14 de novembro de 2019

A ciência brasileira a serviço das desigualdades

Copacabana e seus contrastes, símbolo da severa desigualdade social no Brasil

Eu demorei a conhecer o trabalho do sociólogo Jessé Souza. Foi somente em julho de 2013 que eu me deparei com uma publicação sua: A Ralé Brasileira. Foi amor à primeira vista, e de lá pra cá eu venho acompanhando mais de perto a produção deste acadêmico crítico e mordaz das injustiças sociais brasileiras*. Por isso mesmo, seu mais novo trabalho, intitulado A Tolice da Inteligência Brasileira, servirá de base para comentarmos agora e em outras postagens como a intelectualidade brasileira, em vez de criticar o senso comum que oculta a razão da imensa desigualdade social do país, ajuda a reforçá-la, com teorias falsas que demonstram a síndrome de vira-latas de nossa elite pensante.

Segundo Jessé Souza, as ideias do senso comum não brotam do nada; elas são pensadas por grandes autores até ganharem as ruas, as universidades, as conversas de botequim e o bate-papo na fila do banco. Elas ocultam e distorcem a realidade, selecionando o que é legítimo e o que não é legítimo pensar. Isso porque quem alcançou a riqueza e o status, bens escassos em qualquer sociedade, precisa defender a ideia de que tem direito a esses bens. A riqueza — e consequentemente a pobreza — precisa ser legitimada, aceita como um dado natural.

Dessa forma, a riqueza e a boa posição social não aparecem como privilégios, são ocultados no senso comum através da falsa ideia da meritocracia, que camufla os meios que fizeram tal pessoa alcançar o sucesso. É o que o autor chama no livro de “violência simbólica”, que atua no âmbito da ideologia, em substituição à violência física, agora o último recurso.

É por conta disso que os privilegiados são os donos dos jornais, das editoras, das universidades, das TVs e do que se decide nos tribunais e nos partidos políticos. Apenas dominando todas essas estruturas é que se pode monopolizar os recursos naturais que deveriam ser de todos. (p.10)

A tese do autor, que perpassa toda obra, é que tamanha violência simbólica só é possível graças ao empenho de setores da intelectualidade brasileira, que trabalham a serviço da manutenção do privilégio dos poderosos. Em vez de usar a ciência de forma imparcial e crítica, usam para legitimar a desigualdade social.

Os poucos que controlam tudo precisam desses intelectuais e especialistas do mesmo modo que os coronéis de antigamente necessitavam de seu pequeno exército de cangaceiros. Eles são o seu “exército de violência simbólica” assim como os coronéis do passado possuíam o seu “exército de violência física”(p.11)

Jessé pretende desvendar as chamadas ideias-força produzidas e disseminadas por intelectuais brasileiros em conexão com os interesses dos poderosos, que se institucionalizam como verdades naturais. Vamos esmiuçar aqui algumas dessas ideias, e seus autores proponentes.


A ciência como legitimadora dos privilégios

“Não existe ordem social moderna sem uma legitimação pretensamente científica desta mesma ordem”

Segundo Jessé, nos últimos 200 anos as interpretações e as explicações sobre o mundo e como devemos agir nele foram obras de filósofos, sociólogos e historiadores, em substituição aos clérigos. Todas as ideias dominantes que circulam na imprensa, nas salas de aula, nas discussões e nas conversas de botequim não passam de versões mais simplificadas das ideias produzidas pelos grandes pensadores.

O racismo velado do culturalismo científico

A tese do culturalismo científico cria a dicotomia tão naturalizada entre sociedades ditas avançadas e atrasadas, no âmbito tanto cognitivo quanto moral, quer dizer, as sociedades avançadas — e por tabela os seus cidadãos — são percebidos idealmente como mais racionais (dado cognitivo) e superiores (dado moral). Como consequência, nós, dos países “atrasados”, somos vistos negativamente como “afetivos”, “emocionais” (cordiais, no sentido de coração) e portanto mais propensos à corrupção.

Essa divisão é racista pois vê o europeu e o branco de modo geral como dono da civilização perfeita, enquanto nós, os mestiços da periferia, sofremos com nossas imperfeições que refletem na política e na economia. O que antes era legitimado pela suposta superioridade racial agora é explicado pelo “estoque cultural” superior das sociedades do Atlântico Norte.

Jessé aponta no Brasil os sociólogos Gilberto Freyre e Sérgio Buarque como autores que reproduzem com fidelidade essa corrente culturalista. Com o aporte de vastas quantias de dinheiro norte-americano em apoio para pesquisa, legitimou-se o culturalismo em crítica ao “racismo científico”. Mas no fundo, essas pesquisas dirigidas levaram ao predomínio da ideia de uma hierarquia mundial onde os Estados Unidos estariam no topo como exemplo da máxima perfeição.

Esse esquema foi usado até pelos pensadores dos países periféricos, convencidos (ou financiados) de que os Estados Unidos são de fato o El Dorado na Terra.


Gilberto Freyre e o culturalismo à brasileira.


A gênese do culturalismo brasileiro se deu nos anos 30 do século XX com Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Nessa obra, Freyre fundou a forma dominante como o Brasil contemporâneo percebe a si mesmo. Ele inverte a fórmula racista científica para tornar positiva o que até então era visto como nosso principal problema: a miscigenação racial.


Sérgio Buarque e a tese do patrimonialismo

Freyre fundou a concepção dominante de como o brasileiro se percebe no senso comum, mas foi Sérgio Buarque de Holanda que deu, três anos depois de Freyre, a chancela de ciência ao senso comum em Raízes do Brasil. A ideia-força mais poderosa que Buarque nos legou foi a da relação entre mercado, sociedade e Estado. Nessa tese, hoje claramente em voga, o Estado é tido como fraco, incompetente e propício a todo tipo de desvios, enquanto o mercado é o reino da virtude e da racionalidade.

O que Buarque acrescenta em relação a Freyre é a ideia do personalismo —”a emotividade como um dado psicossocial que guia as relações interpessoais de favor/proteção” — institucionalizado, ou seja, patrimonial. O patrimonialismo, por sua vez, é o nível institucional do personalismo, o homem cordial de Buarque, emotivo, pré-racional, pré-moderno, que leva essas características para o Estado. No Estado o homem cordial divide tudo com os amigos, pune com rigor os inimigos, não existe imparcialidade.

O dado curioso reparado por Jessé é que o homem cordial de Buarque está presente em todas as esferas da vida, mas as atenções de Buarque se concentram apenas na sua atuação corrupta no Estado. O mercado, apesar de ser operado pelo mesmo tipo de homem, é visto, por outro lado, como o local da racionalidade, da virtude e da impessoalidade…

Uma jogada sensacional dessa teoria é a associação implícita, nunca demonstrada, entre mercado e sociedade. A teoria nos convida sutilmente a embarcar na crítica ao “Estado corrupto”, e assim nos sentirmos tão virtuosos e imaculados quanto o próprio mercado… É assim que amplos setores da sociedade acabam conquistados pela ideia da mercantilização da vida como um todo, embora as camadas populares não tenham efetivamente nada a ganhar com isso. Na verdade acabam por defender uma tese que de fato é a favor apenas de uma pequena camada da sociedade (a dos ricos), que assim universalizam seus interesses particulares como se fossem de todos nós, e ainda demonizam o Estado que tem como uma de suas principais funções a de equilibrar as desigualdades com ações de redistribuição da riqueza, por exemplo.

Enquanto se perde tempo nessa falsa dicotomia entre mercado virtuoso e Estado sempre corrupto, deixa-se de prestar atenção no verdadeiro drama brasileiro: a desigualdade social, que é produto histórico muito mais de um mercado mundial que gera tanto riqueza quanto miséria, aumentando o fosso de desigualdade, do que da suposta corrupção unicamente concentrada no Estado.


* Você pode acompanhar diversas postagens baseadas neste livro por aqui, como

  1. Conflitos de classes nos hospitais públicos brasileiros;
  2. O economicismo e suas consequências para a desigualdade social;
  3. Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil
  4. Como se perpetuam os mitos da sociedade brasileira




12 de novembro de 2019

Bolívia: extrema-direita + cristãos: golpe

Luis Fernando Camacho (centro) junto a policiais e apoiadores do golpe
Dia 30 de setembro de 2019: Evo Morales, então presidente da Bolívia, testa um carro elétrico cem por cento produzido naquele país, uma façanha que simboliza o momento econômico altamente positivo por que passa o país sob seu comando.

Dia 10 de novembro: Fernando Camacho, líder do movimento golpista que ora irrompe no país vizinho, adentra o Palácio de Governo e sobre a bandeira boliviana abre uma bíblia.

Não chega a ser grande novidade que a extrema-direita de qualquer país ocidental lance mão do cristianismo como arma reacionária contra povos nativos, pobres e periféricos. O que ainda causa espanto é que discutir a participação de católicos e evangélicos em movimentos racistas e xenófobos ainda seja um grande tabu entre as esquerdas, inclusive na Academia.

Por que caiu Evo Morales? Certamente não foi por crise econômica. Precisamos enxergar mais um golpe na América Latina através de um contexto maior, dentro do quadro dos diversos golpes que têm ocorrido na região.

Os grupos de direita, na América Latina especialmente, perceberam que o jogo da democracia tem levado o eleitor a escolher políticos alinhados com o campo progressista. Se eles respeitassem a democracia, lutariam na oposição para convencer o eleitorado de que seus candidatos são os melhores, como todo partido de esquerda sempre aprendeu a fazer, pacientemente, durante anos, muitas vezes décadas, até conseguir furar todo o bloqueio que a própria democracia impõe a estes partidos.

Mas, para a direita, a democracia só vale a pena enquanto mantiver no poder seus representantes. Do contrário, diversas revoltas, sabotagens, campanhas difamatórias, perseguições políticas, prisões e acusações levianas são produzidas com o apoio dos diversos aparatos burgueses que instrumentalizam para esta intenção, como o judiciário, o parlamento, as igrejas e as forças armadas.

Pressionado por suspeitas em torno da sua vitória apertada no primeiro turno das recentes eleições bolivianas, Evo Morales se colocou à disposição para novas eleições, ou recontagem de votos. Nada disso foi aceito. Para o analista internacional Amauri Chamorro,

A direita boliviana não aceitou a realização de uma nova eleição e não quis sequer recontar os votos da eleição [...]. Se a direita  tivesse capacidade de vencer uma eleição, teria ido pra eleição. Só que o que eles querem nesse momento, é impedir a continuidade de um processo de transformação que foi implementado na Bolívia depois de 12 anos de governo Evo Morales

Chamorro confirma que o golpe no governo não tem tanto a ver com questões econômicas, e sim de classe. A extrema-direita racista da Bolívia saiu do armário com o mesmo pretexto que desencadeou a crise das instituições brasileiras, a partir do momento que Aécio Neves (por onde tem andado?) se recusou a aceitar a derrota apertada para Dilma Rousseff nas eleições de 2015. A partir daí, todo descalabro e loucuras passaram a fazer parte da nossa vida política, culminando com a eleição de um dos maiores boçais que este país já foi capaz de produzir — e olha que não foram poucos.

