18 de dezembro de 2018

Embraer: classes dominantes brasileiras querem o Brasil como eterna colônia

KC-360, um orgulho nacional que será sabotado com a fusão da Embraer com a Boeing


Para alguns países, não existe muita alternativa. Por conta do seu tamanho diminuto, sua população inexpressiva ou território com falta de recursos importantes, o protagonismo mundial não está na agenda. Para estas nações, a dependência é uma realidade difícil de superar.

Mas existem outras nações com uma segunda alternativa. Justamente por conta da dinâmica de suas economias, de um mercado interno formado por uma grande população, vasto território repleto de recursos naturais, os governos desses países poderiam finalmente se livrar do opressivo assédio provocado por outros países. Poderiam, elas próprias, investir em si mesmas, confiando na sua força e no seu orgulho.

Por que muitos desses países, ao contrário, preferem a eterna submissão aos interesses estrangeiros como se pequenos fossem?

É o caso, infelizmente, do nosso país.

Certamente por conta do nosso passado colonial, quando a dependência econômica de uma ou várias potências estrangeiras moldou a psicológica vassalagem das nossas elites, o seu complexo de vira-latas, seu ódio por este povo mestiço com o qual ela não se identificava, o Brasil até hoje paga por esta herança maldita.

Não cabe aqui fazer um balanço histórico de como essa psicologia degradante atravessou gerações até chegar a nossos políticos, empresários, latifundiários, e principalmente nossas Forças Armadas (FF.AA.). Mas o fato é que ela sobreviveu e está mais viva do que nunca.

A submissão das Forças Armadas brasileiras

Em muitas nações por este mundo afora, a sobrevivência de um povo, sua liberdade e sua soberania, além da defesa incondicional de suas riquezas naturais dependem exclusivamente do grau de nacionalismo das suas Forças Armadas. Podemos citar o caso da Síria, cujo exército é amado pelo povo, há anos em guerra contra forças apoiadas por países estrangeiros de olho no petróleo do país. Esse é o papel das Forças Armadas.

No Brasil, a história é muito diferente. Décadas atrás, nossos oficiais resolveram se ajoelhar incondicionalmente a todo interesse do império estadunidense. Primeiro, importando conceitos da autoritária, fascista e antidemocrática Doutrina de Segurança Nacional, que virou as FF.AA contra sua própria população nacional a pretexto de combater comunistas imaginários, e segundo, na forma de apoio incondicional a qualquer decisão econômica do imperialismo na economia brasileira, mesmo que atente contra os interesses nacionais.

Essa é uma característica lamentável de nossas Forças Armadas, uma total prostração aos interesses de uma nação estrangeira.

Um caso que exemplifica essa postura é a entrega da empresa brasileira de aviação, a Embraer, para ser absorvida e dissipada no seio da gigante norte-americana Boeing. Nada explica essa passividade, essa covardia e falta de nacionalismo dos homens que deviam honrar a farda e as armas que os cidadãos brasileiros colocam em suas mãos para a defesa do país, mas que apoiam tal medida. Uma violação dos interesses nacionais não se dá apenas quando um país avança sobre o território geográfico de outro; ocorre muitas vezes no campo da ideologia. Os militares, que, de forma controversa, se colocaram como tutores da democracia, deveriam fazer valer seu dever constitucional para com esta pátria para fazer os políticos vetarem mais esse atentado contra os interesses nacionais, e não ficarem satisfeitos como parecem estar.


Sabotando a indústria nacional

Em 2013, o Brasil firmou a compra de 36 caças suecos Gripen com uma novidade não muito comum no mercado capitalista: a transferência total de tecnologia. Mais do que mero negócio, foi uma verdadeira parceria estratégica entre Brasil e Noruega, mas que afetou os interesses puramente comerciais das concorrentes, incluindo a Boeing.

A Embraer começava a crescer no mercado internacional de aviação civil, seus jatos de médio porte dominavam o setor, e seu KC-390, o cargueiro de médio porte mais promissor da aviação internacional, deslumbrava os especialistas, sendo um verdadeiro orgulho nacional, com poderosos interessados na compra, como a China. Além desses nichos de mercado que ela dominava, poderia entrar também no lucrativo e fechado negócio da fabricação de caças, o que certamente fez a Boeing se mexer para cuidar de seus interesses, portanto, para prejudicar a evolução da empresa brasileira no mercado mundial.

Tudo isso foi sabotado, jogado por água abaixo, com a colaboração de brasileiros subservientes, capachos dos interesses alienígenas.

A elite civil e sua estratégia estúpida

Outro caso inaceitável de submissão e covardia da direita brasileira é no boicote ao BRICS. O acrônimo representa países justamente daquele tipo citado acima, grandes e fortes o suficiente para propor um caminho alternativo ao seu desenvolvimento, longe da influência castradora do imperialismo estadunidense. O novo governo brasileiro, sem esconder de ninguém seu alinhamento incondicional, servil e covarde aos interesses dos Estados Unidos, resolveu defender um BRICS sem China, uma aberração ideológica quase inacreditável. A China é o maior mercado de exportação do Brasil, um parceiro estratégico para nossas commodities, além de ser a próxima primeira economia mundial daqui a pouco tempo. Como o Brasil prefere abrir mão de uma parceria estratégica num fórum onde seria tratado como um dos protagonistas, como no BRICS, para se colocar de forma vil e mesquinha na retaguarda de uma potência decadente?

O Brasil é um país de enorme potencial, com uma população trabalhadora e que não merece as classes dominantes que têm. Uma classe vassala, com baixa auto-estima, que prefere eternamente ser parceira da rapinagem nacional que os estrangeiros fazem aqui do que assumir a responsabilidade de colocar este país gigante aonde ele merece estar, ao lado de China, Rússia, Índia e outros países do G-20 como protagonistas do cenário internacional. Exatamente como Lula fez em apenas oito anos de governo, com uma linha de interesse nacional orientando a política internacional, e que as classes dominantes, junto com seus aparatos no judiciário, na política e nas FF.AA, conseguiram destruir em apenas dois, e cuja vassalagem prometem aprofundar nos próximos quatro.

O Brasil é o país do futuro. Do futuro sabotado por ele próprio.


7 de dezembro de 2018

Um pequeno resumo dos últimos dois anos de política brasileira



Pra quem ainda não entendeu como e por que Bolsonaro chegou a ser eleito:
  1. houve um trabalho muito bem arquitetado pelas classes dominantes neste país desde 2016. Começou lá quando o Aécio Neves negou-se a aceitar a derrota numa eleição limpa e incontestável;
  2. continuou com deputados desmoralizando o novo governo com pautas-bomba;
  3. a chantagem de um corrupto do mais alto gangsterismo que então presidia a Câmara colocou o Impeachment em pauta;
  4. dois juristas pagos pelo PSDB criam a ridícula tese das pedaladas fiscais;
  5. um Congresso apodrecido e de baixíssimo nível tira Dilma do mandato;
  6. com a aproximação das eleições, Lula ainda representava o perigo de pôr tudo a perder. Era preciso tirá-lo do jogo e um juizeco de primeira-instância o condena com base em provas totalmente contestáveis;
  7. a eleição se aproxima e o tucanato está morto, o partido Novo ainda é um nanico e a alta burguesia, sem nomes convincentes dentro dos seus quadros tradicionais, lança um balão de ensaio chamado Luciano Huck que não decola;
  8. sem opções, as classes dominantes lançam sua última tacada: se associam com um dos maiores boçais que a política desse país já foi capaz de produzir, desde que ele, eleito, feche os olhos para a orgia que serão estes 4 anos de mercado descontrolado.
Fim da história.

3 de dezembro de 2018

Bolsonaro e o oportunismo palmeirense

Não é de hoje que o presidente eleito Jair Bolsonaro descobriu a popularidade que o futebol pode proporcionar. Nestes últimos anos, foi visto com camisas de diversos times de futebol nos estádios, sempre buscando angariar simpatias entre os torcedores.

Mais ou menos como fazem os grandes artistas internacionais. No Brasil, durante a apresentação no palco, levam o público ao delírio quando empunham a bandeira nacional e dizem "vocês são o melhor público para quem tocamos em todos esses anos!". Três dias depois, fazem a mesma coisa na Argentina, para depois fazer no México, e assim por diante.

Até pouco tempo atrás sabia-se que Bolsonaro era botafoguense. Mas isso não o impediu de aparecer no Maracanã para torcer para o Vasco com direito a camisa do clube e tudo. Também já foi flagrado no Mané Garrincha, em Brasília, com a camisa do Flamengo durante um jogo do time carioca naquela cidade. E o tricolor carioca também foi "homenageado" pelo presidente eleito:


Tem algum problema um político que aparece fazendo média com os torcedores da cidade em que angaria seus votos? Aparentemente não, apesar de ser uma estratégia apelativa. A questão é que, coincidentemente com o título do Palmeiras, Jair Bolsonaro agora se diz "torcedor declarado" do alviverde.


Quer holofote melhor no país do futebol do que entregar a taça de campeão nacional ao clube vencedor, num estádio para 45 mil pessoas e transmissão ao vivo pra todo o país?

