29 de setembro de 2018

#elenão: Mulheres na vanguarda política abrem hoje os protestos contra o protofascismo



Em seu livro A luta de classes: uma história política e filosófica, Domenico Losurdo reafirma a teoria marxista da luta entre as classes no momento histórico atual para demonstrar a validade ainda determinante do conceito. Os conflitos não se resumem apenas à velha dicotomia donos dos meios de produção x vendedores de mão-de-obra, e sim a todas as complexas dissensões sociais que ocorrem na sociedade capitalista contemporânea: pobres contra ricos; conservadores contra progressistas; favelados contra parcelas da classe média; homens privilegiados contra mulheres; negros contra brancos, além das diversas interseções entre esses grupos.

No Brasil, desde que Aécio Neves resolveu desprezar o já frágil e combalido sistema democrático, a direita vem radicalizando o discurso, colocando pra fora suas ideias e intenções de forma aberta, o que antes lhe causava constrangimentos.



No mesmo movimento dialético, a esquerda, enfraquecida durante anos por conta da despolitização da política dos governos petistas, defenestrados no poder pelos seus polêmicos aliados da governabilidade, ganhou força recentemente para responder à ascensão de uma espécie de protofascismo tupiniquim, permeado de ameaças de autoritarismo e violência contra as minorias.

Surge o movimento das mulheres como força política

Nesse cenário, as mulheres tomaram a frente da batalha, denunciando, fazendo campanhas e protestos contra a ameaça da direita radicalizada. A direita que, antes ainda conformada nas regras do jogo democrático, mas cansada de perder seguidas eleições para o PT, abandonou o PSDB, hoje condenado a sumir do cenário político, como previu o professor Vladimir Safatle, para abraçar a causa do vale-tudo político, desde que isso represente derrotar o PT, senão pelas urnas, pelo golpe jurídico, político ou até militar.

A direita despreza a democracia

O jogo da democracia, para a direita e para o mercado, ambos imbricados nos mesmos ideais, só vale enquanto os favorece. Em países em desenvolvimento, acostumados a serem tutelados de fora pelo imperialismo norte-americano e suas intervenções, discretas ou não, na vida desses países, rasgar constituições, reinterpretar leis de forma diferentes para uns e para outros, derrubar governos e dar golpes militares fazem parte da vida. Nosso país, um gigante com um potencial imenso para dar certo, infelizmente jamais se livrou dessa influência, por conta dos capachos antipatriotas que vivem entre nós, criminosos que não se furtam a sabotar o crescimento do próprio país em favor dos interesses internacionais, se isso lhes angariar algum prestígio e boa colocação entre os setores dominantes, como o financeiro.

Preferem o caos do que a esquerda no poder

São essas pessoas que, para exemplificar, incorporando o espírito espalhafatoso de Carlos Lacerda ou discreto de Roberto Campos — ambos notórios capachos históricos dos Estados Unidos — trabalham internamente em favor do imperialismo quando usam de sua força e influência para atacar a democracia, como fizeram, por exemplo, em 54 com Getúlio, em 64 com Jango e mais recentemente, com o Impeachment absurdo de Dilma, jogando o país na total instabilidade, e aproveitando-se de um governo tapa-buraco, impopular, patético e ilegítimo para colocar em pauta ações em favor do mercado e do empresariado que jamais o povo trabalhador poderia concordar.



É contra essa direita golpista, irracional, vendilhã da pátria, misógina, homofóbica, odienta, capacha e racista, que não só a esquerda, mas todas as pessoas sensatas devem se levantar, como tem sido feito através de manifestações até de artistas internacionais.

Começa hoje a campanha contra o protofascismo

Hoje, 29 de setembro, as mulheres, na vanguarda dos protestos, dão o primeiro passo contra as trevas. Que outros movimentos possam se seguir, até o Brasil derrotar nas urnas, num primeiro momento, esse grupo, e depois, nas ruas de forma permanente, pois o principal representante dessa corrente que provavelmente estará no segundo turno das eleições presidenciais, muito tipicamente, é claro, já prometeu que não vai aceitar a derrota nas urnas, repetindo o movimento de Aécio que até hoje coloca o Brasil na crise política.

São irresponsáveis que devem ser varridos do cenário imediatamente.  

