O problema não é Bolsonaro. É o capitalismo


Bolsonaro é apenas o gerente da vez do capital. Por trás do seu governo desastroso, existem interesses claros de desmanche do Estado e de direitos dos trabalhadores




É verdade, o Brasil tem passado pelo maior desafio da sua história republicana. Jamais um presidente foi tão descaradamente atuante em favor dos preceitos do mercado capitalista — e, claro, dos homens poderosos de carne e osso por trás desse conceito abstrato — como o Sr. Jair Messias Bolsonaro.

Bolsonaro e seu superministro Paulo Guedes têm uma missão clara a cumprir: promover o desmonte total do insuficiente Estado brasileiro, sob as mais diversas cortinas de fumaça como alegação: desde a velha falácia da corrupção, passando por uma suposta doutrinação marxista que contamina as instituições.

O que esses agentes do capitalismo nacional e internacional estão fazendo é levar às raias inauditas do extremismo uma situação corriqueira neste gigante país, que não se desfaz de suas amarras coloniais. Sem contar a Primeira República, onde o Estado fora capturado pelas elites cafeeiras paulistas para funcionar como sede de empresa vendedora de café — enquanto a questão social era tratada como "caso de polícia" —, pelo menos desde o presidente Dutra, nossos políticos em aliança com os capitalistas, e por tabela com os Estados Unidos, se comportam como gerentes dos interesses da burguesia. Dutra ainda teve como bônus no poder a atitude carola, conservadora e moralista que a direita usa a seu favor como indicador de superioridade moral, como hoje.

A mídia, alinhada com os Estados Unidos, "mata" Getúlio Vargas

Em 1950, Getúlio Vargas foi eleito e fez um mandato progressista até seu suicídio, em 1954, por pressão de setores da burguesia, insatisfeitas com o nacionalismo do governo. Empresários, setores da Igreja e jornalistas, exatamente como uns anos atrás nos governos petistas, criticavam diariamente o presidente, acusando-o de "populista", outro termo forjado nas instalações da USP por intelectuais ideologicamente alinhados com o capitalismo, onde qualquer medida em socorro das classes menos favorecidas era condenada.

João Goulart queria Reforma Agrária. Ganhou um golpe

Em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, mais uma vez uma força progressista assume o governo federal pelas mãos de João Goulart. Mais uma vez as mesmas facções reacionárias juntaram forças para atacar o governo, cuja principal medida seria combater os históricos latifúndios brasileiros, uma das maiores fontes de nossa histórica desigualdade. Tanto bateram que conseguiram que as Forças Armadas, outro setor cuja oficialidade faz parte das camadas favorecidas da burguesia, entrassem no jogo político, sabotando-o com um golpe militar.

Não vai ter eleições diretas. vai ter Sarney

Terminado o período de 21 anos sob o arbítrio do autoritarismo, as Diretas Já foram sabotadas em 85, com a eleição por colégio eleitoral de Tancredo Neves. Após a sua estranha e misteriosa morte, assumiu José Sarney, que fez um governo tão desastroso que abriu caminho para o então jovem Partido dos Trabalhadores disputar a eleição direta de 89 com reais chances de vitória.

A burguesia inventa Collor 

Mais uma vez, a aliança espúria entra em cena. Empresários, religiosos, Forças Armadas e principalmente a mídia, através da Rede Globo, promoveram uma campanha criminosa de mentiras e difamações contra o então candidato Lula, para favorecer o incipiente e até então desconhecido Fernando Collor, que ganhou a alcunha de "caçador de marajás" nas mídias capitalistas. Vitória da direita e começo do neoliberalismo no Brasil. Foi o desastre que todos conhecemos.

A elite capitalista de São Paulo funda seu próprio partido, PSDB

Lula ainda representava grande "perigo", e a mídia, enquanto Itamar fazia um mandato tampão, preparava o Príncipe da Privataria para ser o candidato da burguesia nacional. Fernando Henrique Cardoso se prestou a um papel lamentável, o mesmo que Collor começou mas não conseguiu terminar, de responsável pela implementação dos preceitos neoliberais do Consenso de Washington no Brasil. Durante oito anos o Brasil experimentou uma forma de política-econômica destruidora do Estado como árbitro das relações entre capital e trabalho, abriu o mercado nacional a produtos estrangeiros, começando o processo de destruição da indústria nacional, vendeu empresas estatais saudáveis a preço de banana depois de sucateá-las, e etc. Dessa vez o estrago foi grande demais e o povo não queria ver um tucano na sua frente nem banhado a ouro depois de dois mandatos seguidos.

Assim, pela primeira vez, em 2002, o PT venceu uma eleição presidencial. Seu mandato foi marcado por uma "conciliação de classes" que partiu por iniciativa do seu próprio governo, não das classes conservadoras, capitalistas e reacionárias em frangalhos depois daqueles terríveis oito anos no poder.

Ainda fracas, à direita não restava outra alternativa a não ser reagrupar forças, esperar o momento certo para atacar o governo progressista, como sempre. A primeira chance apareceu com a denúncia do "mensalão", uma lamentável prática corriqueira na política nacional, mas muito tolerada com vistas grossas durante os mandatos anteriores. O PSDB, criador do método junto com Marcos Valério, passou a condená-lo no governo Lula.