Agora existem suspeitas, a partir do vazamento de um áudio divulgado pelo jornal El Periódico, da participação de grupos evangélicos e do governo Bolsonaro neste evento golpista no país vizinho.

Sabemos que a família Bolsonaro tem ligações estreitas com Steve Bannon, o artífice da ascensão da direita no mundo através de mentiras, baixarias e jogo sujo. Aliás, teria outra forma? O hipócrita moralismo conservador é a nova arma da direita para conquistar o apoio das classes médias urbanas e dos pobres doutrinados pelo mundo, incomodados com a conquista de espaço cada vez maior de populações minoritárias. São grupos xenófobos, preconceituosos, medrosos de perder status social, que sentem raiva do outro, e que encontram muitas vezes respaldo para o seu modo de vida no seio do cristianismo. Exatamente como o líder golpista boliviano, saído diretamente das hostes católicas. Segundo recente reportagem do Globo,

O ativismo de Camacho começou aos 23 anos, como vice-presidente da organização cívica União Juvenil Cruceñista, descrita por organismos de direitos humanos locais como uma espécie de grupo paramilitar que realizava atos de racismo e discriminação contra indígenas

Recusa em aceitar derrota na eleição; protestos nas ruas dos bairros das classes médias brancas de Santa Cruz; ameaça de prisão do presidente; milícias policiais, Forças Armadas e religião unidas no golpismo. Esse filme que acaba de começar na  Bolívia também passou no Brasil.

Podemos prever agora algumas partes da metade desse filme que ora se desenrola: eleição de um capacho local do sistema financeiro apoiado pelos Estados Unidos, provavelmente Carlos Mesa; desmonte do estado de bem estar, dos direitos dos pobres; privatização das riquezas naturais bolivianas e paralisação do crescimento recorde do país nos últimos anos para transferir renda aos mais ricos.

Como será o final deste filme? O povo do  Chile nos dá spoilers...

29 de outubro de 2019

Por que precisamos superar o capitalismo





Desde o começo dos anos 90, nós já tivemos importantes conferências sobre o clima e o meio-ambiente no mundo. Mas nosso planeta continua indo de mal a pior. Apesar dos esforços e da boa vontade de ativistas, ecologistas e políticos, não existe saída para o meio-ambiente dentro desse sistema destrutivo chamado capitalismo em que vivemos atualmente. É preciso discutir alternativas de superá-lo. E cada vez mais pessoas estão se mobilizando para isso.

Thomas L. Friedman, famoso jornalista norte-americano, ganhou maior notoriedade após a publicação de seu livro Quente, Plano e Lotado – desafios e oportunidades de um novo mundo. O livro apresenta críticas tanto ao sistema financeiro quando à devastação do meio-ambiente que, segundo ele, são resultado de um desvio do sistema, não do próprio sistema em si. Ele defende a correção desses abusos para que o capitalismo possa trazer riqueza e benefício para todos. Mas alguém, a essa altura do campeonato, ainda é capaz de acreditar nesse conto de fadas?

Cada vez mais temos a exata noção de que o capitalismo é realmente destrutivo, não só dos recursos naturais, como das pessoas, dos seres humanos, na medida em que é responsável pelo fomento de uma brutal desigualdade social. É contra esses efeitos nefastos que o mundo mais uma vez se levanta em protestos, como por exemplo, no Chile. E que também se volta mais uma vez a políticos de viés progressista, como na Argentina. O fôlego da direita parece estar acabando na medida em que mais uma vez seu receituário neoliberal não apresenta os resultados esperados pela maioria dos trabalhadores.

O estranho é que o jornalista supracitado parece se mostrar contraditoriamente muito mais preocupado com o crescimento do mundo pobre — o que levaria a população mundial a uma condição que ele denomina “plana”, ou seja, cada vez mais pessoas ascendendo a uma classe mediana (não média, na acepção que conhecemos), na mesma faixa econômica, saindo da pobreza, elevando a média do consumo de energia e recursos naturais — do que com o maior vilão do meio-ambiente: seu próprio país, os Estados Unidos, baluarte do consumo e do desperdício.

Sozinhos, os estadunidenses, que perfazem apenas 4 por cento da população mundial, consomem 25 por cento de todos os recursos do planeta Terra. O medo do jornalista é de que os demais povos cresçam e passem a querer viver o modo americano de consumo destrutivo e desperdício exacerbado. Propõe que o país lidere uma mudança de comportamento, reformulando o capitalismo. Mas o capitalismo é isso. Não há reformas possíveis. O que há é a necessidade de superá-lo. E o mundo já começa a entender isso.

Cada vez mais, a população mundial quer um outro mundo.





Desde que o modelo neoliberal se tornou mais uma vez hegemônico, pelo menos no Ocidente, temos assistido a uma série de fracassos no campo social, com a desigualdade aumentando drasticamente em regiões antes estáveis. Benefícios históricos dos trabalhadores vem sendo cortados como forma de facilitar demissões (quem não lembra de FHC dizendo que iria destruir o legado de Vargas?, finalmente destruído por Temer e Bolsonaro), e o cassino especulativo das bolsas de valores vem jogando países inteiros na bancarrota, como vemos em diversos países, como a Argentina de Macri.

Mas — confirmando a velha ideia marxista — assim como os magnatas das finanças e dos negócios nos impuseram um sistema altamente destrutivo, também plantaram a semente da sua superação. Desde meados dos anos 90, assistimos ao crescimento espontâneo de movimentos sociais de combate ao capitalismo. Em todos os cantos do planeta (hoje com ímpeto renovado), milhões de pessoas se reúnem, planejam e vivem a mudança que esperam no mundo. Defendem uma alternativa mais democrática para os povos, o respeito à diversidade e ao meio-ambiente, sem submissão à ditadura do capital. No próximo post nós vamos conhecer um pouco a história desses movimentos. Você pode ler clicando em Movimento Zapatista, o embrião do movimento anticapitalista atual.


19 de agosto de 2019

Mercado livre só pros outros: por que o Brescia conseguiu levar Batotelli

Mesmo com menor poder financeiro, Brescia vence disputa com Flamengo e leva Mario Balotelli


Recentemente, o Clube de Regatas do Flamengo chamou a atenção do mercado internacional de negociação de jogadores pela sua grande capacidade de investimento. Depois de fazer algumas grandes contratações no mercado interno, como do uruguaio De Arrascaeta e do zagueiro Rodrigo Caio, pagou alguns milhões de euros para repatriar jovens jogadores como Vitinho e Gerson direto da Europa.

Mas a capacidade de contratar do rubro-negro foi ainda mais longe, a ponto de negociar recentemente a vinda da estrela do futebol internacional Mario Balotelli. No entanto, apesar de ter a melhor oferta do rubro-negro carioca, o jogador decidiu ir jogar no modesto Brescia da Itália, ganhando apenas 30 por cento do que ganharia no clube carioca.




A princípio, questões pessoais foram dadas como justificativa pela escolha do jogador, como por exemplo, voltar à cidade onde cresceu, o que seria compreensível. Mas, recentemente, a verdade veio à tona, de acordo com a publicação de um jornal italiano. Graças ao desconto de impostos previsto pela nova lei italiana sobre a chamada "fuga de cérebros", Massimo Cellino, empresário e dono do Brescia, economizará muito dinheiro em descontos de impostos para o governo italiano.

Em 29 de junho a lei foi aprovada na Itália. É assim que funciona: de agora em diante, para jogadores estrangeiros ou para quem volta do exterior depois de pelo menos dois anos, apenas 50% do lucro tributável é tributado. Simplificando: metade dos ganhos dos jogadores não está mais sujeita a tributação.

Saiba mais: 
Como o livre mercado prejudica países em desenvolvimento: o caso do futebol 

Uma enorme poupança que permite aos clubes italianos oferecer salários líquidos mais altos, como foi o caso da Espanha com a lei de Beckham. Uma grande assistência para as equipes da Série A. A Juventus se beneficiou, por exemplo, no caso De Ligt. Sem o desconto do imposto, o Brescia nunca poderia ter garantido a Balotelli 3 milhões de euros líquidos para a primeira temporada e 4,5 para os outros dois.

O acordo é de um ano com renovação automática. Porém, para acessar a facilitação, o jogador deve permanecer na Itália por pelo menos dois anos. E como a regra entrará em vigor em 1º de janeiro de 2020, Mario deve jogar pelo menos três temporadas de futebol. Se sair antes, o valor economizado deve ser devolvido às autoridades fiscais italianas. Resumindo: você terá que, por um tempo, permanecer no clube. O que no caso de Balotelli, não deixa de ser uma grande dúvida.




O que temos então aqui é a interferência de uma lei estatal sobre os pressupostos da livre concorrência do mercado. O Flamengo, por seus próprios esforços e mérito, depois de 6 anos colocando as finanças em ordem, foi capaz de propor um contrato a nível europeu a Balotelli, coisa que ele não teria igual, a não ser com a mãozinha do governo italiano, que teve em vista proteger o mercado do futebol naquele país e dar capacidade de investimento a clubes que, de outra maneira, não teriam essa capacidade.

O que europeus e americanos, ou dito de outra maneira, os principais países capitalistas defendem, na verdade, é o mercado livre para os outros. Para si, não se furtam a lançar mão de leis e determinações especiais de protecionismo, ferindo os preceitos do livre mercado. Não só no futebol, haja vista os fazendeiros franceses estarem com medo do acordo UE-Mercosul porque vai abrir o mercado europeu para os competitivos produtos agrários brasileiros. Vão perder os subsídios do governo.

Está na hora dos clubes brasileiros demandarem condições iguais de competição no mercado, seja exigindo que a FIFA tome providências contra interferências externas nas livres negociações econômicas, ou que o governo do Brasil crie também facilidades fiscais para aumentar o poder de investimento dos clubes nacionais, uma espécie de Lei de Beckham nacional.

O mercado livre, se tem que existir, que seja para todos. Ou então que sejamos capazes de proteger nossa maior matéria-prima, os jogadores brasileiros, para que, em vez de brilharem nas ligas europeias, possam cada vez mais reforçar os times brasileiros.


