20 de maio de 2019

Os protestos de junho de 2013 e os de 2019. Lições que devem ser aprendidas



Em 2013, o movimento do Passe Livre acabou perdendo as rédeas dos protestos por conta da aposta na horizontalidade da direção. Esse erro não pode ser repetido




Eu sou a prova viva de que, para se compreender um fenômeno social, é preciso haver um distanciamento do objeto de análise, para que se possa enxergar detalhes que não eram acessíveis, ou perceptíveis, no calor dos acontecimentos. No caso da história, o distanciamento é temporal.

Em 2013 eu participei, no Rio de Janeiro, das chamadas Jornadas de Junho, aquela série de protestos que colocaram milhões de pessoas nas ruas do país, e que, até hoje, os analistas se desdobram para entender. Na época eu pensava estar participando de um protesto popular contra o aumento das passagens de ônibus na cidade que houvera mudado espontaneamente para um protesto mais amplo, nacional. Mas eu estava redondamente enganado.

Apesar do relativamente curto espaço de tempo que se passou desde então, já é possível fazer, como fizera muito bem o sociólogo Jessé Souza, uma análise crítica do movimento.

De espontânea, aquela guinada nos rumos do protesto não teve nada. Hoje é mais nítido perceber que setores da mídia burguesa junto com uma mobilização estratégica da classe média nas ruas conseguiram subverter o movimento, direcioná-lo para seus propósitos e esvaziar o conteúdo popular. É preciso reconhecer, a estratégia foi um dos maiores sucessos de manipulação de que eu tenho conhecimento.

Aos poucos, essa massa intrusa conseguiu  emplacar lemas como "sem violência" e principalmente "sem partido", deslegitimando a participação da esquerda organizada. Lembro de, distraído, ser abordado por uma senhora de idade, mas com muita energia, que me pedia para segurar um cartaz contra a corrupção do governo federal (Dilma, na época) num dos já degenerados protestos. Como conseguiram arquitetar essa usurpação do protagonismo da esquerda nas ruas de forma tão bem feita é um dos maiores mistérios que ainda não conseguimos solucionar.

O fato é que todo, todo o nosso infortúnio na política nacional começou aí. A partir disso, o governo Dilma se enfraqueceu; o Congresso se fortaleceu; botou o Impeachment em votação e em prática; Lula foi preso; o PT desmoralizado, e a direita saiu do armário para assumir o vácuo de poder.

Tem sido esse desastre colossal.

Tanto que, dialeticamente, eis que os movimentos de esquerda ressurgem com toda força nas ruas. Estudantes, professores e servidores públicos da Educação deram provas no último dia 15 da potência que a esquerda ainda possui. Colocaram milhões de pessoas na luta contra os cortes na área.

Mas é preciso tomar alguns cuidados para que se não repitam os erros de 2013.

Hoje não moro mais no Rio e não pude participar de um dos maiores protestos recentes, o deste dia 15 que aconteceu na Avenida Presidente Vargas. Mas soube que, durante estes protestos, alguns manifestantes foram censurados quando puxaram o coro "Lula Livre!". Muito preocupante.

A Rede Globo, segundo Jessé Souza, foi a grande responsável por guiar a mudança política dos protestos de 2013. Lembro perfeitamente das críticas ferozes proferidas pelo então comentarista político do JN, Arnaldo Jabor, enquanto as manifestações anda eram contra o aumento das passagens de ônibus, e o quanto ele mudou descaradamente de opinião, quando os protestos já estavam tomados pelos coxinhas verde-amarelos.

À Globo também interessa, hoje, o combate ao governo Bolsonaro. Mas não porque ela esteja a favor dos trabalhadores ou da democracia. Ela é a favor dos seus próprios interesses corporativos. E para isso, ela quer um protesto higienizado, sem apelo popular de esquerda, ou seja, sem "Lula Livre" ou sem contestações à Reforma da Previdência, por exemplo. É a condição para a sua cobertura nos telejornais. Mas os movimentos estudantis, sindicatos e demais setores organizados da sociedade civil não podem ceder a esta tentação, pois 2013 está aí para nos servir de exemplo.

