Sérgio Moro, o Cavalo de Troia do PSDB dentro do governo?

Político com ligações tucanas é alvo de suposições de que teria vazado investigações do Coaf para a Rede Globo atacar o governo Bolsonaro


Nesta semana, o mundo político brasileiro ficou surpreendido com o grande destaque que a Rede Globo deu sobre as investigações do Conselho de Controle de Movimentações Financeiras (Coaf), a respeito das movimentações financeiras suspeitas envolvendo o motorista do filho do presidente Jair Bolsonaro. Na sexta, por exemplo, o Jornal Nacional dedicou quase cinco minutos sobre o tema, escancarando em rede nacional uma saia justa que colocou membros do governo de cabelo em pé.

O Coaf foi criado e se manteve vinculado, como seria a lógica, ao Ministério da Fazenda. Numa manobra controversa que desagradou diversos especialistas, o presidente baixou um decreto e transferiu o órgão para o chamado Superministério da Justiça a cargo de Sérgio Moro. Com essa medida, podemos muito bem especular, Jair Bolsonaro pretendia blindar as artimanhas de Flávio Bolsonaro e de seu motorista laranja, confiando que Moro manteria discrição sobre quaisquer malfeitos que por ventura fossem descobertos. Mas não foi isso que aconteceu, como os vazamentos das investigações para a Rede Globo mostram.

Jair Bolsonaro era apenas o plano B da burguesia nacional 

Jair Bolsonaro se elegeu graças a um efeito colateral imprevisto e indesejável do golpe perpetrado no governo Dilma pela burguesia nacional. O plano inicial era, sem dúvida, bombardear o PT, manchando sua a reputação, impingindo-lhe a pecha de maior, senão de único partido corrupto do país, abrindo o caminho para o PSDB assumir o poder pelas vias tortas. No entanto, por mais que a Globo atacasse violentamente o PT e acobertasse os diversos escândalos envolvendo os tucanos do PSDB, a estratégia falhou. Para a opinião pública em geral, e isso envolvia especialmente grande parte das classes médias, o PSDB entrou na ciranda e queimou seu filme tanto quanto o PT.

Isso deixou a burguesia nacional sem opções. Com os tucanos, fonte de seus quadros preferidos, totalmente desmoralizados, foi preciso confiar num tresloucado, imprevisível, raivoso e radical nanico político chamado Jair Bolsonaro, do baixo clero da Câmara há 30 anos, para depositar todas as suas fichas, na esperança de que a faixa presidencial pudesse arrefecer seus ânimos selvagens. Não aconteceu.

A burguesia ainda prefere os tucanos 

Ora, nada é mais caro para a burguesia, e consequentemente para o mercado capitalista, do que a paz e a estabilidade para que os negócios possam fluir. E o Brasil se encontra em plena agitação, clima de instabilidade e de perplexidade geral a cada novo pronunciamento de alguns dos ministros deste governo. Isso sem falar nos diversos quadros envolvidos em casos de corrupção, que já constrangeram o próprio Moro como no caso do pedido de "perdão" de Onyx Lorenzoni. E agora lavagem de dinheiro envolvendo o filho do próprio presidente, um senador eleito pelo mesmo partido do presidente...

Moro, o cavalo de Troia no governo 

Diante desse cenário, era natural que começassem a surgir suspeitas de que os vazamentos do Coaf — órgão que, relembramos, está agora diretamente subordinado ao ministério do Moro — foram autorizados pelo ex-juiz da Lava Jato. Mas a troco de que Sérgio Moro faria esse procedimento arriscado?

É só ligar lé com cré. Moro é tucano, e isso não é novidade. Moro tem ligações estreitas com a Globo, que é tucana. O tucanato do PSDB é tradicionalmente o partido da burguesia nacional desde os governos FHC. A burguesia já começa a se mostrar insatisfeita com os rumos que este governo está tomando em direção à desmoralização total. Moro, de dentro do governo, pode destrui-lo, expondo as entranhas corruptas dos Bolsonaro, até que este governo se torne insustentável, e se colocar, ele próprio, como a nova opção da burguesia, mais sereno, mais ponderado e, portanto, mais indicado.

Aí os tucanos teriam duas opções para emplacá-lo. Ou minam este governo aos poucos até o fim do mandato, como em 2006, diante do escândalo do mensalão petista, quando tinham a opção de propor um Impeachment mas preferiram a estratégia (hoje sabemos, equivocada) de fazer o "governo sangrar" para desgastá-lo mais, ou inviabilizam o governo pela via parlamentar junto com os demais partidos do chamado Centrão, como fizeram com Dilma, levando-o ao caminho do Impeachment.

Cabe às esquerdas, nesse contexto, estarem atentas na crise que começa a aprofundar no seio da própria direita para tomar os possíveis espaços vazios nos vácuos de poder que a prolongada crise política pode levar.

Resta saber se as nossas esquerdas partidárias, fragmentadas, desunidas e doidas pra se colocar à reboque do Rodrigo Maia, terão condições de fazer qualquer coisa.


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