16 de agosto de 2019

Guia prático do posicionamento político

Tem circulado nas redes sociais um interessante e controverso "meme", definindo, aparentemente de forma irônica, mas certamente crítica, os posicionamentos políticos mais relevantes no Brasil.



Muitas pessoas não acreditam que seja dessa forma, que é apenas uma postagem tendenciosa de algum militante da esquerda. Mas o meme, de fato, reflete exatamente a realidade. Vejamos.

Por que ser de centro é ser de direita

Primeiro, o que é ser "de direita"? Poucas pessoas costumavam se referir a si mesmos como de "direita" até recentemente. Afinal, além de ter uma carga pejorativa desde há muito tempo, por conta de estar atrelada a uma tendência reacionária a qualquer tipo de mudança na ordem social, piorou muito com o advento da ditadura militar no Brasil (de direita, com todos os seus crimes e autoritarismos assassinos no período).

Poucas pessoas gostariam de assumir esse fardo, e portanto, era mais sutil se dizerem "de centro".

A definição esquerda e direita na política começou, como a maioria das pessoas sabe, durante a Revolução Francesa. Conservadores, fossem eles burgueses ou nobres, sentavam-se à direita na Assembleia. "Radicais", jacobinos e progressistas à esquerda.

De lá pra cá, pouco mudou nessas características iniciais. Já naquela época, quem era de centro era mais identificado com a direita, com medo da revolução sair do controle das elites e ir parar na mão do povo, como acabou acontecendo durante um certo período, pelas mãos de Robespierre.

Quando o povo foi fazer valer a revolução de fato, as elites a chamaram de Terror. Porém, isso é outra história.

Mas existe alguém realmente de centro na política?

Óbvio que não. É diferente ser de centro em países governados pela social-democracia, pelo socialismo ou pelo capitalismo, como é o caso notório do Brasil. Mas todos eles acabam corroborando sempre um lado, o lado que estiver no poder.



Ser de centro na Finlândia é achar que as políticas públicas estão indo muito bem, que a sociedade é bem servida pelos órgãos públicos, que não existe nenhuma demanda muito séria a que se envolver, tomar partido, como por exemplo a diminuição da desigualdade ou a taxação de grandes fortunas, coisas que eles já resolveram há muito tempo.

Ou seja, ser de centro é apoiar a social-democracia do governo.

O Brasil é um país capitalista (ou seja, de direita), embora periférico, e ostenta centenas de problemas mal resolvidos causados por este mesmo sistema, dentre eles o autoritarismo e a violência do Estado contra pobres. Ser de centro, "neutro", defender apenas algumas pequenas reformas diante da colossal mudança estrutural que precisamos, é não querer mexer nas estruturas do governo de direita do sistema, ou seja, é ser de direita.

"Não sou de esquerda nem de direita"


Hoje esse tipo é conhecido como o "isentão", aquele que do alto da torre de marfim em que se colocou, aponta o dedo para ambas as vertentes políticas e se diverte criticando-as, colocando, por exemplo, bolsominions e lulistas no mesmo pé de igualdade, embora em polos opostos.

Nada mais nocivo para a sociedade do que o isentão.

A política perpassa todas as esferas de nossa vida. O isentão acredita ser tolice tomar partido, defender uma causa, já que, em sua visão, todas as causas são iguais, inúteis ou perdidas.

Quando diz não ser nem de esquerda e nem de direita, ele levanta essa bandeira como mérito. Mas não sabe que é apenas um tolo com preguiça de pesquisar sobre o tema, se inteirar das coisas, e está fadado a ser governado por aqueles que ele justamente detesta.

Os políticos da direita, aqueles que se aproveitam dos menos engajados para destilar e emplacar suas fake news, suas mentiras e suas propagandas, encontrando terreno fértil de manipulação das mentes menos politizadas, são os que estão no poder no Brasil.

Ou seja, não tomar partido, não se envolver, não ser "nem isso nem aquilo", só ajuda a quem tira proveito dessa atitude: a direita, que está no poder e quer continuar.

"Não tenho preferência / "Não gosto de política"


Essas são vertentes irmãs, idênticas nos resultados práticos. Na verdade, podem se equiparar também ao isentão, com a diferença de que este ainda se interessa um pouco por ironizar a política, embora não de forma efetiva e sim para criticar, se colocar acima das disputas.

Enquanto isso, os que não têm preferência nem gosto por política nem sequer se importam com ela. A não ser naquelas semanas da época de campanha eleitoral, onde esta personagem subitamente descobre por vias mágicas (mentira, é induzido através das mídias mesmo) qual é o melhor candidato, aquele que vai salvar o Brasil da lama da corrupção e das safadezas, o herói, o mito... E logo depois de ter feito a cagada eleito um presidente despreparado e tosco que vai lhe tirar todo e qualquer resquício de direito social que ainda tenha restado, este ser volta tranquilamente a seu estado de hibernação política, como quem não é com ele, proferindo frases secas, como "não tenho preferência", "não gosto de política".

Pelo menos até a próxima eleição, onde talvez descubra com toda a certeza do mundo que o melhor para o país agora é Luciano Huck...

E assim, o Brasil vai caminhando a passos largos rumo a uma realidade onde as políticas econômicas da direita seguem fazendo seus estragos por onde passam, às vezes numa espécie de segundo round, depois de terem feito um primeiro estrago (como os tucanos no poder nos anos 90); terem sido derrotados e agora trazidos de volta à baila na carona de um golpe e de um afastamento ilegal de um ex-presidente, preso para não impedir o cataclismo que hoje o governo atual nos causa.

O que diriam aqueles centristas, isentões e desgostosos da política ao serem cobrados por terem ajudado a eleger um governo de (extrema-)direita, mesmo ele, o cidadão, "não sendo" de direita?

"Mas e o PT?". É o que diriam. Claro que isso não tem nada a ver com ser de direita...







12 de julho de 2019

O perigoso evangelismo xiita brasileiro

Por que as seitas neopentecostais no Brasil são tão xiitas? Por que os evangélicos flertam com tanta alegria com a extrema-direita? Essas são perguntas nada fáceis de responder.

Mas suas consequências nefandas são bastantes claras.

Para alguns setores da esquerda brasileira, o campo progressista perdeu terreno no momento em que abandonou as demandas mais urgentes da população carente — "terras devolutas", por assim dizer, que foram ocupadas pelos pastores evangélicos. Até aí nenhum problema em princípio.

Mas... o trabalho que estes pastores têm feito, para além do assistencialismo imediato, é afastar a população de uma verdadeira emancipação social. As igrejas evangélicas, em sua esmagadora maioria, funcionam pelo viés da ideologia da direita política. O conservadorismo implícito, inerente, inato, em todas as religiões, que na verdade define a sua razão de existir, cumpre um papel tão bem feito, que faz os pobres e miseráveis defenderem posições políticas que só beneficiam aqueles que são os privilegiados do poder politico e econômico.

Seria natural que pastores milionários, beneficiários, eles próprios, do status quo em que vivem, fossem eles mesmos ferrenhos defensores do liberal-conservadorismo que oprime as massas. Mas o que assistimos é um fenômeno ainda mais lamentável. Qualquer pastor de igreja evangélica de esquina em qualquer subúrbio defende, com unhas e dentes, o mesmo status quo que mantém a maioria esmagadora dos seus fiéis na ignorância e na pobreza.

É fácil imaginar as razões.

Tais religiões exploradoras, seja das economias populares, seja da ingenuidade do povo, só sobrevivem enquanto o país grassar na alastrada ignorância em que se encontra. Alguém haveria de dizer: "mas onde estão as autoridades que não tomam uma providência?"

Autoridades em diversos escalões têm seus motivos para não se meter nisso. Os de baixo nível, digamos, polícias e ministério público, não querem sofrer o desgaste de combater picaretas que tem o poder de transformar quaisquer investigações em perseguições religiosas.

Por outro lado, no alto escalão, os políticos aprenderam a tirar proveito próprio do domínio que os evangélicos detêm sobre as massas. Veja o caso do presidente Jair Bolsonaro, por exemplo.

Sempre fora um declarado católico, até o dia que percebeu, com a sua inegável astúcia, que ser evangélico era bom negócio. Levou a coisa a níveis tão extremos que hoje prega a indicação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o Supremo Tribunal Federal.

Levar as coisas às raias do extremismo é uma especialidade de Bolsonaro, afinal de contas. Com apoio de fake news, tão apreciadas por aqueles cuja credulidade em mitos e fantasias religiosas já é uma porta de entrada natural para as mentiras do campo político, o presidente soube encantar essa grande parcela moralista da população.

Afinal, o (falso) moralismo é outro grande pilar do conservadorismo religioso. Tantas conquistas sociais que se pode destruir; tantos adversários políticos que se pode derrubar; tantas ideias progressistas que se pode demonizar em nome de deus e da família e dos valores cristãos que não é brincadeira.

Hoje vivemos a vitória do evangelismo xiita através da vitória de Jair Bolsonaro. Vitória que se reflete na matéria recém publicada: Brasil vota junto com ditaduras islâmicas contra os Direitos Humanos na ONU. Segundo a reportagem:

O governo federal acompanhou ainda a ditadura militar do Egito e o Iraque em texto sobre “direito à saúde sexual e reprodutiva”. O país concordou com proposta do Paquistão de eliminar a educação sexual de resolução da ONU.

E ainda continuou dizendo que o país vai lutar para abolir a chamada “ideologia de gênero”. O político defendeu os termos ‘pai’ e ‘mãe’ e completou, “todo o mundo nasceu do homem e da mulher” — sem sombra de dúvidas, para a estupefação geral da plateia civilizada.

Quando as esquerdas — essas esquerdas pós-modernas, fique bem claro — defendem que é preciso respeitar as religiões, devem levar em conta esses fatores. O evangelismo tem um nítido viés reacionário, não obstante os exemplos aqui e acolá que se possa citar em benefício da instituição. Sejamos claros e digamos em alto e bom som, como a nossa tradição requer: a religião é o ópio do povo e deve ser criticada até que recue ao âmbito privado, como deve ser, e não ditando políticas públicas reacionárias e retrógradas.

3 de julho de 2019

O cinismo de Sérgio Moro

O costume de juízes participarem das investigações é um ato isolado de Moro ou uma prática normal na justiça, como ele disse? 