Outra questão muito importante é combater aqueles que querem impedir a vanguarda dos protestos de liderar o movimento. Tivemos exemplos lamentáveis nos protestos de 6 anos atrás de que uma massa sem liderança, sem direção clara e sem hierarquia perde facilmente o controle dos rumos do protesto. A UNE, os sindicatos dos professores e das demais categorias que por ventura vierem a participar dos próximos protestos, como a do próximo dia 15 de junho, devem estar afinados e empenhados em seguir as pautas definidas, combater aqueles oportunistas que vierem se infiltrar com intenções espúrias como baixar as bandeiras dos partidos políticos de esquerda e redirecionar os manifestantes para os interesses da burguesia, já totalmente desiludida do governo Bolsonaro.

O que devemos defender agora, seja o Fora Bolsonaro, seja eleições diretas com Lula livre e candidato, seja outra coisa, cabe a nós decidir. Não à Rede Globo.

14 de maio de 2019

Elites capazes de destruir um país para manter seus privilégios

Nesta "Belíndia" chamada Brasil, autossabotagem e destruição em favor de uma minoria de privilegiados





Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro deu com a língua nos dentes num programa de rádio e revelou a todo o país uma das alianças mais espúrias de que se tem notícia dos últimos tempos: o juiz Sérgio Moro, responsável direto pela condenação questionável do ex-presidente Lula — impedindo a  um candidato favorito o direito de se candidatar e consequentemente vencer a eleição — aceitou o cargo de ministro no governo que ele indiretamente ajudou a eleger, sob a condição de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Ver um homem que foi idolatrado por ser uma espécie não de juiz, mas de justiceiro contra corruptos, ao lado de um presidente atolado em suspeitas de mal feitos na política, junto com seus filhos e de vários membros do governo, não deveria surpreender ninguém. A política é tradicionalmente o fórum das elites, e todos eles têm missões a cumprir em nome da manutenção dos privilégios de uma casta de sanguessugas das riquezas nacionais.

O Brasil já foi definido certa vez, em meados dos anos 70, como Belíndia pelo ex-presidente do BNDES, Edmar Bacha. Uma pequena Bélgica de riqueza e prosperidade cercada por uma Índia de falta de recursos e pobreza (daquela época). E os habitantes desta Bélgica imaginária precisam fazer de tudo, nem que seja destruir a própria Belíndia, desde que isso signifique a manutenção de todos os seus privilégios.

Eles sabem que a riqueza de um país é finita, tem um limite, e para que eles possam usufruir das benesses do capitalismo, precisam manter em vigor a maior característica do próprio capitalismo: a brutal desigualdade sócio-econômica, que gera tais privilégios.  Afinal, eles sabem que qualquer melhoria na distribuição de renda, riqueza e conhecimento significaria menos privilégios e mais concorrência para as classes privilegiadas. Como é, de fato, em qualquer país desenvolvido, onde as desigualdades são menores por conta da melhor distribuição de renda. Mas, no Brasil, nossas elites querem o atraso. Atraso é desigualdade e desigualdade é privilégio.

A destruição por que vem passando o Brasil de 2016 pra cá tem muito a ver com essa questão. E também tem muito a ver com Sérgio Moro e Jair Bolsonaro.

Hoje está cada vez mais clara duas características principais da Lava Jato de Sérgio Moro: uma aliança de juízes e promotores brasileiros com a agenda estadunidense de destruição econômica do Brasil, através da condenação e inviabilização de algumas das maiores empresas brasileiras com destaque  internacional — a JBS, a Odebrecht e demais empreiteiras, a Petrobras, e etc —, e condenação e prisão do presidente Lula.

A hegemonia petista conquistada em sucessivas eleições ameaçava, aos olhos das elites, a manutenção das velhas estruturas de privilégios da Belíndia. Principalmente a longo prazo. Dois fatores foram decisivos: a entrada, cada vez maior, promovida pelos governos petistas, de negros e pobres nas Universidades, tradicional núcleo de ascensão social em benefício das classes médias brancas brasileiras. E segundo, a conversão de 75 por cento da arrecadação do pré-sal para investimentos na melhoria da Educação de modo geral. Isso foi demais para as classes privilegiadas.

A Lava Jato cumpriu o seu papel de liquidar a reputação do maior partido brasileiro, o PT, mas como efeito colateral indesejado, também levou junto os tucanos, tradicional legenda burguesa nacional.

