31 de maio de 2017

Boa notícia: CCJ do Senado aprova emenda da eleição direta.


O povo brasileiro conseguiu uma vitória no dia de hoje. Foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) por unanimidade a PEC da eleição direta no caso de vacância no cargo de presidente da República nos três primeiros anos de mandato. Ou seja, em até 12 meses antes da próxima eleição.

Entretanto, a tramitação da emenda constitucional pode demorar e inviabilizar seu uso já no caso do Ilegítimo Michel Temer ser afastado do cargo. Agora a PEC vai para votação no Senado e, caso seja aprovada, seguirá ainda para a Câmara dos Deputados.

Por que, então, diante desse cenário, é uma boa notícia?

Na verdade é uma ótima notícia. Essa emenda constitucional tão importante só foi aprovada devido a pressão popular que já começa a crescer em todo o Brasil. Não deve ser coincidência que ela venha depois da invasão de Brasília e da manifestação que colocou quase 200 mil pessoas em Copacabana no último domingo. Outros protestos estão sendo marcados em todo o Brasil em nome das "Diretas", e a pressão só tende a aumentar.

Apesar da dificuldade da PEC ser aprovada por conta dos deputados que temem o chamamento à nação para a escolha do comandante do país, que tiraria de suas mãos essa prerrogativa, em caso de aprovação ainda esse ano, a lei caberia no caso do possível afastamento de Michel Temer. Isso porque seu ilegítimo mandato só se encerraria em dezembro de 2018, o que quer dizer que se a emenda for aprovada até dezembro de 2017, ela vai autorizar eleições diretas ainda nesse mandato.

Mas é óbvio que, para isso, o povo terá que se mobilizar e mostrar toda a sua força nas ruas. E o que é mais difícil: contar com a oposição da Rede Globo. Isso porque, se até agora ela tem sido uma aliada involuntária do Fora Temer, não será na hora das "Diretas", por conta do risco de que se eleja um presidente contrário ao saque e ao banditismo que esse atual presidente vêm promovendo ao povo brasileiro. Para a Globo, a saída de Temer só pode ser levada a cabo se em seu ensejo estiver incluída a eleição indireta, para que um desses lacaios dos bancos como Henrique Meirelles ou Armínio Fraga possam tocar adiante as reformas neoliberais que o Temer fracassou em acelerar.

Agora, está nas mãos do povo brasileiro.

29 de maio de 2017

Ricardo Boechat e a violência nos protestos

O radialista e apresentador do Jornal da Band, Ricardo Boechat, conta com grande simpatia — merecida ou não — de grande parcela da opinião pública progressista, muito embora, durante os programas de rádio onde pode emitir sua opinião, não faça muito jus a esse respeito.

Jornalista que não incomoda o status quo

Boechat sempre teve uma postura crítica que, entretanto, pouco assusta ou ameaça a ordem, pois se assim não fosse, não estaria no ar a tanto tempo. Jornalistas que incomodam o establishment não têm espaço na mídia para contrariar o senso comum patrocinado pelas grandes corporações. E por isso vemos tantos jornalistas amestrados na coleira do capital como Míriam Leitão, Merval Pereira e outros congêneres. Assim mantêm seus empregos. Um exemplo notório disso que estamos falando é o raivoso e reacionário Reinaldo Azevedo, que teve seu vasto currículo de serviços prestados ao capital solenemente ignorado, pois ousou ser imparcial e criticou a forma como a Lava Jato estava conduzindo as investigações contra Lula. Conclusão: demissão da revista Veja, olho da rua.

Mas voltando a Boechat e seu curioso prestígio entre os setores de esquerda. O jornalista já cometeu o desplante de criticar greve de professor e nem sequer se deu o trabalho de criar uma desculpa diferente do senso comum: os alunos não têm culpa e não podem "sofrer as consequências de ficar sem aulas". Típica opinião de quem não conhece a realidade da sala de aula.

Também andou criticando manifestantes que vão para as ruas, porque atrapalham o trânsito e “impedem as pessoas de trabalhar”.

"Vandalismo" nos atos de protesto.