Não sei se o cinismo, que os gregos antigos definiam como "a busca de uma vida simples e natural através de um completo desprezo por comodidades, riquezas, apegos, convenções sociais e pudores", mas que o mundo moderno traduziu como "atitude ou caráter de pessoa que revela descaso pelas convenções sociais e pela moral vigente", é inata ou pode ser adquirida. O fato é que Sérgio Moro o tem de sobra.

Ontem assisti pedaços de seu depoimento na Comissão de Constituição e Justiça — não todo, pois muitas das questões o inquirido recusou-se a responder objetivamente, sendo então repetidas várias vezes, e várias vezes ele teve respostas dissimuladas. Mas algumas de suas afirmações chamaram atenção.

Umas delas foi quando disse jamais ter vazado escutas ilegais durante a Lava Jato. Afirmou que o vazamento da conversa entre Lula e Dilma em 2016 tinha interesse público, e por isso resolveu soltar os áudios ilegais. Ilegais sim, porque o ministro do Supremo Teori Zavascki, que pouco depois sofreu um acidente fatal de avião até hoje mal explicado, repreendeu o então juiz de primeira instância pelo ato extrajurídico, tendo em vista o foro privilegiado da presidente Dilma na ocasião. De tanto que reconheceu a ilegalidade, Sérgio Moro cometeu um de seus primeiros atos públicos de cinismo, pedindo desculpas, desculpas inúteis e infames, tendo em vista o estrago já feito premeditadamente.

Também ontem, foi perguntado por que — se tem, realmente, convicção de que as suas conversas agora reveladas foram obtidas de maneira criminosa — ainda não entrou na Justiça alegando injúria, calúnia ou difamação. A pérola do cinismo do dia veio na resposta "porque eu sou a favor da liberdade de imprensa" (!!). Isso ao mesmo tempo em que a Polícia Federal, sob seu comando direto, faz ameaças de coação, segundo alguns deputados, solicitando ao Coaf a abertura de dados financeiros do jornalista Gleen Greenwald, autor das denúncias contra Sérgio Moro.

Pra fechar, tentou dizer que era perfeitamente normal, no meio jurídico, juízes terem esse tipo de conversa com os advogados e procuradores: "olha, melhora essa prova aí, senão eu não tenho como condenar" ou "acho que não dá pra absolver ainda, convoca aquela fulana pra depor", conforme alguns exemplos baseados nas conversas de Moro com o procurador Deltan Dallagnol que o ex-juiz acha perfeitamente cabíveis.

Como bem disse o filósofo Paulo Ghiraldelli no seu canal do You Tube, se a Justiça brasileira realmente funciona assim, é pra parar tudo, começar do zero, porque tá tudo errado. Se o Moro e apenas o Moro age assim, então é caso de incompetência colossal de quem não tem a menor ideia de como funciona a justiça, e aí tem que exilá-lo, prendê-lo, cassá-lo, puni-lo de alguma forma, porque além de péssimo juiz, cometeu crimes contra os direitos humanos.

Mas o cinismo maior do ex-juiz da Lava Jato e atual ministro da Justiça vem sobre as explicações da autenticidade dos áudios. Dizendo-se vítima de hackers sem nenhuma prova, uma hora ele alega falta de memória para não confirmar o que disse; outra hora diz que as conversas podem ter sido adulteradas; e por fim, afirma que caso tenha realmente falado o que não lembra ou o que foi adulterado, até agora as conversas não mostram nenhuma ilegalidade. (!!)

As últimas semanas não têm sido fáceis para aquele que até recentemente era o herói dos tolos, provável candidato à presidência da República ou a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, mas que, ao que tudo indica, terminará seus dias como uma figura medíocre, como um Eduardo Cunha da vida,  um ex-homem público folclórico por sua notória incapacidade de se expressar bem e que alcançou o topo do estrelato político mas que caiu por seus próprios atos deploráveis.

20 de maio de 2019

Os protestos de junho de 2013 e os de 2019. Lições que devem ser aprendidas



Em 2013, o movimento do Passe Livre acabou perdendo as rédeas dos protestos por conta da aposta na horizontalidade da direção. Esse erro não pode ser repetido




Eu sou a prova viva de que, para se compreender um fenômeno social, é preciso haver um distanciamento do objeto de análise, para que se possa enxergar detalhes que não eram acessíveis, ou perceptíveis, no calor dos acontecimentos. No caso da história, o distanciamento é temporal.

Em 2013 eu participei, no Rio de Janeiro, das chamadas Jornadas de Junho, aquela série de protestos que colocaram milhões de pessoas nas ruas do país, e que, até hoje, os analistas se desdobram para entender. Na época eu pensava estar participando de um protesto popular contra o aumento das passagens de ônibus na cidade que houvera mudado espontaneamente para um protesto mais amplo, nacional. Mas eu estava redondamente enganado.

Apesar do relativamente curto espaço de tempo que se passou desde então, já é possível fazer, como fizera muito bem o sociólogo Jessé Souza, uma análise crítica do movimento.

De espontânea, aquela guinada nos rumos do protesto não teve nada. Hoje é mais nítido perceber que setores da mídia burguesa junto com uma mobilização estratégica da classe média nas ruas conseguiram subverter o movimento, direcioná-lo para seus propósitos e esvaziar o conteúdo popular. É preciso reconhecer, a estratégia foi um dos maiores sucessos de manipulação de que eu tenho conhecimento.

Aos poucos, essa massa intrusa conseguiu  emplacar lemas como "sem violência" e principalmente "sem partido", deslegitimando a participação da esquerda organizada. Lembro de, distraído, ser abordado por uma senhora de idade, mas com muita energia, que me pedia para segurar um cartaz contra a corrupção do governo federal (Dilma, na época) num dos já degenerados protestos. Como conseguiram arquitetar essa usurpação do protagonismo da esquerda nas ruas de forma tão bem feita é um dos maiores mistérios que ainda não conseguimos solucionar.

O fato é que todo, todo o nosso infortúnio na política nacional começou aí. A partir disso, o governo Dilma se enfraqueceu; o Congresso se fortaleceu; botou o Impeachment em votação e em prática; Lula foi preso; o PT desmoralizado, e a direita saiu do armário para assumir o vácuo de poder.

Tem sido esse desastre colossal.

Tanto que, dialeticamente, eis que os movimentos de esquerda ressurgem com toda força nas ruas. Estudantes, professores e servidores públicos da Educação deram provas no último dia 15 da potência que a esquerda ainda possui. Colocaram milhões de pessoas na luta contra os cortes na área.

Mas é preciso tomar alguns cuidados para que se não repitam os erros de 2013.

Hoje não moro mais no Rio e não pude participar de um dos maiores protestos recentes, o deste dia 15 que aconteceu na Avenida Presidente Vargas. Mas soube que, durante estes protestos, alguns manifestantes foram censurados quando puxaram o coro "Lula Livre!". Muito preocupante.

A Rede Globo, segundo Jessé Souza, foi a grande responsável por guiar a mudança política dos protestos de 2013. Lembro perfeitamente das críticas ferozes proferidas pelo então comentarista político do JN, Arnaldo Jabor, enquanto as manifestações anda eram contra o aumento das passagens de ônibus, e o quanto ele mudou descaradamente de opinião, quando os protestos já estavam tomados pelos coxinhas verde-amarelos.

À Globo também interessa, hoje, o combate ao governo Bolsonaro. Mas não porque ela esteja a favor dos trabalhadores ou da democracia. Ela é a favor dos seus próprios interesses corporativos. E para isso, ela quer um protesto higienizado, sem apelo popular de esquerda, ou seja, sem "Lula Livre" ou sem contestações à Reforma da Previdência, por exemplo. É a condição para a sua cobertura nos telejornais. Mas os movimentos estudantis, sindicatos e demais setores organizados da sociedade civil não podem ceder a esta tentação, pois 2013 está aí para nos servir de exemplo.

Outra questão muito importante é combater aqueles que querem impedir a vanguarda dos protestos de liderar o movimento. Tivemos exemplos lamentáveis nos protestos de 6 anos atrás de que uma massa sem liderança, sem direção clara e sem hierarquia perde facilmente o controle dos rumos do protesto. A UNE, os sindicatos dos professores e das demais categorias que por ventura vierem a participar dos próximos protestos, como a do próximo dia 15 de junho, devem estar afinados e empenhados em seguir as pautas definidas, combater aqueles oportunistas que vierem se infiltrar com intenções espúrias como baixar as bandeiras dos partidos políticos de esquerda e redirecionar os manifestantes para os interesses da burguesia, já totalmente desiludida do governo Bolsonaro.

O que devemos defender agora, seja o Fora Bolsonaro, seja eleições diretas com Lula livre e candidato, seja outra coisa, cabe a nós decidir. Não à Rede Globo.

14 de maio de 2019

Elites capazes de destruir um país para manter seus privilégios

Nesta "Belíndia" chamada Brasil, autossabotagem e destruição em favor de uma minoria de privilegiados





Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro deu com a língua nos dentes num programa de rádio e revelou a todo o país uma das alianças mais espúrias de que se tem notícia dos últimos tempos: o juiz Sérgio Moro, responsável direto pela condenação questionável do ex-presidente Lula — impedindo a  um candidato favorito o direito de se candidatar e consequentemente vencer a eleição — aceitou o cargo de ministro no governo que ele indiretamente ajudou a eleger, sob a condição de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Ver um homem que foi idolatrado por ser uma espécie não de juiz, mas de justiceiro contra corruptos, ao lado de um presidente atolado em suspeitas de mal feitos na política, junto com seus filhos e de vários membros do governo, não deveria surpreender ninguém. A política é tradicionalmente o fórum das elites, e todos eles têm missões a cumprir em nome da manutenção dos privilégios de uma casta de sanguessugas das riquezas nacionais.

O Brasil já foi definido certa vez, em meados dos anos 70, como Belíndia pelo ex-presidente do BNDES, Edmar Bacha. Uma pequena Bélgica de riqueza e prosperidade cercada por uma Índia de falta de recursos e pobreza (daquela época). E os habitantes desta Bélgica imaginária precisam fazer de tudo, nem que seja destruir a própria Belíndia, desde que isso signifique a manutenção de todos os seus privilégios.

Eles sabem que a riqueza de um país é finita, tem um limite, e para que eles possam usufruir das benesses do capitalismo, precisam manter em vigor a maior característica do próprio capitalismo: a brutal desigualdade sócio-econômica, que gera tais privilégios.  Afinal, eles sabem que qualquer melhoria na distribuição de renda, riqueza e conhecimento significaria menos privilégios e mais concorrência para as classes privilegiadas. Como é, de fato, em qualquer país desenvolvido, onde as desigualdades são menores por conta da melhor distribuição de renda. Mas, no Brasil, nossas elites querem o atraso. Atraso é desigualdade e desigualdade é privilégio.

