O dilema de Ciro Gomes



Ciro Gomes vem tirando bom proveito da complexa conjuntura política que se apresenta ao eleitor neste ano. Talvez desde a campanha eleitoral de 1989 não vemos uma disputa tão pulverizada quanto esta que se apresenta a nós em outubro.

Ciro, de forma certamente calculada, vem se colocando clara e oportunamente como candidato de centro-esquerda. Parece ter encontrado ali um nicho com grande potencial de crescimento, cada vez que a direita atualmente no poder lança mão de seu impopular pacote de maldades em favor do mercado e que a candidatura de Lula vai ficando cada vez menos viável.

Não por acaso sua campanha vai ganhando corpo, como já admitem alguns grandes veículos de comunicação, atraindo partidos como o cobiçado PSB, prestes a selar aliança com o PDT de Ciro, bem como partidos de centro, capazes de lhe dar força política no Congresso e preciosos minutos a mais no tempo de TV da campanha eleitoral. No entanto, um dilema se apresenta ao candidato pedetista.

Partidos de direita que apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff também querem fazer parte da aliança, segundo alguns veículos de imprensa. PP, DEM e PR têm tido conversas discretas com o candidato do PDT. São partidos que contam com a simpatia do mercado — não por acaso, pois trabalham em nome de sua agenda — embora Ciro Gomes tenha se colocado de forma bastante crítica com relação à interferência do setor financeiro nos assuntos da política.

Seria essa aliança benéfica ou maléfica ao candidato?

Isso vai depender de alguns fatores. Vejamos o caso de Lula.

Em sua primeira eleição em 2002, Lula contou com um abrangente espectro de partidos políticos em sua aliança. Sob a alegação da necessidade de apoio em nome da governabilidade, sem a qual o PT supostamente não poderia por em prática suas promessas de campanha, o partido de Lula infelizmente não pressionou os partidos de centro da aliança a apoiar uma agenda agressivamente progressista, como era o desejo de seus 50 milhões de eleitores. Pelo contrário, fez o governo sair da esquerda e rumar cada vez mais para o centro do espectro ideológico, perdendo assim grande parte não só do apoio popular como da sua própria identidade.



A campanha de Ciro também se mostra bastante progressista nas suas propostas. Resta saber se a aliança com alguns partidos da direita (com a exceção do MDB, com quem se recusa a conversar) vai fazer um possível governo Ciro se render ao conservadorismo, ou se vai obrigar seus apoiadores a seguir rigidamente a cartilha que guia sua candidatura, como tem prometido Ciro Gomes durante suas palestras.

Tal como Lula, inclusive nisso, Ciro quer ter o seu "José Alencar" como vice, ou seja, "um empresário do sudeste" para formar a chapa.

Ciro Gomes pode repetir Lula no poder, usando as limitações da política como desculpa para a não-realização de algumas de suas propostas mais ousadas, como o plebiscito sobre o Pré-sal e a revogação da reforma trabalhista, ou poderá dobrar as forças mais conservadoras do Congresso a ceder em nome de um projeto nacional, coisa que não se ouve falar no país há décadas.

Eis o dilema: alianças fazem as chances de Ciro Gomes aumentarem na próxima eleição. As mesmas alianças, porém, podem inibi-lo de tomar as medidas progressistas que deveria colocar em prática no seu governo, na medida em que trazem para a sua base elementos de centro e de direita, tradicionalmente conservadores.

Pra que lado o candidato vai pender em caso de vitória?