Agora Boechat ressuscitou sua antiga implicância: falar mal de “protestos violentos”. Assim, sem nenhuma ressalva, coloca no mesmo saco da ilegitimidade toda e qualquer manifestação que por ventura contenha algum ato de “vandalismo”, essa pecha ridícula que a imprensa burguesa decalcou em todo manifesto não-passivo. Ou seja, Boechat não procura verificar se a violência nos protestos é legítima ou não — a imprensa oculta propositalmente o fato de que nem toda violência é condenável, como por exemplo um ato de “legítima” defesa, como o próprio nome diz —, não quer saber se quem causa a violência é a polícia ou agentes infiltrados em manifestações, enfim, para ele, 50 mil pessoas na rua lutando por uma causa lícita perdem toda a razão se uma vidraça ou uma lâmpada de poste forem danificadas.

E agora, depois do protesto de ontem, ele realmente mostrou a sua cara.

No protesto de Copacabana realizado ontem (domingo, 29/5) contra Michel “Ilegítimo” Temer e a favor das “Diretas”, Boechat deixou o povo brasileiro sem saída. Mais de 150 mil pessoas protestaram em Copacabana de forma pacífica e ordeira, o tipo de protesto ideal que Boechat defende. Mas, curiosamente, no seu comentário das manhãs do programa de rádio da Bandnews FM, Boechat fez pouco caso do ato!! Sim, 150 mil pessoas não causaram nenhum impacto político. Sabemos disso, 150, 200 ou 500 mil pessoas passeando no Calçadão fechado, sem causar nenhum transtorno à ordem, não vai mesmo ter nenhuma repercussão, nem pro bem, nem pro mal. Mas a surpresa é Boechat admitir isso, pois senão vejamos: protestos violentos são contraprodutivos segundo sua ótica; protestos pacíficos são irrelevantes. O que resta para a população brasileira, que opção teríamos de reivindicar? Aparentemente, nenhuma.

Se você não levar em conta que a violência nos protestos é uma arma do povo que a burguesia teme e as forças policiais e a imprensa a serviço da ordem burguesa distorcem para criar o dissenso no seio das manifestações, não estará sendo honesto e fiel à verdade. Em praticamente todas as grandes manifestações, e nisso eu incluo as que eu testemunhei em 2012/13, o livre direito constitucional de se manifestar é absolutamente vilipendiado pela polícia militar. A reação natural a isso vem de grupos de manifestantes dispostos a enfrentar a brutalidade policial com táticas de ataque e defesa. O mais famoso desses grupos acabou sendo os black blocs, mas outros grupos surgiram pelo mundo desde as famosas manifestações de Seattle em 1999 contra o encontro de cúpula da OMC e Gênova em 2001 no encontro do G8, como por exemplo os “macacões brancos”.

Pode-se concordar ou não com tais atos, mas não podemos entrar na onda midiática e condenar acriticamente a reação dos manifestantes representada pela desobediência civil legítima, sem tocar em nenhum momento em quem causa a ação violenta (as forças policiais) e quem amplifica os conflitos desproporcionalmente para tirar proveito político delas (a mídia). Senão, vamos passar o resto da vida colocando essa questão secundária da violência em evidência para deixar de discutir o principal: a necessidade de se programar eleições diretas de qualquer maneira para barrar os pacotes neoliberais do Ilegítimo, ou de quem quer que venha a substituí-lo, escolhido por um Congresso corrompido e sem moral.

21 de maio de 2017

Esmiuçando a crise política brasileira


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P assados já alguns dias desde que o jornalista d’O Globo decidiu divulgar o trecho da delação premiada que veio a colocar verdadeira gasolina na fogueira da crise brasileira, temos melhores condições de analisar alguns dos desdobramentos das denúncias, não obstante ainda haja muita coisa imprevisível para acontecer nos próximos dias.

Crise no andar de cima

A primeira constatação que podemos fazer é que, apesar dos protestos das classes populares com a direção de movimentos sociais e sindicatos contra o governo Temer — irrisórios, no que tangem à participação das massas — os apuros por que passa o Ilegítimo presidente da República são causados de cima. Ou seja, a crise é uma crise das elites, provocada no topo da pirâmide social, é um conflito das classes dominantes em que o povo, repetindo José Murilo de Carvalho, é mero espectador, assistindo bestializado o desenrolar dos fatos.

Ao que tudo indica, os mercados, aqueles que, neste sistema capitalista prostituído, são os verdadeiros donos do poder, deram um prazo de validade para o Ilegítimo colocar o país nos eixos. Passado pouco mais de um ano desde que assumiu o poder, ele até conseguiu alguns números modestos na economia, sinalizando uma pequena recuperação, embora muito abaixo do que deveria para merecer os festejos dos telejornais. No entanto, o mercado gosta de estabilidade não só econômica como também política, e até agora, o Ilegítimo não conseguiu dar resultados satisfatórios nesse quesito.

