12 de julho de 2019

O perigoso evangelismo xiita brasileiro

Por que as seitas neopentecostais no Brasil são tão xiitas? Por que os evangélicos flertam com tanta alegria com a extrema-direita? Essas são perguntas nada fáceis de responder.

Mas suas consequências nefandas são bastantes claras.

Para alguns setores da esquerda brasileira, o campo progressista perdeu terreno no momento em que abandonou as demandas mais urgentes da população carente — "terras devolutas", por assim dizer, que foram ocupadas pelos pastores evangélicos. Até aí nenhum problema em princípio.

Mas... o trabalho que estes pastores têm feito, para além do assistencialismo imediato, é afastar a população de uma verdadeira emancipação social. As igrejas evangélicas, em sua esmagadora maioria, funcionam pelo viés da ideologia da direita política. O conservadorismo implícito, inerente, inato, em todas as religiões, que na verdade define a sua razão de existir, cumpre um papel tão bem feito, que faz os pobres e miseráveis defenderem posições políticas que só beneficiam aqueles que são os privilegiados do poder politico e econômico.

Seria natural que pastores milionários, beneficiários, eles próprios, do status quo em que vivem, fossem eles mesmos ferrenhos defensores do liberal-conservadorismo que oprime as massas. Mas o que assistimos é um fenômeno ainda mais lamentável. Qualquer pastor de igreja evangélica de esquina em qualquer subúrbio defende, com unhas e dentes, o mesmo status quo que mantém a maioria esmagadora dos seus fiéis na ignorância e na pobreza.

É fácil imaginar as razões.

Tais religiões exploradoras, seja das economias populares, seja da ingenuidade do povo, só sobrevivem enquanto o país grassar na alastrada ignorância em que se encontra. Alguém haveria de dizer: "mas onde estão as autoridades que não tomam uma providência?"

Autoridades em diversos escalões têm seus motivos para não se meter nisso. Os de baixo nível, digamos, polícias e ministério público, não querem sofrer o desgaste de combater picaretas que tem o poder de transformar quaisquer investigações em perseguições religiosas.

Por outro lado, no alto escalão, os políticos aprenderam a tirar proveito próprio do domínio que os evangélicos detêm sobre as massas. Veja o caso do presidente Jair Bolsonaro, por exemplo.

Sempre fora um declarado católico, até o dia que percebeu, com a sua inegável astúcia, que ser evangélico era bom negócio. Levou a coisa a níveis tão extremos que hoje prega a indicação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o Supremo Tribunal Federal.

Levar as coisas às raias do extremismo é uma especialidade de Bolsonaro, afinal de contas. Com apoio de fake news, tão apreciadas por aqueles cuja credulidade em mitos e fantasias religiosas já é uma porta de entrada natural para as mentiras do campo político, o presidente soube encantar essa grande parcela moralista da população.

Afinal, o (falso) moralismo é outro grande pilar do conservadorismo religioso. Tantas conquistas sociais que se pode destruir; tantos adversários políticos que se pode derrubar; tantas ideias progressistas que se pode demonizar em nome de deus e da família e dos valores cristãos que não é brincadeira.

Hoje vivemos a vitória do evangelismo xiita através da vitória de Jair Bolsonaro. Vitória que se reflete na matéria recém publicada: Brasil vota junto com ditaduras islâmicas contra os Direitos Humanos na ONU. Segundo a reportagem:

O governo federal acompanhou ainda a ditadura militar do Egito e o Iraque em texto sobre “direito à saúde sexual e reprodutiva”. O país concordou com proposta do Paquistão de eliminar a educação sexual de resolução da ONU.

E ainda continuou dizendo que o país vai lutar para abolir a chamada “ideologia de gênero”. O político defendeu os termos ‘pai’ e ‘mãe’ e completou, “todo o mundo nasceu do homem e da mulher” — sem sombra de dúvidas, para a estupefação geral da plateia civilizada.

Quando as esquerdas — essas esquerdas pós-modernas, fique bem claro — defendem que é preciso respeitar as religiões, devem levar em conta esses fatores. O evangelismo tem um nítido viés reacionário, não obstante os exemplos aqui e acolá que se possa citar em benefício da instituição. Sejamos claros e digamos em alto e bom som, como a nossa tradição requer: a religião é o ópio do povo e deve ser criticada até que recue ao âmbito privado, como deve ser, e não ditando políticas públicas reacionárias e retrógradas.

