Brasil de Bolsonaro inaugurará inédito fascio-capitalismo



Hoje começa uma nova era para o Brasil. Pela segunda vez, e não pela primeira, como se tem dito por aí — se levarmos em conta a ditadura varguista do Estado Novo — o país experimentará um governo de extrema-direita.

E o que isso significa? Vamos ter alguma ideia logo mais, no discurso de posse do presidente Jair Bolsonaro. Mas em linhas gerais, haverá uma reação governamental a conquistas dos chamados grupos minoritários nos últimos 15 anos, que incomodaram bastante as classes médias. Além disso, soluções violentas para combater a violência, bem do feitio desses grupos demagógicos. No entanto, pelo menos em um aspecto, o governo que beira o fascismo que está por vir tem uma característica especial. Vamos aos detalhes históricos primeiro.

Nazistas e fascistas anticapitalistas

Quando Mussolini e Hitler chegaram ao poder, respectivamente na Itália e na Alemanha, tanto estes ditadores quando grande parte da população de seus países tinham uma clara rejeição ao liberalismo, que durante o período anterior à ascensão de ambos, tinha provocado duas guerras mundiais com uma crise econômica devastadora entre elas. Estes governantes odiavam não somente as democracias liberais, como o próprio capitalismo, conforme ambos deixaram bem claro em diversas ocasiões*.



Apesar de Hitler ter se apoiado em grandes empresários por questões de conveniência, o sistema econômico era totalmente controlado pelo Estado, pelas mãos de Göring. Durante o Terceiro Reich, os alemães — e é duro ter que reconhecer alguma benfeitoria do nazismo, pra ser justo — tiveram pleno emprego e melhora na sua qualidade de vida, porque o capitalismo selvagem que levara ao caos em décadas anteriores tinha sido descartado. O mesmo na Itália fascista, com a Carta del Lavoro em 1927, que dava garantias aos sindicatos e trabalhadores. Embora também com algumas concessões ao setor empresarial, estava claro que o livre mercado não teria abrigo na Itália.

No Brasil, Vargas controla capitalismo com direitos aos trabalhadores

No Brasil, a partir de 37 com a ditadura varguista, por muitos considerada com inspirações fascistas, o Estado forte também assumiu garantias aos trabalhadores. Através da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) muitos direitos foram assegurados, a despeito da gritaria histérica de liberais na imprensa e no setor empresarial. Isso significava que o Estado, em nome de um certo equilíbrio, intermediaria as relações entre capital e trabalho, garantindo por lei benefícios que o livre capitalismo não é capaz de oferecer, por ser contra a sua natureza.

Mas e o governo que começa hoje? 


Alguns historiadores consideram ser exagerado, e até anacrônico, denominar Bolsonaro fascista. Não na nossa concepção. Basta diferenciar o fascismo histórico dos anos 20 ao 40 do século XX daquilo que podemos chamar de neofascismo, com suas características similares. Bolsonaro já se mostrou xenófobo com minorias étnicas, dos indígenas brasileiros aos exilados venezuelanos e haitianos; já se mostrou totalmente antidemocrático em diversas ocasiões, tendo prometido, por exemplo, liberar o porte de armas por decreto; é um notório demagogo, líder de um partido nanico que cresceu na onda de falácias e mentiras propagadas por veículos de mídia disponíveis; faz uma guerra particular criminalizando as minorias; fez aliança com um determinado segmento religioso que será manipulado a seu serviço. Não lhe faltam os predicados.

O que o neofascismo Bolsonarista tem de característica sui generis é não a sua oposição estratégica, mas a sua aliança com os preceitos do mercado capitalista, o que, de fato, o diferencia do fascismo histórico.

Em vez de garantir direitos para capturar os trabalhadores das garras do capitalismo, propõe o desmanche do Estado e do seu papel mediador dos inconciliáveis conflitos de interesses entre os capitalistas e os trabalhadores; rasgou a CLT, abrindo as portas para a precarização do trabalho; destruiu relações comerciais favoráveis com nações parceiras em nome da ideologia neoliberal estadunidense, que aderiu incondicionalmente. Até seu nacionalismo é enviesado, quando não defende o Brasil contra a rapina das empresas estrangeiras em cima de nossas riquezas naturais, coisas que até Hitler acharia inconcebíveis. Enfim, através do chicago-boy Paulo Guedes, promete saciar todos os apetites do empresariado frente ao trabalhador desprotegido e despojado.

Nesse ponto, podemos chegar à inegável conclusão: os próximos quatro anos não serão de um governo fascista. Serão piores.

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* ver A Ascensão e Queda do Terceiro Reich: Triunfo e Consolidação, volume 1, de William L. Shirer


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