Parece que, ao se dar conta do seu curto mandato, tão curto quanto sua estatura moral e política, Michel Temer resolveu descarregar todas as bombas de uma vez, representadas por reformas controversas, impopulares e com resultados duvidosos. A paciência do setor financeiro parece ter-se esgotado.

Trocar o mandatário para tocar as reformas com aparência de estabilidade

A solução mais agradável justamente para estes que mandam de fato é que Temer seja retirado do poder de alguma forma, com imediata convocação de eleição indireta. Para isso, entrou em ação o aparato que estas elites podem instrumentalizar para conseguir seus interesses: a mídia e o judiciário.

Os velhos serviçais políticos do poder (empresarial) como Temer, Aécio, Renan, tão protegidos que foram em outras ocasiões, em episódios talvez até mais graves do que os que geram o “terremoto” político atual, hoje estão sendo descartados na lata do lixo.

Convenhamos que o tal áudio “bombástico” divulgado não revela grandes irregularidades explícitas, pelo menos não tão grandes quanto outras denúncias que envolveram as mesmas figuras, mas que passaram em branco nos tribunais e na televisão. Mas desta vez, existe um propósito envolvido: é preciso eliminar estes políticos viciados (sem trocadilhos em relação a Aécio Neves) e nomear um outro gerente do capital na política que tenha algum perfil de consensualidade e aceitação republicana. A finalidade é eleger uma figura desse porte através de uma eleição indireta, acalmar os ânimos, dar uma simulação de representatividade, e tocar a agenda neoliberal de forma tranquila.

As ruas terão forças para impor eleições diretas?

Por isso, a constatação de que pouco adianta a mobilização popular em torno de “Diretas Já”, apesar de haver uma pequena possibilidade de que uma emenda possa ser votada nesse sentido. Mas essa opção iria de encontro aos interesses do mercado e consequentemente das classes dominantes, porque a eleição direta fugiria do seu controle e colocaria em risco o andamento natural das reformas da Previdência e trabalhista, por exemplo, situação que não lhes interessa. Somente uma improvável manifestação popular em todo o Brasil poderia forçar uma solução dessas, mas as ruas não dão sinais de grande mobilização.

Agora, para uma solução rápida, o mais provável é que Temer seja retirado do poder através da cassação da chapa PT-PMDB que vai ser julgada no próximo dia 6. Temer já disse que não renuncia e um Impeachment com aparências de legalidade, como foi com a Dilma, demoraria pelo menos seis meses, algo impensável nesta conjuntura de incertezas. Ou seja, a crise de cima vai ter uma solução de cima, um arranjo das elites sem a participação ou a consulta ao povo. 

Este é o atual cenário desde que o jornalista Lauro Jardim do jornal O Globo lançou o meteoro que veio a fazer o estrago na governabilidade do Ilegítimo presidente, levando de arrasto Aécio Neves e prometendo eliminar outros figurões da política brasileira. Talvez estejamos entrando numa triste era em que a política, desmoralizada por práticas que são apenas e tão-somente inerentes ao sistema burguês capitalista, como a corrupção, entre em colapso, favorecendo “tecnocratas apolíticos” como João Dória, que sob este disfarce, escondem a disposição de serem os mais novos gerentes políticos dos interesses do capitalismo e do mercado na presidência e no Congresso.

7 de maio de 2017

Catástrofe Climática, Imperialismo e a Grande Fome do século XIX

Catástrofe Climática, Imperialismo e a Grande Fome do século XIX


Essa é uma história pouco contada pelos historiadores. A história de três catástrofes humanitárias causadas pela seca na Ásia e em outras partes do mundo, na segunda metade do século XIX, que poderiam ter sido evitadas. Poderiam, se, para a infelicidade dos pobres camponeses das regiões afetadas, esta também não fosse a era do Imperialismo Europeu. Em nome do liberalismo econômico e da economia de mercado, produziu-se um verdadeiro holocausto humano de 40 milhões de vítimas da Fome, enquanto a Europa prosperava em abundância.

Embora o fenômeno do El Niño (e da La Niña) só tenha sido melhor compreendido no final da década de 1960, as instabilidades de temperatura do Oceano Pacífico já afetavam as condições climáticas desde sempre no mundo, afligindo a vida do Homem, especialmente o do camponês que depende da terra e das chuvas para plantar e colher.

