31 de julho de 2017

Por que as mudanças nas leis trabalhistas vão ser um tiro no pé do empresariado e do governo

Tiro no pé

Hoje, os empresários brasileiros estão rindo à toa com as reformas trabalhistas, dando brindes de champanhe em seus escritórios pelas novas regras aprovadas de forma apressada pelo governo e que, na prática, representam a destruição da segurança do trabalhador através da intermediação do Estado na relação entre empregado e empregador. E não é para menos. Afinal, das onze principais mudanças levantadas pelo site da EBC, todas representam algum tipo de perda de direitos do empregado.

Empresários capitalistas têm como base o lucro extraído do maior preço cobrado por seus produtos em relação ao menor investimento possível em salários, encargos e outras despesas. Mas, para isso, deve haver um equilíbrio. Quando se mexe de forma radical nessa delicada relação entre o que se “gasta” com o trabalhador e o que se lucra, o que hoje parece vantagem amanhã pode ser um desastre.

Quando a crise internacional de 2008 chegou ao Brasil, o presidente Lula tinha duas opções: propor as medidas draconianas e burras de austeridade, congelamento de investimentos e afrouxamento das leis das relações de trabalho, como queriam o empresariado, ou ir na contramão da cartilha neoliberal, incentivando o consumo de bens e serviços internos, para aquecer a economia. Ele ficou com a segunda opção.

Conclusão: nunca o país experimentou um momento de bonança tão grande como aquele, em que, sem mexer nas leis trabalhistas, o país cresceu, o desemprego caiu e os setores primário, secundário e terciário da economia nunca tiveram tanta prosperidade. O trabalhador estava empregado, estava seguro, e a economia girou perfeitamente.

Qual é o cenário de hoje? Aquele que os empresários queriam que fosse a resposta para a crise de 2008 que não veio, mas que foi dada agora quando, primeiro Dilma e depois Temer, implementaram as tais medidas de austeridade que o Lula recusou. O Brasil atolou na crise e criou o cenário perfeito para tirar direitos sob o pretexto de “modernizar” a economia, ou seja, propor remédios para a doença que eles mesmos causaram.

Mas a reforma trabalhista significa um tiro no pé para o empresariado. A longo prazo, surgirá uma legião de trabalhadores desamparados e sem confiança no dia de amanhã. Vamos lembrar que no governo Lula, quase 100 por cento da linha branca, ou seja, fogões, geladeiras, micro-ondas, ar-condicionados, entre outras coisas, foram compradas à prazo. Quem se arriscaria, a partir de agora, a comprar não só bens da linha branca, como casa, carro, móveis, ou qualquer outra coisa à prazo, sem saber se, amanhã, ele poderá ser mandado embora com uma mão na frente e outra atrás? E o lazer, o cinema, o shopping, o passeio no parque, como vai ser, ganhando menos e trabalhando mais?

No final das contas, tudo o que o empregador pensou que ia ganhar tendo menos despesas com o funcionário vai ser perdido quando este mesmo funcionário, que precisa comer, se divertir, se vestir, ou seja, consumir, perder a segurança no seu emprego, e passar a pensar cada vez mais no hoje e menos no amanhã. Como resultado, a economia não vai crescer, novos empregos não serão criados, e os desempregados dispostos a ganhar menos serão contratados no lugar daqueles que agora já não consomem por falta de segurança, agravando ainda mais o problema num círculo vicioso, até que algum gênio da lâmpada perceba que esta reforma trabalhista é um mal para o país que precisa ser revogada.

Getúlio Vargas já sabia o nível de estupidez da classe empresarial brasileira. Já naquela época, eles reclamavam das medidas a favor do trabalhador que deram na Consolidação das Leis do Trabalho, esta mesma que acaba de ser destruída pelos bisnetos daqueles empresários.

Getúlio Vargas já sabia naquela época o que os empresários não souberam enxergar: trabalhadores explorados não podiam dar em boa coisa pra ninguém, nem para eles, nem para os empresários, e nem para o país.  Uma lição que três gerações de empregadores ainda não aprendeu.