A destruição por que vem passando o Brasil de 2016 pra cá tem muito a ver com essa questão. E também tem muito a ver com Sérgio Moro e Jair Bolsonaro.

Hoje está cada vez mais clara duas características principais da Lava Jato de Sérgio Moro: uma aliança de juízes e promotores brasileiros com a agenda estadunidense de destruição econômica do Brasil, através da condenação e inviabilização de algumas das maiores empresas brasileiras com destaque  internacional — a JBS, a Odebrecht e demais empreiteiras, a Petrobras, e etc —, e condenação e prisão do presidente Lula.

A hegemonia petista conquistada em sucessivas eleições ameaçava, aos olhos das elites, a manutenção das velhas estruturas de privilégios da Belíndia. Principalmente a longo prazo. Dois fatores foram decisivos: a entrada, cada vez maior, promovida pelos governos petistas, de negros e pobres nas Universidades, tradicional núcleo de ascensão social em benefício das classes médias brancas brasileiras. E segundo, a conversão de 75 por cento da arrecadação do pré-sal para investimentos na melhoria da Educação de modo geral. Isso foi demais para as classes privilegiadas.

A Lava Jato cumpriu o seu papel de liquidar a reputação do maior partido brasileiro, o PT, mas como efeito colateral indesejado, também levou junto os tucanos, tradicional legenda burguesa nacional.

As elites não se fizeram de rogadas, e, para manter e até ampliar os ganhos econômicos às custas da maior pauperização da maioria, fizeram as alianças que levaram um capitão medíocre, imbecil, preconceituoso, boçal e nanico do baixo clero político à cadeira presidencial.

Para o mercado e o setor financeiro em geral, bem como às classes ricas e privilegiadas, tais características lamentáveis pouco importam, desde que se cumpra a agenda econômica que permita, justamente, a manutenção/ampliação dos seus privilégios indevidos. A política econômica neoliberal levada a ferro e fogo pelas mãos do xerife do capitalismo, Paulo Guedes, é apenas o que importa para esses gangsteres sem escrúpulos.

Como conseguem emplacar seus candidatos? Desde sempre, através do engano, da manipulação, das mentiras, em resumo, das famosas fake news. A Justiça, outra superestrutura do Estado burguês onde se acomodam as elites privilegiadas, já decretou sigilo a respeito das investigações da influência das fake news no resultado destas últimas eleições até 2022. Faz parte da aliança das altas classes em favor de si mesmas, que também levou Sérgio Moro para dentro do governo em troca de uma vaga no STF, onde ele mesmo no futuro poderá atuar em favor destes interesses.

E assim o Brasil vai caminhando, através de uma série de sabotagens, golpes e destruições, tudo para que uma pequena fatia da população possa usufruir dos bens e das riquezas da nação, para os quais não contribuíram para gerar através do trabalho.

Nosso único alento é que essas coisas não são novidade na história mundial. E que também não é raro que muitos deles de repente tenham seus pescoços decepados, sejam colocados em paredões de fuzilamento ou campos de trabalho forçado por um povo cuja paciência foi testada ao limite. A história mostra que toda vez que há tensionamentos em qualquer sociedade, também há rupturas. Algumas elites de nações hoje desenvolvidas foram inteligentes durante os últimos séculos e cuidaram para que nunca se chegasse a esse ponto. Outras não, e sofreram com revoltas, violências e revoluções.

E agora, uma população que, graças ao governo, além de revoltada, pode estar armada...


11 de maio de 2019

O problema não é Bolsonaro. É o capitalismo


Bolsonaro é apenas o gerente da vez do capital. Por trás do seu governo desastroso, existem interesses claros de desmanche do Estado e de direitos dos trabalhadores




É verdade, o Brasil tem passado pelo maior desafio da sua história republicana. Jamais um presidente foi tão descaradamente atuante em favor dos preceitos do mercado capitalista — e, claro, dos homens poderosos de carne e osso por trás desse conceito abstrato — como o Sr. Jair Messias Bolsonaro.

Bolsonaro e seu superministro Paulo Guedes têm uma missão clara a cumprir: promover o desmonte total do insuficiente Estado brasileiro, sob as mais diversas cortinas de fumaça como alegação: desde a velha falácia da corrupção, passando por uma suposta doutrinação marxista que contamina as instituições.

O que esses agentes do capitalismo nacional e internacional estão fazendo é levar às raias inauditas do extremismo uma situação corriqueira neste gigante país, que não se desfaz de suas amarras coloniais. Sem contar a Primeira República, onde o Estado fora capturado pelas elites cafeeiras paulistas para funcionar como sede de empresa vendedora de café — enquanto a questão social era tratada como "caso de polícia" —, pelo menos desde o presidente Dutra, nossos políticos em aliança com os capitalistas, e por tabela com os Estados Unidos, se comportam como gerentes dos interesses da burguesia. Dutra ainda teve como bônus no poder a atitude carola, conservadora e moralista que a direita usa a seu favor como indicador de superioridade moral, como hoje.

A mídia, alinhada com os Estados Unidos, "mata" Getúlio Vargas

Em 1950, Getúlio Vargas foi eleito e fez um mandato progressista até seu suicídio, em 1954, por pressão de setores da burguesia, insatisfeitas com o nacionalismo do governo. Empresários, setores da Igreja e jornalistas, exatamente como uns anos atrás nos governos petistas, criticavam diariamente o presidente, acusando-o de "populista", outro termo forjado nas instalações da USP por intelectuais ideologicamente alinhados com o capitalismo, onde qualquer medida em socorro das classes menos favorecidas era condenada.

João Goulart queria Reforma Agrária. Ganhou um golpe

Em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, mais uma vez uma força progressista assume o governo federal pelas mãos de João Goulart. Mais uma vez as mesmas facções reacionárias juntaram forças para atacar o governo, cuja principal medida seria combater os históricos latifúndios brasileiros, uma das maiores fontes de nossa histórica desigualdade. Tanto bateram que conseguiram que as Forças Armadas, outro setor cuja oficialidade faz parte das camadas favorecidas da burguesia, entrassem no jogo político, sabotando-o com um golpe militar.

Não vai ter eleições diretas. vai ter Sarney

Terminado o período de 21 anos sob o arbítrio do autoritarismo, as Diretas Já foram sabotadas em 85, com a eleição por colégio eleitoral de Tancredo Neves. Após a sua estranha e misteriosa morte, assumiu José Sarney, que fez um governo tão desastroso que abriu caminho para o então jovem Partido dos Trabalhadores disputar a eleição direta de 89 com reais chances de vitória.

A burguesia inventa Collor 

Mais uma vez, a aliança espúria entra em cena. Empresários, religiosos, Forças Armadas e principalmente a mídia, através da Rede Globo, promoveram uma campanha criminosa de mentiras e difamações contra o então candidato Lula, para favorecer o incipiente e até então desconhecido Fernando Collor, que ganhou a alcunha de "caçador de marajás" nas mídias capitalistas. Vitória da direita e começo do neoliberalismo no Brasil. Foi o desastre que todos conhecemos.

A elite capitalista de São Paulo funda seu próprio partido, PSDB

Lula ainda representava grande "perigo", e a mídia, enquanto Itamar fazia um mandato tampão, preparava o Príncipe da Privataria para ser o candidato da burguesia nacional. Fernando Henrique Cardoso se prestou a um papel lamentável, o mesmo que Collor começou mas não conseguiu terminar, de responsável pela implementação dos preceitos neoliberais do Consenso de Washington no Brasil. Durante oito anos o Brasil experimentou uma forma de política-econômica destruidora do Estado como árbitro das relações entre capital e trabalho, abriu o mercado nacional a produtos estrangeiros, começando o processo de destruição da indústria nacional, vendeu empresas estatais saudáveis a preço de banana depois de sucateá-las, e etc. Dessa vez o estrago foi grande demais e o povo não queria ver um tucano na sua frente nem banhado a ouro depois de dois mandatos seguidos.

Assim, pela primeira vez, em 2002, o PT venceu uma eleição presidencial. Seu mandato foi marcado por uma "conciliação de classes" que partiu por iniciativa do seu próprio governo, não das classes conservadoras, capitalistas e reacionárias em frangalhos depois daqueles terríveis oito anos no poder.

Ainda fracas, à direita não restava outra alternativa a não ser reagrupar forças, esperar o momento certo para atacar o governo progressista, como sempre. A primeira chance apareceu com a denúncia do "mensalão", uma lamentável prática corriqueira na política nacional, mas muito tolerada com vistas grossas durante os mandatos anteriores. O PSDB, criador do método junto com Marcos Valério, passou a condená-lo no governo Lula.

A direita se recupera e se fortalece

Dois fatores fizeram Lula escapar naquela ocasião: o amplo apoio popular — Lula literalmente buscou os braços do povo — e a estratégia dos tucanos, de não pedir o Impeachment, e sim deixar o governo "sangrando em praça pública" até morrer sozinho, coisa que não aconteceu.

Lula terminou seu mandato com grande popularidade e elegeu sua sucessora, Dilma. Nesse ponto, cansados de perder nas regras do jogo democrático, a direita, sem limites éticos para suas ações, resolveu partir para o ataque sujo na reeleição de Dilma. Primeiro Aécio Neves, seu concorrente, deselegantemente quebrou o protocolo e não reconheceu a vitória petista. A seguir resolveu inviabilizar o governo junto com a direita e o chamado Centrão na Câmara de Deputados, todos eles fazendo a vontade dos mercados e dos capitalistas que já não suportavam mais o PT no poder. O passo seguinte foi bolar um estratagema jurídico falso para justificar um Impeachment ilegal, que foi feito. A partir daí, as portas do poder estavam abertas para os verdadeiros interesses da burguesia.

Caminho livre para o lucro e ataques aos direitos do povo

Michel Temer, o vice que assumiu o governo, assumiu também a agenda capitalista: a Reforma da Previdência. Nesse ponto, mais um elemento golpista alinhado com os interesses capitalistas, sobretudo o dos Estados Unidos, entra em cena: o setor do Judiciário. Primeiro com o Supremo alinhavando a farsa do Impeachment, segundo, com a instituição de uma peça de perseguição política chamada Lava Jato, através do nanico e incompetente Sérgio Moro, que teve o mérito, pela ótica da burguesia, de conseguir prender o ex-presidente Lula com evidências frágeis e ilegais.

