17 de março de 2018

A Ditadura Militar na raiz do desprezo pelos Direitos Humanos



Não vou perder o nosso tempo aqui explicando para as pessoas como elas estão absolutamente enganadas, quando criticam aqueles que se dispõem a defender os pontos determinados pelas Organizações da Nações Unidas sobre os direitos humanos. Muita gente já fez isso com muita competência, sem no entanto conseguir diminuir significativamente a onda de raiva e preconceitos, totalmente injustificados contra "os direitos humanos" tratados como um sujeito de tanto que as pessoas mal sabem do que se trata.

No entanto, quero discutir por que o brasileiro médio é dado a ser crédulo em todo tipo de falácia mal feita, que cola como uma verdade absoluta no seu cérebro a ponto de pessoas perderem totalmente a sensibilidade humana. Pra isso quero discutir alguns tópicos de forma resumida.

Nem é preciso ir assim tão longe no tempo. Na época da ditadura militar. Oficialmente ela não existe mais. Entretanto, é possível farejar a sua essência no ar, aquilo que permanece de um momento de sectarismo, autoritarismo, desprezo pela vida e pela democracia. Vinte e um anos de arbitrariedades e monopólio da verdade não podem ser varridas da noite para o dia, e seus fantasmas ainda nos rondam.

O pensamento conservador da sociedade cristã brasileira apoiou de forma escancarada durante muito tempo as perseguições, as torturas, os exílios forçados praticados pelas forças militares contra jovens universitários tidos como subversivos, bandidos e "comunistas" durante aquele período. Com o fim da Guerra Fria nos anos 80, a ditadura militar fazia pouco ou nenhum sentido, e as forças armadas perderam o seu alvo interno (já não tinham um externo devido à irrelevância política brasileira no cenário mundial naqueles tempos); os estadunidenses perderam os soviéticos no âmbito externo. Como seria então possível justificar a função policialesca das forças armadas e polícias militares? Procurando um novo alvo a que focar.

Os Estados Unidos encontraram logo em Saddam Hussein e nos "terroristas" muçulmanos o seu novo alvo predileto, e internamente aqui, a guerra contra as drogas passou a ocupar o lugar da perseguição aos subversivos da ordem.



Todo o aparato ideológico que serviu para justificar as desumanidades contra os comunistas agora serve para justificar a violência e os maus-tratos contra os traficantes, os criminosos e seja qual for os meliantes das classes pobres, negras e faveladas. Assim, incutiu-se na cabeça de muitos cidadãos de classe média, os mesmos que já estavam preparados mentalmente pois apoiavam o extermínio de subversivos na ditadura, que valia tudo contra esses novos criminosos, que eles não eram gente, e que por isso não mereciam ter direitos humanos.

Para esse indivíduo, não é fácil entender que os agentes públicos e os próprios cidadãos não podem se rebaixar e se igualar aos bandidos, oferecendo o mesmo tratamento desumano aos criminosos. Já foi estabelecido, em nome da civilização, com o intuito de afastar de nós o barbarismo, que qualquer ser humano, qualquer um que seja, deve ser punido por seus atos, sejam eles quais forem, dentro de um código de leis estabelecidas. Coisas como tortura, pauladas, pau de arara, telefone, e outras práticas execráveis de épocas arbitrárias devem ser abolidas, porque não cabem no estado democrático de direito. E essa proteção vale pra mim, pra Xuxa e vale pro Elias Maluco também. E é uma das coisas mais difíceis desses alienados da classe média brasileira entenderem. 

Isso porque a ditadura militar não só violentou no campo físico, mas também mental. Uma das maiores mazelas do militarismo é a impossibilidade de argumentar. Tanto ordens quanto ideias são dadas de cima pra baixo e incontestáveis aos subordinados — naquele momento, não só os militares de baixa patente como toda a sociedade brasileira. 

Uma geração inteira de brasileiros foi criada nessa incapacidade de pensar, apenas de absorver e aceitar o mundo dado por terceiros. As coisas são assim e pronto. Aquilo é pro nosso bem. Ame o Brasil ou deixe-o. Direitos humanos para humanos direitos. Bandido bom é bandido morto. São coisas que evoluíram de lá pra cá no aparato mental do brasileiro médio de forma automática, sem reflexão, sem crítica. Falácias reproduzidas como o tipo de comédia preferida desse mesmo tipo de brasileiro. Em vez das piadas inteligentes de um Monty Phyton, aqui predominou sempre a piada fácil de bordões estilo Escolinha do Professor Raimundo. 

