30 de outubro de 2017

José Dirceu faz apelo ao sentimento nacionalista das Forças Armadas. Mas isso existe?

O mês de outubro termina com um apelo do abnegado José Dirceu aos supostos sentimentos nacionalistas das forças armadas brasileiras, inclusive às suas facções de direita, perante o desmonte do Estado, o convite às forças armadas estadunidenses brincarem de guerra contra a Venezuela na nossa Amazônia, à entrega do pré-sal, e outras medidas lesa-pátria do governo Temer.

Dirceu se pergunta:
O que determina e o que expressa hoje o ativismo político entre militares de alta patente? Que sentido teriam as Forças Armadas brasileiras se não defendessem um projeto de nação, de desenvolvimento, a soberania nacional, o pré-sal, a Amazônia, a Amazônia Azul, a indústria de defesa nacional, nossas fronteiras, nosso papel na América do Sul? Nenhum! Seriam apenas polícias a serviço de facções que detêm ou disputam o poder.

Aos militares praças é vedado o direito de opinar sobre questões políticas em nome das forças armadas. Esse papel cabe aos oficiais. E o canal oficial destes "militares de alta patente" é a Revista do Clube Militar, disponível em versão eletrônica na internet. Se José Dirceu tivesse tido o trabalho de ler as últimas edições desta revista, desde meados do ano passado, quando o golpe foi instituído, não teria desperdiçado palavras ao vento.

Pois a alta cúpula militar é justamente isso que ele afirma, "polícias a serviço de facções que detêm ou disputam o poder", se levarmos em conta as visões recheadas de preconceito, conservadorismo, antipetismo e contra o social que são características daqueles artigos.

Na edição 460 de abril-maio-junho do ano passado, em editorial chamado "O fim do princípio" na seção denominada O Pensamento do Clube Militar,  lemos estas palavras:
São cada vez mais frequentes as referências ao final da Operação Lava-Jato. Uns atribuem o pretenso final a uma trama dos políticos que veem as investigações chegando cada vez mais próximas de seu nome. Outros, a certa manobra maquiavélica de cabeças coroadas para evitar novos desdobramentos, envolvendo outras estatais e fundos de pensão das mesmas, ou o BNDES, ou repasses para “movimentos sociais” esquivos e quase fantasmas, abastecidos no caixa do Tesouro, que o governo do PT julgava inesgotável. 

Numa só tacada o autor do texto acusa o governo petista de financiar "movimentos sociais" e acusa diretamente o PT de corrupção nas estatais, sendo por isso conveniente ao PT o fim da Lava-Jato, não obstante ser Romero Jucá e seus asseclas da direita os preocupados com as investigações, conforme gravação divulgada.



Outro artigo sobre Direitos Humanos é assinado pelo general Rômulo Bini Pereira, que está muito preocupado com o governo Michel Temer. A razão? A "herança maldita dos governos petistas".

No mesmo artigo, ele elogia a competência da nova secretária dos Direitos Humanos, Flávia Piovesan, apesar de discordar dela em assuntos-chave como a necessidade de rever a malfadada lei de anistia de 79. Mas, pelo menos, segundo ele,
 ... a Dra. Piovesan demonstrou inteligência e equilíbrio em sua exposição, bem superiores aos de sua antecessora, a deputada Maria do Rosário; esta, sempre com um posicionamento ideológico radical e uma visível incapacidade para atuar em debates que exigem equilíbrio e civilidade.
Duas mulheres com posicionamentos que o general discorda frontalmente. Mas uma é inteligente e equilibrada. A outra é do PT.

Também nessa edição, um artigo do filósofo Luiz Felipe Pondé, que sobre a batalha do dircurso sobre o Impeachment da Dilma, afirma que
Mesmo após o teatro do impeachment, a história do Brasil narrada pelo PT continuará a ser escrita e ensinada em sala de aula. Seus filhos e netos continuarão a ser educados por professores que ensinarão esta história. Esta história foi criada pelo PT e pelos grupos que orbitaram ao redor do processo que criou o PT ao longo e após a ditadura. Este processo continuará a existir. A "inteligência" brasileira é escrava da esquerda e nada disso vai mudar em breve. Quem ousar nesse mundo da "inteligência" romper com a esquerda, perde "networking". 
Além de um ressentimento pessoal por não contar com o mesmo prestígio acadêmico de outros professores e pensadores do campo da esquerda, o artigo é eivado de preconceitos antipetistas, insinuando que existe mesmo aquilo que o "filósofo" queridinho da direita Olavo de Carvalho chama de "marxismo cultural" e que degenerou na mal fadada campanha da "escola sem partido". Não por acaso, no mesmo artigo ele entrega:
Nos últimos meses apareceram movimentos como o Vem Pra Rua e o MBL que parecem mais próximos de uma opção liberal, a favor de um Brasil menos estatal e vitimista. Ser liberal significa crer mais no mercado (sem ter que achá-lo um "deus") e menos em agentes públicos.
Uma revista das forças armadas, ou seja, servidores públicos, que convida o cidadão a crer mais do mercado do que em agentes públicos!! Ironia das ironias...

