28 de junho de 2018

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Ciro Gomes vem tirando bom proveito da complexa conjuntura política que se apresenta ao eleitor neste ano. Talvez desde a campanha eleitoral de 1989 não vemos uma disputa tão pulverizada quanto esta que se apresenta a nós em outubro.

Ciro, de forma certamente calculada, vem se colocando clara e oportunamente como candidato de centro-esquerda. Parece ter encontrado ali um nicho com grande potencial de crescimento, cada vez que a direita atualmente no poder lança mão de seu impopular pacote de maldades em favor do mercado e que a candidatura de Lula vai ficando cada vez menos viável.

Não por acaso sua campanha vai ganhando corpo, como já admitem alguns grandes veículos de comunicação, atraindo partidos como o cobiçado PSB, prestes a selar aliança com o PDT de Ciro, bem como partidos de centro, capazes de lhe dar força política no Congresso e preciosos minutos a mais no tempo de TV da campanha eleitoral. No entanto, um dilema se apresenta ao candidato pedetista.

Partidos de direita que apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff também querem fazer parte da aliança, segundo alguns veículos de imprensa. PP, DEM e PR têm tido conversas discretas com o candidato do PDT. São partidos que contam com a simpatia do mercado — não por acaso, pois trabalham em nome de sua agenda — embora Ciro Gomes tenha se colocado de forma bastante crítica com relação à interferência do setor financeiro nos assuntos da política.

Seria essa aliança benéfica ou maléfica ao candidato?

Isso vai depender de alguns fatores. Vejamos o caso de Lula.

Em sua primeira eleição em 2002, Lula contou com um abrangente espectro de partidos políticos em sua aliança. Sob a alegação da necessidade de apoio em nome da governabilidade, sem a qual o PT supostamente não poderia por em prática suas promessas de campanha, o partido de Lula infelizmente não pressionou os partidos de centro da aliança a apoiar uma agenda agressivamente progressista, como era o desejo de seus 50 milhões de eleitores. Pelo contrário, fez o governo sair da esquerda e rumar cada vez mais para o centro do espectro ideológico, perdendo assim grande parte não só do apoio popular como da sua própria identidade.



A campanha de Ciro também se mostra bastante progressista nas suas propostas. Resta saber se a aliança com alguns partidos da direita (com a exceção do MDB, com quem se recusa a conversar) vai fazer um possível governo Ciro se render ao conservadorismo, ou se vai obrigar seus apoiadores a seguir rigidamente a cartilha que guia sua candidatura, como tem prometido Ciro Gomes durante suas palestras.

Tal como Lula, inclusive nisso, Ciro quer ter o seu "José Alencar" como vice, ou seja, "um empresário do sudeste" para formar a chapa.

Ciro Gomes pode repetir Lula no poder, usando as limitações da política como desculpa para a não-realização de algumas de suas propostas mais ousadas, como o plebiscito sobre o Pré-sal e a revogação da reforma trabalhista, ou poderá dobrar as forças mais conservadoras do Congresso a ceder em nome de um projeto nacional, coisa que não se ouve falar no país há décadas.

Eis o dilema: alianças fazem as chances de Ciro Gomes aumentarem na próxima eleição. As mesmas alianças, porém, podem inibi-lo de tomar as medidas progressistas que deveria colocar em prática no seu governo, na medida em que trazem para a sua base elementos de centro e de direita, tradicionalmente conservadores.

Pra que lado o candidato vai pender em caso de vitória?



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