23 de março de 2017

É o fim da Era Vargas



Demorou quase 80 anos, mas finalmente as elites nacionais conseguiram destruir o legado daquilo que ficou convencionalmente conhecido como “getulismo” no século XX. Depois de um suicídio em 54, duas tentativas de impedimento de assumirem a presidência da República (uma de Juscelino em 55 e outra de Jango em 61), conspirações, um golpe militar em 64, uma ditadura, um governo neoliberal nos anos 90, finalmente o golpe final no legado de Getúlio Vargas foi dado de forma direta: a proteção social da Previdência e a Consolidação das Leis do Trabalho foram destruídas.
Para isso, é claro, duas condições primordiais foram decisivas. Um governo ilegítimo e uma esquerda enfraquecida ao mesmo tempo. Em 54, Getúlio Vargas já sofria as pressões de uma classe dominante reacionária e mesquinha, infiltrada em setores diversos como as Forças Armadas, a Igreja Católica, o empresariado e a imprensa.
Seu suicídio serviu como ato político que mobilizou o país, assustou a direita e refreou sua sanha golpista. Em 1955 eles ainda tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek por suas ligações políticas com o “getulismo”, mas um marechal nacionalista como Henrique Teixeira Lott ainda existia naquela época e garantiu a posse.
Em 61 foi a vez dos ministros militares capitaneados pelo abjeto marechal Odílio Denys e seu antigetulismo cego tentarem impedir a posse do vice-presidente João Goulart pelo mesmo motivo, mas a bravura de Leonel Brizola e do povo gaúcho seduziu Machado Lopes, comandante do III Exército para o lado dos legalistas.
Em 64 veio o golpe e a ditadura militar, mas nem os golpistas tiveram a coragem de mexer nos direitos trabalhistas. Os movimentos sociais, os sindicatos e muitos combatentes da esquerda estavam vigilantes nesse período, e temia-se a repercussão de um ato tão severo.


Durante o governo neoliberal dos tucanos de 1994 a 2001, Fernando Henrique Cardoso decretou publicamente que ia acabar com a Era Vargas. Vendeu o país, destruiu empregos, privatizou empresas estratégicas, mas a CLT, apesar das ameaças, continuava resistindo.
Foi preciso que um governo ilegítimo, sem voto, sem projeto nacional, apenas com compromisso de servir de capacho ao capitalismo entrasse em cena, se aproveitando da fraqueza de uma esquerda abatida com as traições do PT, para que finalmente o sonho das elites desse país se concretizasse: em menos de um ano, inviabilizaram a aposentadoria de milhões de pessoas, enquanto retiravam os direitos de milhões de trabalhadores.
Tudo isso sem tocar em um privilégio sequer das elites. As novas regras da Previdência e o decreto de morte da CLT representam os maiores golpes que os brasileiros já receberam desde a fundação deste país. Na verdade, se olharmos através de um panorama mais geral, estes foram apenas dois grandes golpes num conjunto de incríveis abusos cometidos pelas classes dominantes desde a posse de Temer, especialmente em três setores: na Justiça, na Política e na Imprensa.
Começou com a farsa do golpe que tirou uma presidente, mais uma vez, do poder, porque não agradava cem por cento os setores capitalistas; depois a votação, às pressas, das novas regras da Previdência; a seguir uma reforma do Ensino feita com empresários que inviabiliza uma geração de futuros seres críticos e pensantes; a mudança na partilha do pré-sal que entrega de bandeja para os estrangeiros aquilo que serviria para produzir recursos para a Educação e Saúde públicas; esfriamento das relações com os membros do BRICS que propõem um contraponto à política internacional dos Estados Unidos e seus interesses imperialistas; um pacote de austeridade que prevê cortes em investimentos no país em pelo menos 20 anos, sem, no entanto, questionar o pagamento dos juros da dívida pública, verdadeiro buraco sem fundo que serve para enriquecer os parasitas das classes dominantes.
Esse é o panorama em que as classes médias alienadas com o apoio da rede Globo nos meteram. Só existe duas saídas: o povo sair do seu transe e ir para as ruas numa greve geral, ou mais pacificamente como é do nosso feitio, eleger um candidato em 2018 que prometa reverter todas esses ultrajes que estão sendo feitos com o povo brasileiro. Nunca lutar foi tão imprescindível. Nossos netos não perdoarão nossa covardia, se os legarmos este monstro que está sendo parido.

