13 de novembro de 2017

Luciano Huck já sentiu na pele o que você passa para sobreviver?



O empresário e apresentador Luciano Huck começa a discutir com partidos, especialmente o PPS de Roberto Freire, a possibilidade de se candidatar a presidente da República no ano que vem.

Um nome que sai da cartola das classes dominantes

Seu nome surpreende num primeiro momento, pois o apresentador, apesar de ser um legítimo representante do eleitorado coxinha paulista e aparecer em eventos com políticos da direita, nunca foi versado em assuntos políticos.

Mas basta uma reflexão breve e logo se entende. Primeiro, de forma oportunista como é do seu feitio, quer pegar carona na onda de desprestígio da classe política, por conta dos diversos escândalos de corrupção, para se apresentar como o "não-político", estratégia já utilizada por João Dória, à direita na foto acima, com o próprio Huck. Como se apenas na política houvessem homens desonestos, corruptos e interesseiros, e na classe empresarial só os puros e santos.

Saiba mais sobre Huck e seu oportunismo, no mau sentido, em O que Luciano Huck tem na cabeça.
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Segundo, tal como em 1989, temendo um segundo turno entre Lula e Brizola, duas opções fora de questão para as classes dominantes, a Globo teve que fabricar um Collor por falta de opção na direita; este ano Huck está sendo preparado para assumir esse vácuo mais uma vez, diante da fraqueza de possíveis candidatos da direita como Alckmin e Dória (Aécio é um morto-vivo político e nem se conta). 

Portas abertas para quem nasce em berço de ouro

Pois é isso, Luciano Huck, judeu de família rica, abriu  caminho na TV com seus contatos da alta sociedade e seus recursos financeiros. Jamais seria aquele seu amigo carismático da escola que todo mundo dizia que tinha talento para ser artista. Mas... um empurrãozinho de um figurão aqui, um empréstimo de papai ali, uma porta aberta por um conhecido de alguém da TV acolá, uma pessoa influente da família que apoia e... Pam! Lá está Luciano Huck fazendo fama e fortuna nas tardes de sábado na TV.


E agora este filho ilustre da riqueza e da elite quer ser presidente. As perguntas óbvias são: para quem, cara pálida? Pra quê?

Para que o Brasil continue sendo Casa Grande e Senzala

Somos sonhadores utópicos e acreditamos que um presidente do Brasil deveria lutar para acabar dois de nossos problemas primordiais: a desigualdade econômica, étnica e social,  fruto da pior distribuição de renda do mundo, onde 6 pessoas, acreditem se quiserem, acumulam pra si o mesmo que 100 milhões de brasileiros tem como renda.

Será para os pobres que vai trabalhar Luciano Huck? Não estou falando de medidas paliativas como a esmola da caridade cristã e bolsa disso ou daquilo que atenua mas não resolve. Estou falando de resgatar essas pessoas para acabar com o abismo da desigualdade de forma definitiva.

Como poderá o apresentador lutar para acabar com um cenário que lhe é absolutamente favorável? Quem será a babá dos seus filhos se a mulher pobre puder estudar e ter um emprego mais bem colocado? Quem vai dirigir seu carro? Ser o mordomo da sua casa? Quem vai ser a empregada que vai lavar o seu banheiro sujo, se não tiver aquela mulher com 5 filhos, sem marido e sem perspectiva, tendo como única alternativa aquela função que sua bisavô fazia na casa do coroné da Casa Grande — este, ancestral de alguns dos ricos de hoje?

Seria pedir demais.

Qualquer cidadão brasileiro que preencha os requisitos exigidos pela Constituição pode pleitear a presidência da República brasileira. Não vou questionar esse fato. Agora se você é pobre, trabalhador, não faz parte daqueles seis privilegiados que detém metade da fortuna do país e nem é beneficiário direto deles como Luciano Huck, por que você votaria nele? Porque ele é famoso e parece ser simpático na TV?

Então, amigo ou amiga, o problema não é Luciano Huck, o problema é você.

"Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas"
                                                                                                      Leon Tolstoi

Concorda? Discorda? Tem uma opinião sobre o assunto? Não deixe de fazer um comentário abaixo. Vamos debater um pouco, conversar é sempre importante para esclarecer todos os problemas em questão.

6 de novembro de 2017

Será o fim do capitalismo? Jovens americanos querem o socialismo no seu lugar



O capitalismo mundial está capengando para a morte. Desde a crise de 2008, muitos países ainda sofrem as consequências de um sistema onde o mercado e seus agentes transformam o universo financeiro em um cassino de orgias, onde um dinheiro volátil e sem lastro enriquece um pouco mais, da noite para o dia, diversos "players". No entanto, quando a banca quebra...