Durante as épocas de prolongada seca, certas comunidades aprenderam a amenizar o sofrimento com um sistema econômico que previa o armazenamento e a distribuição dos grãos para os mais atingidos durante os períodos críticos. A segunda metade do século XIX iria, no entanto, assistir à deterioração desse sistema.

O Imperialismo Europeu e as maiores secas de que se têm notícia na história da humanidade iriam operar em conjunto no final do século XIX, desestruturando o sistema camponês definitivamente, para a consolidação à força do sistema liberal de economia de mercado. Como bem destacou Rosa Luxemburgo numa análise de 1913:
Cada nova expansão colonial é acompanhada, como de praxe, por uma inexorável luta do capital contra as ligações sociais e econômicas dos nativos, que também são forçosamente espoliados dos seus meios-de-produção e força de mão-de-obra. […] A acumulação [de capital dos países produtores capitalistas], com sua expansão espasmódica, não pode mais esperar nem se satisfazer com uma desintegração interna natural das formações não-capitalistas e sua transição para a economia de mercado […] A força é a única solução disponível para o capital; a acumulação de capital, vista como um processo histórico, emprega a força como uma arma permanente…
E foi assim que o capital se desenvolveu de mãos dadas com o Imperialismo, através da força ou da ameaça da força. Sob os auspícios de dirigentes ingleses ou pessoas locais ligadas a eles, a Ásia foi conectada numa posição subalterna ao jogo da economia mundial. Especialmente na Índia britânica, mas também na China, no norte da África e em outras regiões do Império Britânico, a Fome causada pelas grandes crises climáticas de 1876-79, 1889-91 e 1896-1902, que prejudicaram a colheita dessas regiões durante décadas, dizimou por volta de 40 a 50 milhões de pessoas em poucos anos. Mas esse holocausto humano poderia ao menos ter sido infinitamente amenizado.

Os grãos que foram colhidos em regiões menos atingidas da Índia, por exemplo, poderiam abastecer as cidades onde a calamidade era urgente. No entanto, milhões tombaram de fome ao lado das grandes ferrovias britânicas, que conduziam trens abarrotados de grãos para os portos sob os olhares do povo faminto, e de lá para o mercado de Londres. Como afirmou um dos poucos historiadores a tratar com profundidade do tema, Karl Polanyi em 1944:
A quebra das safras, claro, fazia parte do quadro, mas o transporte de grãos por ferrovias possibilitaria o envio de socorro às áreas ameaçadas; o problema era que as pessoas não tinham meios de comprar o milho a preços em vertiginosa ascensão, o que em um mercado livre mas mal organizado tinha de ser uma reação à escassez. Em tempos anteriores, os pequenos depósitos locais haviam-se protegido contra colheitas insuficientes, mas agora se achavam fechados ou absorvidos pelo grande mercado.
Os impostos imperiais, as exportações de grãos e os abusos exorbitantes da nova lógica econômica smithiana (escassez = aumento de preços) agravaram a situação dos camponeses. Muitos venderam suas pequenas propriedades, a roupa do corpo e até os filhos em troca de um punhado de grãos. O cenário era de horror, com corpos esquálidos e famintos rastejando em meio a mortos no meio das ruas. O “socorro” dos imperialistas muitas vezes só agravava a situação. Dezenas de milhares morreram nos campos de trabalho ingleses depois de caminhar dias em busca de trabalho e uma ração alimentar insuficiente. É claro que os imperialistas europeus, bem como os japoneses e americanos tiraram proveito da situação. Cada região afetada pela Fome era mais uma colônia em potencial, onde terras comunais eram desapropriadas e mão-de-obra para as minas eram selecionadas.

O novo modelo econômico mundial implementado à força em regiões agrícolas da Ásia foi, portanto, um dos maiores responsáveis diretos pela Grande Fome que dizimou milhões de pessoas no final do século XIX, numa época de secas jamais vistas. Essas pessoas não estavam de fora do sistema; elas estavam dentro, fazendo parte das engrenagens do capital, sendo vítimas dele. Na Era de Ouro do capitalismo liberal, a humanidade das regiões exploradas enfrentou uma de suas piores provações de todos os tempos. Como se pode explicar essa contradição, senão pelo fato de que a miséria e a fome são justamente partes intrínsecas do próprio sistema sem as quais uma pequena minoria não poderia se rejubilar de todo o conforto e riqueza que o dinheiro é capaz de proporcionar?

