A diferença de ensino e educação no Brasil



Poucas pessoas atentam para a diferença crucial que existe entre ensino e educação. Essa confusão interfere diretamente, no espectro geral, na qualidade da formação de cidadãos e na capacidade das pessoas saberem conviver num ambiente adequado de civilidade e cidadania.

Ensino é o que o Estado brasileiro e também algumas instituições particulares oferecem de maneira formal, através de saberes selecionados e organizados num currículo escolar que determina o mínimo que uma pessoa deve dominar em termos de conhecimento para poder fazer parte de uma sociedade.



Já a educação é todo o conhecimento circulante disponível que as pessoas podem e devem absorver para complementar a sua formação continuada. E quais são as fontes dessa educação? Vamos ver as mais importantes.

A primeira, e talvez a principal, é a família. Os pais — e também avós, tios, etc. — desde o nascimento dos seus filhos são encarregados de educá-los (muitas pessoas pensam que esse é o papel da escola), mostrar a eles o funcionamento das coisas, o comportamento adequado, e principalmente despertar na criança o espírito da curiosidade, a base do interesse em qualquer conhecimento.

Além da família, os mais velhos de qualquer sociedade eram aqueles responsáveis no passado a transmitir o conhecimento para os mais jovens e eram admirados e respeitados por isso. Mas ainda hoje existe muito o que se aprender com os idosos, que viveram experiências que podem orientar os mais jovens no melhor caminho de suas vidas.

Além deles, os livros, é claro, são fonte crucial de educação. Um leitor vive muitas vidas em uma só, através do conhecimento que adquire ao incorporar toda a sabedoria acumulada e guardada nestes receptáculos de saber.

E por fim, as mídias, especialmente a internet e a TV hoje em dia, que colocam o mundo inteiro numa tela diante do espectador/internauta.

O segredo do sucesso de muitos países pode ser investigado se observarmos rapidamente a base de sua educação. Para isso vamos deixar de lado o ensino formal, hoje muito voltado para o mercado de trabalho no mundo inteiro, para focar na educação que forma o cidadão em valores humanos e cidadania.



Os países orientais hoje em dia são conhecidos por sua alta indústria tecnológica, mas poucos se dão conta de que essa tradição é muito recente. E só aconteceu porque os orientais tem uma outra tradição mais antiga, que é a vontade de aprender. Nessas sociedades, os mais velhos são valorizados e respeitados, seus saberes são absorvidos pelos jovens, e assim, por exemplo, o Japão pôde aprender com o Ocidente a ser um país de primeiro mundo, sem, no entanto, perder suas origens.

Em outras sociedades, como a europeia, por exemplo, embora haja — em menor grau — o respeito pelos idosos, foi a massificação precoce da leitura o que tornou, em grande medida, os países desenvolvidos. A erradicação do analfabetismo antes do advento da televisão foi o grande trunfo desses países, pois a educação foi fomentada principalmente pela literatura.

A família é a base de toda a sociedade, mas em algumas delas, exerce um papel determinante. Especialmente nas sociedades latinas (e também, dizem, nas judias). A família latina (e latino-americana) é muito presente na vida de um jovem, e muitas vezes continua sendo na vida adulta, influenciando diversas decisões ao longo da vida. São famosos os arquétipos da sogra ciumenta que se mete em tudo na vida do filho adulto, do pai ciumento que intimida todos os namorados da filha, ou que esses filhos morem juntos na mesma casa dos pais depois de casados... Isso em contraste com as sociedades anglo-saxãs como nos Estados Unidos, onde os filhos basicamente ficam em casa até os 18 anos e depois invariavelmente ganham o mundo e sua independência.

Mas e o Brasil?

O Brasil, como não poderia deixar de ser, é um país complexo com diversas dessas vertentes. Mas as que predominam infelizmente não são as melhores.

Por mais que tenhamos algumas regiões onde o respeito ao conhecimento dos mais velhos, da família (como nas classes médias) e dos livros (muito pouco disseminado no país) estejam presentes, é a internet e a televisão que educam os mais jovens de maneira geral. E esse é o nosso grande problema.



A TV é mais antiga e ao contrário dos países europeus, se disseminou quando o país ainda padecia com uma grande maioria de analfabetos. O modal imagético foi perfeito nessas condições — muita imagem, muita fala, pouco texto, como nas novelas. Já sendo um modelo de transmissão de conhecimento onde predomina a passividade do público, foi ainda mais nocivo na medida em que a população brasileira não tinha a educação formal adequada para filtrar criticamente todo o conteúdo recebido. A TV serviu assim para moldar hábitos, costumes e ideias do brasileiro.

O mesmo com relação à internet. O Brasil diminuiu — um pouco — o número de analfabetos, mas a ditadura militar que precedeu o advento da internet no Brasil serviu para reforçar a assimilação acrítica do povo brasileiro, na medida em que um ensino e uma sociedade autoritários inibiam qualquer tipo de contestação.

Hoje a internet divide com a televisão — mas em vias de superá-la — como a principal fonte de conhecimento do cidadão brasileiro. Sem um aparato crítico adequado, o brasileiro absorve as mentiras, os boatos e as fake news que contaminam as redes e influenciam a sua forma de pensar e ver o mundo.

Um aparato crítico é a capacidade de uma pessoa entender, pensar, selecionar e analisar todas as informações que lhes chegam aos sentidos. Se a educação falha em promover esse tipo de ambiente, é a escola, ou seja, o ensino formal que deve resgatar essa capacidade para que a sociedade brasileira possa melhorar o seu baixo nível atual de conflitos e ideias distorcidas, conviver com as cada vez mais constantes e complexas informações disseminadas.

Além do ensino, a disseminação da leitura é fundamental para que a opinião dada ganhe profundidade e argumentação, e não isso o que vemos hoje, um mar de superficialidade e senso-comum que é repetido como verdade absoluta.

Os mais velhos também sempre têm o que nos ensinar, assim como a nossa família. Mas até essas fontes de conhecimento transmitidos de geração para geração podem e devem ser problematizadas. Se não fosse assim, ainda estaríamos vivendo uma época em que a escravidão era tolerada, os barões do café eram a classe dominante, e os casamentos eram arranjos de famílias. 


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