Esquerda precisa resgatar bandeiras históricas para enfrentar o velho fascismo



Chegou no Brasil aquele momento que todos temíamos. O fascismo saiu às ruas, penetrou nas mentes e tomou conta do país. Atos de violência começam a pipocar aqui e ali, 50 em apenas uma semana. O estrago já está feito. Vença quem vencer, ninguém pense que aqueles que sentiram o gostinho de praticar a violência contra os mais vulneráveis vão se recolher a seus pacatos afazeres novamente. A questão é: como enfrentá-los com uma esquerda que se autodestruiu nos últimos anos?

Não acredito em teorias conspiratórias lunáticas como os Illuminatti e Nova Ordem Mundial, que fica mais a cargo de cristãos supersticiosos. Mas não sou ingênuo a ponto de não acreditar que os grandes capitalistas do mundo, além de países como os Estados Unidos e seus aliados, possam articular situações no mundo que favoreçam seus interesses. Assim foi com a chamada "Primavera Árabe" mais recentemente, que, com a desculpa da levar democracia a países cujos governos não eram alinhados com o Imperialismo, acabou degenerando em governos violentos e autoritários, muitos deles sob a ameaça de grupos fundamentalistas apoiados financeiramente pelos capitalistas.



Mas temos diversos outros exemplos históricos de como estes países centrais incitam a extrema-direita de populações cujos governos na periferia do mundo incomodam o sistema capitalista mundial. Basta citar a queda de governos legítimos na América do Sul como no Brasil nos anos 60 e no Chile nos anos 70 como exemplares da interferência estadunidense na incitação de oposição interna, que culminou com ditaduras de direita.

A Venezuela é outra vítima dessa tática criminosa atualmente. A oposição local, de acordo com documentos vazados pelo Wikileaks, foi financiada por ONGs com ligação com os Estados Unidos para tentar a todo custo derrubar o incômodo governo bolivariano. E assim tem sido nos casos do Haiti, Nicarágua, Paraguai, entre outros.

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Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações ligadas aos Estados Unidos que financiam a oposição pelo mundo, como a IRI (International Republican Institute) e Freedom House "não estão promovendo a democracia".

“Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os Estados Unidos não gostam”.  

Para que esta influência estrangeira seja bem sucedida, é preciso contar com o suporte de elementos internos alinhados com o ideal capitalista internacional numa cadeia que vai desde os grande empresários, passando pela mídia empresarial, as Forças Armadas, as Igrejas, que desempenham um papel importante na manipulação das massas, e a internet, até chegar no cidadão comum.

Foi exatamente essa cadeia (com exceção da internet que não havia na época) que fez ser possível a derrubada do governo João Goulart em 64. O resultado foram 21 anos de uma ditadura contraditória que cerceava as liberdades civis enquanto abria o mercado nacional para a indústria estrangeira e o envio de lucros para o exterior. 



Nos últimos anos essa articulação voltou a se alinhar perfeitamente para tentar apagar do mapa o Partido dos Trabalhadores. Uma estratégia em passo-a-passo tão bem executada que está prestes a levar mais uma vez ao poder um presidente autoritário nas liberdades civis e ultraliberal na economia, desta vez pelas vias "democráticas", bem ao gosto do mercado capitalista mundial. Com a contribuição de grande parte das esquerdas.

Tudo começou quando a modista tese do pós-modernismo saiu das Universidades e ganhou os corações do campo da esquerda, que despiu sua luta das teorias marxistas. Ora, pensavam eles, como lutar pela derrubada do Estado, se o próprio sistema passou a contestar (apenas teoricamente, pois na prática o Estado continua a servi-los) a legitimidade dessa instituição? Como fortalecer os partidos quando o próprio sistema em tese coloca em cheque sua capacidade de representar a população?  Não seriam lutas desnecessárias no atual cenário?

Toda a teoria política consagrada e que dava arrepios nos capitalistas foi trocada por representação de minorias, movimentos isolados, atomizados e desarticulados que lutam por interesses específicos sem dialogar entre si.

Movimento negro, das mulheres, dos homossexuais, todos eles antes guarnecidos sob a bandeira socialista passaram a lutar não contra o sistema capitalista, fonte em comum de todas as mazelas sociais, mas contra o "patriarcado", o "homem cis", o "machista", o "racista", perdendo de vista o fato de todos eles serem o resultado de como funciona o próprio sistema capitalista.

Enquanto isso, a direita aparou suas arestas para se organizar e derrotar a esquerda, tanto essa festiva e suas demandas pulverizadas quando a esquerda institucional representada pelo Partido dos Trabalhadores.


Começou tomando de assalto, em 2013, as manifestações de rua, que de tão pulverizadas, orgulhosamente "sem liderança partidária", foram se tornando luta contra a corrupção do governo, uma manobra estratégica pelas mãos da mídia, como bem mostrou Jessé Souza no livro A Radiografia do Golpe.