Lucros privados, prejuízos socializados

Somos nós, os que não somos convidados a jogar, a participar da festa e tirar proveiro dos lucros, que pagamos a conta, através dos nossos impostos ou às custas do nosso emprego. Muita gente no mundo já está de saco cheio desse destino. E começam a aparecer alternativas. Há quem vaticine a queda do capitalismo, não por conta de alguma revolução popular ou reformas de governo, mas por conta do seu próprio peso. Será como um hipertenso com obesidade mórbida morrer de overdose de hambúrguer do MacDonalds, uma imagem que vem a calhar ao capitalismo nos Estados Unidos.

Um desses profetas do fim do capitalismo é o autor inglês Paul Mason. Em seu livro recém-lançado Pós-Capitalismo, um guia para o nosso futuro¹, ele justamente não apenas indica que a crise de 2008 foi diferente de todas as outras, impossibilitando uma verdadeira recuperação do sistema como no passado, como já propõe ideias que possam substituir o velho capitalismo.

A informática vai matar o capitalismo

A tese central de Paul Mason é de que o avanço da tecnologia, em vez de servir ao capitalismo, vai destrui-lo, pois uma sociedade da informação traz em si todos os elementos para a superação de uma comunidade baseada no mercado. Com a livre informação, caem as bases do capitalismo, quais sejam: monopólios, bancos e governos tentando manter as coisas privadas, escassas e comerciais.


Mas... como todo indivíduo bem intencionado de esquerda que procura superar as mazelas do capitalismo corroborando as falhas teorias pós-modernas, Paul Mason peca em descartar os pressupostos do socialismo como alternativas a este modelo destrutivo financeiro. O próprio autor balança entre os elogios e às críticas ao socialismo, no entanto, sem deixar de mais uma vez alimentar as mentiras do Ocidente contra a época de Stalin, sem contextualizá-la, cometendo graves erros de anacronismo.

Segundo ele, ignorando as lutas de classe, a instrumentalização dos aparelhos de Estado ao dispor das elites, a necessária conscientização das classes trabalhadoras, ou seja, todo o aparato conceitual do marxismo, a transição do capitalismo para um outro modo "de alocar bens racionalmente até que se alcance o equilíbrio" é um desafio meramente técnico, não uma revolução. Ou seja, devemos supor que as grandes elites financeiras, os acionistas das grandes corporações mundiais e os banqueiros de Wall Street simplesmente vão se reunir em Davos e anunciar para o mundo que abrirão mão de todos os seus privilégios acumulados com suor e sangue dos trabalhadores, para defender um sistema mais justo e igualitário para todos... Tudo pacificamente, de cima pra baixo, num surto de piedade jamais visto entre as elites na história.

Tão em voga nesses dias pós-modernos, é falar em redes. Manuel Castells já havia falado sobre o poder em redes em seu livro O Poder da Comunicação, o qual traremos mais detalhadamente numa próxima resenha. Paul Mason propõe "soluções por meios de experimentos de pequena escala, modelos testados que possam ser ampliados em ações do Estado". Pensando de forma foucaultiana, com relação aos micropoderes, pensa em pequenas comunidades semi independentes ligadas em redes até uma instituição "central". É o fim de um poder "absoluto" do Estado malvadão e pesado.

Jovens estadunidenses surpreendem em pesquisa recente

Apesar de não levar em conta a opção do "velho" socialismo para a superação do capitalismo, não obstante ser Marx quem melhor sistematizou uma alternativa ainda no século XIX, uma recente pesquisa surpreendente coloca em xeque o suposto desprestígio do socialismo.

Segundo enquete da insuspeitíssima organização não-governamental Fundação da Memória das Vítimas do Comunismo, fundada pelo ex-secretário de Estado dos EUA Zbigniew Brzezinski, 44% dos jovens norte-americanos se manifestaram a favor do socialismo, enquanto o capitalismo foi apoiado por 42%...

É fato que aqui temos que fazer uma ressalva: 66 por cento não souberam dar uma definição precisa do socialismo, o que não nos causa nenhuma surpresa. Nos Estados Unidos, bastiões do neoliberalismo mundial, o socialismo é alvo de um anátema grosseiro, quase equiparado ao satanismo. Nas escolas, provavelmente o socialismo é tratado numa teia de desinformação, associado a mortes, escravidão, totalitarismos...

Nesse cenário de mentiras e propaganda difamatória plena, sem contrapontos, surpreende a ascensão de uma vaga ideia de justiça socialista no coração dos jovens; de que estão mentindo pra eles; que o verdadeiro mal do planeta é o sistema que eles vivem, o capitalista, como respondeu metade daqueles jovens pesquisados.

