30 de novembro de 2018

As consequências da economia brasileira ainda depender dos barões do café



Café e algodão garantem crescimento do PIB no último trimestre. Essa podia ser uma notícia do Correio Braziliense do começo do século XIX, mas, 200 anos depois, ainda é a realidade brasileira, como informa hoje os portais de notícias.

Por mais que a economia brasileira tenha se tornado mais diversificada e complexa, especialmente a partir dos anos 30 do século XX com a industrialização pelas mãos do Estado e do empresariado associado ao capital internacional, não houve uma revolução de fato, ou seja, uma ruptura com a velha ordem latifundiária da Primeira República. Ainda é a velha monocultura de produtos naturais, a chamada plantation, mesmo que travestida de modernidade e eficiência taylorista através do chamado agronegócio, que continua sustentando a economia nacional.



Isto porque a incipiente burguesia nacional historicamente não se impôs como força política, se atrelou ao Estado como fizeram os barões do café e no decorrer do século o Brasil perdeu posições no ranking de países industrializados, especialmente para países asiáticos como a China, hoje em vias de se tornar a primeira economia mundial depois de sair atrás do Brasil no seu processo de industrialização.

A importância deste setor agrário para o país não se reflete apenas na economia. Na política, e consequentemente na vida cotidiana do cidadão trabalhador, os donos dos grandes latifúndios têm poder fundamental. Na legislatura atual, nada menos do que 261 de um total de 513 deputados fazem da "Câmara do povo" a antessala das negociações políticas dos seus interesses.

Desde o processo de redemocratização da política no país que todos os presidentes eleitos precisam atender aos interesses primordiais desta pequena mas influente camada da sociedade se quiser governar em paz.

O Brasil, ao contrário de outros países hoje desenvolvidos, jamais contou com uma burguesia empreendedora, capitalista na essência, ou seja, que enriqueceu vindo de baixo investindo e correndo os riscos inerentes no processo, uma camada social independente e que teria assim jogado pra escanteio a velha ordem dos barões de café. Em vez de superá-la, associou-se a ela.


A burguesia nacional se constituiu basicamente de bacharéis ligados familiarmente com estes donos de latifúndios, e estes, por sua vez, ligados ao Estado, numa simbiose patrimonialista que contamina até hoje qualquer processo democrático e republicano.

Não é por acaso que nossas altas classes médias são reacionárias e conservadoras por natureza. São hoje bisnetos e tataranetos dos donos da Casa Grande. São médicos, juízes, engenheiros, advogados, profissionais liberais que com a herança da riqueza produzida pelo trabalho escravo no passado, puderam se dedicar aos estudos como seus antepassados de gerações mais próximas, que iam para Coimbra e voltavam ao Brasil para serem os "doutores" sem doutorado no século XIX.

Como explica Karl Marx, a ideologia das classes dominantes é a ideologia dominante em qualquer sociedade de classes, e isso explica o porquê do país ter este ranço tão arraigado de conservadorismo até nas classes trabalhadoras.

A ideologia do latifúndio, com seus antigos e respeitados coronéis hoje travestidos de homens do agrobusiness, brancos e de meia-idade, cristãos, defensores da família patriarcal, é o que prenomina no imaginário e na realidade social. São eles que determinam a política, a economia, e os rumos do país.

Não é à toa que ainda hoje sejam os produtos tradicionais que enriqueceram seus bisavós donos das fazendas como o café e o algodão que ainda sustentem este país. No último debate eleitoral, passou batido, a não ser por um único candidato com um projeto de nacional-desenvolvimentismo, a necessidade de modernizar a economia nacional e superar este modelo. Colocar o Brasil no século XXI passa por romper esses laços antigos do atraso que afetam não só a economia como também a vida dos brasileiros.  

26 de novembro de 2018

Choque de ultraliberalismo vai aumentar abismo social entre as classes no Brasil





A colossal desigualdade social brasileira é bem conhecida, mas vinha diminuindo de ano a ano desde 2002, como prova o Índice de Gini. Como parte das políticas públicas do governo Lula, milhões de brasileiros pobres ascenderam alguns degraus na pirâmide social, com a intervenção direta do governo através de programas sociais.

Além destas medidas emergenciais, Lula preparou o terreno para o futuro das classes mais baixas: abriu as portas das Universidades federais para que negros e pobres das grandes periferias pudessem ter uma formação antes limitada apenas à alta classe média.

É muito óbvio que, à longo prazo, estas medidas trariam consequências positivas nos arranjos históricos dessa nação dividida entre vilipendiados e privilegiados. Daqui a, por exemplo, 30 anos, já não seria mais tão fácil distinguir esta diferença olhando a cor da pele ou a origem social, como é hoje.



E isso a nossa alta classe média não perdoa. Guardiã do conservadorismo, ou seja, das coisas como devem ser/estar, e, segundo Jessé Souza, infantaria das classes dominantes, infiltradas nas instituições de poder do país, ela reagiu.

Já trouxemos aqui em outras postagens como estes setores na política, no judiciário, nas Forças Armadas, na mídia e etc. se articularam de forma muito bem feita para destruir o PT e colocar no poder um dos seus filhos mais diletos, saído diretamente do seu seio, seu maior e melhor espelho: Jair Bolsonaro.

Veja mais em:
Esquerda precisa resgatar bandeiras históricas para enfrentar o velho fascismo
Quem, de fato, ganhou as eleições de 2018

E a tragédia que se apresenta agora, não é a diminuição, mas o aprofundamento da desigualdade social brasileira, por conta da implementação das bases neoliberais já no governo Temer, com a famigerada lei do teto de gastos.

