26 de fevereiro de 2017

A supremacia do Ocidente sobre o resto do mundo (2/2)

map-creative-commons-e1458144143904

No final da última Era Glacial, há aproximadamente 12 mil anos, o reaquecimento da Terra teve consequências em todos os lugares, mas impactou positivamente muito mais algumas regiões geograficamente melhor localizadas, nas latitudes entre 20º e 35º Norte no mundo antigo, onde a temperatura adequada fez crescer uma variedade de cereais e mamíferos domesticáveis.

Favoreceu, dessa forma, o advento da agricultura nestas áreas. Não aconteceu porque as pessoas destas regiões fossem mais inteligentes ou esforçadas; a natureza havia simplesmente lhes dado mais abundância do que em outros lugares. Foi no Crescente Fértil que a Agricultura surgiu, por volta de 7.500 AEC, depois na China e no Paquistão (5.500 AEC) e no México e Peru, e daí, com o desenvolvimento e difusão de técnicas agrícolas, para o resto do mundo.

Muita gente há de pensar que, desde o surgimento da agricultura no oeste da Ásia — e a reboque dela, de grandes cidades-estados e civilizações avançadas — que o Ocidente está na vanguarda do progresso humano, no topo da escala do desenvolvimento, sendo sempre a região mais rica, mais poderosa e mais sofisticada do mundo, o que não é verdade.

Por mais de mil anos, entre 600 e 1700 EC, esse posto foi ocupado pela China. Enquanto a Europa vivia uma fase de estagnação cultural, os chineses formaram um grande reino unificado. Ian Morris afirma que:

Enquanto os portugueses tentavam descer a costa oeste da África no sec. XV, os imperadores chineses lançavam frotas enormes que viajavam por boa parte do Oceano Índico sob a liderança do almirante Zheng He, que arrecadavam tributos em cidades da Índia, visitaram Meca e chegaram até o Quênia. Se Colombo liderou três navios e 90 marinheiros, Zheng esteve à frente de 300 embarcações e 27.870 homens.

A geografia favorável foi a grande responsável pelo sucesso de algumas regiões na Antiguidade e na Idade Média, mas também foi por causa dela que estas mesmas regiões declinaram em outras épocas, conforme novas contingências, tais como o comércio, se deslocavam para o oeste cada vez mais.

Das cidades italianas de Gênova e Veneza — com a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos — o centro de comércio europeu se deslocou do Mediterrâneo para o Atlântico, favorecendo primeiro cidades como Lisboa e Madri, e logo depois, Londres. A Grã-Bretanha, há 4 mil anos, era uma região de povos tribais, longe dos grandes centros de civilização como os vales do Nilo, do Indo e do Rio Amarelo, onde cidades grandiosas haviam se estabelecido. A geografia não a favorecia nesse período. Mas há 400 anos, com o deslocamento do eixo do comércio para o oeste da Europa, a mesma geografia que a prejudicava antes, agora a favorecia.

A Inglaterra estava de frente para o recém-descoberto continente do Novo Mundo, numa época em que se procurava por novas colônias e matérias-primas. O caminho entre a ilha britânica e a América pelo Oceano Atlântico era a metade da distância da China para o Novo Mundo pelo Pacífico. Estava inaugurada a Era de domínio ocidental do planeta.

Mas, curiosamente, a história continua se deslocando para oeste. Depois das Duas Guerras Mundiais, a supremacia econômica, cultural, política e militar sai das mãos dos britânicos e vai para a ex-colônia americana, que durante algum tempo, ainda teve que disputá-la com a antiga rival de Guerra Fria, a URSS.

Vencida, a União Soviética abriu caminho para que os EUA se tornassem a única potência hegemônica mundial. Na falta de um grande adversário para satanizar, aos moldes da União Soviética, a partir dos anos 90 os Estados Unidos elegem as regiões petrolíferas do Oriente Médio como a bola da vez, provocando guerras e intervindo diretamente na região, derrubando governos, apoiando regimes ditatoriais e guerras, cultivando inimigos e batizando-os com a etiqueta genérica de “terroristas”.

Reagindo ao que consideram uma violência xenófoba-religiosa-econômica dos Estados Unidos contra os povos árabes, que são invadidos e desrespeitados em seus assuntos internos, grupos fundamentalistas como a Al Qaeda de Osama Bin Laden planejam atentados contra o Império pelo mundo afora, que culminam no ataque às Torres Gêmeas do WTC há  15 anos.

