Por que é falsa a ideia de que o Brasil anda dividido entre esquerda e direita



Recentemente no Brasil, temos ouvido de forma corriqueira que a população do nosso país anda dividida entre esquerda e direita, ou como coloca o candidato a presidente Ciro Gomes, entre coxinhas e mortadelas.

Isso dá a ideia de um certo equilíbrio entre as duas forças, algo como um choque de duas correntes de proporções iguais que se anulam, colocando o país no impasse e na imobilidade. Mas isso não é verdade, e os 38 por cento de intenções de voto de um ex-presidente preso, junto com outros exemplos históricos, nos ajudam a entender essa questão.

Primeiro, vamos tentar, a grosso modo, identificar as parcelas da sociedade brasileira que podem ser identificadas com a esquerda e com a direita.

Definindo quem vota em quem

Considero eleitores de esquerda, afora a miltância político-partidária, os trabalhadores sindicalizados; o funcionalismo público do baixo-escalão; beneficiários do bolsa-família; profissionais liberais; e grande parte do que o professor Jessé Souza chamou de "ralé", de forma irônica, ou seja, aqueles pobres que aparecem abaixo da linha de pobreza e que sobrevivem na informalidade, dependentes dos serviços públicos gratuitos.



Os eleitores da direita, por sua vez, podem ser identificados com a alta classe média; os empresários; os militares; os religiosos de base cristã em grande parte; os latifundiários; o funcionalismo público do alto-escalão; os donos dos grandes meios de comunicação, além de uma parcela da população pobre um tanto alienada por pensar fazer parte deste grupo.

Não ignoramos as exceções a essa esquematização, mas ao fim e ao cabo, não interferem na generalização. 

O Congresso Nacional representa a contradição entre estes dois setores. A esquerda é proporcionalmente maioria na população, enquanto que na Câmara e no Senado, sem falar no Judiciário, prevalecem amplamente os quadros da direita.

Voto de esquerda, reação da direita

Historicamente, pelo menos desde o segundo mandato de Getúlio Vargas — o mandato democrático que foi considerado bastante progressista e que incomodou os setores da direita brasileira — o povo brasileiro tende a votar em candidatos mais à esquerda do espectro político. Mas então por que temos essa ideia de equilíbrio?



A partir do suicídio de Getúlio, fustigado que fora pelas forças reacionárias da direita, seja no Congresso, seja na imprensa, coube à direita se organizar para combater eleitoralmente o legado do trabalhismo getulista, de esquerda, e seus maiores representantes, Leonel Brizola e João Goulart. Não no voto, mas nas manipulações e nas armas.

João Goulart, por exemplo, teve mais votos como candidato a vice-presidente em 1955 do que o presidente eleito Juscelino Kubitschek, numa época em que se votava em separado para ambos os cargos.

Na eleição seguinte, uma coligação em que o marketing e o carisma fizeram Jânio Quadros presidente, sua postura independente junto com sua vontade de poder absoluto o fizeram renunciar, abrindo espaço para João Goulart assumir a presidência. A direita, sempre detentora dos meios de persuasão e força, o combateu não pelas vias democráticas, mas através de dois golpes: primeiro o golpe do parlamentarismo que visava tirar-lhe o poder de governar; e depois, quando o plebiscito lhe devolveu o mandato integral com a volta do presidencialismo, com um típico golpe civil-militar com o apoio da classe média, da Igreja e da mídia, colocando o país no abismo do autoritarismo e da violência durante mais de 20 anos.

O dia que a Globo derrotou a esquerda


Na primeira eleição direta depois dos 21 anos de arbítrio, em 1989, surgia um candidato de base popular, oriundo do sindicalismo e representante da classe trabalhadora. Foi a primeira vez que Luis Inácio Lula da Silva concorreu à presidência e sentiu o quão longe a direita poderia ir para sabotar a vontade popular.

Naquela época, como agora, diga-se de passagem, a direita carecia de um candidato com o mesmo apelo. A solução foi fabricar um. Assim surgiu o jovem alagoano esportista e com um slogan fácil de pegar: o caçador de marajás. Era o lobo da direita se vestindo de pele de cordeiro com um lema roubado da esquerda. Quem combate os marajás, ou seja, aqueles privilegiados abastados pela herança e especulação financeira não poderia ser também outro marajá. Mas a propaganda midiática prevaleceu.

Assim, Fernando Collor de Mello apareceu em diversos programas de TV, até da Xuxa, enquanto Lula era difamado com fake news, acusado de ter uma filha fora do casamento. O golpe final foi a famosa edição do dia seguinte do debate eleitoral, em que Collor teve no mínimo o dobro do tempo no Jornal Nacional do que o Lula.

A direita manipulou o eleitor e venceu a eleição, o povo perdeu, e todo mundo sabe o que aconteceu.



Assim chegamos ao momento atual.

Golpe parlamentar e prisão arbitrária contra a preferência do eleitor pelo PT

Desde a apertada reeleição de Dilma Rousseff que a direita, depois de perder quatro eleições seguidas para o PT, resolveu melar o jogo democrático. Primeiro com Aécio Neves se recusando a aceitar o resultado da urna; depois, com um Congresso oportunista unido a um Supremo reacionário e politizado votando um Impeachment pra lá de ilegal, golpista, rasgando a Constituição Federal. E o golpe final, com a prisão de Lula baseado em alegações e suposições — menos em provas — para que este não pudesse se candidatar.

Em meio a todo esse processo, uma imprensa burguesa vendida e reacionária batendo diariamente no candidato e no PT, tudo para que a vontade popular refletida nos seus quase 40 por cento de intenções de voto não se concretize nas urnas.

Diante desse cenário, é justo dizer que o Brasil está dividido entre esquerda e direita? Ou seria mais adequado dizer que existe uma ampla maioria de eleitores brasileiros que têm preferência no voto a candidatos de esquerda, mas que infelizmente são sabotados, barrados, têm seus candidatos impitimados e golpeados pelos representantes da direita em diversas instâncias de poder?

Os quase 40 por cento de intenção de voto em Lula, mesmo massacrado, preso e difamado de forma criminosa pelo Judiciário, pelo Congresso e pela mídia, não nos deixam dúvidas sobre isso. 

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