23 de janeiro de 2019

Mundo conhece Bolsonaro e reações vão de surpresa a decepção

A participação de Bolsonaro em Davos provocou diversas reações negativas entre jornalistas e especialistas em diplomacia no mundo. 
Bolsonaro almoça sozinho em Davos. O retrato de alguém que ninguém quer por perto

Desde ontem, com sua participação esdrúxula no Fórum de Davos, o mundo passou a conhecer melhor o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. E ele não decepcionou. Quer dizer, decepcionou muito, mas foi exatamente aquilo que as pessoas estavam esperando: um fiasco. E isso ficou bastante claro nas manchetes dos principais jornais do mundo hoje, resumido na descrição "big fail" (ou "grande fracasso" em tradução livre).

Nunca um político discursou por menos do que 10 minutos. Bolsonaro resumiu o seu em apenas 6. Não que não tivesse muitas dúvidas a esclarecer aos participantes, mas, no entanto, escolheu falar pouco para errar o mínimo. E ainda assim errou bastante. O mercado financeiro, o grande anfitrião de Davos, reagiu de forma negativa, e os reflexos do discurso pífio refletiram na bolsa e no dólar.

Mesmo tendo uma postura de total rendição incondicional aos preceitos do mercado, prometendo abrir as pernas do Brasil ao comércio mundial, nem mesmo assim Bolsonaro empolgou. Prometeu na meca do mercado livre um comércio "sem viés ideológico", ou seja, ao fim e ao cabo, um comércio não regulado pelo mercado e sim pela patrulha do Estado, que decide com quem o Brasil pode ou não pode fazer comércio. E essa postura ridícula, que pressupõe que até aqui o Brasil tem privilegiado nações em detrimento de outras para fazer comércio, promete justamente privilegiar nações em detrimento de outras para fazer comércio.

Esse viés totalmente radical do governo Bolsonaro, encarnado em Ernesto Araújo, um dos mais despreparados e lunáticos ministros das relações exteriores que se tem notícia no Brasil, já começa a ter efeitos catastróficos práticos para a economia nacional. Por uma escolha, mais uma vez, ideológica, de alinhamento servil aos interesses internacionais dos Estados Unidos, comprando animosidades que não são nossas, como por exemplo a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, o Brasil acaba de perder o maior mercado internacional para venda de frangos. A Arábia Saudita, numa clara retaliação ainda não assumida como tal, suspendeu a compra de 33 frigoríficos brasileiros.

Como consequência em cadeia, os frigoríficos não compram dos pequenos produtores de frangos ao redor do Brasil, que não compram a ração que os alimenta, paralisando diversos setores de uma vez.

Um tiro no próprio pé, fruto de uma visão tacanha, mesquinha e imbecil de isolamento entre "nós e eles", bem típico da diplomacia ianque, que começa a destruir a reputação mundial do Brasil tanto na diplomacia quanto na economia internacional. Fato que pode ser perfeitamente ilustrado com Jair Bolsonaro almoçando sozinho no fast-food de Davos enquanto os demais líderes mundiais confraternizavam e trocavam ideias entre si.

É o retrato do novo Brasil xiita.


22 de janeiro de 2019

Sobre os fundamentalismos religiosos de hoje no mundo

O extremismo, que hoje choca, foi praticado durante séculos. Foi o advento da Razão que obrigou religiosos a suavizar suas práticas

Em julho de 2011, Anders Behring Breivik (imagem acima fazendo a saudação nazista no seu julgamento), um ativista norueguês da extrema-direita, considerado “fundamentalista” cristão, provocou a morte de 76 pessoas, e feriu quase 100 em dois atentados naquele país. Muito se enfatizou o aspecto extremista de seu manifesto religioso e de sua conduta, como se fosse um lunático ou alguém que tivesse praticado um ato contrário ao que pregam as religiões.

Quero chamar a atenção para um detalhe importante: quando acontece um caso como esse, é comum a mídia em geral tratar os religiosos que o praticam como fundamentalistas, seja um solitário católico como Breivik ou um grupo islâmico, por serem uma parcela menor com métodos questionáveis dentro de determinada religião, que seria, no seu âmago, boa, pura e inocente. Mas eu vejo de modo um pouco diferente. Na verdade, chamamos de fundamentalistas aqueles que praticam a religião ortodoxamente, rigidamente, fielmente, e, portanto, são os autênticos religiosos. Explico adiante.

Fundamentalistas, na verdade, são religiosos legítimos

O fundamentalista religioso (fundamentalismo: "doutrina que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal dos textos religiosos") na realidade, é o verdadeiro religioso, porque não cria nenhum juízo de valor sobre as consequências dos seu atos, ele acredita na veracidade incontestável de sua fé e de seus textos sagrados, que, para ele, são atemporais, devem ser livres de interpretações subjetivas, moderações e suavizações. Ao contrário do que se diz, é ele que pratica a ortodoxia da sua religião, ou seja, segue os dogmas corretamente. Portanto, se o livro sagrado que ele cultua afirma que o seu deus é o único e verdadeiro e que todos os outros religiosos de outras fés são perigosos, infiéis, que devem ser convertidos ou combatidos, então ele o faz da melhor forma que lhe convir. Antes se fazia Jihads e Cruzadas, hoje atentados à bomba ou genocídio.