Lula também tinha time, mas uma paixão genuína pelo Corinthians, com todos os bônus e ônus que essa condição pode lhe dar. Dizia-se simpatizante do Vasco também no Rio, como todo brasileiro que tem o seu segundo time do coração, mas de fato, todos sabem que é pelo Corinthians que o ex-presidente torce. Mas quando você percebe que pode tirar proveito de surfar na onda do momento, fazer média com determinado segmento em troca de popularidade (e voto, principalmente), a coisa começa a ficar perigosa.



O oportunismo barato do presidente eleito já ficou bastante evidente quando ele, estrategicamente, radicalizou seu discurso mirando com precisão cirúrgica determinados segmentos importantes e descontentes do eleitorado. Uma lista extensa do que há de pior em qualquer sociedade: homens que batem em mulher, que sentem atração física homossexual mas reprimem esse sentimento com violência, brancos que se sentiram prejudicados com a concorrência de negros diplomados por um emprego bem colocado...

Bolsonaro encantou essas pessoas com um discurso totalmente construído para elas. Mas não teria sido eleito se não tivesse dado uma das suas jogadas mais  oportunistas, exatamente como no futebol, mas dessa vez, em direção aos evangélicos.

Jair Bolsonaro é católico "assumido", mas fez a sua campanha toda baseada em agradar aos ouvidos evangélicos, prometendo cumprir toda a cartilha desse segmento xiita no seu governo. Um típico oportunismo barato que demonstra o caráter maleável de quem quer tirar proveito de onde puder.

Agora o futuro governo promete ser um governo de combate à corrupção. Nem foi eleito e Bolsonaro já teve que dar declarações constrangedoras sobre os ministros que escolheu para atuar a seu lado. Dentre entres um já condenado e o outro, o cérebro do governo, sendo acusado de corrupção, além de ter tido que voltar atrás em outras nomeações.

Se já é preciso tomar cuidado com pessoas oportunistas no dia-a-dia nas nossas vidas, para não sermos usados, enganados a troco de interesses alheios, o que dirá com um mandatário da presidência da República que muda de opinião de acordo com as conveniências, como quem muda de time de futebol.

30 de novembro de 2018

As consequências da economia brasileira ainda depender dos barões do café



Café e algodão garantem crescimento do PIB no último trimestre. Essa podia ser uma notícia do Correio Braziliense do começo do século XIX, mas, 200 anos depois, ainda é a realidade brasileira, como informa hoje os portais de notícias.

Por mais que a economia brasileira tenha se tornado mais diversificada e complexa, especialmente a partir dos anos 30 do século XX com a industrialização pelas mãos do Estado e do empresariado associado ao capital internacional, não houve uma revolução de fato, ou seja, uma ruptura com a velha ordem latifundiária da Primeira República. Ainda é a velha monocultura de produtos naturais, a chamada plantation, mesmo que travestida de modernidade e eficiência taylorista através do chamado agronegócio, que continua sustentando a economia nacional.



Isto porque a incipiente burguesia nacional historicamente não se impôs como força política, se atrelou ao Estado como fizeram os barões do café e no decorrer do século o Brasil perdeu posições no ranking de países industrializados, especialmente para países asiáticos como a China, hoje em vias de se tornar a primeira economia mundial depois de sair atrás do Brasil no seu processo de industrialização.

A importância deste setor agrário para o país não se reflete apenas na economia. Na política, e consequentemente na vida cotidiana do cidadão trabalhador, os donos dos grandes latifúndios têm poder fundamental. Na legislatura atual, nada menos do que 261 de um total de 513 deputados fazem da "Câmara do povo" a antessala das negociações políticas dos seus interesses.

Desde o processo de redemocratização da política no país que todos os presidentes eleitos precisam atender aos interesses primordiais desta pequena mas influente camada da sociedade se quiser governar em paz.

O Brasil, ao contrário de outros países hoje desenvolvidos, jamais contou com uma burguesia empreendedora, capitalista na essência, ou seja, que enriqueceu vindo de baixo investindo e correndo os riscos inerentes no processo, uma camada social independente e que teria assim jogado pra escanteio a velha ordem dos barões de café. Em vez de superá-la, associou-se a ela.


A burguesia nacional se constituiu basicamente de bacharéis ligados familiarmente com estes donos de latifúndios, e estes, por sua vez, ligados ao Estado, numa simbiose patrimonialista que contamina até hoje qualquer processo democrático e republicano.

Não é por acaso que nossas altas classes médias são reacionárias e conservadoras por natureza. São hoje bisnetos e tataranetos dos donos da Casa Grande. São médicos, juízes, engenheiros, advogados, profissionais liberais que com a herança da riqueza produzida pelo trabalho escravo no passado, puderam se dedicar aos estudos como seus antepassados de gerações mais próximas, que iam para Coimbra e voltavam ao Brasil para serem os "doutores" sem doutorado no século XIX.

Como explica Karl Marx, a ideologia das classes dominantes é a ideologia dominante em qualquer sociedade de classes, e isso explica o porquê do país ter este ranço tão arraigado de conservadorismo até nas classes trabalhadoras.

A ideologia do latifúndio, com seus antigos e respeitados coronéis hoje travestidos de homens do agrobusiness, brancos e de meia-idade, cristãos, defensores da família patriarcal, é o que prenomina no imaginário e na realidade social. São eles que determinam a política, a economia, e os rumos do país.

Não é à toa que ainda hoje sejam os produtos tradicionais que enriqueceram seus bisavós donos das fazendas como o café e o algodão que ainda sustentem este país. No último debate eleitoral, passou batido, a não ser por um único candidato com um projeto de nacional-desenvolvimentismo, a necessidade de modernizar a economia nacional e superar este modelo. Colocar o Brasil no século XXI passa por romper esses laços antigos do atraso que afetam não só a economia como também a vida dos brasileiros.  

26 de novembro de 2018

Choque de ultraliberalismo vai aumentar abismo social entre as classes no Brasil





A colossal desigualdade social brasileira é bem conhecida, mas vinha diminuindo de ano a ano desde 2002, como prova o Índice de Gini. Como parte das políticas públicas do governo Lula, milhões de brasileiros pobres ascenderam alguns degraus na pirâmide social, com a intervenção direta do governo através de programas sociais.

Além destas medidas emergenciais, Lula preparou o terreno para o futuro das classes mais baixas: abriu as portas das Universidades federais para que negros e pobres das grandes periferias pudessem ter uma formação antes limitada apenas à alta classe média.

É muito óbvio que, à longo prazo, estas medidas trariam consequências positivas nos arranjos históricos dessa nação dividida entre vilipendiados e privilegiados. Daqui a, por exemplo, 30 anos, já não seria mais tão fácil distinguir esta diferença olhando a cor da pele ou a origem social, como é hoje.



E isso a nossa alta classe média não perdoa. Guardiã do conservadorismo, ou seja, das coisas como devem ser/estar, e, segundo Jessé Souza, infantaria das classes dominantes, infiltradas nas instituições de poder do país, ela reagiu.

Já trouxemos aqui em outras postagens como estes setores na política, no judiciário, nas Forças Armadas, na mídia e etc. se articularam de forma muito bem feita para destruir o PT e colocar no poder um dos seus filhos mais diletos, saído diretamente do seu seio, seu maior e melhor espelho: Jair Bolsonaro.

Veja mais em:
Esquerda precisa resgatar bandeiras históricas para enfrentar o velho fascismo
Quem, de fato, ganhou as eleições de 2018

E a tragédia que se apresenta agora, não é a diminuição, mas o aprofundamento da desigualdade social brasileira, por conta da implementação das bases neoliberais já no governo Temer, com a famigerada lei do teto de gastos.

Desde 2015 o Índice de Gini mostra a interrupção da queda da desigualdade pela primeira vez depois de 15 anos históricos.

O que podemos esperar do próximo governo, principalmente do "superministro" Paulo Guedes, aquele que deve realmente reger a orquestra por trás das cortinas?


Se depender dele, os pobres, e, por que não, a própria classe média deste país deveriam se preocupar. Legítimo "Chicago Boy", doutrinado naquela universidade estadunidense e com experiência na abertura econômica neoliberal da ditadura chilena de Augusto Pinochet, Paulo Guedes está pronto para levar às raias do inferno a vida destas camadas sociais com choques de ultraliberalismo que vão criar um verdadeiro Grand Canyon de desigualdade social no Brasil.

Com uma política econômica totalmente voltada para o mercado, o futuro ministro prometeu, em evento do MBL em São Paulo, manter o teto de gastos e assim cortar ano após ano as verbas da área social. Segundo ele, o modelo "social-democrata" é um "inferno para os investidores". Seria altamente cínico, se não fosse sincero. De fato, nunca foi segredo que o braço-direito (e esquerdo, e as pernas e quem sabe até a cabeça) do próximo presidente se tornará num funcionário público a serviço exclusivamente do setor privado financeiro no governo.

Resta saber duas coisas: quando as classes médias vão se arrepender de ter dado um tiro no pé por pura burrice, e segundo, até quando as classes populares, beneficiárias dos programas sociais, vão assistir passivamente seus direitos irem pro ralo nos próximos quatro anos. 

10 de novembro de 2018

Bolsonaro e o calendário asteca

O antigo povo asteca possuía dois calendários: o solar e o sagrado. O calendário solar possuía, tal com o nosso, 365 dias, mas era dividido em 18 meses de 20 dias, mais 5 dias suplementares para completar o ano. Esses cinco dias do final do ano eram chamados de "nemotemi", ou dias vazios e considerados nefastos, de mau agouro.