O terrorismo da reação do governo americano não foi menor do que o produzido por Bin Laden. Muito pelo contrário. Neste últimos anos, 900 mil pessoas foram assassinadas pela “Guerra ao Terror” no Oriente Médio — um número de mortes 300 vezes maior do que as vítimas do WTC.

 
IRQ_War_dead_2_f_77
 
 
iraq-hospital
 
economia-de-guerra
 
 
PrisindeGuantnamofotoAgenciasFoto8
 
 
victm of war
 
ach12
 
Tudo isso mostra que o Ocidente, que domina o mundo nos últimos 400 anos, não tem nada de especial, não estão no topo da civilização mundial e tem nenhum direito de se impor ao resto do mundo. Está apenas exercendo uma hegemonia temporária, enquanto se recusa a estabelecer um diálogo de respeito com aqueles que não compactuam com a sua visão de mundo.
 
Esta falta de entendimento entre Ocidente e Oriente é antiga e piorou muito com a hegemonia americana. Ao que tudo indica, ao olharmos o trajeto que a história tem feito no mapa nos últimos séculos, é provável que a China supere o Ocidente entre 2050 e 2100 e reconquiste a sua posição de hegemonia econômica, política e militar no planeta.
 
Será o fim do efêmero domínio dos Estados Unidos e do Ocidente. Resta saber se a transição será pacífica, ou causará mais guerras e mortes de inocentes no futuro.

15 de fevereiro de 2017

A supremacia do Ocidente sobre o resto do mundo. O que explica esse fenômeno? (1/2)

Domínio do Ocidente sobre o Oriente

Quase 16 anos depois do que é conhecido como o “maior atentado terrorista de todos os tempos”, fruto, em grande parte, do relacionamento historicamente hostil entre o Ocidente e o resto do mundo, nos propusemos a debater o 11 de Setembro e seus antecedentes por um outro ângulo: por que o Ocidente domina o mundo, às vezes de forma violenta, gerando ódios que resultam em atentados e guerras? Superioridade racial, como pensam alguns? Democracia desenvolvida? Tecnologia avançada? Missão divina? Nada disso. A resposta pode estar simplesmente na geografia.

“Eu estou usando suas roupas, falo sua língua,
assisto a seus filmes, e hoje é a data que é porque você determinou que fosse assim.”

Shad Faruki, advogado malaio a Martin Jacques, jornalista britânico, numa entrevista em 1994

Terça-feira, 11 de setembro de 2001. Naquela manhã, nos Estados Unidos, aviões são jogados nos prédios do World Trade Center e no Pentágono (um quarto avião com destino ao Capitólio foi abatido antes do alvo por passageiros). Começava o maior atentado terrorista da história, que sensibilizou o mundo Ocidental e fomentou uma rápida e agressiva reação. Grande parte da motivação para uma ação de tamanhas proporções é o ressentimento, o ódio contra países ocidentais que impõem seu modo de vida ao resto do mundo. Parece que o Ocidente — quando dissermos “Ocidente” aqui estaremos nos referindo especialmente à Europa e aos Estados Unidos — sempre esteve na vanguarda da civilização, devendo impor sua visão de mundo a regiões menos avançadas, numa espécie de missão civilizadora dada por deus. De fato, o Ocidente hoje domina, mas será que sempre foi assim mesmo?

Ao longo do tempo muitas teorias concorreram para explicar esse fenômeno: superioridade racial; dinamismo da civilização; democracia forte; cristianismo que incentiva a disseminação de preceitos universais, etc. Mas nada disso se justifica. Sabemos hoje, que, não obstante a política de racialização dos arautos do multiculturalismo, a humanidade é praticamente igual no mundo inteiro; não existe tal coisa como superioridade racial ou intelectual. Portanto, teorias racistas para explicar o domínio do ocidente hoje estão descartadas por estudiosos sérios.

Muitos pesquisadores afirmam que o Ocidente tem algo de único e especial, como seu avançado conhecimento e produção intelectual. Sócrates, Newton, Leonardo Da Vinci são exemplos dessa característica ocidental de genialidade. Só mesmo uma visão altamente eurocêntrica poderia sustentar tal ideia. Existem tantos pensadores brilhantes fora desse nicho europeu que chega a colocar o continente como um mero ponto isolado no mapa, dentre tantas outras regiões de cultura que floresceram na história do mundo em várias épocas. Enquanto a Europa vivia a queda da civilização greco-romana e um período de declínio cultural, o Oriente médio produziu grandes matemáticos, astrônomos, médicos, enquanto a China de Confúcio mais tarde teve seus próprios “homens do Renascimento” — 400 anos antes da Europa! O que dizer de Shen Kua (1031-1095), autor de obras pioneiras sobre agricultura, arqueologia, cartografia, meteorologia, literatura, filosofia, etnografia, geologia, matemática, medicina, metalurgia, música, pintura e zoologia? O próprio Leonardo Da Vinci ficaria impressionado.