Mas o desfecho dessa edição é que realmente é de cair o queixo. Em artigo assinado pelo general Luiz Eduardo Rocha Paiva em que o título já diz tudo, "Acabou o fosso ideológico que separava governo e forças armadas", é feito um histórico dos malvadões da esquerda desde a fundação do PCB até o PT; um balanço positivo cheio de eufemismos sobre a ditadura militar; e o principal, a celebração da queda do governo petista, e a alegria das forças armadas nacionais em saber que Michel Temer e sua corja de ladrões investigados pela Lava Jato são da mesma linha ideológica que os oficiais militares. Leiam, leiam até duas vezes se precisarem, mas entendam o significado destas palavras:
A crise de valores e a corrupção, que assolam o país, estão disseminadas pela liderança política, independente do partido, e não começaram com o PT, embora
tenham chegado a níveis desastrosos com sua ascensão ao poder e o uso da corrupção como política de governo. A falta de credibilidade na classe política gera dúvidas, justificáveis, se o novo governo pautará sua conduta por princípios éticos, morais e cívicos. Porém, ao contrário do governo afastado, o atual é democrata e organizado com representantes da esquerda e da direita
situados no centro democrático. Assim, não existe fosso ideológico entre o atual governo e as FA.
São estes senhores que José Dirceu conclama para uma reação patriótica ao governo Temer!!!

Vejamos, Dirceu não é tão ingênuo assim. Conforme seu artigo no site 247 ele sabe que os militares morrem de amores por seus representantes na política, seja Hamilton Mourão, seja o Bolsonado e suas falácias machistas, antipetistas, autoritárias, antipovo e saudosas da ditadura. Seu erro é achar que pode acender uma facção de oposição dentro das forças armadas, mais progressista, nacionalista, em contraste a estes que colocam as FFAA meramente ao serviço das classes dominantes capitalistas. Aí está seu erro.

Essa parcela das forças armadas ou está esmagada, silenciada, oprimida dentro da caserna, ou está nos setores subalternos, soldados, sargentos, tenentes. Mas, ao contrário do saudoso Leonel Brizola, com esses o Dirceu não quer conversa. Respeita muito a ordem, a hierarquia e a disciplina. Só quer falar com os "de alta patente".

Como pode haver diálogo com quem apoia tudo o que aconteceu no Brasil desde o golpe, menos quando a discussão da previdência ameaçou alterar o tempo de aposentadoria dos militares? Aí eles gritaram. Amazônia? Pré-sal? Direitos do povo? Estão nem aí. Só temem um imaginário perigo vermelho.

Nossas forças armadas são ideologicamente capachas de um ideário liberal de viés estadunidense e não parece que isso vai mudar tão cedo. Infelizmente, este é um caso perdido.

Veja aqui a edição 460 da revista do Clube Militar

21 de outubro de 2017

Um sobrevoo com câmera 360 graus sobre a Coreia do Norte



Um novo video foi postado na internet por Aram Pan, fotógrafo de Singapura que conseguiu autorização do governo para mostrar a capital norte-coerana ao resto do mundo.

A República Popular Democrática da Coreia é um dos países mais fechados do mundo por vontade própria e assim pretende continuar, mas o fotógrafo singapurense conta com a confiança do governo para esta empreitada, o seu projeto DPRK 360, que desde 2013 mostra uma Coreia do Norte pouco conhecida através de tecnologias de imagem e videos.

Assista abaixo ao video e controle você mesmo a câmera de 360 graus clicando no cursor no canto superior esquerdo da tela:



18 de outubro de 2017

Austeridade: Michel Temer quer salvar o futuro do capitalismo, não o seu


Sempre gostei de ler autores que se arriscavam em exercícios de futurologia, ou seja, com base em indícios dos rumos do presente, prever por que transformações passará a sociedade nas próximas décadas.

Alvin Toffler, falecido no ano passado, foi um dos melhores de sua época, prevendo, especialmente no livro A Terceira Onda, no começo dos anos 80 com uma grande dose de precisão, como a era da informática (a terceira onda) iria suplantar aos poucos a segunda onda, a industrialização, exatamente como esta suplantara a primeira, a sociedade rural.