3 de julho de 2019

O cinismo de Sérgio Moro

O costume de juízes participarem das investigações é um ato isolado de Moro ou uma prática normal na justiça, como ele disse? 

Não sei se o cinismo, que os gregos antigos definiam como "a busca de uma vida simples e natural através de um completo desprezo por comodidades, riquezas, apegos, convenções sociais e pudores", mas que o mundo moderno traduziu como "atitude ou caráter de pessoa que revela descaso pelas convenções sociais e pela moral vigente", é inata ou pode ser adquirida. O fato é que Sérgio Moro o tem de sobra.

Ontem assisti pedaços de seu depoimento na Comissão de Constituição e Justiça — não todo, pois muitas das questões o inquirido recusou-se a responder objetivamente, sendo então repetidas várias vezes, e várias vezes ele teve respostas dissimuladas. Mas algumas de suas afirmações chamaram atenção.

Umas delas foi quando disse jamais ter vazado escutas ilegais durante a Lava Jato. Afirmou que o vazamento da conversa entre Lula e Dilma em 2016 tinha interesse público, e por isso resolveu soltar os áudios ilegais. Ilegais sim, porque o ministro do Supremo Teori Zavascki, que pouco depois sofreu um acidente fatal de avião até hoje mal explicado, repreendeu o então juiz de primeira instância pelo ato extrajurídico, tendo em vista o foro privilegiado da presidente Dilma na ocasião. De tanto que reconheceu a ilegalidade, Sérgio Moro cometeu um de seus primeiros atos públicos de cinismo, pedindo desculpas, desculpas inúteis e infames, tendo em vista o estrago já feito premeditadamente.

Também ontem, foi perguntado por que — se tem, realmente, convicção de que as suas conversas agora reveladas foram obtidas de maneira criminosa — ainda não entrou na Justiça alegando injúria, calúnia ou difamação. A pérola do cinismo do dia veio na resposta "porque eu sou a favor da liberdade de imprensa" (!!). Isso ao mesmo tempo em que a Polícia Federal, sob seu comando direto, faz ameaças de coação, segundo alguns deputados, solicitando ao Coaf a abertura de dados financeiros do jornalista Gleen Greenwald, autor das denúncias contra Sérgio Moro.

Pra fechar, tentou dizer que era perfeitamente normal, no meio jurídico, juízes terem esse tipo de conversa com os advogados e procuradores: "olha, melhora essa prova aí, senão eu não tenho como condenar" ou "acho que não dá pra absolver ainda, convoca aquela fulana pra depor", conforme alguns exemplos baseados nas conversas de Moro com o procurador Deltan Dallagnol que o ex-juiz acha perfeitamente cabíveis.

Como bem disse o filósofo Paulo Ghiraldelli no seu canal do You Tube, se a Justiça brasileira realmente funciona assim, é pra parar tudo, começar do zero, porque tá tudo errado. Se o Moro e apenas o Moro age assim, então é caso de incompetência colossal de quem não tem a menor ideia de como funciona a justiça, e aí tem que exilá-lo, prendê-lo, cassá-lo, puni-lo de alguma forma, porque além de péssimo juiz, cometeu crimes contra os direitos humanos.

Mas o cinismo maior do ex-juiz da Lava Jato e atual ministro da Justiça vem sobre as explicações da autenticidade dos áudios. Dizendo-se vítima de hackers sem nenhuma prova, uma hora ele alega falta de memória para não confirmar o que disse; outra hora diz que as conversas podem ter sido adulteradas; e por fim, afirma que caso tenha realmente falado o que não lembra ou o que foi adulterado, até agora as conversas não mostram nenhuma ilegalidade. (!!)

As últimas semanas não têm sido fáceis para aquele que até recentemente era o herói dos tolos, provável candidato à presidência da República ou a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, mas que, ao que tudo indica, terminará seus dias como uma figura medíocre, como um Eduardo Cunha da vida,  um ex-homem público folclórico por sua notória incapacidade de se expressar bem e que alcançou o topo do estrelato político mas que caiu por seus próprios atos deploráveis.