21 de abril de 2019

Preço do diesel, caminhoneiros e (falta de) consciência de classe.

Caminhoneiros que apoiaram Bolsonaro sofrem previsivelmente das consequências de um governo a favor dos ditames do mercado



O Brasil vive a expectativa de uma nova greve dos caminhoneiros autônomos para o próximo dia 29 de abril. A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) afirma em nota que o novo anúncio do aumento do diesel deixou os motoristas "enfurecidos" com o governo.

Governo este, lembremos, festejado pela categoria. Tanto que não existe ainda certeza da greve. O presidente do Sindicato Interestadual dos Caminhoneiros, José Natan Neto, afirmou que "o pessoal [os caminhoneiros] gosta do Bolsonaro, e estão esperando para ver se virão medidas para melhorar".

Nada demonstra com mais clareza do que este tema, o quanto a total incapacidade de análise básica político-econômica, aliado a um desconhecimento total da consciência de classe, pode gerar de danos auto-infligidos a uma categoria de trabalhadores.

Ao eleger um candidato à presidente da República, é preciso saber o que aquele candidato representa, para quem ele pretende atuar. Atualmente existem basicamente duas frentes, antagônicas, sobre as quais um presidente deve optar: os pobres e trabalhadores, ou os ricos e o mercado capitalista.

Claro que alguns presidentes brasileiros atuaram bastante em favor do mercado sem, no entanto, negligenciar um aparente cuidado aos pobres, sendo assim explicado como conseguem ser eleitos pela maioria esmagadora de pessoas carentes e despossuídas. Foram os casos, por exemplo, Collor e Fernando Henrique Cardoso.

A questão é que o mundo capitalista estabelece limites para que os tais cuidados com os pobres não sejam tanto a ponto de desequilibrar a histórica balança de desigualdade sócio-econômica brasileira em desfavor dos menos favorecidos, o que garantiria às classes privilegiadas um acesso menor às riquezas nacionais.

Neste ponto, podemos dizer que estes foram os maiores "erros" dos governos Lula e Dilma. Apesar de nitidamente trabalharem pela felicidade dos acionistas, rentistas e capitalistas de modo geral, ousaram tirar milhões da miséria e colocá-los dentro de uma faixa de consumo básico, passando do "limite", assustando a burguesia. Além disso, proporcionaram uma saída da pobreza através da educação de nível superior a milhares de pessoas das classes mais pobres, negras, pardas e indígenas. O momento era tão favorável do país — então a sexta economia mundial —, que não era incomum presenciarmos patrões e empregados num mesmo voo para o exterior — fator, aliás, responsável por um dos maiores chiliques da burguesia nacional.

O que mais Lula e Dilma fizeram, que incomodou tanto a classe privilegiada nacional? Promoveram uma "intervenção leve" nos ditames da economia. Dentre elas, sobre as flutuações do preço do diesel. Para evitar justamente os choques das flutuações constantes do preço internacional, Dilma fez a Petrobras absorver por longos períodos os aumentos em seu custo de produção, garantindo assim a estabilidade dos preços do óleo.

Já no governo Temer, que assumiu depois de um golpe que certamente teve como uma das motivações justamente o controle petista do preço do diesel, que fazia os acionistas da Petrobras perderem dinheiro, o óleo combustível passou a seguir os preços do mercado internacional e todas as suas flutuações imprevisíveis. A conclusão foi uma escalada de sucessivos reajustes pra cima que culminou no aumento de 50 por cento de 2017 para 2018 e a greve dos caminhoneiros por conta disso.

A diferença da política econômica da direita e da esquerda eram claras nessa questão: o PT de Dilma preferiu contrariar o deus-mercado e os acionistas da Petrobras em favor da manutenção de preços estáveis do combustível, enquanto Temer, um nítido gerente dos interesses da burguesia no poder, fez exatamente o contrário.

A questão é que naquele mesmo ano da greve dos caminhoneiros haveriam eleições presidenciais. A zebra do baixo-clero Jair Bolsonaro despontava como favorito, enquanto o PT vinha com o claudicante Haddad. De que lado ficariam os caminhoneiros?

Eis a chave que explica a incapacidade de uma categoria entender questões político-ideológicas que lhes afetam diretamente. Naturalmente, como motoristas de caminhão, deveriam ser a favor do partido que segurou os preços do diesel, evitando assim que o mercado internacional continuasse ditando os preços de fora pra dentro, se lixando para os ricos acionistas que perderiam dinheiro. Mas abraçaram a campanha de Bolsonaro e seu aliado ultraliberal Paulo Guedes, um verdadeiro xerife do capitalismo dentro do poder. O resultado era previsível, só não viu quem não quis. Novo aumento do diesel essa semana e promessa de novos aumentos no futuro, de acordo com os inconstantes humores do mercado.