Os que se dizem religiosos, mas não são “fundamentalistas”, e que até os condenam, na verdade são, estes sim, heterodoxos, religiosos por conveniência ou religiosos de ocasião, por medo, comodismo, vontade de estabelecer aprovação social, salvação pelo menor esforço, ou outra situação qualquer. E acham que estão fazendo muito bem. No entanto, não estão seguindo fielmente as determinações de deus e de sua religião como deveriam. Felizmente, para o resto de nós, (os não-religiosos, religiosos de outras denominações, agnósticos ou deístas), enquanto cidadãos de um Estado laico (pelo menos no papel), religiosos fajutos não-praticantes ou suavizados deste tipo são cada vez mais comuns e bem-vindos.


Religiosos moderados optaram por fé sem sacrifícios

Fundamentalistas são os verdadeiros religiosos, tentando corrigir os desvios que suas religiões foram obrigadas a fazer nas Eras Moderna e Contemporânea – na verdade, suavizações e relativizações de interpretação – por causa do advento da ciência e da Razão, especialmente a partir do século XVIII.

Buscam seguir fielmente todos os males e irracionalidades que suas religiões determinam historicamente desde uma época de ignorância, como passar fome em jejuns, abstinências sexuais antes de dias sagrados, não usar eletricidade nos sábados e etc. porque "assim determinou deus".

A religião, realmente, só faz sentido se levada ao pé da letra, como mandamentos vindos direto de deus, como é a doutrina das religiões monoteístas. Senão, pra que segui-la? Esse é o dilema dos religiosos moderados. Os fundamentalistas decidiram fazer uma escolha corajosa: manter a fé e abandonar a Razão. Os religiosos moderados resolveram optar pela solução mais cômoda: manter a fé sem abrir mão de uma suposta racionalidade mandrake, embora pra isso precisem fazer diversos malabarismos mentais para conciliar as duas situações. Mas isso não faz sentido. Quem modera a palavra de deus não a está seguindo corretamente, e, caso estejam certos sobre a vida após a morte, talvez tenham problemas na hora do julgamento celestial…


Caminhando para o ateísmo no futuro

A religião só é tolerada em nosso meio, em pleno século XXI, porque, felizmente, em diversos países a população mundial se encontra no estágio intermediário entre seguir as religiões ao pé da letra como Anders Behring Breivik e abandoná-las completamente como algo ultrapassado, como os ateus. Neste ínterim, não seguem mais as doutrinas religiosas com muito afinco — o que pode não ser muito bom para eles na hora de prestar contas com o todo-poderoso um dia, mas é ótimo para a sociedade de modo geral —, mas não são ainda absolutamente capazes de se livrar por completo dela. Claro que em alguns locais, muitos cidadãos estão ainda vivendo plenamente a era fundamentalista, como os países islâmicos, os Estados Unidos e o Brasil, enquanto outros parecem já ter abandonado de vez as crenças religiosas, como nos países do norte da Europa.

Mas o fato é que apesar disso, a maioria das pessoas se encontra a meio caminho para o abandono total desses dogmas medievais no futuro breve. Porque, no mundo de hoje, se todo mundo fosse tão fiel à sua fé quanto o atirador que matou dezenas de pessoas na Noruega ou os terroristas do Estado Islâmico, ou o mundo já teria acabado, ou quem teria acabado de vez era a religião, proibida como algo ultrajante em plena era do conhecimento.

21 de janeiro de 2019

Sérgio Moro, o Cavalo de Troia do PSDB dentro do governo?

Político com ligações tucanas é alvo de suposições de que teria vazado investigações do Coaf para a Rede Globo atacar o governo Bolsonaro


Nesta semana, o mundo político brasileiro ficou surpreendido com o grande destaque que a Rede Globo deu sobre as investigações do Conselho de Controle de Movimentações Financeiras (Coaf), a respeito das movimentações financeiras suspeitas envolvendo o motorista do filho do presidente Jair Bolsonaro. Na sexta, por exemplo, o Jornal Nacional dedicou quase cinco minutos sobre o tema, escancarando em rede nacional uma saia justa que colocou membros do governo de cabelo em pé.

O Coaf foi criado e se manteve vinculado, como seria a lógica, ao Ministério da Fazenda. Numa manobra controversa que desagradou diversos especialistas, o presidente baixou um decreto e transferiu o órgão para o chamado Superministério da Justiça a cargo de Sérgio Moro. Com essa medida, podemos muito bem especular, Jair Bolsonaro pretendia blindar as artimanhas de Flávio Bolsonaro e de seu motorista laranja, confiando que Moro manteria discrição sobre quaisquer malfeitos que por ventura fossem descobertos. Mas não foi isso que aconteceu, como os vazamentos das investigações para a Rede Globo mostram.