7 de setembro de 2018

De tanto provocar, Bolsonaro sabia que seria atacado um dia



Intolerância e violência. Quem as semeia, não pode colher outra coisa. De tanto pregar o ódio, de tanto aparecer com fuzil, de tanto incentivar gestos de tiros com as mãos, inclusive em crianças, de tanto defender que a população resolva suas divergências com armas de fogo, Jair Bolsonaro caiu vítima de seu próprio veneno. Não um ataque à bala, por sorte, mas com uma faca.

Era quase como uma bomba-relógio ambulante. Bolsonaro provocou a todos: os de esquerda, os de direita, provocou as mulheres, provocou os negros, os gays, quase todas as minorias e os vulneráveis. Só poupou a entidade sacrossanta do mercado, a mesma cujo templo representado pela bolsa de valores deu picos de alegria lá no alto com o seu risco de morte.


Já havia confessado estar com receios de um ataque — não era para menos —, o que, de fato, aconteceu. Ontem, tal como uma vítima de bullying que aguenta provocações e insultos durante anos mas que um dia perde o controle e desconta sua raiva no seu agressor, Adelio Bispo de Oliveira encontrou a oportunidade de desferir uma facada no alvo de suas frustrações. Depois do ataque, as mídias foram atrás do perfil do agressor através das redes sociais, e encontraram um ser perturbado, mais uma vítima de sites que fomentam teorias da conspiração Illuminati e nova ordem mundial, esses lixos virtuais que entulham a internet, mas que fazem a cabeça de muita gente, especialmente no Brasil.

Talvez quisessem encontrar um grande militante de uma vertente político-revolucionária, um discurso teoricamente embasado e uma causa determinada. Mas se deram mal. Cada um tem o algoz que merece. O de Bolsonaro é um lunático como ele.




Agora, obviamente, o líder das pesquisas esfaqueado se tornará um mártir, um herói para seus seguidores, e é provável que o encanto de uma vítima de atentado que sobreviveu seduza ainda mais eleitores. Provavelmente reduzirá um pouco a altíssima taxa de rejeição do candidato. Será suficiente para lhe garantir a vitória do pleito eleitoral?

Esse é mais um elemento complicador nesta já complexa e imprevisível campanha eleitoral.

2 de setembro de 2018

Por que é falsa a ideia de que o Brasil anda dividido entre esquerda e direita



Recentemente no Brasil, temos ouvido de forma corriqueira que a população do nosso país anda dividida entre esquerda e direita, ou como coloca o candidato a presidente Ciro Gomes, entre coxinhas e mortadelas.

Isso dá a ideia de um certo equilíbrio entre as duas forças, algo como um choque de duas correntes de proporções iguais que se anulam, colocando o país no impasse e na imobilidade. Mas isso não é verdade, e os 38 por cento de intenções de voto de um ex-presidente preso, junto com outros exemplos históricos, nos ajudam a entender essa questão.

Primeiro, vamos tentar, a grosso modo, identificar as parcelas da sociedade brasileira que podem ser identificadas com a esquerda e com a direita.

Definindo quem vota em quem

Considero eleitores de esquerda, afora a miltância político-partidária, os trabalhadores sindicalizados; o funcionalismo público do baixo-escalão; beneficiários do bolsa-família; profissionais liberais; e grande parte do que o professor Jessé Souza chamou de "ralé", de forma irônica, ou seja, aqueles pobres que aparecem abaixo da linha de pobreza e que sobrevivem na informalidade, dependentes dos serviços públicos gratuitos.



Os eleitores da direita, por sua vez, podem ser identificados com a alta classe média; os empresários; os militares; os religiosos de base cristã em grande parte; os latifundiários; o funcionalismo público do alto-escalão; os donos dos grandes meios de comunicação, além de uma parcela da população pobre um tanto alienada por pensar fazer parte deste grupo.

Não ignoramos as exceções a essa esquematização, mas ao fim e ao cabo, não interferem na generalização. 

O Congresso Nacional representa a contradição entre estes dois setores. A esquerda é proporcionalmente maioria na população, enquanto que na Câmara e no Senado, sem falar no Judiciário, prevalecem amplamente os quadros da direita.