A sensação no Brasil pós-eleição é que estamos vivendo não 5 dias, mas 2 meses vazios desde que Bolsonaro ganhou a eleição até que venha a posse em 1º de janeiro.

 Os homens de Bolsonaro

Nesse período, temos assistido de forma pasmada, primeiro, a nomeação de figuras medíocres, corruptas, imorais, polêmicas ou notoriamente despreparadas para importantes cargos do governo; basta citar apenas os casos de Magno Malta para um ministério absurdo que será criado exclusivamente pra ele, o da "Família"; ou Onyx Lorenzoni, corrupto assumido e declarado que pediu desculpas pelos milhões arrecadados ilegalmente no caixa 2, ou o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, que outrora afirmara que caixa 2 é um dos maiores crimes na política, e hoje passa panos quentes nos crimes do seu futuro colega de governo, "porque ele já reconheceu o erro e pediu desculpas".

 Vai fazer diferente?

Além de tudo isso, existe a contradição. Bolsonaro foi eleito como um homem que não participava dos esquemas e nem se misturava com políticos corruptos, imagem que conseguiu emplacar eficientemente entre seus eleitores não obstante ter pertencido ao PP durante muitos anos, um dos partidos mais corruptos em qualquer lista de corrupção que se faça, e tenha convivido todo esse tempo com Paulo Maluf, cuja carreira em termos de mal feitorias seria difícil encontrar igual no planeta.



Mesmo com esse valoroso capital de ser considerado um político que vai fazer diferente, Bolsonaro já admitiu contar com muitas das medidas tomadas no governo Temer, senão com o próprio Temer no futuro governo! Lembremos que Michel Temer precisará de foro especial depois do governo para não responder pelos diversos crimes que lhe são imputados.

Até agora, só perda de direitos

O que dizer da persistente maldade de privilegiar os altos escalões do poder com aumentos pomposos de salário enquanto se discute, sem nenhum pudor, reformas que visam arrochar ainda mais a vida dos pobres trabalhadores? Bolsonaro cinicamente lavou as mãos diante do escandaloso aumento do Judiciário, o que fará um efeito cascata de aumentos que podem ter um impacto colossal nas combalidas finanças nacionais. Tudo o que deveria fazer era conversar com Temer, usar seu prestígio de homem eleito com mais de 50 milhões de votos ainda quentes nos computadores do TSE, para pedir um veto. Abriu mão covardemente; tirou o corpo fora.


Mas o Ministério do Trabalho, este ele não teve nem vergonha de anunciar o fim. Os patrões e grandes empresários estão em festa. Em menos de 2 anos, com o PT escorraçado do poder e Temer na batuta do desmanche de direitos dos pobres, acabaram com a CLT, os sindicatos e a segurança das mediações estatais dos conflitos entre o capital e o trabalho, através de órgãos como o Ministério do Trabalho.

 Meses ou anos sombrios

Nestes dois estranhos meses entre a eleição e a posse, vivemos os dias sombrios de quem não pode protestar, pois não são medidas ainda oficiais, só podemos fazer como seus eleitores que são cobrados por terem eleito o mito: "vamos esperar primeiro as coisas se tornarem oficiais".

De acordo com o calendário, com o fim destes 5 dias de mau agouro (ou 2 meses, na nossa analogia), um novo ano recomeça e as esperanças se renovam.

Se renovam?

Ou serão 4 anos nefastos?


29 de outubro de 2018

Quem ganhou, de fato, as eleições de 2018



Quem, de fato, ganhou esta eleição? Há muitos candidatos. Os militares, porque desde a ditadura não estavam tão soltinhos e falantes, colocando pra fora desavergonhadamente suas ideias jurássicas contra o comunismo?

Os homofóbicos talvez, porque acreditaram nas fake news de que havia o perigo de uma ditadura gay ser implementada no país, com direito a cartilha nas escolas pra ensinar criança a fazer sexo?

Ou quem sabe os machistas, que viram a ascensão do movimento feminista com preocupação, pois o que as mulheres queriam? Respeito. Respeito é aquilo que quase nenhum homem é ensinado a dar a uma mulher; pra eles mulher tem que ser submissa e aguentar traição, além de ganhar menos e ser assediada a cada esquina, tendo o seu corpo comercializado como fonte de prazer masculino. Com a vitória do Bolsonaro, acreditam, a mulher vai voltar ao seu lugar e as "feminazi" vão acabar.

Mas também tem os racistas, aqueles que não toleram a presença de negros nas Universidades, porque acham que o negro tem que varrer chão e lavar a louça da madame. Esses se consideram os maiores beneficiados da vitória do mito.

De fato, todos eles ganharam nesta eleição. Mas o verdadeiro vitorioso desta campanha não foi ninguém mais do que o mercado.

Para os militares, os homofóbicos, os misóginos, os machistas e os racistas, existem ainda barreiras republicanas, institucionais e democráticas que vão limitar as suas satisfações plenas no poder. Mas se já não havia muito controle por parte do governo brasileiro a respeito do capitalismo, o que se vislumbra agora no horizonte é um capitalismo ultraliberal totalmente desregulado.



Enquanto o fantoche testa de ferro que vai sentar ano que vem na cadeira presidencial enfeitiçava as massas com seu discurso odiento, surfando na onda antipetista construída anos a fio com uma determinação hercúlea pela imprensa burguesa, o verdadeiro mentor desta campanha, o homem do mercado Paulo Guedes, lançava discretamente as bases da destruição de qualquer regulação estatal da economia, com exceção, é lógico, do ferrenho controle da inflação e das taxas de juros, além da privatização generalizada, da austeridade rígida e outras medidas que farão o governo neoliberal dos tucanos na década de 90 parecer socialista.

A vitória do mercado nestas eleições foi arquitetada minuciosamente ao longo dos últimos anos, com a ação coordenada entre o Congresso, o judiciário, as grandes mídias, a internet e outros grupos, que construíram a imagem de um PT demoníaco e da corrupção como a chaga maior deste país. Nisto estão de parabéns, realmente.

A esquerda agora tem 4 anos para construir seu próprio discurso em cima de um próximo governo ultraliberal que, sem nenhuma outra possibilidade, será desastroso para a economia, e assim tentar recuperar mais uma vez o poder. Mas agora com as devidas lições a serem postas em prática, aprendidas nestes anos duros da vitoriosa reação da direita. 

21 de outubro de 2018

Esquerda precisa resgatar bandeiras históricas para enfrentar o velho fascismo



Chegou no Brasil aquele momento que todos temíamos. O fascismo saiu às ruas, penetrou nas mentes e tomou conta do país. Atos de violência começam a pipocar aqui e ali, 50 em apenas uma semana. O estrago já está feito. Vença quem vencer, ninguém pense que aqueles que sentiram o gostinho de praticar a violência contra os mais vulneráveis vão se recolher a seus pacatos afazeres novamente. A questão é: como enfrentá-los com uma esquerda que se autodestruiu nos últimos anos?

Não acredito em teorias conspiratórias lunáticas como os Illuminatti e Nova Ordem Mundial, que fica mais a cargo de cristãos supersticiosos. Mas não sou ingênuo a ponto de não acreditar que os grandes capitalistas do mundo, além de países como os Estados Unidos e seus aliados, possam articular situações no mundo que favoreçam seus interesses. Assim foi com a chamada "Primavera Árabe" mais recentemente, que, com a desculpa da levar democracia a países cujos governos não eram alinhados com o Imperialismo, acabou degenerando em governos violentos e autoritários, muitos deles sob a ameaça de grupos fundamentalistas apoiados financeiramente pelos capitalistas.



Mas temos diversos outros exemplos históricos de como estes países centrais incitam a extrema-direita de populações cujos governos na periferia do mundo incomodam o sistema capitalista mundial. Basta citar a queda de governos legítimos na América do Sul como no Brasil nos anos 60 e no Chile nos anos 70 como exemplares da interferência estadunidense na incitação de oposição interna, que culminou com ditaduras de direita.

A Venezuela é outra vítima dessa tática criminosa atualmente. A oposição local, de acordo com documentos vazados pelo Wikileaks, foi financiada por ONGs com ligação com os Estados Unidos para tentar a todo custo derrubar o incômodo governo bolivariano. E assim tem sido nos casos do Haiti, Nicarágua, Paraguai, entre outros.

Leia mais: Revoluções coloridas, o golpe do século XXI


Para o pesquisador Mark Weisbrot, do instituto Center for Economic and Policy Research, de Washington, organizações ligadas aos Estados Unidos que financiam a oposição pelo mundo, como a IRI (International Republican Institute) e Freedom House "não estão promovendo a democracia".

“Na maior parte do tempo, estão promovendo exatamente o oposto. Geralmente promovem as políticas americanas em outros países, e isto significa oposição a governos de esquerda, por exemplo, ou a governos dos quais os Estados Unidos não gostam”.  

Para que esta influência estrangeira seja bem sucedida, é preciso contar com o suporte de elementos internos alinhados com o ideal capitalista internacional numa cadeia que vai desde os grande empresários, passando pela mídia empresarial, as Forças Armadas, as Igrejas, que desempenham um papel importante na manipulação das massas, e a internet, até chegar no cidadão comum.

