A briga Ciro Gomes vs. PT que inviabiliza uma candidatura de esquerda em 2022

Lula e Ciro. Briga inviabiliza uma candidatura de esquerda com reais chances em 2019

Por uma questão circunstancial, Ciro Gomes não envergou a faixa de presidente da República em 2019. Era o único candidato cujas pesquisas indicavam uma vitória no segundo turno contra Jair Bolsonaro. Mas para isso, precisava chegar no segundo turno, e o PT foi decisivo para que isso não acontecesse.

Com a menor taxa de rejeição entre todos os candidatos, ainda assim Ciro amargava a terceira colocação no pleito. O PT teve como estratégia não a derrota das forças reacionárias e conservadoras que hoje assaltam o governo com nepotismo, entreguismo e obscurantismo, mas sim mostrar ao Brasil que Lula, preso e condenado, deveria ser o candidato, deixando uma aliança de esquerdas pelo caminho. Estratégia inócua, e na última hora, Fernando Haddad foi confirmado como o candidato petista, ele que, apesar de herdar grande parte dos votos lulistas, herdou também a enorme rejeição ao PT, que lhe proporcionou não a vitória, mas o segundo lugar.

Tudo isso, e mais algumas puxadas de tapete que o PT lhe proporcionou em eleições passadas fizeram Ciro Gomes tomar a decisão compreensível não só de se afastar do PT, mas de denunciá-lo como um partido que se lambuzou nas práticas sujas do poder.

Sempre que solicitado, Ciro tem dado entrevistas bastante duras contra o Partido dos Trabalhadores, numa estratégia que aparentemente não se explica apenas por ressentimento. É uma estratégia em conjunto com outros partidos de esquerda, que, por enquanto, englobam o que os militantes petistas chamam pejorativamente de "bloquinho": PDT, PSB e PCdoB, numa aliança de esquerda que pretende isolar os petistas e aquilo que consideram hegemonismo do partido, para disputar as próximas eleições tendo Ciro como candidato.

Não é uma estratégia muito eficiente. No entanto, o PT não lhe deixa alternativas, o que cria o impasse.

Ciro Gomes não é um candidato puro-sangue de esquerda. Nunca foi. Apesar de propostas bastante progressistas nesta última eleição — algumas mais até do que o próprio PT ousou defender — seu apoio no seio das esquerdas se deve mais a uma carência de quadros capazes de disputar uma eleição de envergadura nacional. Neste cenário, encontrou um nicho onde pode crescer, mas só irá crescer, segundo sua estratégia, se neste cenário colocar Lula como adversário. Então a estratégia é bater no PT, bater no Lula, para tirar-lhe o protagonismo na trincheira da oposição de esquerda.

O problema é que o PT ainda é a maior bancada do Congresso, é o maior e mais forte partido da esquerda. Cada vez que Ciro bate no PT, ganha a simpatia da direita e não consegue trazer pra si os votos da esquerda. A raiva que tem provocado nos petistas mostra bem isso. São votos que farão falta.

É preciso lembrar que Lula possivelmente será solto antes do próximo pleito presidencial em 2022. No entanto, dificilmente terá direitos políticos para concorrer. Ao se afastar de Lula como estratégia e dos seus eleitores, cada vez mais antipáticos a Ciro, em vez de disputá-los, o candidato do PDT precisará recorrer aos chamados partidos de centro (direita) para viabilizar uma campanha que já não será tanto de esquerda.

Por outro lado, Haddad, já mais experiente e conhecido, junto com um Lula sem poder concorrer mas em plena campanha ao lado dele nos palanques petistas, já que dificilmente o líder petista considerará o apoio a outro candidato de outro partido, poderá colher melhor o capital eleitoral que provavelmente Lula manterá, agora como uma espécie de Nelson Mandela brasileiro. No entanto, não será suficiente, já que certamente também herdará a enorme rejeição que o PT carrega e que dificilmente dela livrar-se-á nos próximos anos. Além disso, sem o apoio dos partidos de esquerda, adivinhem onde o PT buscará suas alianças eleitorais?

Tendo o PT como hegemonista em sua conta, que esmaga o crescimento de quadros de esquerda em outros partidos — análise que tem a sua verdade — os demais partidos de esquerda com representação no Congresso querem se desvincular do petismo e de sua rejeição na opinião pública, avaliando que o partido é traiçoeiro e totalitário. Por outro lado, abrem mão de disputar uma fatia significante dos 35 milhões de eleitores que declararam voto em Lula, mas que atualmente sentem repulsa das declarações de Ciro.

Provavelmente nem Ciro, nem Haddad conseguirão emplacar uma candidatura de esquerda viável neste cenário, o que não é bom para ninguém. E não parece haver perspectiva de entendimento no futuro.



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