setores da esquerda brasileira, o campo progressista perdeu terreno no momento em que abandonou as demandas mais urgentes da população carente — "terras devolutas", por assim dizer, que foram ocupadas pelos pastores evangélicos. Até aí nenhum problema em princípio.

Mas... o trabalho que estes pastores têm feito, para além do assistencialismo imediato, é afastar a população de uma verdadeira emancipação social. As igrejas evangélicas, em sua esmagadora maioria, funcionam pelo viés da ideologia da direita política. O conservadorismo implícito, inerente, inato, em todas as religiões, que na verdade define a sua razão de existir, cumpre um papel tão bem feito, que faz os pobres e miseráveis defenderem posições políticas que só beneficiam aqueles que são os privilegiados do poder politico e econômico.

Seria natural que pastores milionários, beneficiários, eles próprios, do status quo em que vivem, fossem eles mesmos ferrenhos defensores do liberal-conservadorismo que oprime as massas. Mas o que assistimos é um fenômeno ainda mais lamentável. Qualquer pastor de igreja evangélica de esquina em qualquer subúrbio defende, com unhas e dentes, o mesmo status quo que mantém a maioria esmagadora dos seus fiéis na ignorância e na pobreza.

É fácil imaginar as razões.

Tais religiões exploradoras, seja das economias populares, seja da ingenuidade do povo, só sobrevivem enquanto o país grassar na alastrada ignorância em que se encontra. Alguém haveria de dizer: "mas onde estão as autoridades que não tomam uma providência?"

Autoridades em diversos escalões têm seus motivos para não se meter nisso. Os de baixo nível, digamos, polícias e ministério público, não querem sofrer o desgaste de combater picaretas que tem o poder de transformar quaisquer investigações em perseguições religiosas.

Por outro lado, no alto escalão, os políticos aprenderam a tirar proveito próprio do domínio que os evangélicos detêm sobre as massas. Veja o caso do presidente Jair Bolsonaro, por exemplo.

Sempre fora um declarado católico, até o dia que percebeu, com a sua inegável astúcia, que ser evangélico era bom negócio. Levou a coisa a níveis tão extremos que hoje prega a indicação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o Supremo Tribunal Federal.

Levar as coisas às raias do extremismo é uma especialidade de Bolsonaro, afinal de contas. Com apoio de fake news, tão apreciadas por aqueles cuja credulidade em mitos e fantasias religiosas já é uma porta de entrada natural para as mentiras do campo político, o presidente soube encantar essa grande parcela moralista da população.

Afinal, o (falso) moralismo é outro grande pilar do conservadorismo religioso. Tantas conquistas sociais que se pode destruir; tantos adversários políticos que se pode derrubar; tantas ideias progressistas que se pode demonizar em nome de deus e da família e dos valores cristãos que não é brincadeira.

Hoje vivemos a vitória do evangelismo xiita através da vitória de Jair Bolsonaro. Vitória que se reflete na matéria recém publicada: Brasil vota junto com ditaduras islâmicas contra os Direitos Humanos na ONU. Segundo a reportagem:

O governo federal acompanhou ainda a ditadura militar do Egito e o Iraque em texto sobre “direito à saúde sexual e reprodutiva”. O país concordou com proposta do Paquistão de eliminar a educação sexual de resolução da ONU.

E ainda continuou dizendo que o país vai lutar para abolir a chamada “ideologia de gênero”. O político defendeu os termos ‘pai’ e ‘mãe’ e completou, “todo o mundo nasceu do homem e da mulher” — sem sombra de dúvidas, para a estupefação geral da plateia civilizada.

Quando as esquerdas — essas esquerdas pós-modernas, fique bem claro — defendem que é preciso respeitar as religiões, devem levar em conta esses fatores. O evangelismo tem um nítido viés reacionário, não obstante os exemplos aqui e acolá que se possa citar em benefício da instituição. Sejamos claros e digamos em alto e bom som, como a nossa tradição requer: a religião é o ópio do povo e deve ser criticada até que recue ao âmbito privado, como deve ser, e não ditando políticas públicas reacionárias e retrógradas.

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