Desde 2015 o Índice de Gini mostra a interrupção da queda da desigualdade pela primeira vez depois de 15 anos históricos.

O que podemos esperar do próximo governo, principalmente do "superministro" Paulo Guedes, aquele que deve realmente reger a orquestra por trás das cortinas?


Se depender dele, os pobres, e, por que não, a própria classe média deste país deveriam se preocupar. Legítimo "Chicago Boy", doutrinado naquela universidade estadunidense e com experiência na abertura econômica neoliberal da ditadura chilena de Augusto Pinochet, Paulo Guedes está pronto para levar às raias do inferno a vida destas camadas sociais com choques de ultraliberalismo que vão criar um verdadeiro Grand Canyon de desigualdade social no Brasil.

Com uma política econômica totalmente voltada para o mercado, o futuro ministro prometeu, em evento do MBL em São Paulo, manter o teto de gastos e assim cortar ano após ano as verbas da área social. Segundo ele, o modelo "social-democrata" é um "inferno para os investidores". Seria altamente cínico, se não fosse sincero. De fato, nunca foi segredo que o braço-direito (e esquerdo, e as pernas e quem sabe até a cabeça) do próximo presidente se tornará num funcionário público a serviço exclusivamente do setor privado financeiro no governo.

Resta saber duas coisas: quando as classes médias vão se arrepender de ter dado um tiro no pé por pura burrice, e segundo, até quando as classes populares, beneficiárias dos programas sociais, vão assistir passivamente seus direitos irem pro ralo nos próximos quatro anos. 

10 de novembro de 2018

Bolsonaro e o calendário asteca

O antigo povo asteca possuía dois calendários: o solar e o sagrado. O calendário solar possuía, tal com o nosso, 365 dias, mas era dividido em 18 meses de 20 dias, mais 5 dias suplementares para completar o ano. Esses cinco dias do final do ano eram chamados de "nemotemi", ou dias vazios e considerados nefastos, de mau agouro.

A sensação no Brasil pós-eleição é que estamos vivendo não 5 dias, mas 2 meses vazios desde que Bolsonaro ganhou a eleição até que venha a posse em 1º de janeiro.

 Os homens de Bolsonaro

Nesse período, temos assistido de forma pasmada, primeiro, a nomeação de figuras medíocres, corruptas, imorais, polêmicas ou notoriamente despreparadas para importantes cargos do governo; basta citar apenas os casos de Magno Malta para um ministério absurdo que será criado exclusivamente pra ele, o da "Família"; ou Onyx Lorenzoni, corrupto assumido e declarado que pediu desculpas pelos milhões arrecadados ilegalmente no caixa 2, ou o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, que outrora afirmara que caixa 2 é um dos maiores crimes na política, e hoje passa panos quentes nos crimes do seu futuro colega de governo, "porque ele já reconheceu o erro e pediu desculpas".

 Vai fazer diferente?

Além de tudo isso, existe a contradição. Bolsonaro foi eleito como um homem que não participava dos esquemas e nem se misturava com políticos corruptos, imagem que conseguiu emplacar eficientemente entre seus eleitores não obstante ter pertencido ao PP durante muitos anos, um dos partidos mais corruptos em qualquer lista de corrupção que se faça, e tenha convivido todo esse tempo com Paulo Maluf, cuja carreira em termos de mal feitorias seria difícil encontrar igual no planeta.



Mesmo com esse valoroso capital de ser considerado um político que vai fazer diferente, Bolsonaro já admitiu contar com muitas das medidas tomadas no governo Temer, senão com o próprio Temer no futuro governo! Lembremos que Michel Temer precisará de foro especial depois do governo para não responder pelos diversos crimes que lhe são imputados.

Até agora, só perda de direitos

O que dizer da persistente maldade de privilegiar os altos escalões do poder com aumentos pomposos de salário enquanto se discute, sem nenhum pudor, reformas que visam arrochar ainda mais a vida dos pobres trabalhadores? Bolsonaro cinicamente lavou as mãos diante do escandaloso aumento do Judiciário, o que fará um efeito cascata de aumentos que podem ter um impacto colossal nas combalidas finanças nacionais. Tudo o que deveria fazer era conversar com Temer, usar seu prestígio de homem eleito com mais de 50 milhões de votos ainda quentes nos computadores do TSE, para pedir um veto. Abriu mão covardemente; tirou o corpo fora.


Mas o Ministério do Trabalho, este ele não teve nem vergonha de anunciar o fim. Os patrões e grandes empresários estão em festa. Em menos de 2 anos, com o PT escorraçado do poder e Temer na batuta do desmanche de direitos dos pobres, acabaram com a CLT, os sindicatos e a segurança das mediações estatais dos conflitos entre o capital e o trabalho, através de órgãos como o Ministério do Trabalho.

 Meses ou anos sombrios

Nestes dois estranhos meses entre a eleição e a posse, vivemos os dias sombrios de quem não pode protestar, pois não são medidas ainda oficiais, só podemos fazer como seus eleitores que são cobrados por terem eleito o mito: "vamos esperar primeiro as coisas se tornarem oficiais".

De acordo com o calendário, com o fim destes 5 dias de mau agouro (ou 2 meses, na nossa analogia), um novo ano recomeça e as esperanças se renovam.

Se renovam?

Ou serão 4 anos nefastos?