Jair Bolsonaro era apenas o plano B da burguesia nacional 

Jair Bolsonaro se elegeu graças a um efeito colateral imprevisto e indesejável do golpe perpetrado no governo Dilma pela burguesia nacional. O plano inicial era, sem dúvida, bombardear o PT, manchando sua a reputação, impingindo-lhe a pecha de maior, senão de único partido corrupto do país, abrindo o caminho para o PSDB assumir o poder pelas vias tortas. No entanto, por mais que a Globo atacasse violentamente o PT e acobertasse os diversos escândalos envolvendo os tucanos do PSDB, a estratégia falhou. Para a opinião pública em geral, e isso envolvia especialmente grande parte das classes médias, o PSDB entrou na ciranda e queimou seu filme tanto quanto o PT.

Isso deixou a burguesia nacional sem opções. Com os tucanos, fonte de seus quadros preferidos, totalmente desmoralizados, foi preciso confiar num tresloucado, imprevisível, raivoso e radical nanico político chamado Jair Bolsonaro, do baixo clero da Câmara há 30 anos, para depositar todas as suas fichas, na esperança de que a faixa presidencial pudesse arrefecer seus ânimos selvagens. Não aconteceu.

A burguesia ainda prefere os tucanos 

Ora, nada é mais caro para a burguesia, e consequentemente para o mercado capitalista, do que a paz e a estabilidade para que os negócios possam fluir. E o Brasil se encontra em plena agitação, clima de instabilidade e de perplexidade geral a cada novo pronunciamento de alguns dos ministros deste governo. Isso sem falar nos diversos quadros envolvidos em casos de corrupção, que já constrangeram o próprio Moro como no caso do pedido de "perdão" de Onyx Lorenzoni. E agora lavagem de dinheiro envolvendo o filho do próprio presidente, um senador eleito pelo mesmo partido do presidente...

Moro, o cavalo de Troia no governo 

Diante desse cenário, era natural que começassem a surgir suspeitas de que os vazamentos do Coaf — órgão que, relembramos, está agora diretamente subordinado ao ministério do Moro — foram autorizados pelo ex-juiz da Lava Jato. Mas a troco de que Sérgio Moro faria esse procedimento arriscado?

É só ligar lé com cré. Moro é tucano, e isso não é novidade. Moro tem ligações estreitas com a Globo, que é tucana. O tucanato do PSDB é tradicionalmente o partido da burguesia nacional desde os governos FHC. A burguesia já começa a se mostrar insatisfeita com os rumos que este governo está tomando em direção à desmoralização total. Moro, de dentro do governo, pode destrui-lo, expondo as entranhas corruptas dos Bolsonaro, até que este governo se torne insustentável, e se colocar, ele próprio, como a nova opção da burguesia, mais sereno, mais ponderado e, portanto, mais indicado.

Aí os tucanos teriam duas opções para emplacá-lo. Ou minam este governo aos poucos até o fim do mandato, como em 2006, diante do escândalo do mensalão petista, quando tinham a opção de propor um Impeachment mas preferiram a estratégia (hoje sabemos, equivocada) de fazer o "governo sangrar" para desgastá-lo mais, ou inviabilizam o governo pela via parlamentar junto com os demais partidos do chamado Centrão, como fizeram com Dilma, levando-o ao caminho do Impeachment.

Cabe às esquerdas, nesse contexto, estarem atentas na crise que começa a aprofundar no seio da própria direita para tomar os possíveis espaços vazios nos vácuos de poder que a prolongada crise política pode levar.

Resta saber se as nossas esquerdas partidárias, fragmentadas, desunidas e doidas pra se colocar à reboque do Rodrigo Maia, terão condições de fazer qualquer coisa.


18 de janeiro de 2019

Generais saem das sombras para passar vergonha no governo

Ao todo, governo Bolsonaro terá mais militares do que governos da ditadura

Em 1961 o Brasil passava por uma grave crise política com a renúncia do presidente Jânio Quadros. Naquela ocasião, os avós dos golpistas de hoje, batedores de panelas, patos e coxinhas de então, estavam alarmados com a possibilidade do vice-presidente João Goulart assumir o poder.

Tomando a frente da indignação desses grupos, os três oficiais militares no Ministério da Defesa lançaram um manifesto contra a posse legítima e constitucional de Jango, que estava em viagem oficial na China. Queriam que uma junta militar assumisse o poder até que fossem realizadas novas eleições. Foi a primeira vez em muitos anos, talvez desde a Revolução de 30, (em 1946 o general Eurico Gaspar Dutra foi presidente, mas pelas vias eleitorais) que os militares tomavam a frente nos rumos políticos do país. E passaram vergonha.

Aos poucos, o governador do Rio Grande do Sul na ocasião, Leonel Brizola, numa campanha nacional pela legalidade, conseguiu mobilizar grande parte da opinião pública em favor da posse de Jango, deixando os generais da Marinha, do Exército e da Aeronáutica em situação embaraçosa diante da nação.

O recuo dos ministros militares se deu na forma acordada com o Congresso na forma de um parlamentarismo votado às pressas, um golpe mais suave que tinha duas vantagens: fazer Jango assumir sem os plenos poderes do presidencialismo e diminuir um pouco a desonra causada pelo golpe frustrado dos generais. Mas eles não desistiriam tão fácil e o ressentimento os fez trabalhar numa tática diferente.



