Donald Trump protecionista e Banco Mundial liberal

A maioria dos estadunidenses elegeu Donald Trump, entre outras coisas, pelo seu discurso protecionista. Parece que os norte-americanos não estavam muito satisfeitos e nem convictos da ideologia liberal, que prega que as barreiras tarifárias que dificultam a livre circulação de mercadorias sejam derrubadas (e que deveria incluir também a queda de patentes e livre circulação de mão-de-obra, mas essa parte eles não gostam de falar). Dito e feito. Na terra do capitalismo desenfreado, Trump instituiu barreiras contra o aço e alumínio importados, dificultando o comércio dessas commodities com os países produtores.

Mas a questão não é tanto essa, e sim o fato curioso de que, dias depois, o Banco Mundial, instituição sob influência direta estadunidense, ter sugerido ao Brasil a abertura de mercado para "aumentar a produtividade" e tirar "6 milhões de pessoas da pobreza". Como se o mercado livre mundial não fosse uma fábrica de pobreza e desigualdade em escala industrial, com seu 1 por cento de bilionários cada vez mais engolindo metade de tudo o que os outros 99 por cento da população produz.

Para um infeliz inocente, poderia parecer uma crítica indireta ao presidente norte-americano e seu protecionismo. Mas para quem já tem alguma expertise no assunto, sabe muito bem que os países ricos ficaram ricos no passado justamente protegendo seus mercados da concorrência estrangeira enquanto não eram capazes de competir. Até aí, nada demais. O problema é que, como mostra o Banco Mundial, estes mesmos países sugerem agora para os países emergentes que a abertura de seus incipientes mercados à concorrência mundial é a melhor solução para a prosperidade. Ainda tem otário que cai nessa conversa mole.

Já trouxemos aqui a crítica do economista sul-coreano Ha Joon-Chang (ver final da postagem) que cunhou um termo bastante feliz para ilustrar essa atitude falaciosa no título de um dos seus livros: é como se as nações ricas que alcançaram o topo da economia com protecionismo tivessem "chutado a escada", impedindo outras nações de subir também. Como fizeram isso? Justamente sugerindo, como o Banco Mundial, o contrário do que eles fizeram para crescer no passado.
Ha-Joon-Chang, sul-coreano economista de Cambridge, Inglaterra, é um crítico cotumaz do mercado

Para isso, precisam encontrar capachos serviçais nos países em desenvolvimento em setores influentes como na política e na mídia, aduladores o suficiente para reproduzir aqui essa falácia em favor dos países ricos. No Brasil esses cães adestrados se encontram preferencialmente em partidos como o PSDB, o MDB e o DEM, liberais entreguistas, e nas grandes mídias controladas por famílias ligadas ao SIP.

Por conta dessa falta de nacionalismo e caráter, dessa entrega do patrimônio nacional e desse vira latismo descarado que se coloca como subserviente aos interesses econômicos de um país estrangeiro em especial, marca da personalidade servil de nossas elites, o próprio economista sul-coreano nos alerta que o Brasil vem sofrendo um dos maiores processos de desindustrialização da história mundial, que nos faz retroceder à época colonial onde produtos primários como o café e a carne eram nossas maiores fontes de comércio mundial.

Todos sabemos que a industrialização agrega mão-de-obra na produção. Portanto, mais emprego e mais emprego qualificado. Plantar milho e produzir uma TV de Led, por exemplo, exigem trabalhos de espécies muito diferentes. Enquanto a agricultura demanda cada vez menos mão-de-obra, a indústria emprega muito mais trabalhadores especializados, que recebem melhores salários e alavancam a economia do país. E essa desindustrialização brasileira é fruto da mentalidade colonizada dos políticos atuais no poder, que acham que a vocação do Brasil é ser o "celeiro do mundo" enquanto os melhores empregos são criados lá fora. Vendemos laranja in natura e compramos caixas de suco importados pagando 10 vezes mais. Gênios.

Se Donald Trump, no centro do capitalismo de mercado do planeta, mostra que proteger a economia da concorrência estrangeira é a solução para preservar os empregos, por que o Brasil, com uma economia talvez 20 vezes menos industrializada que a deles, no barato, acha que pode concorrer no mercado mundial de peito aberto?

Só com a mente colonizada dos nossos políticos de direita.

Veja abaixo as postagens do Panorâmica Social baseadas no livro O Mito do Livre-Comércio e os Maus Samaritanos – A história secreta do capitalismo

O mito do livre mercado: 
1- os casos sul-coreano e japonês
2- o caso inglês
3- os Estados Unidos.

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4 Comentários

  1. Argumentum ad hominem (latim, argumento contra a pessoa) é uma falácia identificada quando alguém procura negar uma proposição com uma crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo.

    “Pessoas brancas não podem falar sobre racismo, pois elas são brancas e não tiveram tal experiência subjetiva”

    “Homens não podem falar sobre machismo, pois são homens e não tiveram tal experiência subjetiva”

    O mesmo vale para outros casos semelhantes em que se sublinham as características pessoais e as experiências subjetivas do debatedor no lugar de se tentar refutar seus argumentos e apresentar contraprovas às evidências que ele apresentou.

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    1. Amigo, eu sei exatamente o que é este artifício retórico, só não faço a menor ideia do porquê você ter trazido isso aqui.

      Pode explicar melhor?

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  2. POR FAVOR, DIVULGUE ESSE VÍDEO
    TEM TUDO A VER COM O TEXTO.
    https://www.youtube.com/watch?v=XzToQ9iv7fQ

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    1. Olá amigo,

      Não sou fã desse Peninha mas realmente tem bastante a ver, já que Barão de Mauá foi certamente o primeiro e mais bem sucedido empreendedor capitalista do Brasil, e teria ajudado o país a cumprir uma etapa de industrialização importante se não fosse sabotado e perseguido pelos agente do atraso, os plantadores de café que queriam exatamente que o Brasil continuasse de forma subalterna na economia mundial, como mero fornecedor de matéria-prima;

      É mais uma que as classes dominantes desse país nos devem.

      Grande abraço.

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