Segundo o historiador e professor da Universidade de Stanford, Ian Morris, “os humanos podem ser todos quase iguais onde quer que estejam, mas os lugares em que ele vive não são”. Ou seja, fatores geográficos e climáticos podem influenciar o desenvolvimento de certas regiões em detrimento de outras. A geografia, segundo este historiador,  é a chave para entendermos por que determinadas civilizações prosperam e decaem ao longo do tempo. Clique no link abaixo e acompanhe a segunda e última parte desta postagem:

A supremacia do Ocidente, parte 2

8 de fevereiro de 2017

Ilhas Malvinas: 35 anos depois da guerra, ainda sem solução

Disputa entre Argentina e Inglaterra pelas ilhas Malvinas

Desde o século XVII que as ilhas descobertas a 500 Km da costa atlântica da América do Sul — e a 14 mil Km do Reino Unido — causam controvérsias entre espanhóis e ingleses, e depois entre estes e os argentinos. Há quase 180 anos — desde janeiro de 1833 —, depois de algumas pequenas disputas sobre o território, a Inglaterra envia uma fragata e anuncia a ocupação destas ilhas pelo Império Britânico, chamadas de Malvinas por argentinos e Falkland por ingleses.

Malvinas ou Falkland

 


Visualizar Ilhas Malvinas em um mapa maior

 

Quando os militares brasileiros tomaram o poder político à força em 1964, foi possível conhecer a posição ideológica de quem se pronunciava sobre o assunto, pela forma que classificava o ato. Revolução ou Golpe? A disputa sobre quem tem razão no caso das ilhas sul-americanas gera uma situação semelhante: é possível saber a visão sobre a questão das ilhas somente observando como as pessoas as nomeiam. Aqui eu chamo as ilhas de Malvinas, e não Falkland, e isso já mostra como eu me posiciono a respeito do tema.

Contexto

A Argentina da primeira metade do século XIX era então um jovem país que lutava para ter sua Independência reconhecida no mundo, sem condições de enfrentar a poderosa marinha britânica. Mas no século XX o cenário geopolítico tinha mudado o bastante para a Argentina reforçar sua campanha para a retomada da soberania das ilhas. Entre abril e junho de 1982, a Argentina achou que era hora de combater o invasor, e desencadeou a Guerra das Malvinas, prestes a completar agora 35 anos, sem uma solução definitiva ainda. A Argentina perdeu a guerra, a Junta Militar que governava o país caiu, e o governo conservador de Margareth Thatcher conseguiu mais um mandato nas eleições inglesas de 1983, saindo fortalecido do conflito.

O problema das Ilhas Malvinas hoje

Como resposta a uma maior militarização inglesa na ilha — em 2009 eles também passaram a explorar petróleo na região — os países do Mercosul com costas marítimas decidiram não aceitar que embarcações com bandeiras de Falkland entrem em seus portos. Além disso, diversas resoluções da ONU e da Unasul condenam a Inglaterra por sua insistência em não negociar diplomaticamente com a Argentina uma solução para o caso, preferindo a violação sistemática de águas argentinas.

Por outro lado a União Europeia endossa a posição inglesa, apoiando o resquício colonialista em plena era de globalização.

Uma tática inglesa muito comum acontece nas ilhas. Desde que chegou, a Inglaterra procurou povoar a região com “súditos leais da rainha Elizabeth II”. A partir disso, qualquer tentativa argentina de reivindicar a soberania da região, é tida como uma ameaça ao povo inglês, e justifica assim uma resposta militar.

Por falar em resposta militar, eu lembro da postura de um importante país americano nesse conflito: os Estados Unidos. A história é curiosa e merece ser lembrada.

Os Estados Unidos deixam a Argentina a ver navios

Em 1947 quase todos os países das Américas, incluindo a Argentina e os Estados Unidos, assinaram o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) cuja finalidade era defender um membro caso fosse atacado por um país de fora. Uma agressão a um país do tratado seria considerada um ataque contra todos. Em 1982 a Argentina invocou o acordo, pedindo apoio norte-americano contra o que considerava uma agressão do invasor inglês. Em resposta, os Estados Unidos resolveram apoiar... a Inglaterra!