Aprenderam que qualquer movimento de derrubada de um governo precisa ter o respaldo de amplos setores da sociedade, e por isso se juntaram com os setores mais reacionários do empresariado, da Igreja Católica e da imprensa. Era preciso trabalhar as mentes das pessoas para justificar a ação militar.

Quando Jango recuperou seus plenos poderes com a antecipação do plebiscito em 1963, estes setores aceleraram a conspiração de propaganda, que alardeava uma República Sindicalista que supostamente Jango queria implementar no Brasil com os comunistas. A iniciativa culminou nas Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade, onde senhoras emperequetadas das classes médias, carolas da Igreja e esposas de militares e empresários foram pras ruas pelos braços da Igreja católica com os mesmos lemas que hoje em dia seus netos usaram para combater a esquerda: "O Brasil não será uma nova Cuba"; "Salvem o Brasil do Comunismo" e outras besteiras ridículas.

Mas a questão é que os milhões de velhas senhoras e jovens carolas nas ruas do Sudeste deram a legitimação da ação golpista que os militares precisavam, e de fato, ela ocorreu em 1964.

Foram 21 anos no poder desde então, até que as conjunturas mundiais mudassem e um governo ditatorial passasse a ser visto como algo anacrônico e desnecessário.

Aqui entra a importante questão: desde os anos 80, e até há pouco tempo, para combater o regime e se descolar do governo militar, a burguesia brasileira, que engloba todos os setores que apoiaram e tiraram proveito do Golpe de 64 junto com os militares, resolveu colocar exclusivamente na conta das Forças Armadas todos os arbítrios pavorosos cometidos durante o regime, como torturas, perseguições, censuras e etc.

Os militares saíram do poder altamente ressentidos, e resolveram, desde 85, tutelar a "democracia" da Nova República de longe, sem aparecer nos holofotes da política. Mas isso não durou muito.

O primeiro sinal de que os militares estavam fazendo as pazes com a burguesia foi o decreto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) sancionado no apagar das luzes do governo Fernando Henrique Cardoso. Com essa lei, os militares poderiam fazer papel de polícia, sempre que solicitados pela presidência da República. Em operações de grande e custoso aparato e de resultados duvidosos, como na recente intervenção federal no Rio, os militares começaram a aparecer no cenário mais uma vez. Mas foi na última eleição que eles retornaram ao protagonismo político.

Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército que respondera por atos de indisciplina na corporação e que planejou atentados terroristas, uma vez eleito, não se fez de rogado e trouxe pra dentro do governo diversos oficiais militares, que aceitaram de bom grado dividir o poder com defensores da Terra plana, olavistas, evangélicos lunáticos e defensores de teorias conspiratórias.

O resultado é que há apenas 18 dias o país assiste a um espetáculo dantesco de declarações estapafúrdias, decisões equivocadas, reviravoltas em decisões tomadas com grande alarde, ameaça de guerra insana, diplomacia que é piada internacional e o pior, diversos casos de corrupção explícita.

Mesmo tendo saído por baixo do regime militar que implementaram de 64 a 85, os militares ainda retinham um dos poucos capitais morais que lhes restaram, sendo fruto de verdade ou não: a de que seriam eles totalmente refratários às seduções da corrupção.

Essa imagem todo dia sofre um abalo, cada vez que, por exemplo, um Ônix Lorenzoni aparece em casos assumidos de caixa dois e o motorista do presidente em lavagem de dinheiro, pra ficar só nos casos mais notórios. O desconforto de ver militares fardados ao lado dessas figuras medíocres da política não podia fazer mais mal a já não muito ilibada imagem das Forças Armadas.

Aliás, sempre que os militares se dispuseram a ser o instrumento de uso da força da burguesia, em todos os golpes de Estado desde a derrubada da Monarquia, não fizeram apenas mal ao Brasil, mas a si mesmos.

Resta agora saber qual das três alternativas os militares escolherão, considerando que as sandices deste governo não terminarão na semana que vem: ou aguentam firmes e ficam no poder todos estes longos quatro anos e carregam junto de si todas as chacotas que o Brasil já endossa contra este governo de sacripantas; ou saem discretamente de cena, renunciando aos cargos e voltando de fininho para a caserna; ou resolvem cagar logo tudo de uma vez, pra lavar a honra, e dão mais um típico golpe de coturno e derrubam o governo.

De qualquer forma, era melhor os militares não terem embarcado nesta belíssima canoa furada.

15 de janeiro de 2019

Referendo de 2005 não fala em posse de armas. Entenda as consequências

Em 2005 houve o referendo sobre a comercialização e circulação de armas no Brasil. Na ocasião, a vitória foi do "não", com quase 64 por cento dos votos, o que queria dizer permissão para este comércio. O sim ficou com pouco mais de 36 por cento.

Em 2003 o Congresso votava o Estatuto do Desarmamento, que previa o referendo de 2005. A discussão então girava em torno da proibição ou não da fabricação de armas no Brasil, com a empresa Taurus despejando milhões na campanha do "não". Mas existe um grande desentendimento na questão.

