4 de janeiro de 2019

Por que já há tantos arrependidos em votar no Bolsonaro? O marxismo explica

A emblemática imagem: operários desmontando o letreiro do Ministério do Trabalho, extinto neste governo

Karl Marx está mais vivo do que nunca, e continua sendo cada vez mais importante para entendermos o mundo capitalista em que vivemos.

Um dos fatores mais surpreendentes nesse período de pós-eleição e começo de governo Bolsonaro, é o número surpreendentemente grande de pessoas arrependidas de votarem no "mito". São pessoas que, logo após apertarem o 17 na urna, começaram a tomar conhecimento de medidas e ações totalmente incompatíveis com o discurso moralista e "patriótico". Casos como o do laranja Fabrício Queiroz, que joga por terra a ilusão de incorruptibilidade dos Bolsonaro, além de medidas que prometem afetar direta e, principalmente, negativamente quem votou neste governo. 

O site Dever de Classe traz duas reportagens que ilustram bem como, em pouco tempo, as pessoas já se encontram totalmente desapontadas. 

O primeiro é o caso de uma ex-servidora (pública, o que é mais sintomático) do Ministério do Trabalho, que abriu os olhos depois que a pasta foi extinta e suas funções incorporadas no Ministério de Cidadania, Economia e Justiça, como algo sem importância que deve ser diluído, desaparecido no meio de outras atribuições. Seu arrependimento é publicado no facebook, conforme destaque a seguir: 



Outro caso emblemático é a parcela significativa de homossexuais que declararam voto em Bolsonaro nesta eleição, nada menos do que 29 por cento! Não obstante a violência, o ódio, o terror vivido por esta parcela da população por conta de preconceitos pesados que Bolsonaro ajuda a alimentar, ainda assim 3 de cada 10 gays o apoiaram. E receberam de presente logo nas primeiras horas de governo o fim da promoção das demandas LGBT pela pasta dos Direitos Humanos. Para onde vai, se é que vai? 

O Dever de Classe mostra como alguns leitores do site Gay1, voltado ao público homossexual, reagiram depois de terem apoiado o presidente eleito. É o caso de Thiago N, que disse: "Achei que era brincadeira ou fake news quando o capitão dizia que não gostava da gente. Só me resta agora reconhecer o erro e lutar para não ser perseguido". Casos como esses aumentam incrivelmente dia a dia, como mostra uma página no facebook criada especialmente para colher estes relatos arrependidos. 

Por que as pessoas pensam e agem contra si mesmas 


É aí que entram os velhos conceitos marxistas. 

Primeiro vamos dizer que o conceito de classe não se restringe, apenas, como na época de Marx, à classe operária das fábricas. Este conceito já foi modernizado pelo filósofo marxista italiano Domenico Losurdo*, que ampliou o conceito de classe para o conjunto das minorias, as mulheres, negros, homossexuais e qualquer grupo que tenha consciência de si mesmo e do grupo a que pertence. E essa é a questão chave.

Todas estas parcelas da população, numa sociedade onde as elites são brancas, cristãs, capitalistas e patriarcais, como no Brasil, sofrem algum tipo de exploração, violência e injustiça. Por que não se revoltam? 

Porque toda a exploração, violência e injustiça são muito bem ocultadas. As classes dominantes têm os meios de promover o seu mundo como o ideal, e fazem isso através das superestruturas, que nada mais são do que a escola, os meios de comunicação, as universidades, a internet, que promovem o mundo burguês com portas abertas para todos sem distinção, ideia falsa que acaba indo parar nas classes trabalhadoras através do senso-comum. Todo mundo seria igual e com os mesmos direitos.

No caso da última eleição, a mentira, a farsa e a manipulação foram levadas a níveis cavalares, cercando a opinião pública de todos os lados, criando uma onda cega em torno de um candidato que passou a ser mais um personagem do que um homem de carne e osso. 

A "falsa consciência", ou seja a ideologia das classes dominantes, aquilo que ela deseja passar como verdade e que acaba se infiltrando nas mentes das camadas inferiores, faz o pobre pensar com a cabeça do rico; o negro pensar com a cabeça do branco; a mulher pensar com a cabeça do homem, e por aí vai. 

Só há um jeito de romper este ciclo. Tomar consciência de si mesmo, saber que papel você foi destinado a exercer neste mundo, e romper com ele. Ter consciência que sua classe é vítima, é explorada, vilipendiada e enganada para promover o bem-estar e os privilégios de outras classes, que não a sua. 

Quando acordamos para este fato, nunca mais defenderemos algo que vai de encontro aos nossos próprios interesses. Nunca mais, seguindo os exemplos dados neste texto, veríamos uma servidora pública votar em alguém que prometeu votar pelo desmanche do Estado, dos direitos trabalhistas e da seguridade social, nem veríamos homossexuais, uma expressão de 29 por cento deles, votar num histórico, violento e notório homofóbico. Pessoas que hoje estão surpresas com as medidas do governo e se arrependeram, mas ainda não abriram os olhos. 

Como esses grupos podem aprender a ter consciência e lutar de forma eficiente contra o monstro que eles próprios ajudaram a criar é assunto para uma próxima postagem. 
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*LOSURDO, Domenico. A luta de classes: uma história política e filosófica. São Paulo: Boitempo, 2015


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Professor de História, Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), carioca, usa este espaço para comentar sobre os assuntos da política e da sociedade de forma simples e clara, sem, no entanto, abrir mão do rigor da checagem dos fatos.

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