Voto de esquerda, reação da direita

Historicamente, pelo menos desde o segundo mandato de Getúlio Vargas — o mandato democrático que foi considerado bastante progressista e que incomodou os setores da direita brasileira — o povo brasileiro tende a votar em candidatos mais à esquerda do espectro político. Mas então por que temos essa ideia de equilíbrio?



A partir do suicídio de Getúlio, fustigado que fora pelas forças reacionárias da direita, seja no Congresso, seja na imprensa, coube à direita se organizar para combater eleitoralmente o legado do trabalhismo getulista, de esquerda, e seus maiores representantes, Leonel Brizola e João Goulart. Não no voto, mas nas manipulações e nas armas.

João Goulart, por exemplo, teve mais votos como candidato a vice-presidente em 1955 do que o presidente eleito Juscelino Kubitschek, numa época em que se votava em separado para ambos os cargos.

Na eleição seguinte, uma coligação em que o marketing e o carisma fizeram Jânio Quadros presidente, sua postura independente junto com sua vontade de poder absoluto o fizeram renunciar, abrindo espaço para João Goulart assumir a presidência. A direita, sempre detentora dos meios de persuasão e força, o combateu não pelas vias democráticas, mas através de dois golpes: primeiro o golpe do parlamentarismo que visava tirar-lhe o poder de governar; e depois, quando o plebiscito lhe devolveu o mandato integral com a volta do presidencialismo, com um típico golpe civil-militar com o apoio da classe média, da Igreja e da mídia, colocando o país no abismo do autoritarismo e da violência durante mais de 20 anos.

O dia que a Globo derrotou a esquerda


Na primeira eleição direta depois dos 21 anos de arbítrio, em 1989, surgia um candidato de base popular, oriundo do sindicalismo e representante da classe trabalhadora. Foi a primeira vez que Luis Inácio Lula da Silva concorreu à presidência e sentiu o quão longe a direita poderia ir para sabotar a vontade popular.

Naquela época, como agora, diga-se de passagem, a direita carecia de um candidato com o mesmo apelo. A solução foi fabricar um. Assim surgiu o jovem alagoano esportista e com um slogan fácil de pegar: o caçador de marajás. Era o lobo da direita se vestindo de pele de cordeiro com um lema roubado da esquerda. Quem combate os marajás, ou seja, aqueles privilegiados abastados pela herança e especulação financeira não poderia ser também outro marajá. Mas a propaganda midiática prevaleceu.

Assim, Fernando Collor de Mello apareceu em diversos programas de TV, até da Xuxa, enquanto Lula era difamado com fake news, acusado de ter uma filha fora do casamento. O golpe final foi a famosa edição do dia seguinte do debate eleitoral, em que Collor teve no mínimo o dobro do tempo no Jornal Nacional do que o Lula.

A direita manipulou o eleitor e venceu a eleição, o povo perdeu, e todo mundo sabe o que aconteceu.



Assim chegamos ao momento atual.

Golpe parlamentar e prisão arbitrária contra a preferência do eleitor pelo PT

Desde a apertada reeleição de Dilma Rousseff que a direita, depois de perder quatro eleições seguidas para o PT, resolveu melar o jogo democrático. Primeiro com Aécio Neves se recusando a aceitar o resultado da urna; depois, com um Congresso oportunista unido a um Supremo reacionário e politizado votando um Impeachment pra lá de ilegal, golpista, rasgando a Constituição Federal. E o golpe final, com a prisão de Lula baseado em alegações e suposições — menos em provas — para que este não pudesse se candidatar.

Em meio a todo esse processo, uma imprensa burguesa vendida e reacionária batendo diariamente no candidato e no PT, tudo para que a vontade popular refletida nos seus quase 40 por cento de intenções de voto não se concretize nas urnas.

Diante desse cenário, é justo dizer que o Brasil está dividido entre esquerda e direita? Ou seria mais adequado dizer que existe uma ampla maioria de eleitores brasileiros que têm preferência no voto a candidatos de esquerda, mas que infelizmente são sabotados, barrados, têm seus candidatos impitimados e golpeados pelos representantes da direita em diversas instâncias de poder?

Os quase 40 por cento de intenção de voto em Lula, mesmo massacrado, preso e difamado de forma criminosa pelo Judiciário, pelo Congresso e pela mídia, não nos deixam dúvidas sobre isso.