24 de julho de 2017

O dilema eleitoral de Jair Bolsonaro que o impedirá de ser presidente do Brasil

IMAGEM FODA

setores dos mais diversos espectros ideológicos do país já se preocupam com a possibilidade do polêmico deputado Jair Bolsonaro angariar um número de votos avassalador nas próximas eleições, algo que lhe permita ter condições reais de se eleger presidente da República. Para mim, no entanto, essa possibilidade não existe.

As chances de Jair Messias Bolsonaro envergar a faixa presidencial no próximo mandato são as mesmas que o outro malucão reacionário defensor da família tradicional e da pátria amada, Enéas Carneiro, tivera antes dele, ou seja, nenhuma.

Para uma pequena parcela da extrema direita brasileira, famílias conservadoras de base católica em fase de extinção, Bolsonaro é sim o seu representante legítimo. Votam nele com convicção e corroboram todos os seus preconceitos.

Para um outro tanto de eleitores, no entanto, o “bolsomito” é uma figura caricata, personagem que uns levam a sério, outros não. Apoiam o deputado porque também são machistas e não gostam de “esquerdistas”, mas essa parcela representa, no que eu posso perceber, jovens de classe média ou jovens da periferia urbana sem instrução e conhecimento político, ou seja, outro pedacinho da fatia do eleitorado.

Mas o que a grande maioria esmagadora de eleitores, aqueles de centro, sem paixões ideológicas exacerbadas sente mesmo por ele é uma tremenda rejeição, que, pela minha percepção, ainda vai crescer muito conforme as pessoas o forem conhecendo melhor.

O dilema: por que Bolsonaro está numa sinuca de bico

Digamos que, tal como Lula em 2002, Bolsonaro resolva contratar um marqueteiro para dar um upgrade na sua imagem negativa. A partir de então, surgiria um Bolsonaro repaginado, suavizado, sem aquele corte de cabelo à la Hitler e com todos os seus comentários fascistas do passado, em cada nova entrevista, relativizados. O que será que aconteceria? Fácil de prever.

Certamente Bolsonaro, nesse caso, ganharia o apoio de alguma parcela do eleitor centrista, mas obviamente perderia muito mais dos seus fiéis defensores radicais da extrema-direita. Talvez a troca não compense.

Então, ele resolve partir para a disputa do jeito que sempre foi, travestido de general anacrônico da Ditadura, um fóssil vivo de épocas vergonhosas. Bom, neste caso, seu pequeno eleitorado orgulhoso se manterá fiel, mas insuficiente para uma vitória, exatamente como Enéas nas três eleições presidenciais que disputou.

Existe alguma chance de Bolsonaro ser o presidente do Brasil?

Eu diria somente se, por uma outra aberração política inimaginável, mas que tomaremos aqui como hipótese, Jean Wyllys surgisse com reais chances de vitória na eleição. Isso porque o deputado do PSOL, homossexual, negro e “esquerdista”, carrega em si mesmo o alvo de quase todos os principais preconceitos do país e ainda mais rejeição do que o próprio Bolsonaro. Nessa estranha relação dialética que Bolsonaro e Wyllys mantêm entre si, a vantagem ainda seria do reacionário de direita.

Leia também: A falsa simetria entre Bolsonaro e Jean Wyllys

Mas, numa disputa realista, com Marina Silva, João Dória, Alckmin e Ciro Gomes (um pouco menos), todos comportados garantidores dostatus quo e do clima de paz e estabilidade que a alta burguesia precisa para o seus negócios, e não os extremismos radicais — que Donald Trump implementa nos Estados Unidos e já faz o país se arrepender, por exemplo — Bolsonaro seria vítima do seu próprio dilema.

Por isso, eu fico absolutamente tranquilo quanto à possibilidade de sua eleição. Nem as classes dominantes deste país chancelariam tamanha aventura. 

12 de julho de 2017

Lula condenado à prisão. Lava Jato encerra último ato de sua ópera bufa

Aécio, o protegido da justiça

Enfim, todo o processo da Lava Jato, que (não) por acaso, começa a ser desmontado com o fim da exclusividade de delegados da Polícia Federal envolvidos nas investigações, chega a seu ápice, sua razão de existência: a condenação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva a 9 anos e meio por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

E esse foi o resultado de apenas um dos processos, o referente ao chamado “triplex do Guarujá”, a reforma do apartamento feita pela empreiteira OAS que caracterizou a corrupção ora condenada pelo juiz Sérgio Moro.