Hoje vivemos este mundo que muitos chamam de pós-industrial, pós-moderno ou pós-fordista, todos com o significado claro de uma mudança estrutural na sociedade em diversos aspectos das nossas vidas. Agora, depois do colapso do sistema a partir de 2008 numa crise mundial sem precedentes e que até hoje coloca em risco o nosso futuro, já há autores predizendo o fim do próprio capitalismo. 

É o caso do jornalista Paul Mason, que no seu livro Pós-Capitalismo, um guia para nosso futuro, propõe "um convite à imaginação", analisando fatos concretos com uma enorme profundidade para chegar à conclusão de que o capitalismo chegou a um ponto de saturação sem volta.

Segundo Mason, a informática e a tecnologia deixaram as velhas formas de sociedade em descompasso, e na verdade as suas tendências espontâneas são a de dissolver mercados, destruir propriedades e romper a relação entre salários e trabalho. Neste novo mundo que se apresenta, Estados, bancos e corporações monopolistas seriam incapazes de manter as coisas privadas, escassas e comerciais. É um ponto sem volta onde o capitalismo teria criado o seu próprio monstro destruidor.

No entanto, as elites do mundo financeiro não vão cair sem lutar pelos seus privilégios. No campo social, violência contra protestos pacíficos, armas, tiros de bala de borracha, vigilância invasiva, controle, espionagem, restrição de liberdade tentam manter o status quo funcionando, ou seja, um mundo de altas finanças, baixos salários, sigilo governamental, militarismo, propriedade intelectual e energia baseada em carbono, que é o mundo que está com os dias contados.

No campo econômico, eles ressuscitaram o mal fadado neoliberalismo, o mesmo sistema desregulado de mercado livre que levou o mundo à sua maior crise de todos os tempos, a crise dos subprimes de 2008, que liquidou 13% da produção mundial e 20% de todo o comércio do planeta de uma vez.

A partir de então, tudo o que os governos mundiais fazem é tapar os buracos cada vez mais frequentes da represa que ameaça desabar sobre nossas cabeças, dessa vez de forma definitiva no futuro. Os remendos vem em forma de ajustes conhecidos como programas de austeridade financeira, e aí que entra o nosso Brasil nessa história.



Mason explica em seu livro que o programa de austeridade que muitos países adotaram como solução para a crise capitalista de 2008 não significa meramente cortes de gastos excessivos. Ele traz o depoimento do diretor executivo do Prudential, uma multinacional britânica de seguros de vida e serviços financeiros, Tidjane Thiam, que definiu em 2012 no Fórum de Davos, o real significado de austeridade: os sindicatos, disse ele, são o "inimigo dos jovens" e o salário mínimo é "uma máquina de destruir empregos". Os direitos dos trabalhadores e a recuperação do poder de compra do salário mínimo são obstáculos no caminho da recuperação do capitalismo e, por isso, diz de forma totalmente cínica o homem das finanças milionárias, "devem acabar".

Mason afirma que este é o verdadeiro projeto dos programas de austeridade: "rebaxar os salários e padrões de vida no Ocidente ao longo de décadas até que eles se nivelem com os da classe média da Índia e da China".

O programa de austeridade chegou forte no Brasil ano passado através de um golpe, quando o PMDB chegou ao poder e desde então tenta emplacar a sua "ponte para o futuro". A edição do livro Pós-Capitalismo em minha posse é de 2017, mas Paul Mason o escreveu em 2015 — antes, portanto, da ascensão do PMDB ao poder. Num exercício de futurologia com precisão impressionante, o autor desvendou claramente onde a ponte do Michel Temer pretende nos levar:

Então, por meio de programas de austeridade, eles transferiram o ônus das pessoas que investiram dinheiro estupidamente, punindo em vez delas os beneficiários da previdência social, trabalhadores do setor público, pensionistas, aposentados e, acima de tudo, as gerações futuras. Nos países mais atingidos, o sistema previdenciário tem sido destruído, a idade para a aposentadoria  tem sido elevada a tal modo que quem está saindo agora da universidade só vai se aposentar aos 70 anos, e a educação vem sendo privatizada [...]. Os serviços estão sendo desmantelados e os projetos de infraestrutura, paralisados*. 