A pressão levou a outra etapa do golpe suave, o não-reconhecimento da eleição legítima de Dilma Rousseff em 2014. A direita bateu panelas e o som chegou ao Congresso, que passou a lançar as famosas pautas-bomba para desestabilizar o executivo — o país, na verdade — cujo presidente da casa, Eduardo Cunha, hoje preso, aproveitou o momento para lançar o Impeachment da presidenta com base em alegações inócuas e ilegítimas.

Dado o Impeachment, numa das cenas mais patéticas da história da política nacional, quando deputados corruptos defenderam a queda da presidenta em nome de deus e da família, com direito a homenagem a torturador, a direita obteve a sua primeira vitória depois de anos de derrota nas urnas: durante dois anos Michel Temer teve a condição — por não dever satisfações a nenhum eleitor — de colocar em prática a agenda pleiteada pelo sistema. Reformas antipopulares foram propostas e aprovadas, principalmente a histórica derrocada da CLT, coisa que nem os governos militares ousaram mexer.

Mas havia ainda um problema a resolver no horizonte: a sucessão presidencial nas eleições deste ano. Lula liderava com folgas as pesquisas de intenção de votos, e precisava, como foi, ser tirado da disputa, ou colocaria tudo a perder. Sérgio Moro, um juiz de primeira-instância com ligações suspeitas e não esclarecidas com o governo dos Estados Unidos, mandou prendê-lo com base em acusações frágeis num processo condenado por juristas internacionais. O caminho estava livre para o mercado assumir mais uma vez o governo do Brasil através de um de seus asseclas preferidos.



Mas então surgiu outro problema: a prisão não acabou com a popularidade de Lula, ele se mantinha firme na liderança e poderia transferir votos para o seu candidato petista. Por outro lado, o povo, cansado dos tucanos, dava uma votação baixa ao candidato preferido do mercado, Geraldo Alckmin, do PSDB. Os candidatos mais bem colocados, Marina Silva e principalmente Ciro Gomes, não inspiravam a confiança do sistema financeiro.

Nesse momento, as elites brasileiras, reunidas nas instituições que representam a superestrutura do sistema capitalista — judiciário, empresariado, igrejas, Forças Armadas, etc. — resolveram dar o golpe mais ousado dos últimos tempos. Fizeram um pacto com o demônio na pessoa de Jair Bolsonaro, o que mais tinha possibilidade de tomar o posto de preferido das elites. E este também fizera um pacto com o mercado.

De um mero capitão insignificante que passou ou últimos 30 anos no baixo-clero do Congresso sem aprovar nem duas leis, que falava apenas para seu pequeno nicho de fascistas e ultraconservadores, passou a ser o representante do mercado na política, assumindo o papel outrora do PSDB.

Trouxe para o governo um ultraliberal chancelado pelo mercado e contou com a assessoria de Steve Bannon, que usou dados de usuários do Facebook para influenciar digitalmente a campanha de Trump, assim como a internet é o motor da campanha de Bolsonaro, através das chamadas fake news. Assim a direita brasileira e a internacional alinham forças para derrotar a esquerda no Brasil.


Além disso, empresários doam diretamente dinheiro para disseminar propaganda difamatória contra o PT no whatsapp, enquanto pastores e padres das igrejas como Silas Malafaia fazem campanha aberta a favor de um apoiador da tortura e do ódio, enquanto a mídia não tira Bolsonaro do ar e as Forças Armadas elevam o tom como há décadas não ousavam fazer.




Para combater a ascensão do fascismo numa direita organizada e forte, infelizmente o povo trabalhador e as minorias não acordaram. Por falta de conhecimento histórico e teórico, cantavam músicas como "vamos derrotar o fascismo com amor" no recente protesto das mulheres no #elenão.

As esquerdas precisam se reorganizar. Foi a esquerda organizada, mesmo que com diferenças conceituais, que ajudou a varrer o fascismo na primeira metade do século passado no Brasil, no que culminou com a famosa revoada das galinhas verdes em São Paulo.

Com fascismo não se brinca, não se manda flores, é preciso enfrentá-los. Mas pra isso, é preciso resgatar o histórico de lutas das esquerdas, além de resgatar conceitos como luta de classes, ditadura do proletariado, relações de produção, entre outros, para se entender a realidade, como apenas o marxismo é capaz de proporcionar.

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"Só a luta muda a vida", afirma um lema do PSOL, partido que representa as minorias. Mas no entanto, "Só a luta unificada muda a vida", pois o inimigo de todos nós é um inimigo em comum: o sistema capitalista e contra ele precisamos unir nossas forças e não separá-las como tem sido nos últimos anos, de preferência em torno de uma liderança estabelecida e sob um partido político que volte a representar a maioria dos trabalhadores, jovens, negros e mulheres, coisa que infelizmente o PT abdicou de fazer.



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