A direita se recupera e se fortalece

Dois fatores fizeram Lula escapar naquela ocasião: o amplo apoio popular — Lula literalmente buscou os braços do povo — e a estratégia dos tucanos, de não pedir o Impeachment, e sim deixar o governo "sangrando em praça pública" até morrer sozinho, coisa que não aconteceu.

Lula terminou seu mandato com grande popularidade e elegeu sua sucessora, Dilma. Nesse ponto, cansados de perder nas regras do jogo democrático, a direita, sem limites éticos para suas ações, resolveu partir para o ataque sujo na reeleição de Dilma. Primeiro Aécio Neves, seu concorrente, deselegantemente quebrou o protocolo e não reconheceu a vitória petista. A seguir resolveu inviabilizar o governo junto com a direita e o chamado Centrão na Câmara de Deputados, todos eles fazendo a vontade dos mercados e dos capitalistas que já não suportavam mais o PT no poder. O passo seguinte foi bolar um estratagema jurídico falso para justificar um Impeachment ilegal, que foi feito. A partir daí, as portas do poder estavam abertas para os verdadeiros interesses da burguesia.

Caminho livre para o lucro e ataques aos direitos do povo

Michel Temer, o vice que assumiu o governo, assumiu também a agenda capitalista: a Reforma da Previdência. Nesse ponto, mais um elemento golpista alinhado com os interesses capitalistas, sobretudo o dos Estados Unidos, entra em cena: o setor do Judiciário. Primeiro com o Supremo alinhavando a farsa do Impeachment, segundo, com a instituição de uma peça de perseguição política chamada Lava Jato, através do nanico e incompetente Sérgio Moro, que teve o mérito, pela ótica da burguesia, de conseguir prender o ex-presidente Lula com evidências frágeis e ilegais.

Impedido de concorrer, Lula não foi capaz de transferir seus votos a Fernando Haddad. A direita, no poder, mas enfraquecida eleitoralmente pela farsa e má reputação dos seus gerentes políticos preferidos, os tucanos, tiveram que fazer uma aliança com a obscura, raivosa e radical figura de Jair Bolsonaro nesta última eleição, vencida por ele. É o ponto em que estamos.

Esse ponto representa o caminho aberto como nunca na história brasileira para a direita e o capitalismo implementarem livremente seus preceitos econômicos destruidores. Durante todos esses anos, a esquerda foi capaz de resistir e moderar o apetite capitalistas por mais dinheiro e lucros, mas hoje, enfraquecida e dividida como está, assiste o capitalismo passar como um verdadeiro tsunami sobre todas as históricas conquistas sociais do povo brasileiro. A CLT foi destruída, a aposentadoria está em viés de se tornar apenas uma peça de ficção num papel, as empresas brasileiras bem como as nossas riquezas minerais são entregues a empresas internacionais, a Lava Jato destruiu empresas brasileiras e milhares de empregos para condenar Lula, as universidades públicas estão em vias de extinção com severos cortes de verbas, programas sociais são interrompidos, o salário mínimo parou de ser corrigido e os empregos, quando existem, são precários e degradantes.

Isso não é obra de Jair Bolsonaro. É obra do capitalismo, único fator que une facções tão díspares no governo como pastores evangélicos ricos, lunáticos que creem em teorias da conspiração mundial, Forças Armadas em defesa dos seus privilégios e, claro, o setor financeiro, na figura do nefando Paulo Guedes.

Bolsonaro é apenas o gerente da vez, talvez o mais fraco e incompetente, por isso mesmo incapaz de administrar não só o país, como as próprias crises entre seus próprios aliados no governo. Esse papel não é novo, já foi feito antes, conforme demonstrado. O que diferencia Bolsonaro dos outros, é que ele vive uma época em que as esquerdas foram fragilizadas por diversos ataques de mentiras, manipulações e ações criminosas como um Impeachment ilegal, além da prisão injusta do seu maior líder na atualidade. Tal como no fim da Guerra Fria, que fazia o balanço de forças opostas ser equilibradas no mundo, tendo os Estados Unidos partido para um imperialismo violento e indisfarçado a partir da queda da União Soviética, é assim que a direita brasileira se sente hoje, livre para promover todos os seus ataques em nome do lucro capitalista com o enfraquecimento da esquerda. Vão-se embora leis de proteção a áreas indígenas, do meio ambiente, dos direitos humanos, das regras constitucionais, qualquer empecilho que tente se contrapor a um ataque voraz do capitalismo no Brasil.

A esquerda partidária precisa aprender. Precisa aprender com a direita. Primeiro, cessar as lutas intestinas entre si e focar no adversário em comum. É isso que eles, nosso adversários, fazem. Segundo, uma vez alcançado o poder, se é que isso vai acontecer antes da direita destruir as instituições democráticas, agir sem conciliação, sem concessão e sem frouxidão. É preciso varrer de uma vez por todas essa influência maligna do capitalismo sobre a política. Somente reformas na política e nas mídias, na sociedade e nas Forças Armadas serão capazes de preparar o terreno para uma era prolongada de justiça social. Foi a falha que Lula cometeu, ao inventar a aberração de conciliação de classes com inimigos no momento em que deveria ter dado um soco e não a mão. Hoje ele é vítima dessa postura carinhosa com seus adversários.

Ou é isso, ou o Brasil vai caminhar realmente para a barbárie, não importa quem venha depois de Bolsonaro.


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