18 de setembro de 2017

De Mourão a Mourão: general insinua golpe em 2017 para remendar o de 64


Em uma palestra na loja maçônica de Brasília, comentando sobre o momento político conturbado que vive o Brasil, o general da ativa Antonio Hamilton Martins Mourão disse que uma "intervenção militar" pode ser engendrada caso a justiça brasileira não atue com vigor contra os casos de corrupção que campeiam na política nacional:
 Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso

Mais um golpe militar?

Em 1964, outro Mourão atuou nas Forças Armadas para dar um golpe de Estado. Naquela ocasião, tanto os oficiais militares quando a mídia, setores da Igreja Católica e principalmente a alta burguesia e o empresariado temiam as Reformas de Base que o presidente João Goulart queria colocar em prática.

Tendo como pano de fundo o medo dessas classes de uma suposta e falsa infiltração comunista no governo, defenderam o golpe perpetrado por Olímpio Mourão Filho, que no fim das contas, significava a manutenção de um sistema político, jurídico e social que era um dos mais perversos e injustos do planeta.

Todos os políticos de então, de direita, conservadores, reacionários e com interesses econômicos acima dos nacionais foram colocados debaixo das asas protetoras das Forças Armadas durante os 21 anos de ditadura militar, ajudando a formar relações de poder que tinham a corrupção tolerada, desde que estivessem alinhados com o ideal liberal.

O resultado foi a perseguição dos melhores quadros da política, tidos como "subversivos" — por quererem mudar a ordem do status quo historicamente perverso — que foram então assassinados ou expulsos do país.



 Em 1985, eles, os protegidos, foram os responsáveis pelo processo de transição "lenta, gradual e segura", que iria passar o poder das mãos dos militares para os políticos. Quem eram esses políticos?

Sarney, Moreira Franco, Antonio Carlos Magalhães, Paulo Maluf, Jarbas Passarinho, Michel Temer, e tantos outros desta estirpe e seus afilhados, que vieram a dominar a política brasileira depois de estarem acostumados com as vistas grossas que a ditadura fazia para aqueles que não fossem "comunistas".

O que a ditadura militar nos legou do golpe de 64

Trinta e dois anos depois, essa geração de protegidos corruptos chegou ao seu momento mais abominável, onde duas situações acontecem simultaneamente: uma operação da justiça em conjunto com a procuradoria geral da República, do Ministério Público e da Polícia Federal que escancara os casos de corrupção mais hediondos que o país já assistiu, ao mesmo tempo em que um Congresso Nacional comprometido com um Supremo Tribunal Federal tentam varrer as maiores podridões possíveis para debaixo do tapete da impunidade.

E aí entra em cena o Mourão da atualidade.

Sem autocrítica, sem mea culpa, sem levar em conta o papel das Forças Armadas na criação do mito do comunismo perigoso que possibilitou essas pragas da direita assumirem o poder com carta branca, ele propõe agora, demagogicamente, outro golpe para remendar o soneto da ditadura de 64.

Pelo menos, foi imediatamente desautorizado a falar em nome das Forças Armadas pelo comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas.

Primeiro, que a intervenção militar de 64, com suas perseguições, ideologia conservadora e antidemocrática não foi a solução e sim a causa do Brasil ter ficado duas décadas para trás em comparação com as nações mais desenvolvidas; e segundo, ainda há um grande ressentimento dentro da caserna com relação aos empresários e jornalistas que apoiaram e se beneficiaram do golpe de 64, mas que a partir de um determinado momento, jogaram convenientemente nas costas das Forças Armadas toda a culpa pela derrubada do presidente Goulart. Já não querem incorrer no mesmo equívoco desgastante.

O Brasil não aguenta mais um Mourão imprudente. A única solução possível para este país continua sendo uma revolução armada comunista as eleições gerais de 2018.