Fonte: DAVIS, Mike. Holocaustos Coloniais. Clima, Fome e Imperialismo na Formação do Terceiro Mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002

5 de maio de 2017

O Brasil vai ficando mais longe do que se define como civilizado

Para uma sociedade mostrar-se civilizada perante o mundo nos parâmetros atuais — e não mais em comparação com tribos selvagens numa escala eurocêntrica de civilização, como era tempos atrás — é preciso que se cumpra alguns requisitos básicos. Direitos e deveres precisam caminhar pari passu, com os exemplos vindos de cima. Uma elite não pode ser uma elite só porque possui mais dinheiro, mas precisa ser, pelo menos na ótica burguesa, aquela classe que tem a solução mais inteligente para os problemas e dita os valores a toda a sociedade.

Tudo isso, infelizmente, passou ao largo no nosso país.

Nossas elites nunca tiveram um senso patriótico, nunca tiveram um projeto de nação para fundar um país digno e com oportunidades para todos. Nosso legado histórico de desigualdade, escravidão e violência cotidianas tiveram um peso muito maior na constituição de quem somos, muito mais do que os belos lemas burgueses europeus de igualdade e fraternidade.

O resultado disso hoje é que nossas classes dominantes continuam míopes a respeito de como resolver nosso crônico problema de violência e miséria. Outros países, cada um a seu ritmo, resolveram que, por meio da educação, da barreira tarifária na economia com incentivo à indústria nacional, incentivos à ciência e tecnologia locais, a implementação de uma cultura de verdadeira isonomia onde a lei é realmente para todos, ricos e pobres, dando assim o exemplo que vem de cima, poriam fim a esta realidade que sofriam e que até hoje grassa no nosso país.

Por que não o Brasil?

Porque nossas elites pouco se identificam com o que é nacional. Admiram mesmo o estrangeiro, tanto na sua pessoa física, branca, alta, de olhos claros, quanto nas suas romantizadas realizações. "Lá na Europa é tudo diferente"; "Lá no Canadá os carros param pra você atravessar a rua"; "Lá na Alemanha você pode andar sozinho na rua à noite sem medo".

Por que não o Brasil?

Porque aqui ninguém quer ir a fundo na solução definitiva do problema, atacar a raiz num projeto a médio-longo prazo de mudança, de reformas, de uma verdadeira revolução, coisa que muitos dos países hoje idolatrados pela nossa elite vira-latas fizeram há mais de 100 anos.

Por exemplo, se na Suécia, na Holanda, na Bélgica não existe a colossal violência que existe no Brasil, é porque eles levaram a sério o projeto do Iluminismo. Primeiro separaram definitivamente o Estado e a Igreja, acabando com a influência de líderes que pregavam o privilégio de suas crenças sobre as demais, fomentando ódios e violências; em seguida, decidiram investir tudo em educação 100 por cento gratuita e de qualidade para todos, erradicando a ignorância e o analfabetismo de seu meio. A resposta não demorou muito: sociedades com mão-de-obra qualificada, pessoas preparadas criticamente para entender e melhorar a sua sociedade e um padrão de vida elevado que praticamente tirou a necessidade de pessoas apelarem para a violência, seja para impor sua verdade religiosa, seja para roubar o carro que você tem. Se ela quiser ela vai lá e compra.

No Brasil... Estamos em pleno século XXI, era da Informação, e o Brasil sequer conseguiu cumprir o seu ciclo de alfabetização geral. A desigualdade é fruto de privilégios, muitas vezes indevidos, adquiridos no passado, que hoje influencia quem pode e quem não pode chegar a um lugar ao sol. Assistimos ao crescimento de seitas evangélicas neopentecostais que fomentam o ódio, o separatismo e a animosidade como razão de existência. A violência é um estigma que só poderia ser mesmo o resultado dessa nossa incapacidade de dar um salto civilizatório.

Mas pra amenizar a violência, nossas elites têm a solução mágica. Propõem um modelo de guerra, com aparato policial, fuzis, metralhadoras, e uma ideologia que trata o pobre, o negro, o marginalizado — no sentido de estar à parte do bem estar e do conforto que a civilização pode proporcionar — como alvo a ser abatido. Há quase 40 anos, essa é a "lógica" para que a classe média se sinta "segura".