Foi exatamente essa cadeia (com exceção da internet que não havia na época) que fez ser possível a derrubada do governo João Goulart em 64. O resultado foram 21 anos de uma ditadura contraditória que cerceava as liberdades civis enquanto abria o mercado nacional para a indústria estrangeira e o envio de lucros para o exterior. 



Nos últimos anos essa articulação voltou a se alinhar perfeitamente para tentar apagar do mapa o Partido dos Trabalhadores. Uma estratégia em passo-a-passo tão bem executada que está prestes a levar mais uma vez ao poder um presidente autoritário nas liberdades civis e ultraliberal na economia, desta vez pelas vias "democráticas", bem ao gosto do mercado capitalista mundial. Com a contribuição de grande parte das esquerdas.

Tudo começou quando a modista tese do pós-modernismo saiu das Universidades e ganhou os corações do campo da esquerda, que despiu sua luta das teorias marxistas. Ora, pensavam eles, como lutar pela derrubada do Estado, se o próprio sistema passou a contestar (apenas teoricamente, pois na prática o Estado continua a servi-los) a legitimidade dessa instituição? Como fortalecer os partidos quando o próprio sistema em tese coloca em cheque sua capacidade de representar a população?  Não seriam lutas desnecessárias no atual cenário?

Toda a teoria política consagrada e que dava arrepios nos capitalistas foi trocada por representação de minorias, movimentos isolados, atomizados e desarticulados que lutam por interesses específicos sem dialogar entre si.

Movimento negro, das mulheres, dos homossexuais, todos eles antes guarnecidos sob a bandeira socialista passaram a lutar não contra o sistema capitalista, fonte em comum de todas as mazelas sociais, mas contra o "patriarcado", o "homem cis", o "machista", o "racista", perdendo de vista o fato de todos eles serem o resultado de como funciona o próprio sistema capitalista.

Enquanto isso, a direita aparou suas arestas para se organizar e derrotar a esquerda, tanto essa festiva e suas demandas pulverizadas quando a esquerda institucional representada pelo Partido dos Trabalhadores.


Começou tomando de assalto, em 2013, as manifestações de rua, que de tão pulverizadas, orgulhosamente "sem liderança partidária", foram se tornando luta contra a corrupção do governo, uma manobra estratégica pelas mãos da mídia, como bem mostrou Jessé Souza no livro A Radiografia do Golpe.

A pressão levou a outra etapa do golpe suave, o não-reconhecimento da eleição legítima de Dilma Rousseff em 2014. A direita bateu panelas e o som chegou ao Congresso, que passou a lançar as famosas pautas-bomba para desestabilizar o executivo — o país, na verdade — cujo presidente da casa, Eduardo Cunha, hoje preso, aproveitou o momento para lançar o Impeachment da presidenta com base em alegações inócuas e ilegítimas.

Dado o Impeachment, numa das cenas mais patéticas da história da política nacional, quando deputados corruptos defenderam a queda da presidenta em nome de deus e da família, com direito a homenagem a torturador, a direita obteve a sua primeira vitória depois de anos de derrota nas urnas: durante dois anos Michel Temer teve a condição — por não dever satisfações a nenhum eleitor — de colocar em prática a agenda pleiteada pelo sistema. Reformas antipopulares foram propostas e aprovadas, principalmente a histórica derrocada da CLT, coisa que nem os governos militares ousaram mexer.

Mas havia ainda um problema a resolver no horizonte: a sucessão presidencial nas eleições deste ano. Lula liderava com folgas as pesquisas de intenção de votos, e precisava, como foi, ser tirado da disputa, ou colocaria tudo a perder. Sérgio Moro, um juiz de primeira-instância com ligações suspeitas e não esclarecidas com o governo dos Estados Unidos, mandou prendê-lo com base em acusações frágeis num processo condenado por juristas internacionais. O caminho estava livre para o mercado assumir mais uma vez o governo do Brasil através de um de seus asseclas preferidos.



Mas então surgiu outro problema: a prisão não acabou com a popularidade de Lula, ele se mantinha firme na liderança e poderia transferir votos para o seu candidato petista. Por outro lado, o povo, cansado dos tucanos, dava uma votação baixa ao candidato preferido do mercado, Geraldo Alckmin, do PSDB. Os candidatos mais bem colocados, Marina Silva e principalmente Ciro Gomes, não inspiravam a confiança do sistema financeiro.

Nesse momento, as elites brasileiras, reunidas nas instituições que representam a superestrutura do sistema capitalista — judiciário, empresariado, igrejas, Forças Armadas, etc. — resolveram dar o golpe mais ousado dos últimos tempos. Fizeram um pacto com o demônio na pessoa de Jair Bolsonaro, o que mais tinha possibilidade de tomar o posto de preferido das elites. E este também fizera um pacto com o mercado.

De um mero capitão insignificante que passou ou últimos 30 anos no baixo-clero do Congresso sem aprovar nem duas leis, que falava apenas para seu pequeno nicho de fascistas e ultraconservadores, passou a ser o representante do mercado na política, assumindo o papel outrora do PSDB.

Trouxe para o governo um ultraliberal chancelado pelo mercado e contou com a assessoria de Steve Bannon, que usou dados de usuários do Facebook para influenciar digitalmente a campanha de Trump, assim como a internet é o motor da campanha de Bolsonaro, através das chamadas fake news. Assim a direita brasileira e a internacional alinham forças para derrotar a esquerda no Brasil.


Além disso, empresários doam diretamente dinheiro para disseminar propaganda difamatória contra o PT no whatsapp, enquanto pastores e padres das igrejas como Silas Malafaia fazem campanha aberta a favor de um apoiador da tortura e do ódio, enquanto a mídia não tira Bolsonaro do ar e as Forças Armadas elevam o tom como há décadas não ousavam fazer.




Para combater a ascensão do fascismo numa direita organizada e forte, infelizmente o povo trabalhador e as minorias não acordaram. Por falta de conhecimento histórico e teórico, cantavam músicas como "vamos derrotar o fascismo com amor" no recente protesto das mulheres no #elenão.

As esquerdas precisam se reorganizar. Foi a esquerda organizada, mesmo que com diferenças conceituais, que ajudou a varrer o fascismo na primeira metade do século passado no Brasil, no que culminou com a famosa revoada das galinhas verdes em São Paulo.

Com fascismo não se brinca, não se manda flores, é preciso enfrentá-los. Mas pra isso, é preciso resgatar o histórico de lutas das esquerdas, além de resgatar conceitos como luta de classes, ditadura do proletariado, relações de produção, entre outros, para se entender a realidade, como apenas o marxismo é capaz de proporcionar.

Leia mais: A esquerda pós-moderna não contribui com a luta dos trabalhadores

"Só a luta muda a vida", afirma um lema do PSOL, partido que representa as minorias. Mas no entanto, "Só a luta unificada muda a vida", pois o inimigo de todos nós é um inimigo em comum: o sistema capitalista e contra ele precisamos unir nossas forças e não separá-las como tem sido nos últimos anos, de preferência em torno de uma liderança estabelecida e sob um partido político que volte a representar a maioria dos trabalhadores, jovens, negros e mulheres, coisa que infelizmente o PT abdicou de fazer.



12 de outubro de 2018

Ciro deveria se engajar mais na campanha de Haddad?



Passada a dura campanha eleitoral do primeiro turno e já definido o resultado final entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad na disputa do segundo turno, Ciro Gomes, canditado na terceira colocação do pleito, resolveu viajar ao exterior.

A partir de então, começaram a surgir críticas de alguns setores da esquerda, principalmente dos ligados ao PT, cobrando uma participação maior de Ciro na campanha, alegando tratar-se não de uma mera disputa eleitoral, mas da luta entre a barbárie fascista, representada pela campanha de Bolsonaro, e a democracia, pelo lado de Haddad — o que não deixa de ter uma certa verdade.

Mas por que Ciro abriu mão de participar de tal luta?

É preciso compreender certas questões a esse respeito. Vamos logo descartando a sugestão absurda de alguns pedetistas de que Haddad deveria renunciar e abrir espaço para Ciro enfrentar Bolsonaro no segundo turno, proposta descabida. Também vamos logo dizendo que não concordamos que o PT merece apoio incondicional das esquerdas. Logo ele, que quando foi governo, suprimiu e isolou todos os demais partidos de esquerda quando esteve no poder, com exceção do PCdoB, que aceitou ser um pequeno satélite na órbita petista.



A única justificativa restante para Ciro Gomes entrar de cabeça na campanha de Haddad no segundo turno seria uma união de todas as forças progressistas diante de uma ameaça real de fascismo no poder.

Quanto a isso, tanto Ciro quanto o PDT tomaram posição e acertaram na dose, dentro de suas justificativas. Ambos declararam "apoio crítico" ao PT, sem subir em palanque, sem expectativa de cargos, e seja lá quem for eleito, serem oposição a partir de primeiro de janeiro.

Muita gente viu nessa ação a confirmação de que Ciro Gomes é um esquerdista ocasional de última hora e não um quadro convicto da esquerda. O que pode até ser verdade. Mas o que não podemos é deixar de entender suas razões.

