Generais saem das sombras para passar vergonha no governo

Ao todo, governo Bolsonaro terá mais militares do que governos da ditadura

Em 1961 o Brasil passava por uma grave crise política com a renúncia do presidente Jânio Quadros. Naquela ocasião, os avós dos golpistas de hoje, batedores de panelas, patos e coxinhas de então, estavam alarmados com a possibilidade do vice-presidente João Goulart assumir o poder.

Tomando a frente da indignação desses grupos, os três oficiais militares no Ministério da Defesa lançaram um manifesto contra a posse legítima e constitucional de Jango, que estava em viagem oficial na China. Queriam que uma junta militar assumisse o poder até que fossem realizadas novas eleições. Foi a primeira vez em muitos anos, talvez desde a Revolução de 30, (em 1946 o general Eurico Gaspar Dutra foi presidente, mas pelas vias eleitorais) que os militares tomavam a frente nos rumos políticos do país. E passaram vergonha.

Aos poucos, o governador do Rio Grande do Sul na ocasião, Leonel Brizola, numa campanha nacional pela legalidade, conseguiu mobilizar grande parte da opinião pública em favor da posse de Jango, deixando os generais da Marinha, do Exército e da Aeronáutica em situação embaraçosa diante da nação.

O recuo dos ministros militares se deu na forma acordada com o Congresso na forma de um parlamentarismo votado às pressas, um golpe mais suave que tinha duas vantagens: fazer Jango assumir sem os plenos poderes do presidencialismo e diminuir um pouco a desonra causada pelo golpe frustrado dos generais. Mas eles não desistiriam tão fácil e o ressentimento os fez trabalhar numa tática diferente.



Aprenderam que qualquer movimento de derrubada de um governo precisa ter o respaldo de amplos setores da sociedade, e por isso se juntaram com os setores mais reacionários do empresariado, da Igreja Católica e da imprensa. Era preciso trabalhar as mentes das pessoas para justificar a ação militar.

Quando Jango recuperou seus plenos poderes com a antecipação do plebiscito em 1963, estes setores aceleraram a conspiração de propaganda, que alardeava uma República Sindicalista que supostamente Jango queria implementar no Brasil com os comunistas. A iniciativa culminou nas Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, onde senhoras emperequetadas das classes médias, carolas da Igreja e esposas de militares e empresários foram pras ruas pelos braços da Igreja católica com os mesmos lemas que hoje em dia seus netos usaram para combater a esquerda: "O Brasil não será uma nova Cuba"; "Salvem o Brasil do Comunismo" e outras besteiras ridículas.

Mas a questão é que os milhões de velhas senhoras e jovens carolas nas ruas do Sudeste deram a legitimação da ação golpista que os militares precisavam, e de fato, ela ocorreu em 1964.

Foram 21 anos no poder desde então, até que as conjunturas mundiais mudassem e um governo ditatorial passasse a ser visto como algo anacrônico e desnecessário.

Aqui entra a importante questão: desde os anos 80, e até há pouco tempo, para combater o regime e se descolar do governo militar, a burguesia brasileira, que engloba todos os setores que apoiaram e tiraram proveito do Golpe de 64 junto com os militares, resolveu colocar exclusivamente na conta das Forças Armadas todos os arbítrios pavorosos cometidos durante o regime, como torturas, perseguições, censuras e etc.

Os militares saíram do poder altamente ressentidos, e resolveram, desde 85, tutelar a "democracia" da Nova República de longe, sem aparecer nos holofotes da política. Mas isso não durou muito.

O primeiro sinal de que os militares estavam fazendo as pazes com a burguesia foi o decreto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) sancionado no apagar das luzes do governo Fernando Henrique Cardoso. Com essa lei, os militares poderiam fazer papel de polícia, sempre que solicitados pela presidência da República. Em operações de grande e custoso aparato e de resultados duvidosos, como na recente intervenção federal no Rio, os militares começaram a aparecer no cenário mais uma vez. Mas foi na última eleição que eles retornaram ao protagonismo político.

Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército que respondera por atos de indisciplina na corporação e que planejou atentados terroristas, uma vez eleito, não se fez de rogado e trouxe pra dentro do governo diversos oficiais militares, que aceitaram de bom grado dividir o poder com defensores da Terra plana, olavistas, evangélicos lunáticos e defensores de teorias conspiratórias.

O resultado é que há apenas 18 dias o país assiste a um espetáculo dantesco de declarações estapafúrdias, decisões equivocadas, reviravoltas em decisões tomadas com grande alarde, ameaça de guerra insana, diplomacia que é piada internacional e o pior, diversos casos de corrupção explícita.

Mesmo tendo saído por baixo do regime militar que implementaram de 64 a 85, os militares ainda retinham um dos poucos capitais morais que lhes restaram, sendo fruto de verdade ou não: a de que seriam eles totalmente refratários às seduções da corrupção.

Essa imagem todo dia sofre um abalo, cada vez que, por exemplo, um Ônix Lorenzoni aparece em casos assumidos de caixa dois e o motorista do presidente em lavagem de dinheiro, pra ficar só nos casos mais notórios. O desconforto de ver militares fardados ao lado dessas figuras medíocres da política não podia fazer mais mal a já não muito ilibada imagem das Forças Armadas.

Aliás, sempre que os militares se dispuseram a ser o instrumento de uso da força da burguesia, em todos os golpes de Estado desde a derrubada da Monarquia, não fizeram apenas mal ao Brasil, mas a si mesmos.

Resta agora saber qual das três alternativas os militares escolherão, considerando que as sandices deste governo não terminarão na semana que vem: ou aguentam firmes e ficam no poder todos estes longos quatro anos e carregam junto de si todas as chacotas que o Brasil já endossa contra este governo de sacripantas; ou saem discretamente de cena, renunciando aos cargos e voltando de fininho para a caserna; ou resolvem cagar logo tudo de uma vez, pra lavar a honra, e dão mais um típico golpe de coturno e derrubam o governo.

De qualquer forma, era melhor os militares não terem embarcado nesta belíssima canoa furada.

3 comentários:

  1. Esse povo deveria ter ficado nos quartéis... e os aposentados em casa e nas praias de bermudas e curtindo a natureza.

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  2. Não pode criticar nada desse novo governo, porque se criticar você automaticamente é petista.

    Agora a gente sabe quem realmente tem político de estimação.

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    1. Isso acontece comigo nas redes sociais. Sabe o que parece? Robôs humanos rodando programas desatualizados, esperando a mídia lançar o programa de 2019...

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