Quem poderia dizer que no coração no capitalismo mundial, com toda a propaganda ideológica massiva, começasse a surgir uma geração de jovens que apoiam o socialismo. Que ninguém tenha dúvidas que aqueles números seriam ainda maiores, se lhes fossem dados uma definição mais justa sobre o que é o socialismo.

Dessa forma, ao contrário do que pensa Paul Mason com suas redes pós-modernas de relações descentralizadas e utópicas, o socialismo é, sempre foi e continuará sendo a única verdadeira alternativa para superar o capitalismo e suas mazelas.
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1 MASON, Paul. Pós-Capitalismo - um guia para nosso futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2017

30 de outubro de 2017

José Dirceu faz apelo ao sentimento nacionalista das Forças Armadas. Mas isso existe?

O mês de outubro termina com um apelo do abnegado José Dirceu aos supostos sentimentos nacionalistas das forças armadas brasileiras, inclusive às suas facções de direita, perante o desmonte do Estado, o convite às forças armadas estadunidenses brincarem de guerra contra a Venezuela na nossa Amazônia, à entrega do pré-sal, e outras medidas lesa-pátria do governo Temer.

Dirceu se pergunta:
O que determina e o que expressa hoje o ativismo político entre militares de alta patente? Que sentido teriam as Forças Armadas brasileiras se não defendessem um projeto de nação, de desenvolvimento, a soberania nacional, o pré-sal, a Amazônia, a Amazônia Azul, a indústria de defesa nacional, nossas fronteiras, nosso papel na América do Sul? Nenhum! Seriam apenas polícias a serviço de facções que detêm ou disputam o poder.

Aos militares praças é vedado o direito de opinar sobre questões políticas em nome das forças armadas. Esse papel cabe aos oficiais. E o canal oficial destes "militares de alta patente" é a Revista do Clube Militar, disponível em versão eletrônica na internet. Se José Dirceu tivesse tido o trabalho de ler as últimas edições desta revista, desde meados do ano passado, quando o golpe foi instituído, não teria desperdiçado palavras ao vento.

Pois a alta cúpula militar é justamente isso que ele afirma, "polícias a serviço de facções que detêm ou disputam o poder", se levarmos em conta as visões recheadas de preconceito, conservadorismo, antipetismo e contra o social que são características daqueles artigos.

Na edição 460 de abril-maio-junho do ano passado, em editorial chamado "O fim do princípio" na seção denominada O Pensamento do Clube Militar,  lemos estas palavras:
São cada vez mais frequentes as referências ao final da Operação Lava-Jato. Uns atribuem o pretenso final a uma trama dos políticos que veem as investigações chegando cada vez mais próximas de seu nome. Outros, a certa manobra maquiavélica de cabeças coroadas para evitar novos desdobramentos, envolvendo outras estatais e fundos de pensão das mesmas, ou o BNDES, ou repasses para “movimentos sociais” esquivos e quase fantasmas, abastecidos no caixa do Tesouro, que o governo do PT julgava inesgotável. 

Numa só tacada o autor do texto acusa o governo petista de financiar "movimentos sociais" e acusa diretamente o PT de corrupção nas estatais, sendo por isso conveniente ao PT o fim da Lava-Jato, não obstante ser Romero Jucá e seus asseclas da direita os preocupados com as investigações, conforme gravação divulgada.



Outro artigo sobre Direitos Humanos é assinado pelo general Rômulo Bini Pereira, que está muito preocupado com o governo Michel Temer. A razão? A "herança maldita dos governos petistas".

No mesmo artigo, ele elogia a competência da nova secretária dos Direitos Humanos, Flávia Piovesan, apesar de discordar dela em assuntos-chave como a necessidade de rever a malfadada lei de anistia de 79. Mas, pelo menos, segundo ele,
 ... a Dra. Piovesan demonstrou inteligência e equilíbrio em sua exposição, bem superiores aos de sua antecessora, a deputada Maria do Rosário; esta, sempre com um posicionamento ideológico radical e uma visível incapacidade para atuar em debates que exigem equilíbrio e civilidade.
Duas mulheres com posicionamentos que o general discorda frontalmente. Mas uma é inteligente e equilibrada. A outra é do PT.