Lula ainda pode e certamente recorrerá da sentença, mas podemos adiantar aqui, mesmo sem bola de cristal, que perderá também em segunda instância.

Isso não significa que o ex-presidente será encarcerado, sonho de uma parcela da população brasileira que tem verdadeira ojeriza não só ao ex-torneiro mecânico sem o ensino básico completo que chegou ao poder, mas a tudo o que ele representou durante o seu governo: a ascensão de amplas parcelas de miseráveis e pobres ao nível de consumo e de educação, uma população que o sociólogo Jessé Souza provocativamente chamou de ralé, e que historicamente tem merecido o desprezo das camadas sociais de cima.

Não, Lula não será preso. Até pela sua idade, já acima dos 70 anos. Mas para os fins da Lava Jato, isso não importa. O que é realmente importante é a condenação em segunda instância, com previsão de ser analisada daqui entre seis e nove meses, que já seria o suficiente para impedi-lo  de concorrer à presidência da República em 2018, com base na Lei de Ficha Limpa.

O repórter da Globonews, agora há pouco, nem teve a discrição de ocultar as verdadeiras razões do impedimento do ex-presidente. Não foram os lamentáveis mal feitos que Lula infelizmente se envolveu. Segundo disse no ar, ao vivo, o Lula de hoje não é o “Lulinha Paz e Amor” que venceu as eleições de 2002 e 2006. Suas opiniões têm sido bastante contundentes, o que colocaria em risco, segundo alguns analistas, todos os ganhos políticos da burguesia nesse período de vandalismo praticado pelo parlamento e o governo federal contra os direitos dos trabalhadores, e isso estava “assustando o mercado financeiro”.

A confirmação dessa ideia veio logo depois ao anúncio da sentença, com a Bovespa disparando e o dólar caindo vertiginosamente — sinais típicos do “bom humor do mercado”.

Não sei se teremos panelas comemorando a condenação do Lula nas varandas ou passeatas da burguesia verde e amarela na avenida Paulista, pois até para eles existe o constrangimento do descaramento que é a justiça brasileira, com seus dois pesos e duas medidas, dependendo do réu. Há meses o rato que ocupa a presidência da República consegue escapar de todas as ratoeiras colocadas pelo caminho com ajuda essencial de um STF que de vez em quando desarma algumas delas, enquanto o playboy mineiro mais delatado do Brasil, aquele que combina recebimento de propina e que manda matar se o seu testa de ferro for capturado, vai contando com a impunidade garantida especialmente por um correligionário político travestido de ministro do Supremo, pronto a libertá-lo das garras da lei sempre que necessário.

A única coisa realmente positiva de todo esse circo armado com o intuito de tirar o Lula da eleição de 2018 é que assim uma esquerda independente e moralmente isenta de qualquer promiscuidade com esses acontecimentos lamentáveis pode surgir, bater no peito e dizer que o lulopragmatismo, ou seja, o modelo lulista de governar se imiscuindo com o que há de mais podre na política, não cabe a ninguém da esquerda. É imoral e foi um erro. Novas lideranças podem assumir esse vácuo, de uma forma a juntar os cacos de confiança e esperança dos eleitores que o PT quebrou e espalhou por aí, e assim construir uma nova realidade para o nosso país. Aprender com os erros que o PT até hoje se nega a admitir, e saber que a luta de classes não permite concessões ao inimigo, a quem hoje está fraco mas que amanhã, com a sua própria ajuda, pode se reerguer, se virar contra você e te jogar no limbo, que é onde estão hoje Lula e o PT, depois de fazer alianças com quem deveria ter esmagado quando podia.

Façamos do pensamento do polêmico escritor russo Vasily Rozanov um guia nessa era pós-Lula: “das grandes traições iniciam-se as grandes renovações”.

6 de julho de 2017

Qual tem sido o papel do PT diante do governo e da crise política atual?

