17 de junho de 2018

Torcer ou não torcer para a seleção brasileira



Para um brasileiro médio, pouco envolvido com as questões complexas que essa pergunta suscita, a resposta é óbvia: é claro que todo brasileiro deve torcer para a seleção do seu país. Porém, a coisa fica mais complicada quando você levanta algumas questões.

Eu, particularmente, deixei de torcer para a seleção verde e amarela depois da Copa de 94. Já naquela época, havia a polêmica do escrete canarinho ter cada vez menos jogadores atuando nos times nacionais. Esse fator provocava e provoca o distanciamento do torcedor com seus ídolos, que desfilam seus talentos para a alegria de outros povos no exterior.

Além disso, passamos a contar com mudanças no futebol proporcionadas por alterações na chamada lei do passe, por conta da Lei Pelé, que, ao fim e ao cabo, significou a instauração dos ideais neoliberais no futebol brasileiro, não obstante ter sido festejada na época por jogadores e especialistas como o "fim da escravidão" no futebol. Infelizmente, o que aconteceu de fato foi a introdução das leis do mercado livre numa economia, a brasileira, incapaz de competir de igual para igual com os dólares e os euros dos países mais ricos, além de dar carta branca para empresários enriquecerem em detrimento dos clubes formadores.



Como consequência, vemos jogadores brasileiros na seleção que sequer chegaram a jogar por algum clube nacional, fazendo carreira diretamente nos times lá de fora. Uma total perda de identidade e consequentemente de ligação com o Brasil e sua seleção.

A questão de torcer ou não para a seleção, porém, passa mais por razões políticas. O auge desse dilema provavelmente se deu na Copa de 70, quando o nosso país vivia uma violenta ditadura sob a batuta de Médici, e os opositores do regime, muitos militantes de movimentos de esquerda, decidiram que apoiar a seleção seria dar legitimidade ao governo, que usava o prestígio do time de Pelé e cia. em proveito da sua própria imagem.

Recentemente Juca Kfouri deu uma entrevista revelando que foi bastante criticado na época por seus colegas de esquerda, pois resolveu apoiar a seleção. Para ele, a ditadura já havia nos tirado quase tudo, e não poderia concordar que tirassem inclusive o direito de torcer para a seleção nacional.

Infelizmente, ou felizmente, aquela seleção ganhou, pouco tocou em política, se aproveitou dos louros da vitória e jogou os problemas políticos-sociais do país para debaixo do tapete, tendo Pelé como símbolo maior do "não-temos-nada-com-isso". A ditadura durou mais 15 anos, os jogadores daquela geração foram colocados no panteão dos heróis nacionais, e as esquerdas sofreram, apanharam e foram derrotadas no campo ideológico-político, para o mal do país.

De lá pra cá a ditadura foi definhando até terminar em 1985, quando o país se democratizou — na teoria — e esse debate perdeu o sentido. Perdeu?

Desde então a CBF se tornou num símbolo de corrupção pelas mãos de Ricardo Teixeira, nossa seleção abandonou de vez as preocupações com o futebol brasileiro, passou a funcionar como uma empresa, alugando seu produto, a seleção, para exibições no exterior a troco de milionárias cotas, se enriqueceu de forma fraudulenta, escapou de diversas CPIs e tentativas de regulamentação por parte de órgãos governamentais e vem agindo de forma criminosa e suspeita.



A gota d'água da pilantragem, afora tudo o que já foi mencionado, foi o episódio em 2007 em que a seleção brasileira se prestou a convocar um jogador medíocre perdido num pequeno clube holandês para que ele pudesse ser negociado para a rica Premier League inglesa, nunca mais sendo chamado.

Como torcer para o "Brasil" desse jeito? Isso sem mencionar episódios recentes como a prisão do ex-presidente Marín, o medo de seu sucessor Marcopolo Del Nero ir pro exterior e ter o mesmo destino, além da camisa da seleção ter sido transformada em símbolo do que há de mais imbecil em termos de protesto político: o de uma classe privilegiada que protesta com medo de perder sua frágil estatura na hierarquia social.

De qualquer forma, caso queira torcer para a seleção brasileira assim mesmo, você está no seu direito. Mas pelo menos não o faça de forma acrítica, ufanista, repetindo as palhaçadas de uma mídia rendida ao dinheiro dos patrocínios, com papagaiadas como país pátrias de chuteiras e outras baboseiras. O Brasil é muito maior do que esse time que cada vez menos representa a sua própria nação.
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Professor de História, Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), carioca, usa este espaço para comentar sobre os assuntos da política e da sociedade de forma simples e clara, sem, no entanto, abrir mão do rigor da checagem dos fatos.

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