O PT no passado foi ainda menos esquerdista do que o próprio Ciro, a não ser durante as campanhas. Nessas ocasiões, praticou aquilo que Vladimir Safatle chamou de "esquerda sazonal", ou "a estação das cerejas vermelhas", quando o PT fazia uma campanha com propostas de esquerda e, uma vez eleito, punha em prática uma agenda conservadora. Quantas vezes Ciro foi isolado e criticado por alertar a Lula de que uma aliança com o que há de pior do PMDB daria no que deu?

Isso sem falar em motivos pessoais. Lula prometeu a Ciro apoio para sua campanha em 2010, mas por fim o fez abandonar a própria campanha e, por lealdade ao presidente, apoiou a eleição de Dilma. Deu no que deu.



Alguns, por fim, ainda podem sustentar que o PDT deveria fazer como o PSOL e o PSB que aderiram a campanha. Na verdade esta é a obrigação de todo o cidadão consciente, seja ele liberal ou progressista, e tanto Ciro quanto o PDT não faltaram a este dever. Mas só o tempo vai dizer se a estratégia política destes partidos foi acertada, de acordo com as expectativas que têm.

Ou seja, Ciro e PDT não se mantiveram neutros. Escolheram o apoio crítico ao PT, porque do outro lado existe um perigo real. Que ninguém pense ingenuamente que apenas a vitória de Haddad nas eleições fará o fascismo arrefecer no Brasil. A caixa de Pandora se abriu e seja lá quem vença as eleições, a luta para derrotar os extremistas de direita continuará nas ruas, nas praças, em todos os lugares a partir de agora.

 

6 de outubro de 2018

Bolsonaro e Paulo Guedes comprovam: os interesses do capitalismo estão acima da democracia



Há diversos exemplos históricos que confirmam que o capitalismo, desde seus primórdios na era das grande navegações até sua ascensão rumo à hegemonia no século XIX, se fez valer de diversos regimes de governo, inclusive autoritários, para se impor. No entanto, a coincidência das revoluções burguesas junto com a consolidação desse sistema econômico no mundo disseminou uma ideia falsa de que ambos são parceiros naturais.



No caso do Brasil, pelo menos dois exemplos desmentem claramente essa tese. Primeiro, a modernização burguesa do nosso país se deu sob a batuta da Revolução de 30, que, por sua vez, se transformou no Estado Novo, um regime semi-fascista que suprimiu a democracia enquanto fazia o capitalismo se expandir. Ainda mais evidente foi o Golpe de 64, que derrubou a democracia em favor do capitalismo associado a investimentos internacionais. Segundo jornalista Henrique Acker, nesse período "viramos o país das montadoras, das empreiteiras, da caderneta de poupança e do bolo que crescia, mas do qual o povo só comia migalhas".

Na prática, isso significou a consolidação do sistema capitalista na forma que o capitalismo mais tira proveito: mercado livre e população controlada, privada dos meios de protestar contra políticas econômicas que nos deixaram como legado a maior desigualdade de renda do planeta.

Passado o período autoritário, os políticos resolveram colocar em prática no nosso país aquilo que Margareth Thatcher e Ronald Reagan apregoavam pelo mundo como a única alternativa: com base no Consenso de Washington, o mercado deveria ser totalmente livre de influência política — como não havia sido durante os 30 anos anteriores, quando estava em voga o chamado Estado de Bem Estar Social — inaugurando o período neoliberal.



Aqui no nosso país, desde a eleição de Collor em 89, o primeiro a ensaiar a abertura de mercado e o Estado mínimo, até o final dos anos 2000, no fim do governo FHC, o capitalismo viveu uma lua-de-mel com os governos da República. A alta burguesia e as elites enriqueciam com as especulações financeiras e o pagamento de juros da dívida pública, enquanto a baixa classe média e os pobres pagavam a conta da farra e os miseráveis ganhavam uma ajuda de custo, o embrião do Bolsa-Família. A diferença com relação à ditadura, no entanto, é que o povo insatisfeito poderia desfazer esse casamento através do voto nas eleições. E assim o fez.

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva não representou uma ruptura completa. Os poucos capitalistas continuariam a abocanhar grande parte da renda nacional; porém havia também as políticas públicas voltadas para os mais pobres na área social, educacional e econômica, que elevaram da pobreza 40 milhões de indivíduos para o nível de consumo, fato que, em vez de agradar o capitalismo e o mercado, curiosamente os enfureceram. Isso ameaçaria num futuro a médio prazo o histórico desequilíbrio econômico-social que mantinha algumas poucas famílias e parcelas da classe média entre os privilegiados. Amanhã seus filhos poderiam ter que disputar os melhores empregos com os filhos da base da pirâmide social, o que era inadmissível.



Durante quatro eleições presidenciais, estes setores privilegiados acreditaram que, com a influência dos meios de comunicação, poderiam afastar do poder o indesejável PT e suas políticas sociais, colocando suas fichas nos tucanos. Depois de quatro derrotas nas urnas, o discurso foi radicalizando e o jogo democrático começou a ser deixado de lado. Primeiro com a recusa do candidato a presidente derrotado nas urnas, Aécio Neves, de reconhecer o novo governo. A seguir o Congresso mais corrupto da nossa história, presidido por Eduardo Cunha, promoveu um golpe parlamentar ao tirar Dilma Rousseff do poder. Por fim, o judiciário fez o seu papel de instrumento das elites, condenando Lula sem provas e tirando-lhe os direitos políticos. Estava aberto o caminho para a direita retornar ao poder.

No entanto, Lula perdeu seus poderes, mas não seu prestígio. Em qualquer pesquisa eleitoral em que seu nome fosse citado, o PT liderava. Os tucanos, entretanto, foram abandonados como solução e a burguesia radicalizada elegeu Jair Bolsonaro como seu novo porta-voz. Como contrapartida, o candidato trouxe consigo para comandar de fato o governo um ultraliberal, Paulo Guedes, que promete levar o neoliberalismo a seus níveis mais extremos da história brasileira caso seja eleito.



Ninguém pode dizer que não conhece os riscos que representa para o país a eleição de Jair Bolsonaro. Seu discurso protofascista tem repercussões negativas numa enorme parcela de brasileiros mal politizados, escolarizados e informados. A violência contra negros, mulheres, homossexuais e opositores políticos, que já é alarmante num país com mais de 60 mil homicídios por ano, além do desprezo pelos direitos humanos, promete subir. Diante desse cenário, o que fazem os capitalistas?

Batem palmas para Jair Bolsonaro em suas palestras repletas de preconceitos em qualquer encontro com empresários. O capitalismo não se importa com a barbárie, com o fascismo, com a guerra, se ele puder tirar proveito de tudo isso. Quando a democracia deixa de servir plenamente a seus interesses representados pelo financiamento de campanhas (agora coincidentemente proibido no Brasil) ou pela força do lobby, os capitalistas não se furtam a apoiar candidatos com métodos radicais, antidemocráticos, violentos e perigosos para manter seus lucros em alta, desde que esses governos mantenham-se simpáticos ao mercado.

Esta talvez seja a maior lição dessa conjuntura brasileira atual, em que um candidato protofascista junto com um economista neoliberal juntam forças para chegar ao poder.

29 de setembro de 2018

#elenão: Mulheres na vanguarda política abrem hoje os protestos contra o protofascismo



Em seu livro A luta de classes: uma história política e filosófica, Domenico Losurdo reafirma a teoria marxista da luta entre as classes no momento histórico atual para demonstrar a validade ainda determinante do conceito. Os conflitos não se resumem apenas à velha dicotomia donos dos meios de produção x vendedores de mão-de-obra, e sim a todas as complexas dissensões sociais que ocorrem na sociedade capitalista contemporânea: pobres contra ricos; conservadores contra progressistas; favelados contra parcelas da classe média; homens privilegiados contra mulheres; negros contra brancos, além das diversas interseções entre esses grupos.

No Brasil, desde que Aécio Neves resolveu desprezar o já frágil e combalido sistema democrático, a direita vem radicalizando o discurso, colocando pra fora suas ideias e intenções de forma aberta, o que antes lhe causava constrangimentos.



No mesmo movimento dialético, a esquerda, enfraquecida durante anos por conta da despolitização da política dos governos petistas, defenestrados no poder pelos seus polêmicos aliados da governabilidade, ganhou força recentemente para responder à ascensão de uma espécie de protofascismo tupiniquim, permeado de ameaças de autoritarismo e violência contra as minorias.

Surge o movimento das mulheres como força política

Nesse cenário, as mulheres tomaram a frente da batalha, denunciando, fazendo campanhas e protestos contra a ameaça da direita radicalizada. A direita que, antes ainda conformada nas regras do jogo democrático, mas cansada de perder seguidas eleições para o PT, abandonou o PSDB, hoje condenado a sumir do cenário político, como previu o professor Vladimir Safatle, para abraçar a causa do vale-tudo político, desde que isso represente derrotar o PT, senão pelas urnas, pelo golpe jurídico, político ou até militar.

