26 de janeiro de 2018

Lula, se conseguir se eleger, será refém permanente da ameaça de prisão



A burguesia nacional sempre odiou Lula, o operário agitador de sindicatos de origem nordestina e que, ainda por cima, sempre associou-se a símbolos caros à esquerda, como a ostentação de barba, bandeiras e estrelas vermelhas. Era demais para esta parcela altamente reacionária e emocionalmente ligada aos Estados Unidos.

No entanto, naqueles anos 80, ninguém jamais poderia imaginar que o então chamado sapo barbudo iria ser a carta na manga desta mesma burguesia numa disputa eleitoral anos mais tarde. A política é imprevisível.

Nas eleições presidenciais de 2002, depois de oito anos e dois mandatos seguidos do tucano Fernando Henrique Cardoso, a população estava à beira de um ataque de nervos com o governo, em frangalhos depois da política econômica neoliberal que corroeu empregos, salários, bem-estar, e até o fornecimento regular de eletricidade. Estávamos literalmente nas trevas.

A burguesia sabia que a população não iria dar mais um mandato para seus representantes políticos aninhados no tucanato do PSDB naquela eleição de 2002, e precisava pensar num plano B. Encontraram a solução num Lula ainda barbudo, ainda petista, mas despido de todo conteúdo ideológico de transformação social. Era o Lulinha Paz e Amor e sua Carta aos Brasileiros.

A partir daí, vimos os governos petistas manterem todo o aparato estrutural na macroeconomia que favorece os interesses da burguesia, do alto empresariado, do mercado e das instituições capitalistas internacionais.

Mas, reconheçamos, Lula deu feições mais amigáveis ao capitalismo, através de contrapartidas sociais. Poucas, mas o suficiente para reacender o antigo medo nos corações reacionários.

Com a burguesia salva do colapso, bem organizada e se sentindo cada vez menos dependente de um arranjo político de apaziguamento dos conflitos de classe, resolveu sair do armário nas suas mais diversas vertentes e áreas de atuação. Na política, na cultura, na educação, no judiciário... A bola de neve cresceu ao ponto de um golpe de estado jurídico em Dilma e um julgamento que ameaça prender Lula. Mas a burguesia, tacanha, esdrúxula e irracional, jamais aprende com a história, e quem não aprende com a história está condenado a repeti-la.



Michel Temer, a versão atual do governo tucano de FHC nos anos 90, ao aplicar o mesmo receituário antiquado neoliberal que quebrou o país 3 vezes naquela época, amarga a pior popularidade dos últimos tempos. Seu governo, sem respaldo eleitoral, é sustentado pela burguesia, que pensou que em menos de dois anos conseguiria empurrar goela abaixo do país suas reformas. A eleição deste ano está logo ali, e até agora, o governo vacila nas medidas mais impopulares, deixando as classes médias e os endinheirados sem ter certeza na continuidade do projeto espoliante.

Mais uma vez a burguesia brasileira se encontra em um dilema eleitoral. Que troço chato essa coisa das pessoas poderem votar não é mesmo? Apertando alguns botões na urna, o povo pode botar por água abaixo a maioria dos acordos de reformas impopulares. Qual seria a solução? Sim, amigos, ele mesmo... O velho Lulinha Paz e Amor. De novo. É a história se repetindo como farsa.

Duvida? Lula já deu indícios de que acena para seus algozes em troca da sua eleição. O que foi aquele ato no nordeste, em que convidou ao palanque Renan Calheiros do agora renomeado MDB? E as reformas, serão combatidas num possível governo? Claro que não...

Lula afirma que não anulará reformas de Temer se for eleito em 2018

Vejam vocês mesmos acima...

E agora, quem garante que a ameaça de prisão não sirva como chantagem a um Lula refém da justiça? Dependendo do que disser e fizer nos próximos meses, se se comportar e não contrariar as reformas neoliberalizantes da burguesia, vai poder concorrer mais uma vez a ser o gerente do capitalismo nacional. Se o seu discurso pender para a rebeldia, a Papuda é logo ali.

De uma forma ou de outra, Lula não foi e não pode ser opção para a esquerda enfrentar o avanço da burguesia na política nacional. O povo não merece a repetição de mais um ciclo que, no futuro, nos levará ao mesmo impasse de agora. É preciso superar a política de conciliação de classe. Com a burguesia não existe conversa.
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Professor de História, Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), carioca, usa este espaço para comentar sobre os assuntos da política e da sociedade de forma simples e clara, sem, no entanto, abrir mão do rigor da checagem dos fatos.

Um comentário:

  1. Recomendo
    https://arlindenor.com/2017/10/01/feitico-de-fundo-de-quintal-o-pt-a-crise-e-a-economia-politica-da-barbarie/

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