Ele se encontra na pergunta elaborada para o referendo de 2005. Naquela ocasião, as pessoas foram às urnas eletrônicas para decidir sobre a seguinte questão: "Você é a favor da proibição do comércio de armas e munição no Brasil?". 

Ora, a partir de então, como fica claro, seria legal a fabricação e comércio de armas e munições no Brasil. Mas os defensores do porte de armas concluíram que, a partir disso, os brasileiros poderiam ter o porte de armas flexibilizado.  Poderiam, de fato, conforme o referendo, empresas de segurança, Forças Armadas, governos, e etc. comprarem no Brasil armas fabricadas no Brasil. Mas não diz nada sobre os cidadãos comuns

Essa é a grande jogada de má-fé do presidente Jair Bolsonaro e dos apoiadores do armamento. Hoje, durante a assinatura do decreto que facilita o porte de armas, ele fez menção ao referendo de 2005: "Como o povo soberanamente decidiu por ocasião do referendo de 2005, para lhes garantir esse legítimo direito à defesa, eu como presidente vou usar essa arma", disse ele, mostrando a caneta Bic. O que ele não mencionou foi uma pesquisa do Datafolha de dezembro de 2018, "ontem", praticamente, onde 61 por cento dos brasileiros são contrários à posse de armas de fogo.


É muito fácil prever algumas consequências lamentáveis desse decreto:

Bandidos sempre terão vantagem


Se uma família quiser ter uma arma para sua defesa dentro de casa, não vai andar com ela na cintura o tempo todo e sim guardada em lugar seguro, longe do alcance de crianças, por exemplo. Um bandido armado invade um domicílio de surpresa com arma engatilhada em punho rendendo automaticamente todos os moradores da casa. Ninguém terá tempo de procurar a arma, colocar as balas e atirar até que seja tarde demais.

As armas serão roubadas


Não é tão fácil obter uma arma de fogo. Armas são caras, não são vendidas a cada esquina, exige um rígido controle burocrático e são ou roubadas em paióis das Forças Armadas ou contrabandeadas com grande risco. Com o decreto, os ladrões de domicílio vão roubar, além de jóias, produtos eletrônicos, dinheiro, também as armas, é claro, que por ventura estejam no imóvel. 

Serão levadas para fora de casa

O decreto permite a posse dentro de casa, mas as armas não vem com chip que as impede de funcionar fora. Se uma pessoa estiver perto de casa, por exemplo, bebendo num bar, arrumar uma briga e for ameaçado, é muito natural que em 10 minutos ela vá em casa, pegue a sua arma que supostamente era para a proteção do imóvel, volte no bar e atire no seu agressor. 

As mulheres serão as maiores vítimas

Grande parte da violência contra a mulher acontece dentro de casa por companheiros violentos e ciumentos. Agora coloque uma arma ali bem à disposição, durante as brigas que resultam em espancamentos e a tragédia estará consumada.

Liberar o porte de armas só atende a duas demandas de um governo irresponsável: agradar os setores de extrema-direita, conservadores e até — pasmem — evangélicos que compõem sua base e as empresas de fabricação de armamentos, doidas para abrir um novo mercado no Brasil às custas de milhares de vidas, num país já com taxas de homicídios inacreditavelmente altas. Tudo isso para além de querer dar mais uma mostra de imitadores do que os Estados Unidos tem de pior, característica da nossa direita nacional capacha e submissa. 

12 de janeiro de 2019

A briga Ciro Gomes vs. PT que inviabiliza uma candidatura de esquerda em 2022

Lula e Ciro. Briga inviabiliza uma candidatura de esquerda com reais chances em 2019

Por uma questão circunstancial, Ciro Gomes não envergou a faixa de presidente da República em 2019. Era o único candidato cujas pesquisas indicavam uma vitória no segundo turno contra Jair Bolsonaro. Mas para isso, precisava chegar no segundo turno, e o PT foi decisivo para que isso não acontecesse.

Com a menor taxa de rejeição entre todos os candidatos, ainda assim Ciro amargava a terceira colocação no pleito. O PT teve como estratégia não a derrota das forças reacionárias e conservadoras que hoje assaltam o governo com nepotismo, entreguismo e obscurantismo, mas sim mostrar ao Brasil que Lula, preso e condenado, deveria ser o candidato, deixando uma aliança de esquerdas pelo caminho. Estratégia inócua, e na última hora, Fernando Haddad foi confirmado como o candidato petista, ele que, apesar de herdar grande parte dos votos lulistas, herdou também a enorme rejeição ao PT, que lhe proporcionou não a vitória, mas o segundo lugar.

Tudo isso, e mais algumas puxadas de tapete que o PT lhe proporcionou em eleições passadas fizeram Ciro Gomes tomar a decisão compreensível não só de se afastar do PT, mas de denunciá-lo como um partido que se lambuzou nas práticas sujas do poder.

Sempre que solicitado, Ciro tem dado entrevistas bastante duras contra o Partido dos Trabalhadores, numa estratégia que aparentemente não se explica apenas por ressentimento. É uma estratégia em conjunto com outros partidos de esquerda, que, por enquanto, englobam o que os militantes petistas chamam pejorativamente de "bloquinho": PDT, PSB e PCdoB, numa aliança de esquerda que pretende isolar os petistas e aquilo que consideram hegemonismo do partido, para disputar as próximas eleições tendo Ciro como candidato.