A direita despreza a democracia

O jogo da democracia, para a direita e para o mercado, ambos imbricados nos mesmos ideais, só vale enquanto os favorece. Em países em desenvolvimento, acostumados a serem tutelados de fora pelo imperialismo norte-americano e suas intervenções, discretas ou não, na vida desses países, rasgar constituições, reinterpretar leis de forma diferentes para uns e para outros, derrubar governos e dar golpes militares fazem parte da vida. Nosso país, um gigante com um potencial imenso para dar certo, infelizmente jamais se livrou dessa influência, por conta dos capachos antipatriotas que vivem entre nós, criminosos que não se furtam a sabotar o crescimento do próprio país em favor dos interesses internacionais, se isso lhes angariar algum prestígio e boa colocação entre os setores dominantes, como o financeiro.

Preferem o caos do que a esquerda no poder

São essas pessoas que, para exemplificar, incorporando o espírito espalhafatoso de Carlos Lacerda ou discreto de Roberto Campos — ambos notórios capachos históricos dos Estados Unidos — trabalham internamente em favor do imperialismo quando usam de sua força e influência para atacar a democracia, como fizeram, por exemplo, em 54 com Getúlio, em 64 com Jango e mais recentemente, com o Impeachment absurdo de Dilma, jogando o país na total instabilidade, e aproveitando-se de um governo tapa-buraco, impopular, patético e ilegítimo para colocar em pauta ações em favor do mercado e do empresariado que jamais o povo trabalhador poderia concordar.



É contra essa direita golpista, irracional, vendilhã da pátria, misógina, homofóbica, odienta, capacha e racista, que não só a esquerda, mas todas as pessoas sensatas devem se levantar, como tem sido feito através de manifestações até de artistas internacionais.

Começa hoje a campanha contra o protofascismo

Hoje, 29 de setembro, as mulheres, na vanguarda dos protestos, dão o primeiro passo contra as trevas. Que outros movimentos possam se seguir, até o Brasil derrotar nas urnas, num primeiro momento, esse grupo, e depois, nas ruas de forma permanente, pois o principal representante dessa corrente que provavelmente estará no segundo turno das eleições presidenciais, muito tipicamente, é claro, já prometeu que não vai aceitar a derrota nas urnas, repetindo o movimento de Aécio que até hoje coloca o Brasil na crise política.

São irresponsáveis que devem ser varridos do cenário imediatamente.  

7 de setembro de 2018

De tanto provocar, Bolsonaro sabia que seria atacado um dia



Intolerância e violência. Quem as semeia, não pode colher outra coisa. De tanto pregar o ódio, de tanto aparecer com fuzil, de tanto incentivar gestos de tiros com as mãos, inclusive em crianças, de tanto defender que a população resolva suas divergências com armas de fogo, Jair Bolsonaro caiu vítima de seu próprio veneno. Não um ataque à bala, por sorte, mas com uma faca.

Era quase como uma bomba-relógio ambulante. Bolsonaro provocou a todos: os de esquerda, os de direita, provocou as mulheres, provocou os negros, os gays, quase todas as minorias e os vulneráveis. Só poupou a entidade sacrossanta do mercado, a mesma cujo templo representado pela bolsa de valores deu picos de alegria lá no alto com o seu risco de morte.


Já havia confessado estar com receios de um ataque — não era para menos —, o que, de fato, aconteceu. Ontem, tal como uma vítima de bullying que aguenta provocações e insultos durante anos mas que um dia perde o controle e desconta sua raiva no seu agressor, Adelio Bispo de Oliveira encontrou a oportunidade de desferir uma facada no alvo de suas frustrações. Depois do ataque, as mídias foram atrás do perfil do agressor através das redes sociais, e encontraram um ser perturbado, mais uma vítima de sites que fomentam teorias da conspiração Illuminati e nova ordem mundial, esses lixos virtuais que entulham a internet, mas que fazem a cabeça de muita gente, especialmente no Brasil.

Talvez quisessem encontrar um grande militante de uma vertente político-revolucionária, um discurso teoricamente embasado e uma causa determinada. Mas se deram mal. Cada um tem o algoz que merece. O de Bolsonaro é um lunático como ele.




Agora, obviamente, o líder das pesquisas esfaqueado se tornará um mártir, um herói para seus seguidores, e é provável que o encanto de uma vítima de atentado que sobreviveu seduza ainda mais eleitores. Provavelmente reduzirá um pouco a altíssima taxa de rejeição do candidato. Será suficiente para lhe garantir a vitória do pleito eleitoral?

Esse é mais um elemento complicador nesta já complexa e imprevisível campanha eleitoral.

2 de setembro de 2018

Por que é falsa a ideia de que o Brasil anda dividido entre esquerda e direita



Recentemente no Brasil, temos ouvido de forma corriqueira que a população do nosso país anda dividida entre esquerda e direita, ou como coloca o candidato a presidente Ciro Gomes, entre coxinhas e mortadelas.

Isso dá a ideia de um certo equilíbrio entre as duas forças, algo como um choque de duas correntes de proporções iguais que se anulam, colocando o país no impasse e na imobilidade. Mas isso não é verdade, e os 38 por cento de intenções de voto de um ex-presidente preso, junto com outros exemplos históricos, nos ajudam a entender essa questão.

Primeiro, vamos tentar, a grosso modo, identificar as parcelas da sociedade brasileira que podem ser identificadas com a esquerda e com a direita.

Definindo quem vota em quem

Considero eleitores de esquerda, afora a miltância político-partidária, os trabalhadores sindicalizados; o funcionalismo público do baixo-escalão; beneficiários do bolsa-família; profissionais liberais; e grande parte do que o professor Jessé Souza chamou de "ralé", de forma irônica, ou seja, aqueles pobres que aparecem abaixo da linha de pobreza e que sobrevivem na informalidade, dependentes dos serviços públicos gratuitos.



Os eleitores da direita, por sua vez, podem ser identificados com a alta classe média; os empresários; os militares; os religiosos de base cristã em grande parte; os latifundiários; o funcionalismo público do alto-escalão; os donos dos grandes meios de comunicação, além de uma parcela da população pobre um tanto alienada por pensar fazer parte deste grupo.

Não ignoramos as exceções a essa esquematização, mas ao fim e ao cabo, não interferem na generalização. 

O Congresso Nacional representa a contradição entre estes dois setores. A esquerda é proporcionalmente maioria na população, enquanto que na Câmara e no Senado, sem falar no Judiciário, prevalecem amplamente os quadros da direita.

Voto de esquerda, reação da direita

Historicamente, pelo menos desde o segundo mandato de Getúlio Vargas — o mandato democrático que foi considerado bastante progressista e que incomodou os setores da direita brasileira — o povo brasileiro tende a votar em candidatos mais à esquerda do espectro político. Mas então por que temos essa ideia de equilíbrio?



A partir do suicídio de Getúlio, fustigado que fora pelas forças reacionárias da direita, seja no Congresso, seja na imprensa, coube à direita se organizar para combater eleitoralmente o legado do trabalhismo getulista, de esquerda, e seus maiores representantes, Leonel Brizola e João Goulart. Não no voto, mas nas manipulações e nas armas.

João Goulart, por exemplo, teve mais votos como candidato a vice-presidente em 1955 do que o presidente eleito Juscelino Kubitschek, numa época em que se votava em separado para ambos os cargos.

Na eleição seguinte, uma coligação em que o marketing e o carisma fizeram Jânio Quadros presidente, sua postura independente junto com sua vontade de poder absoluto o fizeram renunciar, abrindo espaço para João Goulart assumir a presidência. A direita, sempre detentora dos meios de persuasão e força, o combateu não pelas vias democráticas, mas através de dois golpes: primeiro o golpe do parlamentarismo que visava tirar-lhe o poder de governar; e depois, quando o plebiscito lhe devolveu o mandato integral com a volta do presidencialismo, com um típico golpe civil-militar com o apoio da classe média, da Igreja e da mídia, colocando o país no abismo do autoritarismo e da violência durante mais de 20 anos.

O dia que a Globo derrotou a esquerda


Na primeira eleição direta depois dos 21 anos de arbítrio, em 1989, surgia um candidato de base popular, oriundo do sindicalismo e representante da classe trabalhadora. Foi a primeira vez que Luis Inácio Lula da Silva concorreu à presidência e sentiu o quão longe a direita poderia ir para sabotar a vontade popular.

Naquela época, como agora, diga-se de passagem, a direita carecia de um candidato com o mesmo apelo. A solução foi fabricar um. Assim surgiu o jovem alagoano esportista e com um slogan fácil de pegar: o caçador de marajás. Era o lobo da direita se vestindo de pele de cordeiro com um lema roubado da esquerda. Quem combate os marajás, ou seja, aqueles privilegiados abastados pela herança e especulação financeira não poderia ser também outro marajá. Mas a propaganda midiática prevaleceu.

Assim, Fernando Collor de Mello apareceu em diversos programas de TV, até da Xuxa, enquanto Lula era difamado com fake news, acusado de ter uma filha fora do casamento. O golpe final foi a famosa edição do dia seguinte do debate eleitoral, em que Collor teve no mínimo o dobro do tempo no Jornal Nacional do que o Lula.

A direita manipulou o eleitor e venceu a eleição, o povo perdeu, e todo mundo sabe o que aconteceu.



Assim chegamos ao momento atual.

