29 de outubro de 2018

Quem ganhou, de fato, as eleições de 2018



Quem, de fato, ganhou esta eleição? Há muitos candidatos. Os militares, porque desde a ditadura não estavam tão soltinhos e falantes, colocando pra fora desavergonhadamente suas ideias jurássicas contra o comunismo?

Os homofóbicos talvez, porque acreditaram nas fake news de que havia o perigo de uma ditadura gay ser implementada no país, com direito a cartilha nas escolas pra ensinar criança a fazer sexo?

Ou quem sabe os machistas, que viram a ascensão do movimento feminista com preocupação, pois o que as mulheres queriam? Respeito. Respeito é aquilo que quase nenhum homem é ensinado a dar a uma mulher; pra eles mulher tem que ser submissa e aguentar traição, além de ganhar menos e ser assediada a cada esquina, tendo o seu corpo comercializado como fonte de prazer masculino. Com a vitória do Bolsonaro, acreditam, a mulher vai voltar ao seu lugar e as "feminazi" vão acabar.

Mas também tem os racistas, aqueles que não toleram a presença de negros nas Universidades, porque acham que o negro tem que varrer chão e lavar a louça da madame. Esses se consideram os maiores beneficiados da vitória do mito.

De fato, todos eles ganharam nesta eleição. Mas o verdadeiro vitorioso desta campanha não foi ninguém mais do que o mercado.

Para os militares, os homofóbicos, os misóginos, os machistas e os racistas, existem ainda barreiras republicanas, institucionais e democráticas que vão limitar as suas satisfações plenas no poder. Mas se já não havia muito controle por parte do governo brasileiro a respeito do capitalismo, o que se vislumbra agora no horizonte é um capitalismo ultraliberal totalmente desregulado.



Enquanto o fantoche testa de ferro que vai sentar ano que vem na cadeira presidencial enfeitiçava as massas com seu discurso odiento, surfando na onda antipetista construída anos a fio com uma determinação hercúlea pela imprensa burguesa, o verdadeiro mentor desta campanha, o homem do mercado Paulo Guedes, lançava discretamente as bases da destruição de qualquer regulação estatal da economia, com exceção, é lógico, do ferrenho controle da inflação e das taxas de juros, além da privatização generalizada, da austeridade rígida e outras medidas que farão o governo neoliberal dos tucanos na década de 90 parecer socialista.

A vitória do mercado nestas eleições foi arquitetada minuciosamente ao longo dos últimos anos, com a ação coordenada entre o Congresso, o judiciário, as grandes mídias, a internet e outros grupos, que construíram a imagem de um PT demoníaco e da corrupção como a chaga maior deste país. Nisto estão de parabéns, realmente.

A esquerda agora tem 4 anos para construir seu próprio discurso em cima de um próximo governo ultraliberal que, sem nenhuma outra possibilidade, será desastroso para a economia, e assim tentar recuperar mais uma vez o poder. Mas agora com as devidas lições a serem postas em prática, aprendidas nestes anos duros da vitoriosa reação da direita. 
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Professor de História, Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), carioca, usa este espaço para comentar sobre os assuntos da política e da sociedade de forma simples e clara, sem, no entanto, abrir mão do rigor da checagem dos fatos.

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