É um impressionante quadro perfeito da política econômica que Michel Temer vem lutando arduamente para emplacar no Brasil. Pois senão vejamos: sua reforma previdenciária pretende destruir a aposentadoria de milhões de brasileiros; a reforma trabalhista pretende acabar com os sindicatos e seu congelamento de investimentos por 20 anos paralisa a infraestrutura do país e acaba com o reajuste do salário mínimo acima da inflação. Tudo isso porque, como assumiu Tidjane Thiam no fórum dos magnatas de Davos, essas coisas atrapalham a recuperação do capitalismo.

E assim, embora jamais se diga algo parecido no Brasil com tanta sinceridade, fica nítido que a crise que a elite global causou nos cassinos neoliberais do sistema financeiro mundial será paga com o suor, o sacrifício e a vida de milhões de trabalhadores. Que o capitalismo está moribundo, mas enquanto estas mesmas elites puderem sugar a última gota de sangue do povo, eles vão manter os aparelhos que mantém o capitalismo vivo ligados.

E é por isso que o mundo precisa acordar e propor uma alternativa a este sistema vil e assassino, não sem antes colocar todos estes políticos e magnatas no banco dos réus de um tribunal revolucionário para que paguem pela covardia que fazem com 99 por cento da população mundial. Sem esquecer alguns jornalistas também, que não tem coragem de mostrar a verdade, porque são vendidos como capatazes dos barões do capitalismo mundial.
 *MASON, Paul. Pós-Capitalismo - um guia para nosso futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, pág.31

16 de outubro de 2017

Compra de votos do Impeachment. A esquerda estava certa mas ninguém prestou atenção



É chato ter sempre razão, mas sempre em retrospectiva. Essa é a sina das esquerdas. Especialmente na questão do golpe contra Dilma. Que, aliás, depois da delação de Lúcio Funaro, ninguém pode contestar mais. Foi golpe sim. Como falávamos desde sempre, confrontando os teimosos, os desinformados e os "politizados" de última hora do nosso dia a dia que insistiam em ver ali um puro ato de correção política. Ingenuidade grave.

E o pior é que os indícios já estavam todos lá, desde sempre. Não precisava o operador financeiro assumir em depoimento juramentado na Lava Jato que repassou 1 milhão de Reais para que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ídolo dos jovens ultrarreacionários de direita do Movimento Brasil Livre, comprasse os votos dos deputados em nome do Impeachment golpista.



Pedidos de Impeachment o presidente da Câmara tinha na gaveta como quem tem uma mão recheada de coringas no carteado, prontos para serem sacados no momento oportuno. E ele veio. Quando o PT anunciou que seus deputados votariam a favor da cassação de Cunha no Conselho de Ética.

Foi então que Cunha trouxe à baila aquela peça de ficção produzida por dois juristas de idade avançada e uma tresloucada que conseguiu a proeza de, pela primeira vez na história acadêmica desse país tirar a nota mínima num concurso para professora universitária. Janaína Paschoal, a própria, ainda receberia 45 mil Reais pela produção da fragilíssima e descabida tese das "pedaladas".

Mesmo tendo sido praticadas, as pedaladas, por mais de 20 governadores em seus Estados, incluindo o tucano Geraldo Alckmin em São Paulo e não ser passível de crime de responsabilidade, ou em outras palavras, não poder ser motivo de Impeachment de presidente da República, eis que os deputados foram lá, diante dos microfones e diante da nação, bradar a plenos pulmões o sim ao Impeachment, devido aos mais descabidos motivos. Todos sem relação com o "crime". Pela baixa popularidade da presidenta, pelo "caso de Pasadena" (!??!), pela "família", pelo simples motivo de varrer o PT do poder, e principalmente contra a corrupção, a maioria dos deputados, hoje sabe-se, com os bolsos cheios de dinheiro sujo e voto comprado, tiraram uma presidente da República do seu legítimo mandato.

Não há de surpreender ninguém. A elite, neste país, sempre foi suja e hipócrita. Pra não ir muito longe, basta lembrar Auro de Moura Andrade, filho de ricos fazendeiros de São Paulo, quando sentado na presidência do Congresso, declarou vaga a presidência da República, num ato inconstitucional, pois o presidente Jango estava em território nacional e jamais havia renunciado.

E agora, depois desta delação grave, em se comprovando os fatos, como fica a cara dos milhões de brasileiros, especialmente aquela massa ignara de imbecis da classe média que protestaram "contra a corrupção" com suas camisas da CBF (piada pronta), e que agora assistem a farsa dantesca que apoiaram e pela qual bateram panelas? Como ficam aqueles brasileiros do povão que caíram também no conto do vigário, acreditando piamente que todo o circo que a Globo divulgou era pelo seu bem?

Será que esse povo aprende de uma vez?