Golpe parlamentar e prisão arbitrária contra a preferência do eleitor pelo PT

Desde a apertada reeleição de Dilma Rousseff que a direita, depois de perder quatro eleições seguidas para o PT, resolveu melar o jogo democrático. Primeiro com Aécio Neves se recusando a aceitar o resultado da urna; depois, com um Congresso oportunista unido a um Supremo reacionário e politizado votando um Impeachment pra lá de ilegal, golpista, rasgando a Constituição Federal. E o golpe final, com a prisão de Lula baseado em alegações e suposições — menos em provas — para que este não pudesse se candidatar.

Em meio a todo esse processo, uma imprensa burguesa vendida e reacionária batendo diariamente no candidato e no PT, tudo para que a vontade popular refletida nos seus quase 40 por cento de intenções de voto não se concretize nas urnas.

Diante desse cenário, é justo dizer que o Brasil está dividido entre esquerda e direita? Ou seria mais adequado dizer que existe uma ampla maioria de eleitores brasileiros que têm preferência no voto a candidatos de esquerda, mas que infelizmente são sabotados, barrados, têm seus candidatos impitimados e golpeados pelos representantes da direita em diversas instâncias de poder?

Os quase 40 por cento de intenção de voto em Lula, mesmo massacrado, preso e difamado de forma criminosa pelo Judiciário, pelo Congresso e pela mídia, não nos deixam dúvidas sobre isso. 

23 de julho de 2018

É o fim do Lulinha Paz e Amor?



Fernando Haddad é o coordenador da campanha de governo da candidatura Lula em 2018. Em entrevista ao site do jornal Valor, falou um pouco sobre as propostas para o país e os caminhos jurídicos que o PT deve tomar para garantir que o ex-presidente possa sair candidato.

Controle das mídias

Algumas dessas medidas, reveladas pelo ex- ministro da Educação, seriam facilmente identificadas como propostas de esquerda, embora Haddad, com todo o cuidado, tenha preferido classificá-las como "radicalmente liberais". Uma pequena concessão certamente calculada no intuito de não alarmar ainda mais as reacionárias classes-médias para um programa que elas classificariam facilmente, no seu entendimento torpe de política, como "bolivarianas".

Haddad prometeu focar em 4 pautas principais: econômica, social, política e ecológica. Dentro da discussão econômica e social está a prioridade de Lula, se eleito, atacar o oligopólio dos grandes meios de comunicação, principalmente a Globo.

De fato, as maiores democracias do mundo contam com algum tipo de controle social e regulamentação das mídias, para evitar monopólios e propriedades cruzadas, que no fim das contas levam a um pensamento único, corporativo, que é repassado à população como única verdade dos fatos, especialmente no jornalismo.




Lula chegou a propor de maneira séria no seu segundo mandato, sob o comando do então secretário de Comunicação Social (Secom), Franklin Martins, uma maior pluralização das mídias, através de discussões e propostas ouvidas em debates com setores civis. A forte reação da Rede Globo, que acusou a medida de autoritária e repressiva da livre expressão em diversos editoriais do Jornal Nacional (quando, na verdade, é o contrário, é dar mais vozes aos excluídos de representação) fez o governo recuar lamentavelmente.

Ainda assim, o governo Lula poderia ter combatido os monopólios de outra forma: redistribuindo a divisão de verbas de publicidade governamental, quando as pesquisas da área mostravam que a maioria esmagadora da bilionária verba de propaganda do governo ia exatamente para a empresa de televisão que mais atacava duramente o próprio governo, o que não foi feito.

Lula, provavelmente, ao trazer de volta essa proposta agora, deve estar arrependido de não ter levado a cabo o controle das mídias quando podia. Provavelmente seu atual destino poderia ser bem diferente do que preso e impedido de concorrer a uma eleição com base em boatos e acusações não comprovadas, difundidas dioturnamente pelas mesmas empresas majoritariamente beneficiárias da verba do governo.

O setor bancário

Outro setor importante que o improvável futuro governo Lula promete atacar é o bancário. Haddad afirma na entrevista que o crédito bancário vai receber "um choque liberal contra o patrimonialismo oligopólico". Segundo ele, os spreads* altos espoliam os mais pobres. A solução então seria um sistema de premiações e punições com vantagens tributárias para os bancos que aderirem às novas regras.





Este é outro setor que concentra um dos lobbies mais poderosos do país. Seu poder político vem justamente do seu poder econômico. É tão difícil de ser contrariado, que Lula, no seu primeiro mandato, lançou a famosa "Carta aos brasileiros", na verdade um comunicado ao mercado prometendo que seu governo não iria atacar o tripé macroeconômico (taxa de inflação baixa, câmbio flutuante e taxa de juros elevada) que favorece o setor financeiro do país. Tanto que os bancos jamais lucraram tanto quanto nos governos petistas. É caso de se perguntar, mais uma vez, por que agora, e não antes. 

Em sua entrevista, Haddad também afirma que o governo vai propor uma medida especialmente estimada pelos partidos de esquerda, mas que desde a Constituição de 88, que previa tais medidas, jamais fora regulamentada: taxação de heranças e fortunas. 

Como Lula pretende sair candidato

Não se sabe, no entanto, se o golpismo que se infiltrou no judiciário irá permitir, de forma surpreendente, a candidatura de Lula. A estratégia do PT, segundo Haddad, é registrar a candidatura de Lula normalmente no TSE. Em caso de recusa, entrar com uma liminar no STF e só depois, em caso de fracasso, discutir com Lula um plano C. 

Fica claro que o governo Lula, se eleito, promete, com 16 anos de atraso, ou seja, desde que teve o primeiro mandato em 2002, cumprir as pautas progressistas para o qual fora eleito com 50 milhões de votos. De lá pra cá, muitos dos seus colegas presidentes sulamericanos conseguiram avançar nessas medidas, não sem enfrentar setores ferozes detentores de seculares privilégios indevidos, como aqui. 




Talvez com um atraso demasiado grande, numa conjuntura atual absolutamente desfavorável, pode ser um grito de esperança do povo brasileiro contra a inacreditável desenvoltura da direita golpista no poder em atacar direitos dos mais pobres e o patrimônio nacional. Ou pode ser mais um capítulo triste na história petista, aquilo que o filósofo Vladimir Safatle classificou precisamente como "estação das cerejas vermelhas": a tendência dos candidatos petistas prometerem uma agenda progressista em época de eleição para, uma vez eleito, desfazer todas as promessas para embarcar naquilo que eu chamaria de neoliberalismo suave que caracterizou os governos do PT. 

Sem dúvida, a indefinição da candidatura de Lula é mais um capítulo nesta campanha eleitoral das mais indefinidas da história. 

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* Segundo o site Significados, Spread bancário é a diferença entre o que os bancos pagam na captação de recursos e o que eles cobram ao conceder um empréstimo para uma pessoa física ou jurídica. Nesse contexto, o termo inglês "spread" significa "margem". Para os bancos, quanto maior o spread, maior é o lucro nas suas operações. O spread bancário brasileiro é um dos mais altos do mundo, o que gera muitas críticas, uma vez que é um dinheiro que poderia estar fazendo girar a economia e não ser totalmente utilizado pelos bancos.

17 de julho de 2018

A diferença de ensino e educação no Brasil



Poucas pessoas atentam para a diferença crucial que existe entre ensino e educação. Essa confusão interfere diretamente, no espectro geral, na qualidade da formação de cidadãos e na capacidade das pessoas saberem conviver num ambiente adequado de civilidade e cidadania.

Ensino é o que o Estado brasileiro e também algumas instituições particulares oferecem de maneira formal, através de saberes selecionados e organizados num currículo escolar que determina o mínimo que uma pessoa deve dominar em termos de conhecimento para poder fazer parte de uma sociedade.



Já a educação é todo o conhecimento circulante disponível que as pessoas podem e devem absorver para complementar a sua formação continuada. E quais são as fontes dessa educação? Vamos ver as mais importantes.

A primeira, e talvez a principal, é a família. Os pais — e também avós, tios, etc. — desde o nascimento dos seus filhos são encarregados de educá-los (muitas pessoas pensam que esse é o papel da escola), mostrar a eles o funcionamento das coisas, o comportamento adequado, e principalmente despertar na criança o espírito da curiosidade, a base do interesse em qualquer conhecimento.

Além da família, os mais velhos de qualquer sociedade eram aqueles responsáveis no passado a transmitir o conhecimento para os mais jovens e eram admirados e respeitados por isso. Mas ainda hoje existe muito o que se aprender com os idosos, que viveram experiências que podem orientar os mais jovens no melhor caminho de suas vidas.

Além deles, os livros, é claro, são fonte crucial de educação. Um leitor vive muitas vidas em uma só, através do conhecimento que adquire ao incorporar toda a sabedoria acumulada e guardada nestes receptáculos de saber.

E por fim, as mídias, especialmente a internet e a TV hoje em dia, que colocam o mundo inteiro numa tela diante do espectador/internauta.

O segredo do sucesso de muitos países pode ser investigado se observarmos rapidamente a base de sua educação. Para isso vamos deixar de lado o ensino formal, hoje muito voltado para o mercado de trabalho no mundo inteiro, para focar na educação que forma o cidadão em valores humanos e cidadania.



Os países orientais hoje em dia são conhecidos por sua alta indústria tecnológica, mas poucos se dão conta de que essa tradição é muito recente. E só aconteceu porque os orientais tem uma outra tradição mais antiga, que é a vontade de aprender. Nessas sociedades, os mais velhos são valorizados e respeitados, seus saberes são absorvidos pelos jovens, e assim, por exemplo, o Japão pôde aprender com o Ocidente a ser um país de primeiro mundo, sem, no entanto, perder suas origens.