As elites não se fizeram de rogadas, e, para manter e até ampliar os ganhos econômicos às custas da maior pauperização da maioria, fizeram as alianças que levaram um capitão medíocre, imbecil, preconceituoso, boçal e nanico do baixo clero político à cadeira presidencial.

Para o mercado e o setor financeiro em geral, bem como às classes ricas e privilegiadas, tais características lamentáveis pouco importam, desde que se cumpra a agenda econômica que permita, justamente, a manutenção/ampliação dos seus privilégios indevidos. A política econômica neoliberal levada a ferro e fogo pelas mãos do xerife do capitalismo, Paulo Guedes, é apenas o que importa para esses gangsteres sem escrúpulos.

Como conseguem emplacar seus candidatos? Desde sempre, através do engano, da manipulação, das mentiras, em resumo, das famosas fake news. A Justiça, outra superestrutura do Estado burguês onde se acomodam as elites privilegiadas, já decretou sigilo a respeito das investigações da influência das fake news no resultado destas últimas eleições até 2022. Faz parte da aliança das altas classes em favor de si mesmas, que também levou Sérgio Moro para dentro do governo em troca de uma vaga no STF, onde ele mesmo no futuro poderá atuar em favor destes interesses.

E assim o Brasil vai caminhando, através de uma série de sabotagens, golpes e destruições, tudo para que uma pequena fatia da população possa usufruir dos bens e das riquezas da nação, para os quais não contribuíram para gerar através do trabalho.

Nosso único alento é que essas coisas não são novidade na história mundial. E que também não é raro que muitos deles de repente tenham seus pescoços decepados, sejam colocados em paredões de fuzilamento ou campos de trabalho forçado por um povo cuja paciência foi testada ao limite. A história mostra que toda vez que há tensionamentos em qualquer sociedade, também há rupturas. Algumas elites de nações hoje desenvolvidas foram inteligentes durante os últimos séculos e cuidaram para que nunca se chegasse a esse ponto. Outras não, e sofreram com revoltas, violências e revoluções.

E agora, uma população que, graças ao governo, além de revoltada, pode estar armada...


11 de maio de 2019

O problema não é Bolsonaro. É o capitalismo


Bolsonaro é apenas o gerente da vez do capital. Por trás do seu governo desastroso, existem interesses claros de desmanche do Estado e de direitos dos trabalhadores




É verdade, o Brasil tem passado pelo maior desafio da sua história republicana. Jamais um presidente foi tão descaradamente atuante em favor dos preceitos do mercado capitalista — e, claro, dos homens poderosos de carne e osso por trás desse conceito abstrato — como o Sr. Jair Messias Bolsonaro.

Bolsonaro e seu superministro Paulo Guedes têm uma missão clara a cumprir: promover o desmonte total do insuficiente Estado brasileiro, sob as mais diversas cortinas de fumaça como alegação: desde a velha falácia da corrupção, passando por uma suposta doutrinação marxista que contamina as instituições.

O que esses agentes do capitalismo nacional e internacional estão fazendo é levar às raias inauditas do extremismo uma situação corriqueira neste gigante país, que não se desfaz de suas amarras coloniais. Sem contar a Primeira República, onde o Estado fora capturado pelas elites cafeeiras paulistas para funcionar como sede de empresa vendedora de café — enquanto a questão social era tratada como "caso de polícia" —, pelo menos desde o presidente Dutra, nossos políticos em aliança com os capitalistas, e por tabela com os Estados Unidos, se comportam como gerentes dos interesses da burguesia. Dutra ainda teve como bônus no poder a atitude carola, conservadora e moralista que a direita usa a seu favor como indicador de superioridade moral, como hoje.

A mídia, alinhada com os Estados Unidos, "mata" Getúlio Vargas

Em 1950, Getúlio Vargas foi eleito e fez um mandato progressista até seu suicídio, em 1954, por pressão de setores da burguesia, insatisfeitas com o nacionalismo do governo. Empresários, setores da Igreja e jornalistas, exatamente como uns anos atrás nos governos petistas, criticavam diariamente o presidente, acusando-o de "populista", outro termo forjado nas instalações da USP por intelectuais ideologicamente alinhados com o capitalismo, onde qualquer medida em socorro das classes menos favorecidas era condenada.