Impedido de concorrer, Lula não foi capaz de transferir seus votos a Fernando Haddad. A direita, no poder, mas enfraquecida eleitoralmente pela farsa e má reputação dos seus gerentes políticos preferidos, os tucanos, tiveram que fazer uma aliança com a obscura, raivosa e radical figura de Jair Bolsonaro nesta última eleição, vencida por ele. É o ponto em que estamos.

Esse ponto representa o caminho aberto como nunca na história brasileira para a direita e o capitalismo implementarem livremente seus preceitos econômicos destruidores. Durante todos esses anos, a esquerda foi capaz de resistir e moderar o apetite capitalistas por mais dinheiro e lucros, mas hoje, enfraquecida e dividida como está, assiste o capitalismo passar como um verdadeiro tsunami sobre todas as históricas conquistas sociais do povo brasileiro. A CLT foi destruída, a aposentadoria está em viés de se tornar apenas uma peça de ficção num papel, as empresas brasileiras bem como as nossas riquezas minerais são entregues a empresas internacionais, a Lava Jato destruiu empresas brasileiras e milhares de empregos para condenar Lula, as universidades públicas estão em vias de extinção com severos cortes de verbas, programas sociais são interrompidos, o salário mínimo parou de ser corrigido e os empregos, quando existem, são precários e degradantes.

Isso não é obra de Jair Bolsonaro. É obra do capitalismo, único fator que une facções tão díspares no governo como pastores evangélicos ricos, lunáticos que creem em teorias da conspiração mundial, Forças Armadas em defesa dos seus privilégios e, claro, o setor financeiro, na figura do nefando Paulo Guedes.

Bolsonaro é apenas o gerente da vez, talvez o mais fraco e incompetente, por isso mesmo incapaz de administrar não só o país, como as próprias crises entre seus próprios aliados no governo. Esse papel não é novo, já foi feito antes, conforme demonstrado. O que diferencia Bolsonaro dos outros, é que ele vive uma época em que as esquerdas foram fragilizadas por diversos ataques de mentiras, manipulações e ações criminosas como um Impeachment ilegal, além da prisão injusta do seu maior líder na atualidade. Tal como no fim da Guerra Fria, que fazia o balanço de forças opostas ser equilibradas no mundo, tendo os Estados Unidos partido para um imperialismo violento e indisfarçado a partir da queda da União Soviética, é assim que a direita brasileira se sente hoje, livre para promover todos os seus ataques em nome do lucro capitalista com o enfraquecimento da esquerda. Vão-se embora leis de proteção a áreas indígenas, do meio ambiente, dos direitos humanos, das regras constitucionais, qualquer empecilho que tente se contrapor a um ataque voraz do capitalismo no Brasil.

A esquerda partidária precisa aprender. Precisa aprender com a direita. Primeiro, cessar as lutas intestinas entre si e focar no adversário em comum. É isso que eles, nosso adversários, fazem. Segundo, uma vez alcançado o poder, se é que isso vai acontecer antes da direita destruir as instituições democráticas, agir sem conciliação, sem concessão e sem frouxidão. É preciso varrer de uma vez por todas essa influência maligna do capitalismo sobre a política. Somente reformas na política e nas mídias, na sociedade e nas Forças Armadas serão capazes de preparar o terreno para uma era prolongada de justiça social. Foi a falha que Lula cometeu, ao inventar a aberração de conciliação de classes com inimigos no momento em que deveria ter dado um soco e não a mão. Hoje ele é vítima dessa postura carinhosa com seus adversários.

Ou é isso, ou o Brasil vai caminhar realmente para a barbárie, não importa quem venha depois de Bolsonaro.


21 de abril de 2019

Preço do diesel, caminhoneiros e (falta de) consciência de classe.

Caminhoneiros que apoiaram Bolsonaro sofrem previsivelmente das consequências de um governo a favor dos ditames do mercado



O Brasil vive a expectativa de uma nova greve dos caminhoneiros autônomos para o próximo dia 29 de abril. A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) afirma em nota que o novo anúncio do aumento do diesel deixou os motoristas "enfurecidos" com o governo.

Governo este, lembremos, festejado pela categoria. Tanto que não existe ainda certeza da greve. O presidente do Sindicato Interestadual dos Caminhoneiros, José Natan Neto, afirmou que "o pessoal [os caminhoneiros] gosta do Bolsonaro, e estão esperando para ver se virão medidas para melhorar".

Nada demonstra com mais clareza do que este tema, o quanto a total incapacidade de análise básica político-econômica, aliado a um desconhecimento total da consciência de classe, pode gerar de danos auto-infligidos a uma categoria de trabalhadores.

Ao eleger um candidato à presidente da República, é preciso saber o que aquele candidato representa, para quem ele pretende atuar. Atualmente existem basicamente duas frentes, antagônicas, sobre as quais um presidente deve optar: os pobres e trabalhadores, ou os ricos e o mercado capitalista.

Claro que alguns presidentes brasileiros atuaram bastante em favor do mercado sem, no entanto, negligenciar um aparente cuidado aos pobres, sendo assim explicado como conseguem ser eleitos pela maioria esmagadora de pessoas carentes e despossuídas. Foram os casos, por exemplo, Collor e Fernando Henrique Cardoso.

A questão é que o mundo capitalista estabelece limites para que os tais cuidados com os pobres não sejam tanto a ponto de desequilibrar a histórica balança de desigualdade sócio-econômica brasileira em desfavor dos menos favorecidos, o que garantiria às classes privilegiadas um acesso menor às riquezas nacionais.

Neste ponto, podemos dizer que estes foram os maiores "erros" dos governos Lula e Dilma. Apesar de nitidamente trabalharem pela felicidade dos acionistas, rentistas e capitalistas de modo geral, ousaram tirar milhões da miséria e colocá-los dentro de uma faixa de consumo básico, passando do "limite", assustando a burguesia. Além disso, proporcionaram uma saída da pobreza através da educação de nível superior a milhares de pessoas das classes mais pobres, negras, pardas e indígenas. O momento era tão favorável do país — então a sexta economia mundial —, que não era incomum presenciarmos patrões e empregados num mesmo voo para o exterior — fator, aliás, responsável por um dos maiores chiliques da burguesia nacional.

O que mais Lula e Dilma fizeram, que incomodou tanto a classe privilegiada nacional? Promoveram uma "intervenção leve" nos ditames da economia. Dentre elas, sobre as flutuações do preço do diesel. Para evitar justamente os choques das flutuações constantes do preço internacional, Dilma fez a Petrobras absorver por longos períodos os aumentos em seu custo de produção, garantindo assim a estabilidade dos preços do óleo.

Já no governo Temer, que assumiu depois de um golpe que certamente teve como uma das motivações justamente o controle petista do preço do diesel, que fazia os acionistas da Petrobras perderem dinheiro, o óleo combustível passou a seguir os preços do mercado internacional e todas as suas flutuações imprevisíveis. A conclusão foi uma escalada de sucessivos reajustes pra cima que culminou no aumento de 50 por cento de 2017 para 2018 e a greve dos caminhoneiros por conta disso.

A diferença da política econômica da direita e da esquerda eram claras nessa questão: o PT de Dilma preferiu contrariar o deus-mercado e os acionistas da Petrobras em favor da manutenção de preços estáveis do combustível, enquanto Temer, um nítido gerente dos interesses da burguesia no poder, fez exatamente o contrário.

A questão é que naquele mesmo ano da greve dos caminhoneiros haveriam eleições presidenciais. A zebra do baixo-clero Jair Bolsonaro despontava como favorito, enquanto o PT vinha com o claudicante Haddad. De que lado ficariam os caminhoneiros?

Eis a chave que explica a incapacidade de uma categoria entender questões político-ideológicas que lhes afetam diretamente. Naturalmente, como motoristas de caminhão, deveriam ser a favor do partido que segurou os preços do diesel, evitando assim que o mercado internacional continuasse ditando os preços de fora pra dentro, se lixando para os ricos acionistas que perderiam dinheiro. Mas abraçaram a campanha de Bolsonaro e seu aliado ultraliberal Paulo Guedes, um verdadeiro xerife do capitalismo dentro do poder. O resultado era previsível, só não viu quem não quis. Novo aumento do diesel essa semana e promessa de novos aumentos no futuro, de acordo com os inconstantes humores do mercado.

Muitas vezes a luta de classes se encontra oculta nas brumas do totalitarismo que se tornou o capitalismo em nossas vidas, onde o capital atua nas mais simples esferas da vida até chegar na macroeconomia. Paradoxalmente, de tão presente em nossas vidas, as mazelas do capitalismo se naturalizam e se tornam invisíveis. Só uma profunda capacidade de análise e reflexão são capazes de desnudar esses interesses ocultos.

Nesse sentido, os caminhoneiros foram enganados inocentemente pela burguesia, pelas classes dominantes e pelo setor financeiro, ao crerem que o que era bom para estes setores também seria bom para os trabalhadores. Tudo por falta de uma capacidade de análise teórica da suas vidas e do mundo em que vivem.

Não é tarde para reconhecer o erro e tomar consciência do seu verdadeiro lugar no modo de produção, a de explorados que precisam lutar pelos seus direitos e eleger candidatos que não sejam capachos do capitalismo. Pois os interesses econômicos dos capitalistas e dos trabalhadores jamais serão conciliáveis.

Que esta antiga lição, já meio esquecida por muita gente, seja sempre relembrada por todos nós.


16 de abril de 2019

Bolsonaro vai perder a chance de entrar num museu pela primeira vez na vida

Pressão de funcionários e pessoas influentes funciona, e museu de Nova Iorque veta homenagem a Bolsonaro em suas dependências



Jair Bolsonaro não vai passar "Uma noite no museu", como no filme hollywoodiano. Se, por um lado, os novaiorquinos perderão a chance de ver pessoalmente um espécime humanoide pouco mais desenvolvido do que um neandertal em carne e osso no Museu Americano de História Natural (AMNH na sigla em inglês), por outro serão poupados do constrangimento de abrigar, num dos maiores templos mundiais da ciência, um negacionista, crente em teorias conspiratórias imbecis de internet e difusor de fake news.

Foi tamanha a pressão, de dentro e de fora do museu, para que o evento, que seria sediado no prédio, fosse cancelado, que funcionou. Esta semana os diretores do museu anunciaram que o jantar que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos faria no local em homenagem ao presidente brasileiro teria que ocorrer em outro local.

A desculpa apresentada pela diretoria do AMNH teve a ver com a preservação da Amazônia, uma preocupação internacional que eles não identificam no presidente brasileiro. Certamente escolheram uma justificativa que tivesse a ver com a área de atuação do museu, mas a rejeição a Bolsonaro partiu de diversas áreas dos Estados Unidos, bem como dos diversos empregados da instituição, sob as mais diversas alegações.