Não é uma estratégia muito eficiente. No entanto, o PT não lhe deixa alternativas, o que cria o impasse.

Ciro Gomes não é um candidato puro-sangue de esquerda. Nunca foi. Apesar de propostas bastante progressistas nesta última eleição — algumas mais até do que o próprio PT ousou defender — seu apoio no seio das esquerdas se deve mais a uma carência de quadros capazes de disputar uma eleição de envergadura nacional. Neste cenário, encontrou um nicho onde pode crescer, mas só irá crescer, segundo sua estratégia, se neste cenário colocar Lula como adversário. Então a estratégia é bater no PT, bater no Lula, para tirar-lhe o protagonismo na trincheira da oposição de esquerda.

O problema é que o PT ainda é a maior bancada do Congresso, é o maior e mais forte partido da esquerda. Cada vez que Ciro bate no PT, ganha a simpatia da direita e não consegue trazer pra si os votos da esquerda. A raiva que tem provocado nos petistas mostra bem isso. São votos que farão falta.

É preciso lembrar que Lula possivelmente será solto antes do próximo pleito presidencial em 2022. No entanto, dificilmente terá direitos políticos para concorrer. Ao se afastar de Lula como estratégia e dos seus eleitores, cada vez mais antipáticos a Ciro, em vez de disputá-los, o candidato do PDT precisará recorrer aos chamados partidos de centro (direita) para viabilizar uma campanha que já não será tanto de esquerda.

Por outro lado, Haddad, já mais experiente e conhecido, junto com um Lula sem poder concorrer mas em plena campanha ao lado dele nos palanques petistas, já que dificilmente o líder petista considerará o apoio a outro candidato de outro partido, poderá colher melhor o capital eleitoral que provavelmente Lula manterá, agora como uma espécie de Nelson Mandela brasileiro. No entanto, não será suficiente, já que certamente também herdará a enorme rejeição que o PT carrega e que dificilmente dela livrar-se-á nos próximos anos. Além disso, sem o apoio dos partidos de esquerda, adivinhem onde o PT buscará suas alianças eleitorais?

Tendo o PT como hegemonista em sua conta, que esmaga o crescimento de quadros de esquerda em outros partidos — análise que tem a sua verdade — os demais partidos de esquerda com representação no Congresso querem se desvincular do petismo e de sua rejeição na opinião pública, avaliando que o partido é traiçoeiro e totalitário. Por outro lado, abrem mão de disputar uma fatia significante dos 35 milhões de eleitores que declararam voto em Lula, mas que atualmente sentem repulsa das declarações de Ciro.

Provavelmente nem Ciro, nem Haddad conseguirão emplacar uma candidatura de esquerda viável neste cenário, o que não é bom para ninguém. E não parece haver perspectiva de entendimento no futuro.



4 de janeiro de 2019

Por que já há tantos arrependidos em votar no Bolsonaro? O marxismo explica

A emblemática imagem: operários desmontando o letreiro do Ministério do Trabalho, extinto neste governo

Karl Marx está mais vivo do que nunca, e continua sendo cada vez mais importante para entendermos o mundo capitalista em que vivemos.

Um dos fatores mais surpreendentes nesse período de pós-eleição e começo de governo Bolsonaro, é o número surpreendentemente grande de pessoas arrependidas de votarem no "mito". São pessoas que, logo após apertarem o 17 na urna, começaram a tomar conhecimento de medidas e ações totalmente incompatíveis com o discurso moralista e "patriótico". Casos como o do laranja Fabrício Queiroz, que joga por terra a ilusão de incorruptibilidade dos Bolsonaro, além de medidas que prometem afetar direta e, principalmente, negativamente quem votou neste governo. 

O site Dever de Classe traz duas reportagens que ilustram bem como, em pouco tempo, as pessoas já se encontram totalmente desapontadas. 

O primeiro é o caso de uma ex-servidora (pública, o que é mais sintomático) do Ministério do Trabalho, que abriu os olhos depois que a pasta foi extinta e suas funções incorporadas no Ministério de Cidadania, Economia e Justiça, como algo sem importância que deve ser diluído, desaparecido no meio de outras atribuições. Seu arrependimento é publicado no facebook, conforme destaque a seguir: 



Outro caso emblemático é a parcela significativa de homossexuais que declararam voto em Bolsonaro nesta eleição, nada menos do que 29 por cento! Não obstante a violência, o ódio, o terror vivido por esta parcela da população por conta de preconceitos pesados que Bolsonaro ajuda a alimentar, ainda assim 3 de cada 10 gays o apoiaram. E receberam de presente logo nas primeiras horas de governo o fim da promoção das demandas LGBT pela pasta dos Direitos Humanos. Para onde vai, se é que vai? 