5 de setembro de 2017

O que o PSOL deveria fazer nas próximas eleições em nome de um ideal maior


Vai chegando a hora de começar a projetar as possibilidades para as eleições de 2018. Aqui não vamos levar a sério os boatos de que as classes dominantes querem ou conseguirão cancelar o pleito. Então vamos analisar, de forma não tão exaustiva  porque uma postagem de blog não é um artigo, as possibilidades que se apresentam para a esquerda nesse cenário.

Definindo a esquerda com chances reais

De todos os partidos de esquerda que temos no Brasil, somente dois serão levados em conta. O PT e o lulismo aqui não serão considerados, por conta de sua atuação lastimável no poder, sua opção pela conciliação de classes, despolitização da política e da necessidade de superar esse modelo. Os critérios são a representatividade no Congresso; não ter se tornado um partido-apêndice do PT — o que exclui o PCdoB —, e ter alguma possibilidade de lançar candidatura relevante à presidência. Ficamos então com o PDT e o PSOL.

Alguns poderiam argumentar que o PDT também andou navegando no barco do lulismo nos últimos governos, mas sabemos que o PDT, como um partido de correntes, tem no seu interior ainda bons representantes do trabalhismo, do socialismo e do legado brizolista. Esses grupos parecem ter se aglutinado em torno da defesa da candidatura de Ciro Gomes para a presidência pelo PDT.

Ciro Gomes é o que tem pra hoje

Ciro Gomes faz muita gente da esquerda torcer o nariz. Um olhar superficial realmente nos mostra alguém que ajudou a fundar o PSDB, transitou por muitos partidos dos mais variados espectros, que tem trânsito com setores da velha política... No entanto, uma observação mais atenta mostrará um Ciro bastante coerente em suas decisões.



Rompeu com os tucanos quando o partido da social-democracia brasileira se transfigurou em partido da privataria neoliberal, denunciou Temer e Eduardo Cunha quando ainda era um jovem deputado muitos anos antes deles terem ganhado notoriedade, e foi apoiador de Lula em todos os momentos, desde os bons até os difíceis. O que nunca o impediu de denunciar seus erros.

PSOL aposta numa cara nova e desconhecida do eleitor

O PSOL lançou recentemente a pré-candidatura do professor Nildo Domingos Ouriques para a presidência. O conheci ouvindo o programa de debate político na rádio bandeirantes, o Faixa Livre, onde fazia amplas análises sobre a situação política do Brasil e do Mundo. Seu foco é na América Latina e sua principal análise diz respeito à revolução brasileira, em como tirá-la do papel. O PSOL, por sua vez, prentende tirá-lo da sala de aula da Universidade Federal de Santa Catarina direto para sua primeira experiência prática na política.

Qual a melhor estratégia para a esquerda, de fato, ter chance de chegar ao poder?

Penso que o professor Nildo Ouriques desfruta de grande honra em ser o pré-candidato do PSOL nas próximas eleições e tenho a convicção que seria o presidente ideal. Mas entre o idealismo e a realidade existe uma conjuntura complexa no caminho.

Por isso, gostaria muito que as esquerdas pudessem se unir em torno de uma candidatura viável, e que, neste momento, penso ser a de Ciro Gomes.

Muitos andam a compará-lo com Lula, diagnosticando que ele faria o mesmo papel de gerente do capital que o ex-presidente petista se prestou a fazer. Mas essas afirmações não tem a menor base. Quem tem acompanhado, como eu, suas palestras pelo Brasil afora, tem visto um Ciro que mais está para Hugo Chávez, Rafael Correa ou Evo Morales do que Lula, ou seja, sua postura é muito mais à esquerda do que o PT jamais cogitou chegar.

Mais uma estação de cerejas vermelhas?