Isso não deveria causar surpresa, a não ser nos mais incautos. Os EUA, além de laços históricos e culturais com os ingleses, também eram signatários da OTAN, e o único interesse político que tinham na América Latina era conter o comunismo.

Como resolver a questão

Ainda há uma saída para a questão das ilhas. Em 1968 o então primeiro-ministro trabalhista inglês Harold Wilson assinou um documento, que não entrou em vigor imediatamente porque em 1970 foi eleito o conservador Edward Heath, que o engavetou. De acordo com este documento, no seu artigo 4, está definido:

O governo de sua Majestade Britânica reconhecerá a soberania argentina sobre as ilhas a partir da data a ser combinada. Essa data será fixada tão logo o governo de sua Majestade Britânica esteja satisfeito com as garantias e salvaguardas oferecidas pelos governos argentinos para defender os interesses dos seus habitantes.

Como se vê, basta à Inglaterra pôr de novo este acordo em pauta, para demonstrar boa vontade e cumprir as determinações internacionais. Seria uma saída digna para Sua Majestade e o fim de um abuso que só seria justificado em épocas de colonialismo.

2 de fevereiro de 2017

Quando a música se presta a fins abomináveis

Tortura da música comercial
A “arte das musas”, ou simplesmente a música, é, sem dúvida, uma das criações mais sublimes do homem. Talvez não existam grupamentos humanos, clãs, tribos ou civilizações ao longo de toda a jornada humana neste planeta que não tenham suas próprias músicas, seja como forma de arte, como forma de transmitir valores, ou como forma de entrar em contato com o sagrado.
 
Mas infelizmente, muitas invenções humanas que na sua essência tinham princípios nobres, ao longo do tempo foram sendo corrompidas para fins espúrios. É claro que a música não iria escapar a esta perversa tendência humana.
 
Não cabe aqui uma complexa e profunda análise da história da música em todos os seus gêneros e subgêneros, apenas um pequeno panorama histórico a partir da ascensão da burguesia no Ocidente para chegarmos até a atualidade e compreendermos a progressiva degeneração da música.
 

O capitalismo na música

Até o final do século XIX, a música era um requinte das classes mais elevadas. A crescente classe burguesa tinha na música erudita o reflexo da sua sociedade: organizada, complexa e elitizada. Somente com o industrialismo, a urbanização e com a cultura de massas, é que a música popular passaria a ser reconhecida e a ter também o seu valor. No entanto, durante o século XX, a indústria capitalista do consumo conseguiu transformar a espontânea manifestação popular em produto descartável de consumo, como todo produto industrial. É a obsolescência programada levada também para a esfera da cultura.
 
Melodia, poesia e beleza, letras com teor de crítica social e política foram substituídas por musicas mais curtas, simples, com refrãos pegajosos e letras que falam de relações amorosas superficiais no intuito de “colar” na mente do ouvinte. O samba de raiz, por exemplo, virou pagode comercial; a música regional do interior do país virou “musica sertaneja”, músicas de protesto como o punk rock ganharam versões pop e a Música Popular Brasileira caiu vertiginosamente de qualidade nos últimos anos com músicas pobres criadas nos escritórios das grandes gravadoras com artistas fabricados, como já descartado Michel Teló e companhia.
 

Jingles de campanha política e música gospel

Muita gente esperta percebeu, há tempos, que a música tem a capacidade de baixar nossa guarda, nos influenciar, mexer com nossas emoções e deixar marcada na mente uma mensagem. Os religiosos evangélicos trataram logo de vetar as músicas “do mundo” e criar suas próprias canções gospel com apelo emocional para ganhar a mente dos fiéis, enquanto que os políticos optaram por criar jingles de campanha em épocas de eleições para ganhar o voto dos eleitores, com refrãos pegajosos e repetitivos, usando a mesma fórmula das músicas comerciais de hoje – inclusive muitas vezes eles utilizam até o mesmo “sucesso” do momento nas rádios, com a letra adaptada para a campanha.
 
Tudo isso é a subversão da beleza e da magia que é a música. Infelizmente a grande maioria das pessoas está tão acostumada à pobreza musical dessa sociedade de massas, da indústria do entretenimento, da cultura descartável, que chega a confundir esse tipo de música fast-food, pobre, vazia, com a própria música em si. Aliás, a música é apenas uma das coisas que essas pessoas engolem sem critérios nem escolha. Apenas engolem.