Essas duas questões reunidas, tanto a nossa herança recente de um país autoritário e violento quanto a destruição do pensamento contestador nos faz estar neste momento com um déficit civilizatório em relação a outros seres humanos de outros países que chega a ser escandaloso. Para mudar esse panorama, o Brasil precisa enfrentar seus preconceitos, ser mais duro com quem comete violações dos direitos humanos, eleger um presidente disposto a enfrentar dois dos maiores aparatos das classes dominantes, as Forças Armadas e a mídia, de onde saem a maioria dessas falácias, para democratizá-las, enfrentar de vez o nosso passado autoritário e inaugurar um novo país, depurado desses ninhos com ovos de serpentes fascistas que ameaçam eclodir a qualquer momento.

Só assim o Brasil poderá entrar nos trilhos da civilização de novo.



12 de março de 2018

As relações promíscuas de Michel Temer no poder



Michel Temer sempre foi um político de relações de bastidores na política, com bom trânsito entre os poderes da República. Até por isso, de forma lamentável no meu modo de entender, o PT o escolheu como vice-presidente na chapa com o (P)MDB, esperando que o velho político pudesse fazer as costuras da mal-fadada governabilidade: as alegadas necessárias "negociações" para a aprovação, por parte dos deputados, das pautas governistas, sabe-se lá em troca de que favores.

Mas foi quando arrebatou o poder beneficiando-se diretamente do golpe contra Dilma que Temer perdeu totalmente os limites da decência republicana. De forma totalmente descarada, ofereceu belos convescotes aos nobres deputados, como se fazia na época do Antigo Regime entre a nobreza, para persuadi-los a aprovar as draconianas reformas que o capital financeiro e o patronato aguardavam ansiosos. Enquanto isso, lá fora dos salões reais, ou melhor, presidenciais, a plebe aturdida com tamanha ousadia em protesto era vítima da polícia palaciana.

Mais tarde, apareceu a faceta mais soturna do ilegítimo, seu gosto por encontros noturnos com personalidades do poder fora da agenda oficial. Foi assim com o todo poderoso dono da JBS, Joesley Batista, já um tremendo corruptor de políticos que gravou o famoso "tem que manter isso hein" com relação ao calaboca do Eduardo Cunha que Temer aprovava.

Mas outras figuras importantes transitaram na calada da noite do castelo de Drácula, mais conhecido como Palácio do Jaburu.

O presidente não prevaricou , o presidente encontrou Joesley como encontrou inúmeras pessoas fora de agenda, noturnamente. Encontros noturnos com vários políticos, vários homens públicos, vários representantes de várias instituições do Estado. Então, não houve por parte do presidente, nesse encontro (com Joesley), nada anômalo, nada estranho, nada que não pudesse entrar numa visão das pessoas de bom senso, algo absolutamente normal.

Esse depoimento, por incrível que possa parecer, foi dado pelo próprio advogado de Temer em sua defesa! O criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira acabou revelando, com isso, as práticas escusas do presidente ilegítimo e suas tramoias à boca pequena, detalhes que a opinião pública jamais poderá saber, pois nem todos andam munidos com gravadores no bolso como o dono da JBS.

Outro dos encontros sorrateiros de Temer se deu com a então futura Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, cuja função seria dar prosseguimento às investigações de Rodrigo Janot (ele próprio, já recebido fora da agenda oficial pelo presidente) contra o mandatário do executivo nacional. A desculpa foi que era preciso marcar a data da posse da nova PGR. Mas por que fora da agenda, sendo isso um ato público de um cargo público?

Mas nada intriga mais do que o recente encontro de Temer com a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, algo tão burlesco quanto seria o encontro de Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro, com o Drácula de Bram Stoker. A mesma que há meses se recusa a receber o advogado do presidente Lula, segundo ela, por razões éticas. Mas ela não vê nenhuma falta de ética ao se encontrar informalmente com aquele que foi denunciado e será julgado em breve pelo Supremo.

A pergunta que fica, mas que pode ser facilmente deduzida, é o que tanto Michel Temer tem pra conversar em particular com pessoas poderosas da política, da justiça e do setor econômico?

Uma coisa, no entanto, é certa: ao aceitarem se encontrar fora de uma agenda oficial com o presidente da República, ou seja, sem divulgação das razões de tais encontros, sem nenhuma satisfação àqueles a quem deveriam prestar contas, estes elementos das instituições republicanas, seja do legislativo, com funções de julgar e fiscalizar o mandatário da nação, seja do judiciário, com a obrigação magna de serem apolíticos, avacalham ainda mais os poderes da República brasileira. Jamais o histórico patrimonialismo nacional esteve tão às escâncaras como agora, em que as relações dos poderes públicos são descaradamente instrumentalizadas a serviço de uma determinada classe.