Muitas vezes a luta de classes se encontra oculta nas brumas do totalitarismo que se tornou o capitalismo em nossas vidas, onde o capital atua nas mais simples esferas da vida até chegar na macroeconomia. Paradoxalmente, de tão presente em nossas vidas, as mazelas do capitalismo se naturalizam e se tornam invisíveis. Só uma profunda capacidade de análise e reflexão são capazes de desnudar esses interesses ocultos.

Nesse sentido, os caminhoneiros foram enganados inocentemente pela burguesia, pelas classes dominantes e pelo setor financeiro, ao crerem que o que era bom para estes setores também seria bom para os trabalhadores. Tudo por falta de uma capacidade de análise teórica da suas vidas e do mundo em que vivem.

Não é tarde para reconhecer o erro e tomar consciência do seu verdadeiro lugar no modo de produção, a de explorados que precisam lutar pelos seus direitos e eleger candidatos que não sejam capachos do capitalismo. Pois os interesses econômicos dos capitalistas e dos trabalhadores jamais serão conciliáveis.

Que esta antiga lição, já meio esquecida por muita gente, seja sempre relembrada por todos nós.


16 de abril de 2019

Bolsonaro vai perder a chance de entrar num museu pela primeira vez na vida

Pressão de funcionários e pessoas influentes funciona, e museu de Nova Iorque veta homenagem a Bolsonaro em suas dependências



Jair Bolsonaro não vai passar "Uma noite no museu", como no filme hollywoodiano. Se, por um lado, os novaiorquinos perderão a chance de ver pessoalmente um espécime humanoide pouco mais desenvolvido do que um neandertal em carne e osso no Museu Americano de História Natural (AMNH na sigla em inglês), por outro serão poupados do constrangimento de abrigar, num dos maiores templos mundiais da ciência, um negacionista, crente em teorias conspiratórias imbecis de internet e difusor de fake news.

Foi tamanha a pressão, de dentro e de fora do museu, para que o evento, que seria sediado no prédio, fosse cancelado, que funcionou. Esta semana os diretores do museu anunciaram que o jantar que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos faria no local em homenagem ao presidente brasileiro teria que ocorrer em outro local.

A desculpa apresentada pela diretoria do AMNH teve a ver com a preservação da Amazônia, uma preocupação internacional que eles não identificam no presidente brasileiro. Certamente escolheram uma justificativa que tivesse a ver com a área de atuação do museu, mas a rejeição a Bolsonaro partiu de diversas áreas dos Estados Unidos, bem como dos diversos empregados da instituição, sob as mais diversas alegações.

O prefeito de Nova Iorque, por exemplo, foi a primeira voz mais importante a fazer a "Call for Battle", ou seja, o chamamento contra a absurda homenagem que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos pretendia fazer no museu. Chamou o presidente brasileiro de "ser humano perigoso" por conta do seu racismo e da sua homofobia. Foi demais para os diretores do museu aguentarem a pressão, até que o evento fosse finalmente vetado na instituição, conforme anunciado recentemente.

Além de notório racista, sexista e homofóbico, Bolsonaro é inimigo da ciência e da educação. Basta dizer que colocou na direção do Ministério da Educação em menos de quatro meses, homens notórios por suas ignorâncias sobre o tema, defensores de teorias infantis de conspiração, além de ter nomeado recentemente um delegado de polícia no Inep, responsável pela elaboração do Enem. Além disso, o presidente anunciou corte de verbas de patrocínio da Petrobras e do BNDES na área da cultura, afetando diretamente eventos culturais importantes como Festival do Rio, Festival de Cinema de São Paulo, Anima Mundi, Festival de Cinema de Vitória, Prêmio da Música Brasileira, Clube do Choro em Brasília, entre outros.

Como um presidente desses pôde merecer o prêmio de "personalidade do ano", que lhe seria oferecido no museu de Nova Iorque pela Câmara de Comércio?

Porque para os capitalistas, para os homens de negócio, das finanças e do mercado, tudo o que importa é como o seu capacho gerencia o comitê dos interesses econômicos da alta burguesia, que representa hoje o governo brasileiro. Questões morais e éticas passam longe do capitalismo, como a história já mostrou por diversas vezes. Para estes homens brancos, velhos, gordos e engravatados, Bolsonaro merece um prêmio por ter arrochado o trabalhador, poupado os ricos, ter parado pela primeira vez em quase 20 anos o aumento real do salário mínimo, por estar propondo uma reforma da Previdência draconiana com os mais pobres, e estar vendendo o Brasil para os interesses econômicos dos Estados Unidos.

Ainda bem que, pelo menos, os homens da ciência ainda são sensatos a ponto de barrar a entrada de um ser humano tão vil e abjeto nas nobres dependências do museu, um templo do saber e do conhecimento. Deixe que as aves de rapina do capitalismo arrumem outro lugar mais apropriado para bajular seu funcionário político. Em Wall Street, por exemplo. Batendo o martelo da venda de alguma empresa brasileira, como na lamentável e criminosa cena do então ministro José Serra, batendo o martelo da venda da Vale do Rio Doce na Bolsa de Valores do Rio, tempos atrás. Era o capacho de então.