6 de março de 2017

O caso IG Farben: genocídio judeu em nome do lucro na II Guerra

Fábrica da IG Farben, na Polônia

Até que ponto devemos compreender empresas privadas que cooperaram com o massacre de milhões de seres humanos na Alemanha nazista? Terão sido também vítimas do sistema, sem escolha, a não ser fazer parte da máquina de matança do Terceiro Reich? Ou foram oportunistas imorais? E seus funcionários? Culpados ou inocentes? Aqueles que cumpriram a pena imposta pelo Tribunal de Nuremberg depois da Guerra, limparam seus nomes perante a sociedade ou carregarão para sempre a marca da infâmia? Todas estas perguntas são difíceis de responder. Algumas empresas alemãs precisam conviver com estes dilemas em sua história.

As indústrias químicas alemães no final da Segunda Guerra já haviam chegado a níveis abissais de desumanidade. Dentre elas, a IG Farben, um conglomerado de empresas alemães que na época era a quarta maior empresa do mundo. Durante a Segunda Guerra, ela passou a produzir borracha sintética para atender a demanda do exército nazista – e para isso, não se furtou a usar trabalho escravo dos prisioneiros dos campos de concentração.

IG Farben factory in Monowitz 1941 Fábrica da IG Farben, 1941

A instalação da fábrica na região onde também foi assentado um dos maiores campos de  concentração nazistas, em Auschwitz, na Polônia, foi fruto de um golpe de sorte. Heinrich Himmler, comandante da SS, queria fundar uma colônia alemã na Polônia para aproveitar a grande oferta de mão-de-obra de prisioneiros, enquanto o Dr. Otto Ambros, um executivo encarregado da borracha na IG Farben, sem saber, apontou no mapa o mesmo local como o ideal para a nova fábrica, por ficar perto de rios e ter uma ótima conexão ferroviária. A partir de então Ambros e Himmler juntaram interesses numa relação simbiótica: Auschwitz forneceria mão-de-obra escrava para a fábrica, e a IG Farben entraria com dinheiro e material de construção para a colônia alemã.

O relato de maus tratos, condições bárbaras de vida e assassinatos são de arrepiar. Ao tomarmos conhecimento do testemunho de um operário chamado Rodolf Vrba, transportado para Auschwitz em junho de 1942, podemos ter uma ideia:

Os homens corriam e caíam, eram chutados e fuzilados, Kapos de olhos insanos abriam um ensanguentado caminho por entre prisioneiros retardatários, enquanto homens da SS atiravam sem mirar (...) Homens calados, em roupas impecáveis, passavam no meio de cadáveres que não queriam ver, medindo madeiras com vistosas escalas amarelas, tomando precisas notinhas em cadernetas de couro negro, indiferentes ao banho de sangue.

Com o fim da Guerra, 24 membros do Conselho da IG Farben foram denunciados pelos Estados Unidos e levados a julgamento em agosto de 1947, no Tribunal de Nuremberg. Foram acusados de saque e espoliação, escravidão e assassinatos em massa. Dos 300 mil trabalhadores escravos da fábrica, mais de 30 mil morreram. As sentenças, no entanto, foram leves para os condenados. Oito anos de prisão foi a pena mais severa (caso de Otto Ambros) e um ano e meio a mais comum.

 

nurembergTribunal de  Nuremberg

O general americano Eisenhower estava determinado a desmantelar a IG Farben após a guerra, pois era um símbolo da corrupção e da desumanidade do regime nazista. O Conselho de Controle Aliado ficou responsável por esse processo, mas  não fez nada até ser substituído pela Alta Comissão Aliada Ocidental, em 1949. A partir daí, o processo de desmembramento da IG Farben foi completamente frustrado por interesses econômicos. A IG Farben sobreviveu e se consolidou em três das suas antigas companhias: a Bayer, a BASF e a Hoechst. Pra piorar, em 1955, Friedrich Jaehne, sentenciado a um ano e meio em Nuremberg, foi eleito presidente da Hoechst. No ano seguinte, Fritz ter Meer condenado por saque e escravidão, foi eleito presidente do Conselho Supervisor da Bayer.

A fábrica Buna, em Auschwitz, sobreviveu à Guerra e está em plena operação até hoje.