Em outras sociedades, como a europeia, por exemplo, embora haja — em menor grau — o respeito pelos idosos, foi a massificação precoce da leitura o que tornou, em grande medida, os países desenvolvidos. A erradicação do analfabetismo antes do advento da televisão foi o grande trunfo desses países, pois a educação foi fomentada principalmente pela literatura.

A família é a base de toda a sociedade, mas em algumas delas, exerce um papel determinante. Especialmente nas sociedades latinas (e também, dizem, nas judias). A família latina (e latino-americana) é muito presente na vida de um jovem, e muitas vezes continua sendo na vida adulta, influenciando diversas decisões ao longo da vida. São famosos os arquétipos da sogra ciumenta que se mete em tudo na vida do filho adulto, do pai ciumento que intimida todos os namorados da filha, ou que esses filhos morem juntos na mesma casa dos pais depois de casados... Isso em contraste com as sociedades anglo-saxãs como nos Estados Unidos, onde os filhos basicamente ficam em casa até os 18 anos e depois invariavelmente ganham o mundo e sua independência.

Mas e o Brasil?

O Brasil, como não poderia deixar de ser, é um país complexo com diversas dessas vertentes. Mas as que predominam infelizmente não são as melhores.

Por mais que tenhamos algumas regiões onde o respeito ao conhecimento dos mais velhos, da família (como nas classes médias) e dos livros (muito pouco disseminado no país) estejam presentes, é a internet e a televisão que educam os mais jovens de maneira geral. E esse é o nosso grande problema.



A TV é mais antiga e ao contrário dos países europeus, se disseminou quando o país ainda padecia com uma grande maioria de analfabetos. O modal imagético foi perfeito nessas condições — muita imagem, muita fala, pouco texto, como nas novelas. Já sendo um modelo de transmissão de conhecimento onde predomina a passividade do público, foi ainda mais nocivo na medida em que a população brasileira não tinha a educação formal adequada para filtrar criticamente todo o conteúdo recebido. A TV serviu assim para moldar hábitos, costumes e ideias do brasileiro.

O mesmo com relação à internet. O Brasil diminuiu — um pouco — o número de analfabetos, mas a ditadura militar que precedeu o advento da internet no Brasil serviu para reforçar a assimilação acrítica do povo brasileiro, na medida em que um ensino e uma sociedade autoritários inibiam qualquer tipo de contestação.

Hoje a internet divide com a televisão — mas em vias de superá-la — como a principal fonte de conhecimento do cidadão brasileiro. Sem um aparato crítico adequado, o brasileiro absorve as mentiras, os boatos e as fake news que contaminam as redes e influenciam a sua forma de pensar e ver o mundo.

Um aparato crítico é a capacidade de uma pessoa entender, pensar, selecionar e analisar todas as informações que lhes chegam aos sentidos. Se a educação falha em promover esse tipo de ambiente, é a escola, ou seja, o ensino formal que deve resgatar essa capacidade para que a sociedade brasileira possa melhorar o seu baixo nível atual de conflitos e ideias distorcidas, conviver com as cada vez mais constantes e complexas informações disseminadas.

Além do ensino, a disseminação da leitura é fundamental para que a opinião dada ganhe profundidade e argumentação, e não isso o que vemos hoje, um mar de superficialidade e senso-comum que é repetido como verdade absoluta.

Os mais velhos também sempre têm o que nos ensinar, assim como a nossa família. Mas até essas fontes de conhecimento transmitidos de geração para geração podem e devem ser problematizadas. Se não fosse assim, ainda estaríamos vivendo uma época em que a escravidão era tolerada, os barões do café eram a classe dominante, e os casamentos eram arranjos de famílias. 


16 de julho de 2018

Christopher Hitchens e o infame trotskismo



Christopher Hitchens (1949-2011) era um escritor de colunas sobre variedades na esnobe revista Vanity Fair, quando começou a angariar fama na internet por conta de seus debates sobre religião em palestras e conferências gravadas em vídeo.

Concentrado na defesa do ateísmo, com um vasto cabedal cultural e uma inteligência mordaz, geralmente conseguia colocar todos os adversários na lona, e assim foi ganhando sua fama.

Eu, no entanto, só passei a conhecê-lo quando me deparei com seu maior best-seller numa feira de livros, em 2010: "Deus não é grande", uma obra que mistura religião, cultura e política de uma forma cativante, com uma especial crítica ao fundamentalismo islâmico.



Foi nesta ocasião que eu passei a acompanhar seu trabalho, muito mais pelo viés do ateísmo que compartilhamos do que pelas suas visões políticas, que já eram um tanto contraditórias há quase 10 anos.

Já então, Hitchens deixava claro que era um ex-militante de esquerda na juventude, mas que naquele momento, defendia os ataques (massacres) ao Iraque perpetrados pelo governo de George W. Bush, entre outras coisas lamentáveis.

Na época, sem conhecer suficientemente bem a trajetória do autor inglês naturalizado estadunidense, creditei essa falha de avaliação a uma distorção de entendimento da realidade, causada pela militância humanista/ateísta, confusão que o neurocientista e filósofo Sam Harris também cometera ingenuamente. Harris atribuiu a guerra do Iraque a uma cruzada positiva do Iluminismo ocidental contra as forças obscurantistas do islamismo, crendo que os Estados Unidos pudessem levar ciência àquelas regiões atrasadas do planeta. Erro grande, mas perdoável. Mas não no caso de Hitchens, como veremos.

Acabei de ler sua autobiografia de 2010, um ano antes dele falecer vítima de câncer. Ali eu pude compreender não só a sua trajetória política, mas reforçar meu entendimento sobre a indigência do trotskismo.

Na juventude, o inglês fizera parte de um grupo trotskista intitulado Socialistas Internacionais. Era uma espécie de grupo de universitários de classe média alta que se diziam de esquerda, nos anos 60, quando ser de esquerda era tão natural quanto ser jovem e roqueiro nos anos 80. O trotskismo era e ainda é uma espécie de rebeldia conservadora tolerada, uma fase da juventude onde os adolescentes buscam afirmação inofensiva criticando as crenças políticas dos pais. Mas nem tanto — e, por isso, é tolerada, e até incentivada, pelo sistema.



Grande parte da energia dos trotskistas é voltada para criticar a própria esquerda, especialmente o stalinismo. Hitchens era desses. Apesar de inglês (e talvez até mesmo por isso) fazia vistas grossas ao histórico imperialismo da Inglaterra, ao colonialismo assassino e à herança dessas práticas em regiões periféricas do mundo. Para ele, todo o mal do planeta se resumia à herança do stalinismo.

Em reuniões com seus amigos na juventude numa espécie de tertúlia intelectual sempre às sextas-feiras, eram debatidos temas ao gosto burguês como estilo literário, moda, e até política. Não surpreende que um desses personagens fosse o historiador Robert Conquest, uma espécie de Marco Antonio Villa inglês, intelectual a serviço da ordem, e também orgulhoso autor de obras antistalinistas, e que, também, não surpreendentemente foi aceito nos círculos conservadores ingleses. Robert Conquest é o mesmo historiador cuja obra é desmoralizada por autores que refutaram todos os seus erros históricos tendenciosos, como Ludo Martens e o respeitado filósofo italiano Domenico Losurdo. Mesmo assim, o mainstream literário internacional usa o refutado trabalho de Conquest até hoje como fonte de ataques contra Josef Stalin.

Mais tarde, nos anos 80, Christopher Hitchens se orgulha de ser um dos poucos autores "de esquerda" a elogiar o nojento governo da primeira-ministra inglesa Margareth Thatcher, evocando inclusive um suposto "sex-appeal" da ultrajante "Dama de Ferro".

Seu livro inteiro é permeado de pequenas menções críticas ao stalinismo, a uma simpatia pelos Estados Unidos, acrítica, idealizada, sem levar em conta, por exemplo, que ao se criticar Saddam Hussein é preciso retroceder até o momento em que os EUA fomentaram seu regime quando era conveniente (coisa que passa em branco durante o livro).



Mas o mais importante fato a se destacar da autobiografia é a clareza com que as relações entre trotskismo e imperialismo se dão de forma natural. Não há como negar, quando por exemplo, uma universidade inglesa tão tradicional e conservadora quanto Oxford se dispõe a publicar uma obra que, de outra forma, seria parte do Index burguês de livros proibidos. Mas ao contrário, a Oxford University Press muito alegremente, como relata Hitchens, publicou o livro de um "comunista" trotskista chamado Victor Serge, cujo título era "Memórias de um revolucionário". Por quê?

Apensas pensem... Porque, é óbvio, um "comunista" que faz o trabalho sujo para a direita, ao difamar o próprio comunismo, para o deleite das classes ricas e proprietárias, papel infame a que se prestou o próprio Leon Trotsky, sempre pode contar com espaço e prestígio nos jornais e editoras burgueses. E assim tem sido, desde que Stalin venceu a Segunda Guerra Mundial, e sua influência no mundo ocidental passou a ter que ser difamada para evitar sua popularização entre a classe trabalhadora mundial. Com a luxuosa ajuda dos trotskistas, é claro.