Bolsonaro e o calendário asteca

O antigo povo asteca possuía dois calendários: o solar e o sagrado. O calendário solar possuía, tal com o nosso, 365 dias, mas era dividido em 18 meses de 20 dias, mais 5 dias suplementares para completar o ano. Esses cinco dias do final do ano eram chamados de "nemotemi", ou dias vazios e considerados nefastos, de mau agouro.

A sensação no Brasil pós-eleição é que estamos vivendo não 5 dias, mas 2 meses vazios desde que Bolsonaro ganhou a eleição até que venha a posse em 1º de janeiro.

 Os homens de Bolsonaro

Nesse período, temos assistido de forma pasmada, primeiro, a nomeação de figuras medíocres, corruptas, imorais, polêmicas ou notoriamente despreparadas para importantes cargos do governo; basta citar apenas os casos de Magno Malta para um ministério absurdo que será criado exclusivamente pra ele, o da "Família"; ou Onyx Lorenzoni, corrupto assumido e declarado que pediu desculpas pelos milhões arrecadados ilegalmente no caixa 2, ou o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, que outrora afirmara que caixa 2 é um dos maiores crimes na política, e hoje passa panos quentes nos crimes do seu futuro colega de governo, "porque ele já reconheceu o erro e pediu desculpas".

 Vai fazer diferente?

Além de tudo isso, existe a contradição. Bolsonaro foi eleito como um homem que não participava dos esquemas e nem se misturava com políticos corruptos, imagem que conseguiu emplacar eficientemente entre seus eleitores não obstante ter pertencido ao PP durante muitos anos, um dos partidos mais corruptos em qualquer lista de corrupção que se faça, e tenha convivido todo esse tempo com Paulo Maluf, cuja carreira em termos de mal feitorias seria difícil encontrar igual no planeta.



Mesmo com esse valoroso capital de ser considerado um político que vai fazer diferente, Bolsonaro já admitiu contar com muitas das medidas tomadas no governo Temer, senão com o próprio Temer no futuro governo! Lembremos que Michel Temer precisará de foro especial depois do governo para não responder pelos diversos crimes que lhe são imputados.

Até agora, só perda de direitos

O que dizer da persistente maldade de privilegiar os altos escalões do poder com aumentos pomposos de salário enquanto se discute, sem nenhum pudor, reformas que visam arrochar ainda mais a vida dos pobres trabalhadores? Bolsonaro cinicamente lavou as mãos diante do escandaloso aumento do Judiciário, o que fará um efeito cascata de aumentos que podem ter um impacto colossal nas combalidas finanças nacionais. Tudo o que deveria fazer era conversar com Temer, usar seu prestígio de homem eleito com mais de 50 milhões de votos ainda quentes nos computadores do TSE, para pedir um veto. Abriu mão covardemente; tirou o corpo fora.


Mas o Ministério do Trabalho, este ele não teve nem vergonha de anunciar o fim. Os patrões e grandes empresários estão em festa. Em menos de 2 anos, com o PT escorraçado do poder e Temer na batuta do desmanche de direitos dos pobres, acabaram com a CLT, os sindicatos e a segurança das mediações estatais dos conflitos entre o capital e o trabalho, através de órgãos como o Ministério do Trabalho.

 Meses ou anos sombrios

Nestes dois estranhos meses entre a eleição e a posse, vivemos os dias sombrios de quem não pode protestar, pois não são medidas ainda oficiais, só podemos fazer como seus eleitores que são cobrados por terem eleito o mito: "vamos esperar primeiro as coisas se tornarem oficiais".

De acordo com o calendário, com o fim destes 5 dias de mau agouro (ou 2 meses, na nossa analogia), um novo ano recomeça e as esperanças se renovam.

Se renovam?

Ou serão 4 anos nefastos?


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