12 de fevereiro de 2019

2019 não tem sido fácil

2019 não tem sido fácil
Sucessão de tragédias nesse ano de 2019 começou bem antes, com o descaso das autoridades em vistoriar e punir tudo o que coloca a vida em risco no Brasil

Essas últimas semanas não têm sido fáceis para nosso país. Uma sucessão de tragédias ocorreram e deixaram a população brasileira em estado de perplexidade e luto, pelas mais diversas razões.

Seja na política, com as medidas draconianas previstas para serem postas em prática, seja por afirmações totalmente ridículas proferidas por membros do alto escalão do governo, ou por tragédias misturadas com descaso das autoridades, o fato é que parece que o Brasil vive um pesadelo sem fim desde que este ano começou.

Minas e Rio de Janeiro parecem ser o palco dos principais eventos. Depois da queda da barragem de Mariana, agora Brumadinho, três anos depois, sofre mais uma vez com esse tipo de desastre. A Vale, empresa de mineração que foi privatizada criminosamente no governo de Fernando Henrique Cardoso, resolveu desinvestir em segurança para lucrar mais no fim do mês. É a essência de todo empreendimento privado: cortar aonde puder para potencializar os lucros. O resultado dessa filosofia capitalista é o número de 165 mortos, mais de cem desaparecidos e um estrago ambiental para mais de 100 anos até a sua plena recuperação — se é que isto vai ocorrer.

No Rio de Janeiro a decorrência de eventos é ainda mais chocante. Somente nessas últimas semanas, tivemos uma chacina policial no morro do Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, que nos dá uma prévia do que será a atuação da PM em áreas carentes a partir da carta branca que representa as propostas enviadas ao Congresso por Sérgio Moro.

O Rio também foi alvo de uma torrencial tempestade de ventos com quase 120 quilômetros/h, que destruiu casas, estruturas, automóveis e — o mais grave de tudo — deixou um saldo de 7 mortos.

Ainda no Rio, sem dar tempo para o luto, outra tragédia: 10 adolescentes mortos no alojamento do Clube de Regatas do Flamengo, vítimas de um incêndio causado por um curto-circuito num aparelho de ar-condicionado. Dois dias depois, outro incêndio ocorreu na Zona Oeste, nas instalações da Aeronáutica usadas pelo Bangu Atlético Clube como centro de treinamento.

Para citar outros casos em outras regiões, ontem um incêndio de grandes proporções atingiu a usina de Belo Monte, no Pará, sem deixar feridos, e um helicóptero que não tinha licença para transportar passageiros caiu em São Paulo, se incendiando e matando além do piloto, o jornalista Ricardo Boechat.

O que podemos tirar de conclusão desse compêndio de desgraças que assolam esse ano de 2019?

Pra mim, algo muito claro: a vida, neste país, não vale nada para quem tem o poder. Morre-se como insetos, vítimas de um desdém institucional de governantes e empresários.

Em Minas, a primeira tragédia de Mariana ficou barato. Multas irrisórias aplicadas que não foram pagas, vistorias aprovadas com assédio moral a engenheiros, repetição da tragédia em Brumadinho e nenhuma, absolutamente nenhuma medida drástica contra a Vale, como por exemplo a reestatização da empresa, que nem deveria ter sido privatizada, a propósito.

No Rio, uma cena comum, a de moradores de comunidades carentes sendo assassinados numa guerra imbecil contra as drogas, que transforma o negro da periferia em inimigo em potencial. Suas mortes jamais são investigadas, seus assassinos nunca são punidos. Ninguém se importa com eles.

A prefeitura da cidade, por sua vez, passou os últimos 5 anos cortando investimentos em prevenção de chuvas, tendo responsabilidade direta na tragédia, que não é "natural". Ao contrário de um tsunami ou um terremoto totalmente imprevisíveis, o fenômeno das chuvas no Rio são esperados sempre para esta mesma época do ano e há pelo menos 100 anos o carioca sofre com o descaso das autoridades.

No Flamengo, existe a informação de que o clube funcionava tranquilamente pelo menos desde os últimos 2 anos sem alvará do corpo de bombeiros, tendo recebido mais de 30 multas e mesmo assim continuava com suas portas abertas. Não se sabe ainda o grau de responsabilidade do clube na morte dos jogadores da base, mas ela existe e por mais que agora se tente colocar os documentos em dia, aquelas 10 vidas não vão mais voltar.

Nossa história de desprezo pela vida humana vem de longe, está estampada no nosso passado e no nosso presente. O mais triste de tudo, é que eventos apocalípticos como os que têm acontecido não servem para uma mudança de rumos. Não se aproveita o momento de reflexão para dar um basta no descaso contra a vida, sempre se vai arrumar um bode expiatório para se amenizar o quadro, visto sempre de forma isolada, como um "acidente", uma "fatalidade" que foge do controle das autoridades.

E assim, infelizmente, temos a certeza que muitas outras catástrofes estão aí, prestes a acontecer, como uma bomba-relógio acionada por uma roleta russa do descaso.