O Partido dos Trabalhadores foi, sem sombra de dúvidas, o maior prejudicado pela campanha reacionária que ficou ainda mais atuante no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Desde a vitória eleitoral questionada no Tribunal Superior eleitoral, passando pela tática de obstrução de governabilidade promovida pelo Congresso, até a aceitação da acusação, votação e condenação da presidente num Impeachment golpista, o PT foi atacado por todos os lados, na política e na opinião pública através de uma imprensa corporativa hostil. Era natural, portanto, que o partido fosse uma das vozes mais atuantes no atual momento de crise política vivido pelo governo usurpador e seus aliados políticos. Mas é isso que estamos vendo?

Estranhamente, não.

Mesmo que alguns militantes, sindicatos e movimentos sociais ligados ao partido estejam nas redes sociais e nas ruas engrossando o “Fora Temer”, a alta cúpula do PT resolveu contemporizar com os seus notórios algozes.

E isso já ficou claro desde o princípio deste ano, quando o próprio ex-presidente Lula se colocou à disposição de Michel Temer para dialogar soluções políticas para a crise, atitude que ultrapassou qualquer cordialidade republicana.

Veja em: Lula dá conselhos a Temer e diz estar à disposição para diálogo: ‘Me chama’...

Temer visita Lula

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Carlos Zarattini (SP) teve uma postura ainda mais surpreendente mês passado. Diante da enxurrada de evidências contra o senador Aécio Neves reveladas recentemente — um dos maiores algozes do PT e aliado do governo golpista — o deputado petista afirmou que “não podemos torcer por um ataque sem nenhum princípio às pessoas”.

Leia mais: ‘Torcer pela prisão de Aécio é equívoco’, diz líder do PT na Câmara

Ainda no mês de junho, o Partido dos Trabalhadores lançou uma nota contra a Lava Jato e a Procuradoria Geral da República, no exato momento em que ambas voltam suas baterias contra Aécio e Temer. Fato intrigante e curioso é que, em seu pronunciamento logo após ser denunciado por Rodrigo Janot, Michel Temer tenha feito a mesmíssima insinuação que Lula fizera mês passado, fazendo alusão a um procurador muito próximo de Janot que fora preso, para criticar os métodos da PGR.

“Eu não sei se o procurador-geral da República, que tinha um amigo procurador que foi preso, e que ele até pediu desculpa na televisão, ficou chateado porque o procurador era amigo dele, queria fazer jantar para o procurador, o procurador fazia jantar para ele, não sei se a teoria do domínio do fato vale pra ele, se ele sabia que o cara era ladrão” (Luis Inácio Lula da Silva. fonte: valor.com.br)

Além disso tudo, Dilma Rousseff, que poderia ser uma voz de legitimidade no meio do caos político que se instalou no Brasil pós-Impeachment, resolveu ficar totalmente longe dos holofotes.

No seu sexto Congresso realizado em junho, que elegeu Gleisi Hoffman como a nova presidente do partido, o PT lançou uma nota bastante crítica ao governo, ao cenário atual e propôs algumas medidas bastante progressistas. Mas diante deste cenário, como não pensar que todo esse discurso não faz parte de uma estratégia que o filósofo Vladimir Safatle classificou corretamente como “A estação das cerejas vermelhas”? Fora do poder, ou em campanha presidencial, o PT faz um belo discurso de esquerda, mas suas ações na prática não corroboram as intenções.

O PT e sua ambiguidade tem feito muito mal às esquerdas. Sobre a possível admissibilidade de acusação contra Temer na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, o jornalista Fernando Rodrigues afirma que

…o PT mostra ambiguidade. Chama a atenção que ninguém relevante do partido esteja à frente de 1 grupo para arregimentar deputados a favor da denúncia. Há algumas iniciativas, mas nenhuma “mainstream” que possa ser considerada uma movimentação orgânica e centralizada.

Ainda existe muita, muita gente boa e bem intencionada nos quadros petistas. Mas por uma série de fatores difíceis de compreender, estes militantes não são capazes de se desvencilhar da crença cega nos membros do alto escalão do PT, que não praticam o que pregam. Para estas pessoas, e para o bem da esquerda no Brasil, o PT deveria abrir mão de lançar candidato em 2018, fazer parte de uma ampla coalização nacional sem o intuito de liderá-la, e dirigir o seu capital eleitoral formado por estes petistas de bem para uma outra liderança, jovem, verdadeiramente comprometida com o nosso lado na história.

Não dá pra cair 5 vezes no conto do PT como partido progressista de esquerda.