João Goulart queria Reforma Agrária. Ganhou um golpe

Em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, mais uma vez uma força progressista assume o governo federal pelas mãos de João Goulart. Mais uma vez as mesmas facções reacionárias juntaram forças para atacar o governo, cuja principal medida seria combater os históricos latifúndios brasileiros, uma das maiores fontes de nossa histórica desigualdade. Tanto bateram que conseguiram que as Forças Armadas, outro setor cuja oficialidade faz parte das camadas favorecidas da burguesia, entrassem no jogo político, sabotando-o com um golpe militar.

Não vai ter eleições diretas. vai ter Sarney

Terminado o período de 21 anos sob o arbítrio do autoritarismo, as Diretas Já foram sabotadas em 85, com a eleição por colégio eleitoral de Tancredo Neves. Após a sua estranha e misteriosa morte, assumiu José Sarney, que fez um governo tão desastroso que abriu caminho para o então jovem Partido dos Trabalhadores disputar a eleição direta de 89 com reais chances de vitória.

A burguesia inventa Collor 

Mais uma vez, a aliança espúria entra em cena. Empresários, religiosos, Forças Armadas e principalmente a mídia, através da Rede Globo, promoveram uma campanha criminosa de mentiras e difamações contra o então candidato Lula, para favorecer o incipiente e até então desconhecido Fernando Collor, que ganhou a alcunha de "caçador de marajás" nas mídias capitalistas. Vitória da direita e começo do neoliberalismo no Brasil. Foi o desastre que todos conhecemos.

A elite capitalista de São Paulo funda seu próprio partido, PSDB

Lula ainda representava grande "perigo", e a mídia, enquanto Itamar fazia um mandato tampão, preparava o Príncipe da Privataria para ser o candidato da burguesia nacional. Fernando Henrique Cardoso se prestou a um papel lamentável, o mesmo que Collor começou mas não conseguiu terminar, de responsável pela implementação dos preceitos neoliberais do Consenso de Washington no Brasil. Durante oito anos o Brasil experimentou uma forma de política-econômica destruidora do Estado como árbitro das relações entre capital e trabalho, abriu o mercado nacional a produtos estrangeiros, começando o processo de destruição da indústria nacional, vendeu empresas estatais saudáveis a preço de banana depois de sucateá-las, e etc. Dessa vez o estrago foi grande demais e o povo não queria ver um tucano na sua frente nem banhado a ouro depois de dois mandatos seguidos.

Assim, pela primeira vez, em 2002, o PT venceu uma eleição presidencial. Seu mandato foi marcado por uma "conciliação de classes" que partiu por iniciativa do seu próprio governo, não das classes conservadoras, capitalistas e reacionárias em frangalhos depois daqueles terríveis oito anos no poder.

Ainda fracas, à direita não restava outra alternativa a não ser reagrupar forças, esperar o momento certo para atacar o governo progressista, como sempre. A primeira chance apareceu com a denúncia do "mensalão", uma lamentável prática corriqueira na política nacional, mas muito tolerada com vistas grossas durante os mandatos anteriores. O PSDB, criador do método junto com Marcos Valério, passou a condená-lo no governo Lula.

A direita se recupera e se fortalece

Dois fatores fizeram Lula escapar naquela ocasião: o amplo apoio popular — Lula literalmente buscou os braços do povo — e a estratégia dos tucanos, de não pedir o Impeachment, e sim deixar o governo "sangrando em praça pública" até morrer sozinho, coisa que não aconteceu.

Lula terminou seu mandato com grande popularidade e elegeu sua sucessora, Dilma. Nesse ponto, cansados de perder nas regras do jogo democrático, a direita, sem limites éticos para suas ações, resolveu partir para o ataque sujo na reeleição de Dilma. Primeiro Aécio Neves, seu concorrente, deselegantemente quebrou o protocolo e não reconheceu a vitória petista. A seguir resolveu inviabilizar o governo junto com a direita e o chamado Centrão na Câmara de Deputados, todos eles fazendo a vontade dos mercados e dos capitalistas que já não suportavam mais o PT no poder. O passo seguinte foi bolar um estratagema jurídico falso para justificar um Impeachment ilegal, que foi feito. A partir daí, as portas do poder estavam abertas para os verdadeiros interesses da burguesia.