7 de março de 2018

Donald Trump protecionista e Banco Mundial liberal

A maioria dos estadunidenses elegeu Donald Trump, entre outras coisas, pelo seu discurso protecionista. Parece que os norte-americanos não estavam muito satisfeitos e nem convictos da ideologia liberal, que prega que as barreiras tarifárias que dificultam a livre circulação de mercadorias sejam derrubadas (e que deveria incluir também a queda de patentes e livre circulação de mão-de-obra, mas essa parte eles não gostam de falar). Dito e feito. Na terra do capitalismo desenfreado, Trump instituiu barreiras contra o aço e alumínio importados, dificultando o comércio dessas commodities com os países produtores.

Mas a questão não é tanto essa, e sim o fato curioso de que, dias depois, o Banco Mundial, instituição sob influência direta estadunidense, ter sugerido ao Brasil a abertura de mercado para "aumentar a produtividade" e tirar "6 milhões de pessoas da pobreza". Como se o mercado livre mundial não fosse uma fábrica de pobreza e desigualdade em escala industrial, com seu 1 por cento de bilionários cada vez mais engolindo metade de tudo o que os outros 99 por cento da população produz.

Para um infeliz inocente, poderia parecer uma crítica indireta ao presidente norte-americano e seu protecionismo. Mas para quem já tem alguma expertise no assunto, sabe muito bem que os países ricos ficaram ricos no passado justamente protegendo seus mercados da concorrência estrangeira enquanto não eram capazes de competir. Até aí, nada demais. O problema é que, como mostra o Banco Mundial, estes mesmos países sugerem agora para os países emergentes que a abertura de seus incipientes mercados à concorrência mundial é a melhor solução para a prosperidade. Ainda tem otário que cai nessa conversa mole.

Já trouxemos aqui a crítica do economista sul-coreano Ha Joon-Chang (ver final da postagem) que cunhou um termo bastante feliz para ilustrar essa atitude falaciosa no título de um dos seus livros: é como se as nações ricas que alcançaram o topo da economia com protecionismo tivessem "chutado a escada", impedindo outras nações de subir também. Como fizeram isso? Justamente sugerindo, como o Banco Mundial, o contrário do que eles fizeram para crescer no passado.
Ha-Joon-Chang, sul-coreano economista de Cambridge, Inglaterra, é um crítico cotumaz do mercado

Para isso, precisam encontrar capachos serviçais nos países em desenvolvimento em setores influentes como na política e na mídia, aduladores o suficiente para reproduzir aqui essa falácia em favor dos países ricos. No Brasil esses cães adestrados se encontram preferencialmente em partidos como o PSDB, o MDB e o DEM, liberais entreguistas, e nas grandes mídias controladas por famílias ligadas ao SIP.

Por conta dessa falta de nacionalismo e caráter, dessa entrega do patrimônio nacional e desse vira latismo descarado que se coloca como subserviente aos interesses econômicos de um país estrangeiro em especial, marca da personalidade servil de nossas elites, o próprio economista sul-coreano nos alerta que o Brasil vem sofrendo um dos maiores processos de desindustrialização da história mundial, que nos faz retroceder à época colonial onde produtos primários como o café e a carne eram nossas maiores fontes de comércio mundial.

Todos sabemos que a industrialização agrega mão-de-obra na produção. Portanto, mais emprego e mais emprego qualificado. Plantar milho e produzir uma TV de Led, por exemplo, exigem trabalhos de espécies muito diferentes. Enquanto a agricultura demanda cada vez menos mão-de-obra, a indústria emprega muito mais trabalhadores especializados, que recebem melhores salários e alavancam a economia do país. E essa desindustrialização brasileira é fruto da mentalidade colonizada dos políticos atuais no poder, que acham que a vocação do Brasil é ser o "celeiro do mundo" enquanto os melhores empregos são criados lá fora. Vendemos laranja in natura e compramos caixas de suco importados pagando 10 vezes mais. Gênios.

Se Donald Trump, no centro do capitalismo de mercado do planeta, mostra que proteger a economia da concorrência estrangeira é a solução para preservar os empregos, por que o Brasil, com uma economia talvez 20 vezes menos industrializada que a deles, no barato, acha que pode concorrer no mercado mundial de peito aberto?

Só com a mente colonizada dos nossos políticos de direita.

Veja abaixo as postagens do Panorâmica Social baseadas no livro O Mito do Livre-Comércio e os Maus Samaritanos – A história secreta do capitalismo

O mito do livre mercado: 
1- os casos sul-coreano e japonês
2- o caso inglês
3- os Estados Unidos.