Há o risco de que Ciro esteja apenas praticando o que o filósofo Vladimir Safatle chamou de "a estação das cerejas vermelhas"? Sim. Risco de sermos enganados todos nós corremos. Campanha é campanha. No entanto, os riscos que Ciro Gomes, que não é o meu candidato dos sonhos, representa, é estatisticamente mais favorável do que defender uma candidatura que, sejamos francos e com todo o respeito ao querido professor, não tem a menor chance.

Dentre todas as opções realmente sérias de vitória, Ciro representa aquela de quem podemos extrair alguma coisa, mesmo que ele não venha a ser o revolucionário que desejamos.

Não há a menor dúvida de que o prof. Nildo é de longe o presidente que todos nós desejamos, mas alguém lá no passado nos ensinou que é preciso levar em conta a conjutura.

Neste momento, o que valeria mais:  uma candidatura rebelde, o voto de protesto inócuo, ou uma aliança com o PDT, e, na hipótese de vitória, pressionar de dentro do governo pelas reformas, além de, quem sabe, arrebatar a nomeação de Nildo para o Ministério da Educação ou  — por ser esta pasta de especial apreço do PDT — um outro? E então, depois de ficar conhecido nacionalmente pelo trabalho revolucionário naquele governo, estar muito mais habilitado para a próxima candidatura.

O que vale um PSOL brigando sozinho e cada partido de esquerda falando uma língua diferente? Temos que ser pragmáticos neste momento e analisar as condições de vitória real, e não apenas de colocar uma candidatura para levantar questões. Essa é a política real, que alguns setores da esquerda ainda não estão maduros para aceitar. Vamos pensar política pragmaticamente, como fazem os nossos adversários e não apenas sonhar.

Senão, tudo o que o PSOL vai conseguir é se prestar a fazer um belo trabalho para a burguesia, dividindo os votos da esquerda.

1 de setembro de 2017

Desmonte do Estado e democracia burguesa

A redemocratização do nosso país tomou corpo em paralelo com alguns acontecimentos importantes pelo mundo, naquele final de década de 80. Era o momento em que Mikail Gorbachev estava propondo reformas liberalizantes na União Soviética, que culminaram com um golpe que implodiu o chamado comunismo realmente existente. Neste momento, em 1989, nos Estados Unidos, tomava forma uma doutrina que servirá de cartilha para os países do terceiro mundo na nova ordem mundial: o programa neoliberal.

Preparando um presidente específico para isso

Em 1989 houve a nossa primeira eleição direta para presidente depois da redemocratização, e a nossa classe dominante, capacho, amestrada e controlada pelos interesses capitalistas do imperialismo americano, para o qual se prostra de joelhos, teve a missão de fabricar um Collor de Mello, saído das profundezas do nada, para se tornar presidente do Brasil e aplicar esse receituário no país, através, inter alia, do Plano Nacional de Desestatização. Começaria ali o nosso arroubo neoliberal, o mito fantasioso de que somente a economia aberta, o mínimo de intervenção do Estado no mercado e a privatização de estatais (lucrativas) poderiam ajudar o Brasil a alcançar um estágio de desenvolvimento ideal.

Estes sacripantas só pensavam em seus empreendimentos e seus negócios, o restante do país, que fosse tocado com o mínimo apenas para não entrar em um colapso social e estragar a farra financista.

Sai Collor, entra em cena o Príncipe da Privataria

Fernando Collor teria completado e saído do seu governo laureado pelas elites e pelos agentes do imperialismo capitalista se não tivesse abusado da sorte e sido retirado do poder como um cão sarnento. Como Sérgio Cabral Filho, ele roubou, mas roubou demais. Coube então ao "respeitável" intelectual sociólogo Fernando Henrique Cardoso tocar o projeto de desmonte do Estado brasileiro em benefício de uma meia-dúzia de empresários de olho no patrimônio nacional.