O prefeito de Nova Iorque, por exemplo, foi a primeira voz mais importante a fazer a "Call for Battle", ou seja, o chamamento contra a absurda homenagem que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos pretendia fazer no museu. Chamou o presidente brasileiro de "ser humano perigoso" por conta do seu racismo e da sua homofobia. Foi demais para os diretores do museu aguentarem a pressão, até que o evento fosse finalmente vetado na instituição, conforme anunciado recentemente.

Além de notório racista, sexista e homofóbico, Bolsonaro é inimigo da ciência e da educação. Basta dizer que colocou na direção do Ministério da Educação em menos de quatro meses, homens notórios por suas ignorâncias sobre o tema, defensores de teorias infantis de conspiração, além de ter nomeado recentemente um delegado de polícia no Inep, responsável pela elaboração do Enem. Além disso, o presidente anunciou corte de verbas de patrocínio da Petrobras e do BNDES na área da cultura, afetando diretamente eventos culturais importantes como Festival do Rio, Festival de Cinema de São Paulo, Anima Mundi, Festival de Cinema de Vitória, Prêmio da Música Brasileira, Clube do Choro em Brasília, entre outros.

Como um presidente desses pôde merecer o prêmio de "personalidade do ano", que lhe seria oferecido no museu de Nova Iorque pela Câmara de Comércio?

Porque para os capitalistas, para os homens de negócio, das finanças e do mercado, tudo o que importa é como o seu capacho gerencia o comitê dos interesses econômicos da alta burguesia, que representa hoje o governo brasileiro. Questões morais e éticas passam longe do capitalismo, como a história já mostrou por diversas vezes. Para estes homens brancos, velhos, gordos e engravatados, Bolsonaro merece um prêmio por ter arrochado o trabalhador, poupado os ricos, ter parado pela primeira vez em quase 20 anos o aumento real do salário mínimo, por estar propondo uma reforma da Previdência draconiana com os mais pobres, e estar vendendo o Brasil para os interesses econômicos dos Estados Unidos.

Ainda bem que, pelo menos, os homens da ciência ainda são sensatos a ponto de barrar a entrada de um ser humano tão vil e abjeto nas nobres dependências do museu, um templo do saber e do conhecimento. Deixe que as aves de rapina do capitalismo arrumem outro lugar mais apropriado para bajular seu funcionário político. Em Wall Street, por exemplo. Batendo o martelo da venda de alguma empresa brasileira, como na lamentável e criminosa cena do então ministro José Serra, batendo o martelo da venda da Vale do Rio Doce na Bolsa de Valores do Rio, tempos atrás. Era o capacho de então.


12 de fevereiro de 2019

2019 não tem sido fácil

2019 não tem sido fácil
Sucessão de tragédias nesse ano de 2019 começou bem antes, com o descaso das autoridades em vistoriar e punir tudo o que coloca a vida em risco no Brasil

Essas últimas semanas não têm sido fáceis para nosso país. Uma sucessão de tragédias ocorreram e deixaram a população brasileira em estado de perplexidade e luto, pelas mais diversas razões.

Seja na política, com as medidas draconianas previstas para serem postas em prática, seja por afirmações totalmente ridículas proferidas por membros do alto escalão do governo, ou por tragédias misturadas com descaso das autoridades, o fato é que parece que o Brasil vive um pesadelo sem fim desde que este ano começou.

Minas e Rio de Janeiro parecem ser o palco dos principais eventos. Depois da queda da barragem de Mariana, agora Brumadinho, três anos depois, sofre mais uma vez com esse tipo de desastre. A Vale, empresa de mineração que foi privatizada criminosamente no governo de Fernando Henrique Cardoso, resolveu desinvestir em segurança para lucrar mais no fim do mês. É a essência de todo empreendimento privado: cortar aonde puder para potencializar os lucros. O resultado dessa filosofia capitalista é o número de 165 mortos, mais de cem desaparecidos e um estrago ambiental para mais de 100 anos até a sua plena recuperação — se é que isto vai ocorrer.

No Rio de Janeiro a decorrência de eventos é ainda mais chocante. Somente nessas últimas semanas, tivemos uma chacina policial no morro do Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, que nos dá uma prévia do que será a atuação da PM em áreas carentes a partir da carta branca que representa as propostas enviadas ao Congresso por Sérgio Moro.

O Rio também foi alvo de uma torrencial tempestade de ventos com quase 120 quilômetros/h, que destruiu casas, estruturas, automóveis e — o mais grave de tudo — deixou um saldo de 7 mortos.

Ainda no Rio, sem dar tempo para o luto, outra tragédia: 10 adolescentes mortos no alojamento do Clube de Regatas do Flamengo, vítimas de um incêndio causado por um curto-circuito num aparelho de ar-condicionado. Dois dias depois, outro incêndio ocorreu na Zona Oeste, nas instalações da Aeronáutica usadas pelo Bangu Atlético Clube como centro de treinamento.

Para citar outros casos em outras regiões, ontem um incêndio de grandes proporções atingiu a usina de Belo Monte, no Pará, sem deixar feridos, e um helicóptero que não tinha licença para transportar passageiros caiu em São Paulo, se incendiando e matando além do piloto, o jornalista Ricardo Boechat.

O que podemos tirar de conclusão desse compêndio de desgraças que assolam esse ano de 2019?

Pra mim, algo muito claro: a vida, neste país, não vale nada para quem tem o poder. Morre-se como insetos, vítimas de um desdém institucional de governantes e empresários.

Em Minas, a primeira tragédia de Mariana ficou barato. Multas irrisórias aplicadas que não foram pagas, vistorias aprovadas com assédio moral a engenheiros, repetição da tragédia em Brumadinho e nenhuma, absolutamente nenhuma medida drástica contra a Vale, como por exemplo a reestatização da empresa, que nem deveria ter sido privatizada, a propósito.

No Rio, uma cena comum, a de moradores de comunidades carentes sendo assassinados numa guerra imbecil contra as drogas, que transforma o negro da periferia em inimigo em potencial. Suas mortes jamais são investigadas, seus assassinos nunca são punidos. Ninguém se importa com eles.

A prefeitura da cidade, por sua vez, passou os últimos 5 anos cortando investimentos em prevenção de chuvas, tendo responsabilidade direta na tragédia, que não é "natural". Ao contrário de um tsunami ou um terremoto totalmente imprevisíveis, o fenômeno das chuvas no Rio são esperados sempre para esta mesma época do ano e há pelo menos 100 anos o carioca sofre com o descaso das autoridades.

No Flamengo, existe a informação de que o clube funcionava tranquilamente pelo menos desde os últimos 2 anos sem alvará do corpo de bombeiros, tendo recebido mais de 30 multas e mesmo assim continuava com suas portas abertas. Não se sabe ainda o grau de responsabilidade do clube na morte dos jogadores da base, mas ela existe e por mais que agora se tente colocar os documentos em dia, aquelas 10 vidas não vão mais voltar.

Nossa história de desprezo pela vida humana vem de longe, está estampada no nosso passado e no nosso presente. O mais triste de tudo, é que eventos apocalípticos como os que têm acontecido não servem para uma mudança de rumos. Não se aproveita o momento de reflexão para dar um basta no descaso contra a vida, sempre se vai arrumar um bode expiatório para se amenizar o quadro, visto sempre de forma isolada, como um "acidente", uma "fatalidade" que foge do controle das autoridades.

E assim, infelizmente, temos a certeza que muitas outras catástrofes estão aí, prestes a acontecer, como uma bomba-relógio acionada por uma roleta russa do descaso.

23 de janeiro de 2019

Mundo conhece Bolsonaro e reações vão de surpresa a decepção

A participação de Bolsonaro em Davos provocou diversas reações negativas entre jornalistas e especialistas em diplomacia no mundo. 
Bolsonaro almoça sozinho em Davos. O retrato de alguém que ninguém quer por perto

Desde ontem, com sua participação esdrúxula no Fórum de Davos, o mundo passou a conhecer melhor o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. E ele não decepcionou. Quer dizer, decepcionou muito, mas foi exatamente aquilo que as pessoas estavam esperando: um fiasco. E isso ficou bastante claro nas manchetes dos principais jornais do mundo hoje, resumido na descrição "big fail" (ou "grande fracasso" em tradução livre).

Nunca um político discursou por menos do que 10 minutos. Bolsonaro resumiu o seu em apenas 6. Não que não tivesse muitas dúvidas a esclarecer aos participantes, mas, no entanto, escolheu falar pouco para errar o mínimo. E ainda assim errou bastante. O mercado financeiro, o grande anfitrião de Davos, reagiu de forma negativa, e os reflexos do discurso pífio refletiram na bolsa e no dólar.

Mesmo tendo uma postura de total rendição incondicional aos preceitos do mercado, prometendo abrir as pernas do Brasil ao comércio mundial, nem mesmo assim Bolsonaro empolgou. Prometeu na meca do mercado livre um comércio "sem viés ideológico", ou seja, ao fim e ao cabo, um comércio não regulado pelo mercado e sim pela patrulha do Estado, que decide com quem o Brasil pode ou não pode fazer comércio. E essa postura ridícula, que pressupõe que até aqui o Brasil tem privilegiado nações em detrimento de outras para fazer comércio, promete justamente privilegiar nações em detrimento de outras para fazer comércio.

Esse viés totalmente radical do governo Bolsonaro, encarnado em Ernesto Araújo, um dos mais despreparados e lunáticos ministros das relações exteriores que se tem notícia no Brasil, já começa a ter efeitos catastróficos práticos para a economia nacional. Por uma escolha, mais uma vez, ideológica, de alinhamento servil aos interesses internacionais dos Estados Unidos, comprando animosidades que não são nossas, como por exemplo a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, o Brasil acaba de perder o maior mercado internacional para venda de frangos. A Arábia Saudita, numa clara retaliação ainda não assumida como tal, suspendeu a compra de 33 frigoríficos brasileiros.

Como consequência em cadeia, os frigoríficos não compram dos pequenos produtores de frangos ao redor do Brasil, que não compram a ração que os alimenta, paralisando diversos setores de uma vez.

Um tiro no próprio pé, fruto de uma visão tacanha, mesquinha e imbecil de isolamento entre "nós e eles", bem típico da diplomacia ianque, que começa a destruir a reputação mundial do Brasil tanto na diplomacia quanto na economia internacional. Fato que pode ser perfeitamente ilustrado com Jair Bolsonaro almoçando sozinho no fast-food de Davos enquanto os demais líderes mundiais confraternizavam e trocavam ideias entre si.

