É o fim do Lulinha Paz e Amor?

Lula, caso possa ser candidato e eleito, promete uma agenda de medidas bastante progressista para seu futuro governo



Fernando Haddad é o coordenador da campanha de governo da candidatura Lula em 2018. Em entrevista ao site do jornal Valor, falou um pouco sobre as propostas para o país e os caminhos jurídicos que o PT deve tomar para garantir que o ex-presidente possa sair candidato.

Controle das mídias

Algumas dessas medidas, reveladas pelo ex- ministro da Educação, seriam facilmente identificadas como propostas de esquerda, embora Haddad, com todo o cuidado, tenha preferido classificá-las como "radicalmente liberais". Uma pequena concessão certamente calculada no intuito de não alarmar ainda mais as reacionárias classes-médias para um programa que elas classificariam facilmente, no seu entendimento torpe de política, como "bolivarianas".

Haddad prometeu focar em 4 pautas principais: econômica, social, política e ecológica. Dentro da discussão econômica e social está a prioridade de Lula, se eleito, atacar o oligopólio dos grandes meios de comunicação, principalmente a Globo.

De fato, as maiores democracias do mundo contam com algum tipo de controle social e regulamentação das mídias, para evitar monopólios e propriedades cruzadas, que no fim das contas levam a um pensamento único, corporativo, que é repassado à população como única verdade dos fatos, especialmente no jornalismo.




Lula chegou a propor de maneira séria no seu segundo mandato, sob o comando do então secretário de Comunicação Social (Secom), Franklin Martins, uma maior pluralização das mídias, através de discussões e propostas ouvidas em debates com setores civis. A forte reação da Rede Globo, que acusou a medida de autoritária e repressiva da livre expressão em diversos editoriais do Jornal Nacional (quando, na verdade, é o contrário, é dar mais vozes aos excluídos de representação) fez o governo recuar lamentavelmente.

Ainda assim, o governo Lula poderia ter combatido os monopólios de outra forma: redistribuindo a divisão de verbas de publicidade governamental, quando as pesquisas da área mostravam que a maioria esmagadora da bilionária verba de propaganda do governo ia exatamente para a empresa de televisão que mais atacava duramente o próprio governo, o que não foi feito.

Lula, provavelmente, ao trazer de volta essa proposta agora, deve estar arrependido de não ter levado a cabo o controle das mídias quando podia. Provavelmente seu atual destino poderia ser bem diferente do que preso e impedido de concorrer a uma eleição com base em boatos e acusações não comprovadas, difundidas dioturnamente pelas mesmas empresas majoritariamente beneficiárias da verba do governo.

O setor bancário

Outro setor importante que o improvável futuro governo Lula promete atacar é o bancário. Haddad afirma na entrevista que o crédito bancário vai receber "um choque liberal contra o patrimonialismo oligopólico". Segundo ele, os spreads* altos espoliam os mais pobres. A solução então seria um sistema de premiações e punições com vantagens tributárias para os bancos que aderirem às novas regras.





Este é outro setor que concentra um dos lobbies mais poderosos do país. Seu poder político vem justamente do seu poder econômico. É tão difícil de ser contrariado, que Lula, no seu primeiro mandato, lançou a famosa "Carta aos brasileiros", na verdade um comunicado ao mercado prometendo que seu governo não iria atacar o tripé macroeconômico (taxa de inflação baixa, câmbio flutuante e taxa de juros elevada) que favorece o setor financeiro do país. Tanto que os bancos jamais lucraram tanto quanto nos governos petistas. É caso de se perguntar, mais uma vez, por que agora, e não antes. 

Em sua entrevista, Haddad também afirma que o governo vai propor uma medida especialmente estimada pelos partidos de esquerda, mas que desde a Constituição de 88, que previa tais medidas, jamais fora regulamentada: taxação de heranças e fortunas. 

Como Lula pretende sair candidato

Não se sabe, no entanto, se o golpismo que se infiltrou no judiciário irá permitir, de forma surpreendente, a candidatura de Lula. A estratégia do PT, segundo Haddad, é registrar a candidatura de Lula normalmente no TSE. Em caso de recusa, entrar com uma liminar no STF e só depois, em caso de fracasso, discutir com Lula um plano C. 

Fica claro que o governo Lula, se eleito, promete, com 16 anos de atraso, ou seja, desde que teve o primeiro mandato em 2002, cumprir as pautas progressistas para o qual fora eleito com 50 milhões de votos. De lá pra cá, muitos dos seus colegas presidentes sulamericanos conseguiram avançar nessas medidas, não sem enfrentar setores ferozes detentores de seculares privilégios indevidos, como aqui. 




Talvez com um atraso demasiado grande, numa conjuntura atual absolutamente desfavorável, pode ser um grito de esperança do povo brasileiro contra a inacreditável desenvoltura da direita golpista no poder em atacar direitos dos mais pobres e o patrimônio nacional. Ou pode ser mais um capítulo triste na história petista, aquilo que o filósofo Vladimir Safatle classificou precisamente como "estação das cerejas vermelhas": a tendência dos candidatos petistas prometerem uma agenda progressista em época de eleição para, uma vez eleito, desfazer todas as promessas para embarcar naquilo que eu chamaria de neoliberalismo suave que caracterizou os governos do PT. 

Sem dúvida, a indefinição da candidatura de Lula é mais um capítulo nesta campanha eleitoral das mais indefinidas da história. 

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* Segundo o site Significados, Spread bancário é a diferença entre o que os bancos pagam na captação de recursos e o que eles cobram ao conceder um empréstimo para uma pessoa física ou jurídica. Nesse contexto, o termo inglês "spread" significa "margem". Para os bancos, quanto maior o spread, maior é o lucro nas suas operações. O spread bancário brasileiro é um dos mais altos do mundo, o que gera muitas críticas, uma vez que é um dinheiro que poderia estar fazendo girar a economia e não ser totalmente utilizado pelos bancos.

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