Christopher Hitchens e o infame trotskismo



Christopher Hitchens (1949-2011) era um escritor de colunas sobre variedades na esnobe revista Vanity Fair, quando começou a angariar fama na internet por conta de seus debates sobre religião em palestras e conferências gravadas em vídeo.

Concentrado na defesa do ateísmo, com um vasto cabedal cultural e uma inteligência mordaz, geralmente conseguia colocar todos os adversários na lona, e assim foi ganhando sua fama.

Eu, no entanto, só passei a conhecê-lo quando me deparei com seu maior best-seller numa feira de livros, em 2010: "Deus não é grande", uma obra que mistura religião, cultura e política de uma forma cativante, com uma especial crítica ao fundamentalismo islâmico.



Foi nesta ocasião que eu passei a acompanhar seu trabalho, muito mais pelo viés do ateísmo que compartilhamos do que pelas suas visões políticas, que já eram um tanto contraditórias há quase 10 anos.

Já então, Hitchens deixava claro que era um ex-militante de esquerda na juventude, mas que naquele momento, defendia os ataques (massacres) ao Iraque perpetrados pelo governo de George W. Bush, entre outras coisas lamentáveis.

Na época, sem conhecer suficientemente bem a trajetória do autor inglês naturalizado estadunidense, creditei essa falha de avaliação a uma distorção de entendimento da realidade, causada pela militância humanista/ateísta, confusão que o neurocientista e filósofo Sam Harris também cometera ingenuamente. Harris atribuiu a guerra do Iraque a uma cruzada positiva do Iluminismo ocidental contra as forças obscurantistas do islamismo, crendo que os Estados Unidos pudessem levar ciência àquelas regiões atrasadas do planeta. Erro grande, mas perdoável. Mas não no caso de Hitchens, como veremos.

Acabei de ler sua autobiografia de 2010, um ano antes dele falecer vítima de câncer. Ali eu pude compreender não só a sua trajetória política, mas reforçar meu entendimento sobre a indigência do trotskismo.

Na juventude, o inglês fizera parte de um grupo trotskista intitulado Socialistas Internacionais. Era uma espécie de grupo de universitários de classe média alta que se diziam de esquerda, nos anos 60, quando ser de esquerda era tão natural quanto ser jovem e roqueiro nos anos 80. O trotskismo era e ainda é uma espécie de rebeldia conservadora tolerada, uma fase da juventude onde os adolescentes buscam afirmação inofensiva criticando as crenças políticas dos pais. Mas nem tanto — e, por isso, é tolerada, e até incentivada, pelo sistema.



Grande parte da energia dos trotskistas é voltada para criticar a própria esquerda, especialmente o stalinismo. Hitchens era desses. Apesar de inglês (e talvez até mesmo por isso) fazia vistas grossas ao histórico imperialismo da Inglaterra, ao colonialismo assassino e à herança dessas práticas em regiões periféricas do mundo. Para ele, todo o mal do planeta se resumia à herança do stalinismo.

Em reuniões com seus amigos na juventude numa espécie de tertúlia intelectual sempre às sextas-feiras, eram debatidos temas ao gosto burguês como estilo literário, moda, e até política. Não surpreende que um desses personagens fosse o historiador Robert Conquest, uma espécie de Marco Antonio Villa inglês, intelectual a serviço da ordem, e também orgulhoso autor de obras antistalinistas, e que, também, não surpreendentemente foi aceito nos círculos conservadores ingleses. Robert Conquest é o mesmo historiador cuja obra é desmoralizada por autores que refutaram todos os seus erros históricos tendenciosos, como Ludo Martens e o respeitado filósofo italiano Domenico Losurdo. Mesmo assim, o mainstream literário internacional usa o refutado trabalho de Conquest até hoje como fonte de ataques contra Josef Stalin.

Mais tarde, nos anos 80, Christopher Hitchens se orgulha de ser um dos poucos autores "de esquerda" a elogiar o nojento governo da primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher, evocando inclusive um suposto "sex-appeal" da ultrajante "Dama de Ferro".

Seu livro inteiro é permeado de pequenas menções críticas ao stalinismo, a uma simpatia pelos Estados Unidos, acrítica, idealizada, sem levar em conta, por exemplo, que ao se criticar Saddam Hussein é preciso retroceder até o momento em que os EUA fomentaram seu regime quando era conveniente (coisa que passa em branco durante o livro).



Mas o mais importante fato a se destacar da autobiografia é a clareza com que as relações entre trotskismo e imperialismo se dão de forma natural. Não há como negar, quando por exemplo, uma universidade inglesa tão tradicional e conservadora quanto Oxford se dispõe a publicar uma obra que, de outra forma, seria parte do Index burguês de livros proibidos. Mas ao contrário, a Oxford University Press muito alegremente, como relata Hitchens, publicou o livro de um "comunista" trotskista chamado Victor Serge, cujo título era "Memórias de um revolucionário". Por quê?

Apensas pensem... Porque, é óbvio, um "comunista" que faz o trabalho sujo para a direita, ao difamar o próprio comunismo, para o deleite das classes ricas e proprietárias, papel infame a que se prestou o próprio Leon Trotsky, sempre pode contar com espaço e prestígio nos jornais e editoras burgueses. E assim tem sido, desde que Stalin venceu a Segunda Guerra Mundial, e sua influência no mundo ocidental passou a ter que ser difamada para evitar sua popularização entre a classe trabalhadora mundial. Com a luxuosa ajuda dos trotskistas, é claro.

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