O Dever de Classe mostra como alguns leitores do site Gay1, voltado ao público homossexual, reagiram depois de terem apoiado o presidente eleito. É o caso de Thiago N, que disse: "Achei que era brincadeira ou fake news quando o capitão dizia que não gostava da gente. Só me resta agora reconhecer o erro e lutar para não ser perseguido". Casos como esses aumentam incrivelmente dia a dia, como mostra uma página no facebook criada especialmente para colher estes relatos arrependidos. 

Por que as pessoas pensam e agem contra si mesmas 


É aí que entram os velhos conceitos marxistas. 

Primeiro vamos dizer que o conceito de classe não se restringe, apenas, como na época de Marx, à classe operária das fábricas. Este conceito já foi modernizado pelo filósofo marxista italiano Domenico Losurdo*, que ampliou o conceito de classe para o conjunto das minorias, as mulheres, negros, homossexuais e qualquer grupo que tenha consciência de si mesmo e do grupo a que pertence. E essa é a questão chave.

Todas estas parcelas da população, numa sociedade onde as elites são brancas, cristãs, capitalistas e patriarcais, como no Brasil, sofrem algum tipo de exploração, violência e injustiça. Por que não se revoltam? 

Porque toda a exploração, violência e injustiça são muito bem ocultadas. As classes dominantes têm os meios de promover o seu mundo como o ideal, e fazem isso através das superestruturas, que nada mais são do que a escola, os meios de comunicação, as universidades, a internet, que promovem o mundo burguês com portas abertas para todos sem distinção, ideia falsa que acaba indo parar nas classes trabalhadoras através do senso-comum. Todo mundo seria igual e com os mesmos direitos.

No caso da última eleição, a mentira, a farsa e a manipulação foram levadas a níveis cavalares, cercando a opinião pública de todos os lados, criando uma onda cega em torno de um candidato que passou a ser mais um personagem do que um homem de carne e osso. 

A "falsa consciência", ou seja a ideologia das classes dominantes, aquilo que ela deseja passar como verdade e que acaba se infiltrando nas mentes das camadas inferiores, faz o pobre pensar com a cabeça do rico; o negro pensar com a cabeça do branco; a mulher pensar com a cabeça do homem, e por aí vai. 

Só há um jeito de romper este ciclo. Tomar consciência de si mesmo, saber que papel você foi destinado a exercer neste mundo, e romper com ele. Ter consciência que sua classe é vítima, é explorada, vilipendiada e enganada para promover o bem-estar e os privilégios de outras classes, que não a sua. 

Quando acordamos para este fato, nunca mais defenderemos algo que vai de encontro aos nossos próprios interesses. Nunca mais, seguindo os exemplos dados neste texto, veríamos uma servidora pública votar em alguém que prometeu votar pelo desmanche do Estado, dos direitos trabalhistas e da seguridade social, nem veríamos homossexuais, uma expressão de 29 por cento deles, votar num histórico, violento e notório homofóbico. Pessoas que hoje estão surpresas com as medidas do governo e se arrependeram, mas ainda não abriram os olhos. 

Como esses grupos podem aprender a ter consciência e lutar de forma eficiente contra o monstro que eles próprios ajudaram a criar é assunto para uma próxima postagem. 
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*LOSURDO, Domenico. A luta de classes: uma história política e filosófica. São Paulo: Boitempo, 2015


1 de janeiro de 2019

Discurso honesto de Bolsonaro na posse é uma lição para as esquerdas



Bolsonaro tomou posse. E foi sincero, coerente. Não fez uso de discursos conciliatórios, foi direto ao ponto. Disse aquilo que seus eleitores gostariam de ouvir.

As demagogias estavam presentes. Acabar com o socialismo no Brasil [sic], uma aberração conceitual, mas que ajudou a elegê-lo. Prometeu acabar com a ideologia marxista na sala de aula, mais uma falácia que ele confirmou no discurso da posse. Também prometeu que o Brasil não fará comércio mundial com viés ideológico, outra aberração que só vai prejudicar a já raquítica participação do nosso país no comércio internacional. Também citou as velhas e já desgastadas defesas da família e pediu a proteção de deus. Nada de novo.

No entanto, seu mérito foi a coerência. Não lançou mão da falácia de que a partir de agora será o presidente de todos, que vai unir o Brasil e outras besteiras que o PT infelizmente insistiu em dizer, equivocadamente.

Se tem uma coisa que o Bolsonaro sabe é que não existe essa coisa de "todos". É nós e eles. Não no Brasil, no mundo. No capitalismo. É a velha divisão de classes. Divisão de interesses irreconciliáveis.

No jogo político eleitoral, não obstante as mentiras, as fake news, as propagandas de lesa-reputação alheia, foram eles que ganharam. E vão governar de acordo com o que eles acham ser o certo.



O PT, desde Lula até o último mandato não terminado da Dilma, ganhou com os nossos votos, mas quis governar para todos. Não conseguiu agradar nem o lado de cá, nem o lado de lá, terminando melancolicamente sozinho na beira da estrada.

Não há como governar para todos. Os recursos são limitados, uns têm muito e muitos têm pouco. Para governar para nós, é preciso enfrentar o lado de lá e tirar do deles.