Fonte:

CORNWELL, John. Os Cientistas de Hitler. Ciência, Guerra e o Pacto com o Demônio. Ed. Imago. Rio de Janeiro: 2003

3 de março de 2017

Como a publicidade ataca a democracia

censura do dinheiro

Se existe um lugar onde o pensamento dominante de uma sociedade pode ser mais bem propagado, esse lugar é na imprensa. Numa sociedade capitalista como a nossa, onde a democracia não passa de uma fachada para ocultar a manutenção de privilégios de uma classe cujo poder econômico é colossal, as mídias atuam na construção e manutenção de um modelo único de pensamento, com diversas maneiras de vetar, desacreditar ou ocultar modelos de mundo rivais aos seus, que venham a contestar esse tipo de realidade.

Um desses métodos se dá através da publicidade e do financiamento de projetos na área da Comunicação, que coincidam com as visões políticas e econômicas das classes dominantes.

Métodos de controle da sociedade

A sociedade industrial burguesa foi moldada para o controle da opinião pública, desencorajando ideias ou reivindicações de reforma ou mudanças de sistema. Tendo como modelo os Estados Unidos, berço do marketing e da publicidade que forja uma democracia de espectadores/consumidores e não de cidadãos atuantes, as elites do Ocidente aprenderam dois métodos para exercer esse domínio sobre as massas: controle da opinião e, em caso de necessidade, força policial.

Durante o século XX, o psicólogo social australiano Alex Carey descreveu a ligação de três instituições políticas que se interligavam em favor das grandes corporações: “as democracias, o poder das empresas e a propaganda das empresas como meio de preservar seu poder democrático”.1

Leia mais: Como as mídias controlam a opinião pública no Brasil

 

O controle das mídias através do dinheiro

Esse modelo de influência das grandes corporações sobre a democracia se dá através de uma série de filtros para orientar a produção das mídias, detonando qualquer resquício de uma imprensa livre e imparcial. Um deles é dependência em relação à publicidade. Neste modelo altamente comercial, as mídias vendem menos informação para um público do que de um público para seus próprios anunciantes. Nós, leitores e telespectadores, somos o próprio produto de barganha das grandes mídias para vender publicidade.

Segundo o escritor canadense Normand Baillargeon2, estima-se que 70 a 90 por cento das receitas de um meio de comunicação provenham da publicidade. E quem paga pela propaganda, deseja que os programas de rádio e televisão ou páginas de um blog ou jornal sejam ambientes favoráveis aos seus negócios.

Eles não chegam a determinar diretamente o conteúdo dos programas ou textos de sites, mas fazem isso de forma muito mais sutil: quem segue a sua política, ganha patrocínio e cresce; quem segue uma linha crítica, contestadora ou diferente, por exemplo, não recebe patrocínio e sofre para se manter.

Blogosfera também é controlada pela publicidade

Quem é escritor de blogs como eu, por exemplo, tem duas opções: ou escreve por prazer e para espalhar as suas ideias por aí, ou, além disso, para ganhar dinheiro na internet. Quem opta pelo segundo caso, sabe que antes de começar a ganhar algum dinheiro, tem que passar pelos diversos filtros dos programas de monetização, como o Google Adsense, o Lomadee, entre outros. Alguns desses filtros tem cunho moral, como por exemplo, não ter conteúdo adulto (erótico), insultos raciais, apologia às drogas, etc. Nesses casos seu blog não consegue permissão de fazer publicidade e ganhar dinheiro. Mas outros filtros são obscuros, secretos e nunca divulgados.

Pensamentos críticos não têm vez

Estes, críticos, não conseguem bons patrocínios; os demais que se enquadram em sua política comercial, conseguem. É uma regra que vale para qualquer tipo de mídia e outras áreas – e o pior, até para trabalhos acadêmicos. Certos temas sensíveis ao sistema são desencorajados por professores descompromissados com a crítica social.

Percebem como isso é danoso para a democracia, e ajuda a perpetuar um modelo tendencioso e parcial, que favorece as grandes empresas e cala as vozes alternativas e críticas?

É claro que o governo brasileiro precisa urgentemente atuar na regulamentação e na democratização das mídias brasileiras, para que o poder econômico não se sobreponha mais aos interesses da população em uma área tão crucial para a democracia quando a comunicação. As mídias não podem se pautar pelo poder econômico, se quisermos que a informação não seja uma mera mercadoria a serviço dos monopólios de algumas poucas famílias, que impõem uma visão de mundo tendenciosa enquanto condena todas as visões opostas à marginalidade.

Leia mais em: Pensamento crítico como arma de autodefesa intelectual


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1 BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico. Um curso completo de autodefesa intelectual. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2007, p. 198 (grifo meu)
2 Idem