Mas não é só isso. Os experts em solucionar a violência ainda querem que, numa sociedade campeã mundial de chacinas e homicídios, na casa de 55 mil mortes por ano, cada cidadão ainda tenha o direito de andar armado! Talvez se inspirando na "moderna" e "acadêmica" lógica do bang-bang dos faroestes estadunidenses, merece viver quem for o mais rápido no gatilho.

Esqueçamos por ora o lobby das indústrias armamentícias que compram, quer dizer, "ajudam" financeiramente as campanhas dos deputados proponentes dessa insanidade. Mesmo a sociedade tendo dito SIM ao desarmamento num referendo popular, quem disse que a opinião do povo conta? Se fosse assim não teria Reforma da Previdência nem Terceirização...

Assim como eles, os conservadores de direita armamentistas que afirmam que a maconha é uma droga que serve de porta de entrada para drogas mais pesadas, tiveram a ideia de pegar essa lógica e aplicar na questão das armas. Acaba de ser aprovada na Comissão de Segurança Pública [sic] e Crime organizado a PL 7785/2014, que autoriza a comercialização entre os cidadãos do nefando spray de pimenta. O próprio autor do projeto, deputado Onyx Lorenzoni, do DEM, assume que a intenção é "acabar com a farsa do estatuto do desarmamento", permitindo uma abertura para que no futuro possa ser votado o acesso às armas de fogo.



Ser civilizado não é praticar ou se deleitar com linchamentos e justiçamentos públicos, com a selvageria de presos sendo decapitados, é defender o Estado de Direito onde a justiça e a lei sejam respeitadas até para criminosos;

Ser civilizado não é propor redução de lei de maioridade penal como solução para crimes praticados por menores, é defender a difícil missão de mudar a nossa realidade social para que os jovens possam ter acesso a estudo de qualidade e emprego digno, tornando assim o crime uma opção menos sedutora;

Ser civilizado não é fazer pouco caso dos Direitos Humanos, por se reconhecer que, no mínimo, seria burrice tratar criminosos como animais, e depois ser vítimas desses mesmos criminosos duas vezes mais brutalizados nas ruas;

Ser civilizado não é culpar os trabalhadores pela crise do capitalismo, usando a própria crise como pretexto para que os mais pobres paguem a conta, sem tocar nos privilégios dos ricos;

Ser civilizado não é criar um factoide para um golpe parlamentar que retira do poder um governante que desagrada setores do sistema financeiro e das elites, é respeitar os trâmites legais do sistema eleitoral, sabendo que só se pode mudar um presidente no voto ou com crimes comprovados;

Ser civilizado é não propor violência como solução de violência, não é ficar feliz quando a polícia usa de seu despreparo brutalizado para chacinar parcelas inteiras da população ou para reprimir protestos pacíficos, e sim defender a igualdade e a democracia como preceitos básicos de qualquer sociedade.

Enfim, ser civilizados é tudo o que não somos.

3 de maio de 2017

O brasileiro aprendeu a protestar na prática. Só falta a teoria

O brasileiro aprendeu a protestar na prática. Só falta a teoria

Desde 2012, pelo menos, o brasileiro aprendeu a ir para as ruas com mais frequência para reivindicar seus direitos, ou para protestar sobre alguma medida que o desagrade. De uma forma espontânea que até hoje gera debates entre os especialistas, a população se mobilizou e chegou a colocar um milhão de manifestantes nas principais cidades do país.

Naquela época, o movimento começou contra o aumento abusivo das passagens de ônibus em algumas das capitais do país, organizado pelo Movimento Passe Livre. Aos poucos, no entanto, a indignação perdeu o foco. Diversas demandas foram entrando na pauta, temas que pouco tinham a ver com transportes públicos, que iam desde a falta de professores nas escolas até o problema da saúde pública.

Até que se chegou a esse tema superficial, genérico, inócuo e falacioso do "combate à corrupção". Corrupção de quem? Quando? Aonde? Ninguém sabia dizer, ou dizia genericamente "do governo", ou "dos políticos em geral". Nesse momento, o Movimento do Passe Livre já não tinha mais nenhum controle sobre as reivindicações. Isso foi bom ou ruim?

Bom, se levarmos em conta no que deu, veremos que foi ruim. Sem uma diretriz, as manifestações viraram passeatas alegres, sem sentido, onde as pessoas iam para participar da "festa da democracia", como se dizia nas mídias. Aliás, uma das grandes desvantagens da perda de foco dos protestos foi permitir que a Globo pautasse as reivindicações.