Bolsonaro não fez uso de meias palavras, não fez demagogia nesse sentido. Nossa bandeira jamais será vermelha, ele disse. No seu governo, não há um, um elemento sequer das trincheiras progressistas, enquanto nos governos do PT haviam vários dos setores conservadores e capitalistas. Deu no que deu.

Agora devemos aguentar os quatro anos desastrosos de governo deles, e usar esse tempo para ganhar novamente o espaço. Mas que o próximo candidato da esquerda aprenda essa lição que Bolsonaro deixou claro para o Brasil. Não existe conciliação. Não existe todos. Existe luta de classes.


Brasil de Bolsonaro inaugurará inédito fascio-capitalismo



Hoje começa uma nova era para o Brasil. Pela segunda vez, e não pela primeira, como se tem dito por aí — se levarmos em conta a ditadura varguista do Estado Novo — o país experimentará um governo de extrema-direita.

E o que isso significa? Vamos ter alguma ideia logo mais, no discurso de posse do presidente Jair Bolsonaro. Mas em linhas gerais, haverá uma reação governamental a conquistas dos chamados grupos minoritários nos últimos 15 anos, que incomodaram bastante as classes médias. Além disso, soluções violentas para combater a violência, bem do feitio desses grupos demagógicos. No entanto, pelo menos em um aspecto, o governo que beira o fascismo que está por vir tem uma característica especial. Vamos aos detalhes históricos primeiro.

Nazistas e fascistas anticapitalistas

Quando Mussolini e Hitler chegaram ao poder, respectivamente na Itália e na Alemanha, tanto estes ditadores quando grande parte da população de seus países tinham uma clara rejeição ao liberalismo, que durante o período anterior à ascensão de ambos, tinha provocado duas guerras mundiais com uma crise econômica devastadora entre elas. Estes governantes odiavam não somente as democracias liberais, como o próprio capitalismo, conforme ambos deixaram bem claro em diversas ocasiões*.



Apesar de Hitler ter se apoiado em grandes empresários por questões de conveniência, o sistema econômico era totalmente controlado pelo Estado, pelas mãos de Göring. Durante o Terceiro Reich, os alemães — e é duro ter que reconhecer alguma benfeitoria do nazismo, pra ser justo — tiveram pleno emprego e melhora na sua qualidade de vida, porque o capitalismo selvagem que levara ao caos em décadas anteriores tinha sido descartado. O mesmo na Itália fascista, com a Carta del Lavoro em 1927, que dava garantias aos sindicatos e trabalhadores. Embora também com algumas concessões ao setor empresarial, estava claro que o livre mercado não teria abrigo na Itália.

No Brasil, Vargas controla capitalismo com direitos aos trabalhadores

No Brasil, a partir de 37 com a ditadura varguista, por muitos considerada com inspirações fascistas, o Estado forte também assumiu garantias aos trabalhadores. Através da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) muitos direitos foram assegurados, a despeito da gritaria histérica de liberais na imprensa e no setor empresarial. Isso significava que o Estado, em nome de um certo equilíbrio, intermediaria as relações entre capital e trabalho, garantindo por lei benefícios que o livre capitalismo não é capaz de oferecer, por ser contra a sua natureza.

Mas e o governo que começa hoje? 


Alguns historiadores consideram ser exagerado, e até anacrônico, denominar Bolsonaro fascista. Não na nossa concepção. Basta diferenciar o fascismo histórico dos anos 20 ao 40 do século XX daquilo que podemos chamar de neofascismo, com suas características similares. Bolsonaro já se mostrou xenófobo com minorias étnicas, dos indígenas brasileiros aos exilados venezuelanos e haitianos; já se mostrou totalmente antidemocrático em diversas ocasiões, tendo prometido, por exemplo, liberar o porte de armas por decreto; é um notório demagogo, líder de um partido nanico que cresceu na onda de falácias e mentiras propagadas por veículos de mídia disponíveis; faz uma guerra particular criminalizando as minorias; fez aliança com um determinado segmento religioso que será manipulado a seu serviço. Não lhe faltam os predicados.

O que o neofascismo Bolsonarista tem de característica sui generis é não a sua oposição estratégica, mas a sua aliança com os preceitos do mercado capitalista, o que, de fato, o diferencia do fascismo histórico.

Em vez de garantir direitos para capturar os trabalhadores das garras do capitalismo, propõe o desmanche do Estado e do seu papel mediador dos inconciliáveis conflitos de interesses entre os capitalistas e os trabalhadores; rasgou a CLT, abrindo as portas para a precarização do trabalho; destruiu relações comerciais favoráveis com nações parceiras em nome da ideologia neoliberal estadunidense, que aderiu incondicionalmente. Até seu nacionalismo é enviesado, quando não defende o Brasil contra a rapina das empresas estrangeiras em cima de nossas riquezas naturais, coisas que até Hitler acharia inconcebíveis. Enfim, através do chicago-boy Paulo Guedes, promete saciar todos os apetites do empresariado frente ao trabalhador desprotegido e despojado.

Nesse ponto, podemos chegar à inegável conclusão: os próximos quatro anos não serão de um governo fascista. Serão piores.

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* ver A Ascensão e Queda do Terceiro Reich: Triunfo e Consolidação, volume 1, de William L. Shirer