Caminho livre para o lucro e ataques aos direitos do povo

Michel Temer, o vice que assumiu o governo, assumiu também a agenda capitalista: a Reforma da Previdência. Nesse ponto, mais um elemento golpista alinhado com os interesses capitalistas, sobretudo o dos Estados Unidos, entra em cena: o setor do Judiciário. Primeiro com o Supremo alinhavando a farsa do Impeachment, segundo, com a instituição de uma peça de perseguição política chamada Lava Jato, através do nanico e incompetente Sérgio Moro, que teve o mérito, pela ótica da burguesia, de conseguir prender o ex-presidente Lula com evidências frágeis e ilegais.

Impedido de concorrer, Lula não foi capaz de transferir seus votos a Fernando Haddad. A direita, no poder, mas enfraquecida eleitoralmente pela farsa e má reputação dos seus gerentes políticos preferidos, os tucanos, tiveram que fazer uma aliança com a obscura, raivosa e radical figura de Jair Bolsonaro nesta última eleição, vencida por ele. É o ponto em que estamos.

Esse ponto representa o caminho aberto como nunca na história brasileira para a direita e o capitalismo implementarem livremente seus preceitos econômicos destruidores. Durante todos esses anos, a esquerda foi capaz de resistir e moderar o apetite capitalistas por mais dinheiro e lucros, mas hoje, enfraquecida e dividida como está, assiste o capitalismo passar como um verdadeiro tsunami sobre todas as históricas conquistas sociais do povo brasileiro. A CLT foi destruída, a aposentadoria está em viés de se tornar apenas uma peça de ficção num papel, as empresas brasileiras bem como as nossas riquezas minerais são entregues a empresas internacionais, a Lava Jato destruiu empresas brasileiras e milhares de empregos para condenar Lula, as universidades públicas estão em vias de extinção com severos cortes de verbas, programas sociais são interrompidos, o salário mínimo parou de ser corrigido e os empregos, quando existem, são precários e degradantes.

Isso não é obra de Jair Bolsonaro. É obra do capitalismo, único fator que une facções tão díspares no governo como pastores evangélicos ricos, lunáticos que creem em teorias da conspiração mundial, Forças Armadas em defesa dos seus privilégios e, claro, o setor financeiro, na figura do nefando Paulo Guedes.

Bolsonaro é apenas o gerente da vez, talvez o mais fraco e incompetente, por isso mesmo incapaz de administrar não só o país, como as próprias crises entre seus próprios aliados no governo. Esse papel não é novo, já foi feito antes, conforme demonstrado. O que diferencia Bolsonaro dos outros, é que ele vive uma época em que as esquerdas foram fragilizadas por diversos ataques de mentiras, manipulações e ações criminosas como um Impeachment ilegal, além da prisão injusta do seu maior líder na atualidade. Tal como no fim da Guerra Fria, que fazia o balanço de forças opostas ser equilibradas no mundo, tendo os Estados Unidos partido para um imperialismo violento e indisfarçado a partir da queda da União Soviética, é assim que a direita brasileira se sente hoje, livre para promover todos os seus ataques em nome do lucro capitalista com o enfraquecimento da esquerda. Vão-se embora leis de proteção a áreas indígenas, do meio ambiente, dos direitos humanos, das regras constitucionais, qualquer empecilho que tente se contrapor a um ataque voraz do capitalismo no Brasil.

A esquerda partidária precisa aprender. Precisa aprender com a direita. Primeiro, cessar as lutas intestinas entre si e focar no adversário em comum. É isso que eles, nosso adversários, fazem. Segundo, uma vez alcançado o poder, se é que isso vai acontecer antes da direita destruir as instituições democráticas, agir sem conciliação, sem concessão e sem frouxidão. É preciso varrer de uma vez por todas essa influência maligna do capitalismo sobre a política. Somente reformas na política e nas mídias, na sociedade e nas Forças Armadas serão capazes de preparar o terreno para uma era prolongada de justiça social. Foi a falha que Lula cometeu, ao inventar a aberração de conciliação de classes com inimigos no momento em que deveria ter dado um soco e não a mão. Hoje ele é vítima dessa postura carinhosa com seus adversários.

Ou é isso, ou o Brasil vai caminhar realmente para a barbárie, não importa quem venha depois de Bolsonaro.