Assim, como deixa muitíssimo claro o professor Jessé Souza no seu livro A Radiografia do Golpe, onde ele mostra ponto a ponto o momento da virada, em que os protestos saem do controle espontâneo da população para as mãos da Globo, toda a indignação contra os empresários de ônibus virou insatisfação com o governo Dilma e a "corrupção do PT". De lá pra cá, com a Globo na batuta dos protestos, aos poucos a classe média reacionária assumiu também as ruas, com suas reivindicações afetadas e deturpadas, que culminaram com o golpe contra a presidente Dilma.

Outros protestos têm sido realizados atualmente com uma base realmente popular, ou pelo menos legítima. Foi assim com a ocupação das escolas pelos alunos Brasil afora. Pode ter sido o começo de um movimento incipiente que vai crescer ao longo do tempo, mas o mais provável é que tenha se perdido uma grande oportunidade de revolucionar a gestão e a qualidade das escolas públicas. Porque não existe um planejamento prévio daquelas metas que se pretende atingir. Pelo menos nesse caso é louvável que os estudantes tenham se reunido em assembleias para propor as medidas e votar as questões, mas o fato de nada ter acontecido de relevante e os grupos tenham se desmobilizado mostra que não houve uma sequência planejada. Agora a população ganha as ruas mais uma vez, desta vez contra as medidas draconianas do governo ilegítimo.

Para vencer a indiferença ou a manipulação desse câncer brasileiro chamado rede Globo, e principalmente para não repetir os erros de 2012 e 2013, é preciso planejar cuidadosamente os alvos que se quer atingir. E pra isso, é preciso sim, ao contrário do que pregam algumas correntes pós-modernas, uma vanguarda diretora, que dita os caminhos e corrige os rumos, não se deixa levar pela apatia e que está sempre pronta a lutar, como as centrais sindicais e os partidos políticos. Mobilização espontânea é como um carro sem motorista, o primeiro que sentar o dirige para qualquer lado.

1 de maio de 2017

Devemos nos solidarizar com policiais militares?


Falar sobre a violência das polícias militares pelo Brasil afora é sempre um tema muito difícil. A conduta violenta dos PMs induz a opiniões negativas sobre os soldados da linha de frente da ação, cumpridores de ordens — às vezes com um afinco exagerado — dos escalões superiores. Os agentes da lei e da ordem vão às ruas com uma missão pré-determinada: inibir todo e qualquer tipo de manifestação popular, seja ela pacífica ou não.

Dessa forma, só conseguem angariar as antipatias das camadas populares, incomodadas com o tipo de vida que levam, além de lutarem por direitos e mudanças sociais, e que têm seu livre direito à manifestação vilipendiado pela agressividade de policiais militares.

O problema é exatamente que estes policiais foram designados para defender a ordem estabelecida, esta que favorece aqueles poucos privilegiados em detrimento da maioria da população. E para piorar ainda mais as coisas, grande parte do efetivo de praças, pra não dizer a maioria esmagadora, é colhida no seio das classes mais pobres e não das classes médias ou altas — estas costumam frequentar a oficialidade, reproduzindo nas forças policiais militares o espectro da divisão de classes da sociedade.

Cenas como essa não contribuem para a boa imagem dos policiais.
  Exatamente por isso, é ainda mais desprezível o que estes militares fazem com os seus amigos, parentes e vizinhos. É preciso entender que ser policial não é uma profissão qualquer. Ela tem especificidades complexas porque foi estabelecida para uma função não assumida publicamente. Eufemisticamente diz-se que os policiais estão nas ruas para "defender o cidadão", mas isso não é verdade. A polícia foi feita para garantir a propriedade privada e o tipo de vida que não seja perturbada pelas reivindicações dos de baixo. Esse papel vulgar de cães do capital os policiais não gostam muito de lembrar.

Está mais do que provado que o problema não é o policial em si, mas a corporação militar que o animaliza, o destra e o desumaniza em nome da defesa do status quo. Uma das grandes necessidades atuais da nossa combalida democracia é acabar com a polícia militar. E em seu lugar, propor uma polícia cidadã, desmilitarizada e portanto, despida dos dogmas que transformam seres humanos em animais.

Mas quem tem coragem de propor este debate quando a sociedade, induzida pelo medo que os veículos de comunicação almentam 24 horas por dias em seus programas policiais diários, quer, pelo contrário, mais violência?