9 comentários:

  1. “As mesmas alianças, porém, podem inibi-lo (Ciro Gomes) de tomar as medidas progressistas que deveria colocar em prática no seu governo”
    ▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬
    Pode dar um exemplo de medida progressista a ser tomada?
    Vamos supor que Ciro vença as eleições e tenha condições satisfatórias de efetivar sua agenda.
    O Ceará é a vitrine de Ciro?

    https://terapiadalogica.blogspot.com/2018/06/federacao.html
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    1. Um exemplo notório que Ciro vem anunciando em quase todas as suas participações em palestras e entrevistas é o plebiscito popular para a reforma da previdência em que alguns pequenos setores privilegiados da sociedade parem de levar sozinhos quase metade do que se arrecada. Uma baita medida progressista que vai bater de frente com um Congresso de velhos ricos, brancos e privilegiados que querem que os pobres paguem mais, como é a proposta da reforma de Temer, conservadora, portanto.

      O Ceará pode ser sim exemplo em muitas questões com a Educação e a gestão pública, mas não de perfeição, porque isso não existe em nenhum lugar do mundo.

      Abs.

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    2. Plebiscito popular 😄
      Brasileiro não quer nenhuma reforma da previdência, acredita que há dinheiro para absolutamente tudo.
      Brasileiro não aceita reduzir nem a idade mínima.

      A idade mínima para aposentadoria em Cuba é de 65 anos ☛DESDE 2008.
      .
      “O salário médio estatal em Cuba subiu 1% em 2013 e chegou a 471 pesos (40 Reais), o que mantém a tendência de leves aumentos dos últimos anos.”
      [UOL Economia]
      .
      Petistas tem países comunistas como exemplos a serem seguidos...

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    3. Bicho, vocês de direita devem ter algum fetiche ou problema sexual com relação a petistas, vocês veem PT em tudo.

      O assunto aqui é Ciro Gomes do PDT...

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    4. Então Ciro aceita estabelecer idade mínima para aposentadoria?
      Qual ele propõe?

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    5. A matéria do jornal Valor Econômico resume bem a proposta que vai a plebiscito:

      "Reforma proposta a Ciro cria dois regimes de previdência.

      O candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes, analisa proposta de reforma que unificaria a previdência dos servidores e dos demais trabalhadores num sistema em que coexistiriam dois regimes, o de repartição e de capitalização, com contas individuais. Para o primeiro, o teto de aposentadoria seria inferior aos atuais R$ 5,6 mil, algo entre três e quatro salários mínimos. Acima disso, os vencimentos dependeriam da contribuição no sistema de capitalização
      .

      É como uma conta particular, um sistema previdenciário privado, em que você receberia de acordo com sua própria contribuição, mas ainda assim sob o controle do estado para evitar qualquer tipo de especulação.

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    6. “É como uma conta particular, um sistema previdenciário privado, em que você receberia de acordo com sua própria contribuição, mas ainda assim SOB O CONTROLE DO ESTADO para evitar qualquer tipo de especulação.”
      ▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬
      Já conhecemos isso do FGTS com seu rendimento bem abaixo do mercado.

      “FGTS perde da inflação em 2013 e acumula prejuízo de 19,5% em 15 anos”.
      [UOL]

      https://terapiadalogica.blogspot.com/2015/03/caixa-economica-federal.html

      O MDB tinha uma proposta bem melhor.
      Unificação geral das aposentadorias com o teto de pouco mais de 5 mil para todos.
      QUEM QUISER MAIS QUE INICIE UMA PREVIDÊNCIA PRIVADA.

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    7. O problema é que a proposta do MDB só exige sacrifícios das clases média e abaixo, não mexe em direitos adquiridos por exemplo de servidores públicos do alto escalão, juízes e oficiais militares que sozinhos representam apenas 15 por cento dos aposentados mas recebem integralmente seus salários, abocanhando quase a metade da previdência.

      Daí só um plebiscito para mexer nisso. Ninguém vai abrir mão de privilégios de boa vontade.

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    8. “não mexe em direitos adquiridos por exemplo de servidores públicos do alto escalão”
      ▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬▬
      E não dá para mexer com direitos adquiridos sem criar o caos.
      É corrigir daqui para frente.


      https://terapiadalogica.blogspot.com/2016/11/reforma-da-previdencia.html
      __________________

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