O povo brasileiro renega o projeto privatista

Como sempre, o governo FHC começou incensado pela mídia corporativa burguesa, mas, aos poucos, o mito do neoliberalismo racional foi indo por água abaixo, se tornando insustentável. Bastaram três das constantes crises cíclicas do capitalismo internacional para a nossa frágil economia de semiescambo ir para o limbo. Sem infra-estrutura a ponto do Brasil sofrer com casos de apagão e abastecimento, com a inflação saindo do controle e o desemprego batendo recordes mundiais, foi assim que o Brasil chegou em 2002, no fim do segundo mandato de FHC. Esse foi o legado de 8 anos de governo neoliberal, onde o bom humor do mercado financeiro importava mais do que a comida que o trabalhador brasileiro não conseguia por na mesa de sua família. E assim o eleitorado brasileiro disse um rotundo NÃO ao candidato tucano da continuidade, José Serra que, mesmo escondendo de todas as formas o impopular presidente FHC de sua campanha, perdeu para Lula, que conquistou o governo com a segunda maior votação presidencial da história internacional, só ficando atrás de Ronald Reagan na eleição estadunidense de 84.



A partir daí, começa o que hoje já podemos chamar de interregno antineoliberal. Durante cada nova eleição, desde 2002, o PT soube explorar a imensa rejeição nacional ao privatismo tucano, e bastava a mera lembrança do que foi a criminosa venda da Vale do Rio Doce nos debates eleitorais, para que os tucanos despencassem alguns pontos nas pesquisas.

Quando a democracia não atende os interesses populares

Aí está o cerne da questão. Por que, por exemplo, os Estados Unidos carregam como bandeira a "democracia" como justificativa de suas guerras, quando suas alianças com países autoritários, violentos e ditatoriais como a Arábia Saudita provam que a democracia não é um valor absoluto em si para eles?

Isso porque os capitalistas perceberam que o sistema burguês democrático é o mais conveniente. Não se iludam, o capitalismo já floresceu sob impérios e ditaduras. Mas na democracia, o poder econômico permite eleger sempre os candidatos do status quo, contra aqueles que não tem condições de levantar o mesmo financiamento de suas campanhas e não se comprometeriam com o sistema financeiro caso vencessem. A corrupção institucionalizada do sistema permite comprar deputados para suas causas. A desculpa de que a democracia pressupõe necessariamente o rodízio intermitente de mandatários no poder evita, por seu turno, que algum indesejável eleito por um acidente da natureza possa ficar muito tempo no controle do país. E caso ele dê muito trabalho, inventam-se pretextos para sua retirada, seja através de um processo político-jurídico (impeachment), seja através do incentivo a uma rebelião de setores de determinada sociedade (Venezuela e primavera árabe) ou um simples golpe militar à moda antiga.

Não foi somente assim que os privatistas conseguiram tirar o PT e voltar ao poder para tocar adiante seu projeto entreguista?

Pouco se importam se desrespeitaram a vontade do eleitor, se o governo tampão do vice não tem nenhuma legitimidade aos olhos do país, com mais de 80 por cento de rejeição. Seu governo golpista, entregista e lesa-pátria atua como se tivesse o respaldo de milhões de votos nas costas. O Ilegítimo no poder dorme e acorda pensando em duas coisas: o que eu posso vender do patrimônio público e que tipo de direito garantido pelo Estado eu posso desmontar hoje?

Infelizmente nosso país conta com essa estirpe de gente, brasileiros vira-latas sem auto-estima, individualistas a ponto de jogar nosso futuro enquanto nação no lixo, se puderem sair como bons cães amestrados perante os olhos dos imperialistas internacionais. São essas pessoas as primeiras a combater um levante popular legítimo, são as primeiras a colocar a tropa de choque contra o povo. E numa revolução, também são as primeiras a amanhecer penduradas pelas pernas de cabeça pra baixo num poste, símbolo da revolta de um povo cansado de ser vítima desses bandidos no poder.

Quando essa raça gananciosa acaba até com a ilusão popular de eleger um presidente pelo seu votinho na urna, nada mais é garantido nessa falsa democracia.