É o retrato do novo Brasil xiita.


22 de janeiro de 2019

Sobre os fundamentalismos religiosos de hoje no mundo

O extremismo, que hoje choca, foi praticado durante séculos. Foi o advento da Razão que obrigou religiosos a suavizar suas práticas

Em julho de 2011, Anders Behring Breivik (imagem acima fazendo a saudação nazista no seu julgamento), um ativista norueguês da extrema-direita, considerado “fundamentalista” cristão, provocou a morte de 76 pessoas, e feriu quase 100 em dois atentados naquele país. Muito se enfatizou o aspecto extremista de seu manifesto religioso e de sua conduta, como se fosse um lunático ou alguém que tivesse praticado um ato contrário ao que pregam as religiões.

Quero chamar a atenção para um detalhe importante: quando acontece um caso como esse, é comum a mídia em geral tratar os religiosos que o praticam como fundamentalistas, seja um solitário católico como Breivik ou um grupo islâmico, por serem uma parcela menor com métodos questionáveis dentro de determinada religião, que seria, no seu âmago, boa, pura e inocente. Mas eu vejo de modo um pouco diferente. Na verdade, chamamos de fundamentalistas aqueles que praticam a religião ortodoxamente, rigidamente, fielmente, e, portanto, são os autênticos religiosos. Explico adiante.

Fundamentalistas, na verdade, são religiosos legítimos

O fundamentalista religioso (fundamentalismo: "doutrina que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal dos textos religiosos") na realidade, é o verdadeiro religioso, porque não cria nenhum juízo de valor sobre as consequências dos seu atos, ele acredita na veracidade incontestável de sua fé e de seus textos sagrados, que, para ele, são atemporais, devem ser livres de interpretações subjetivas, moderações e suavizações. Ao contrário do que se diz, é ele que pratica a ortodoxia da sua religião, ou seja, segue os dogmas corretamente. Portanto, se o livro sagrado que ele cultua afirma que o seu deus é o único e verdadeiro e que todos os outros religiosos de outras fés são perigosos, infiéis, que devem ser convertidos ou combatidos, então ele o faz da melhor forma que lhe convir. Antes se fazia Jihads e Cruzadas, hoje atentados à bomba ou genocídio.

Os que se dizem religiosos, mas não são “fundamentalistas”, e que até os condenam, na verdade são, estes sim, heterodoxos, religiosos por conveniência ou religiosos de ocasião, por medo, comodismo, vontade de estabelecer aprovação social, salvação pelo menor esforço, ou outra situação qualquer. E acham que estão fazendo muito bem. No entanto, não estão seguindo fielmente as determinações de deus e de sua religião como deveriam. Felizmente, para o resto de nós, (os não-religiosos, religiosos de outras denominações, agnósticos ou deístas), enquanto cidadãos de um Estado laico (pelo menos no papel), religiosos fajutos não-praticantes ou suavizados deste tipo são cada vez mais comuns e bem-vindos.


Religiosos moderados optaram por fé sem sacrifícios

Fundamentalistas são os verdadeiros religiosos, tentando corrigir os desvios que suas religiões foram obrigadas a fazer nas Eras Moderna e Contemporânea – na verdade, suavizações e relativizações de interpretação – por causa do advento da ciência e da Razão, especialmente a partir do século XVIII.

Buscam seguir fielmente todos os males e irracionalidades que suas religiões determinam historicamente desde uma época de ignorância, como passar fome em jejuns, abstinências sexuais antes de dias sagrados, não usar eletricidade nos sábados e etc. porque "assim determinou deus".

A religião, realmente, só faz sentido se levada ao pé da letra, como mandamentos vindos direto de deus, como é a doutrina das religiões monoteístas. Senão, pra que segui-la? Esse é o dilema dos religiosos moderados. Os fundamentalistas decidiram fazer uma escolha corajosa: manter a fé e abandonar a Razão. Os religiosos moderados resolveram optar pela solução mais cômoda: manter a fé sem abrir mão de uma suposta racionalidade mandrake, embora pra isso precisem fazer diversos malabarismos mentais para conciliar as duas situações. Mas isso não faz sentido. Quem modera a palavra de deus não a está seguindo corretamente, e, caso estejam certos sobre a vida após a morte, talvez tenham problemas na hora do julgamento celestial…


Caminhando para o ateísmo no futuro

A religião só é tolerada em nosso meio, em pleno século XXI, porque, felizmente, em diversos países a população mundial se encontra no estágio intermediário entre seguir as religiões ao pé da letra como Anders Behring Breivik e abandoná-las completamente como algo ultrapassado, como os ateus. Neste ínterim, não seguem mais as doutrinas religiosas com muito afinco — o que pode não ser muito bom para eles na hora de prestar contas com o todo-poderoso um dia, mas é ótimo para a sociedade de modo geral —, mas não são ainda absolutamente capazes de se livrar por completo dela. Claro que em alguns locais, muitos cidadãos estão ainda vivendo plenamente a era fundamentalista, como os países islâmicos, os Estados Unidos e o Brasil, enquanto outros parecem já ter abandonado de vez as crenças religiosas, como nos países do norte da Europa.

Mas o fato é que apesar disso, a maioria das pessoas se encontra a meio caminho para o abandono total desses dogmas medievais no futuro breve. Porque, no mundo de hoje, se todo mundo fosse tão fiel à sua fé quanto o atirador que matou dezenas de pessoas na Noruega ou os terroristas do Estado Islâmico, ou o mundo já teria acabado, ou quem teria acabado de vez era a religião, proibida como algo ultrajante em plena era do conhecimento.

21 de janeiro de 2019

Sérgio Moro, o Cavalo de Troia do PSDB dentro do governo?

Político com ligações tucanas é alvo de suposições de que teria vazado investigações do Coaf para a Rede Globo atacar o governo Bolsonaro


Nesta semana, o mundo político brasileiro ficou surpreendido com o grande destaque que a Rede Globo deu sobre as investigações do Conselho de Controle de Movimentações Financeiras (Coaf), a respeito das movimentações financeiras suspeitas envolvendo o motorista do filho do presidente Jair Bolsonaro. Na sexta, por exemplo, o Jornal Nacional dedicou quase cinco minutos sobre o tema, escancarando em rede nacional uma saia justa que colocou membros do governo de cabelo em pé.

O Coaf foi criado e se manteve vinculado, como seria a lógica, ao Ministério da Fazenda. Numa manobra controversa que desagradou diversos especialistas, o presidente baixou um decreto e transferiu o órgão para o chamado Superministério da Justiça a cargo de Sérgio Moro. Com essa medida, podemos muito bem especular, Jair Bolsonaro pretendia blindar as artimanhas de Flávio Bolsonaro e de seu motorista laranja, confiando que Moro manteria discrição sobre quaisquer malfeitos que por ventura fossem descobertos. Mas não foi isso que aconteceu, como os vazamentos das investigações para a Rede Globo mostram.

Jair Bolsonaro era apenas o plano B da burguesia nacional 

Jair Bolsonaro se elegeu graças a um efeito colateral imprevisto e indesejável do golpe perpetrado no governo Dilma pela burguesia nacional. O plano inicial era, sem dúvida, bombardear o PT, manchando sua a reputação, impingindo-lhe a pecha de maior, senão de único partido corrupto do país, abrindo o caminho para o PSDB assumir o poder pelas vias tortas. No entanto, por mais que a Globo atacasse violentamente o PT e acobertasse os diversos escândalos envolvendo os tucanos do PSDB, a estratégia falhou. Para a opinião pública em geral, e isso envolvia especialmente grande parte das classes médias, o PSDB entrou na ciranda e queimou seu filme tanto quanto o PT.

Isso deixou a burguesia nacional sem opções. Com os tucanos, fonte de seus quadros preferidos, totalmente desmoralizados, foi preciso confiar num tresloucado, imprevisível, raivoso e radical nanico político chamado Jair Bolsonaro, do baixo clero da Câmara há 30 anos, para depositar todas as suas fichas, na esperança de que a faixa presidencial pudesse arrefecer seus ânimos selvagens. Não aconteceu.

A burguesia ainda prefere os tucanos 

Ora, nada é mais caro para a burguesia, e consequentemente para o mercado capitalista, do que a paz e a estabilidade para que os negócios possam fluir. E o Brasil se encontra em plena agitação, clima de instabilidade e de perplexidade geral a cada novo pronunciamento de alguns dos ministros deste governo. Isso sem falar nos diversos quadros envolvidos em casos de corrupção, que já constrangeram o próprio Moro como no caso do pedido de "perdão" de Onyx Lorenzoni. E agora lavagem de dinheiro envolvendo o filho do próprio presidente, um senador eleito pelo mesmo partido do presidente...

Moro, o cavalo de Troia no governo 

Diante desse cenário, era natural que começassem a surgir suspeitas de que os vazamentos do Coaf — órgão que, relembramos, está agora diretamente subordinado ao ministério do Moro — foram autorizados pelo ex-juiz da Lava Jato. Mas a troco de que Sérgio Moro faria esse procedimento arriscado?

É só ligar lé com cré. Moro é tucano, e isso não é novidade. Moro tem ligações estreitas com a Globo, que é tucana. O tucanato do PSDB é tradicionalmente o partido da burguesia nacional desde os governos FHC. A burguesia já começa a se mostrar insatisfeita com os rumos que este governo está tomando em direção à desmoralização total. Moro, de dentro do governo, pode destrui-lo, expondo as entranhas corruptas dos Bolsonaro, até que este governo se torne insustentável, e se colocar, ele próprio, como a nova opção da burguesia, mais sereno, mais ponderado e, portanto, mais indicado.

Aí os tucanos teriam duas opções para emplacá-lo. Ou minam este governo aos poucos até o fim do mandato, como em 2006, diante do escândalo do mensalão petista, quando tinham a opção de propor um Impeachment mas preferiram a estratégia (hoje sabemos, equivocada) de fazer o "governo sangrar" para desgastá-lo mais, ou inviabilizam o governo pela via parlamentar junto com os demais partidos do chamado Centrão, como fizeram com Dilma, levando-o ao caminho do Impeachment.

Cabe às esquerdas, nesse contexto, estarem atentas na crise que começa a aprofundar no seio da própria direita para tomar os possíveis espaços vazios nos vácuos de poder que a prolongada crise política pode levar.

Resta saber se as nossas esquerdas partidárias, fragmentadas, desunidas e doidas pra se colocar à reboque do Rodrigo Maia, terão condições de fazer qualquer coisa.