Também nessa edição, um artigo do filósofo Luiz Felipe Pondé, que sobre a batalha do dircurso sobre o Impeachment da Dilma, afirma que
Mesmo após o teatro do impeachment, a história do Brasil narrada pelo PT continuará a ser escrita e ensinada em sala de aula. Seus filhos e netos continuarão a ser educados por professores que ensinarão esta história. Esta história foi criada pelo PT e pelos grupos que orbitaram ao redor do processo que criou o PT ao longo e após a ditadura. Este processo continuará a existir. A "inteligência" brasileira é escrava da esquerda e nada disso vai mudar em breve. Quem ousar nesse mundo da "inteligência" romper com a esquerda, perde "networking". 
Além de um ressentimento pessoal por não contar com o mesmo prestígio acadêmico de outros professores e pensadores do campo da esquerda, o artigo é eivado de preconceitos antipetistas, insinuando que existe mesmo aquilo que o "filósofo" queridinho da direita Olavo de Carvalho chama de "marxismo cultural" e que degenerou na mal fadada campanha da "escola sem partido". Não por acaso, no mesmo artigo ele entrega:
Nos últimos meses apareceram movimentos como o Vem Pra Rua e o MBL que parecem mais próximos de uma opção liberal, a favor de um Brasil menos estatal e vitimista. Ser liberal significa crer mais no mercado (sem ter que achá-lo um "deus") e menos em agentes públicos.
Uma revista das forças armadas, ou seja, servidores públicos, que convida o cidadão a crer mais do mercado do que em agentes públicos!! Ironia das ironias...

Mas o desfecho dessa edição é que realmente é de cair o queixo. Em artigo assinado pelo general Luiz Eduardo Rocha Paiva em que o título já diz tudo, "Acabou o fosso ideológico que separava governo e forças armadas", é feito um histórico dos malvadões da esquerda desde a fundação do PCB até o PT; um balanço positivo cheio de eufemismos sobre a ditadura militar; e o principal, a celebração da queda do governo petista, e a alegria das forças armadas nacionais em saber que Michel Temer e sua corja de ladrões investigados pela Lava Jato são da mesma linha ideológica que os oficiais militares. Leiam, leiam até duas vezes se precisarem, mas entendam o significado destas palavras:
A crise de valores e a corrupção, que assolam o país, estão disseminadas pela liderança política, independente do partido, e não começaram com o PT, embora
tenham chegado a níveis desastrosos com sua ascensão ao poder e o uso da corrupção como política de governo. A falta de credibilidade na classe política gera dúvidas, justificáveis, se o novo governo pautará sua conduta por princípios éticos, morais e cívicos. Porém, ao contrário do governo afastado, o atual é democrata e organizado com representantes da esquerda e da direita
situados no centro democrático. Assim, não existe fosso ideológico entre o atual governo e as FA.
São estes senhores que José Dirceu conclama para uma reação patriótica ao governo Temer!!!

Vejamos, Dirceu não é tão ingênuo assim. Conforme seu artigo no site 247 ele sabe que os militares morrem de amores por seus representantes na política, seja Hamilton Mourão, seja o Bolsonado e suas falácias machistas, antipetistas, autoritárias, antipovo e saudosas da ditadura. Seu erro é achar que pode acender uma facção de oposição dentro das forças armadas, mais progressista, nacionalista, em contraste a estes que colocam as FFAA meramente ao serviço das classes dominantes capitalistas. Aí está seu erro.

Essa parcela das forças armadas ou está esmagada, silenciada, oprimida dentro da caserna, ou está nos setores subalternos, soldados, sargentos, tenentes. Mas, ao contrário do saudoso Leonel Brizola, com esses o Dirceu não quer conversa. Respeita muito a ordem, a hierarquia e a disciplina. Só quer falar com os "de alta patente".

Como pode haver diálogo com quem apoia tudo o que aconteceu no Brasil desde o golpe, menos quando a discussão da previdência ameaçou alterar o tempo de aposentadoria dos militares? Aí eles gritaram. Amazônia? Pré-sal? Direitos do povo? Estão nem aí. Só temem um imaginário perigo vermelho.

Nossas forças armadas são ideologicamente capachas de um ideário liberal de viés estadunidense e não parece que isso vai mudar tão cedo. Infelizmente, este é um caso perdido.

Veja aqui a edição 460 da revista do Clube Militar

21 de outubro de 2017

Um sobrevoo com câmera 360 graus sobre a Coreia do Norte



Um novo video foi postado na internet por Aram Pan, fotógrafo de Singapura que conseguiu autorização do governo para mostrar a capital norte-coerana ao resto do mundo.

A República Popular Democrática da Coreia é um dos países mais fechados do mundo por vontade própria e assim pretende continuar, mas o fotógrafo singapurense conta com a confiança do governo para esta empreitada, o seu projeto DPRK 360, que desde 2013 mostra uma Coreia do Norte pouco conhecida através de tecnologias de imagem e videos.

Assista abaixo ao video e controle você mesmo a câmera de 360 graus clicando no cursor no canto superior esquerdo da tela:



18 de outubro de 2017

Austeridade: Michel Temer quer salvar o futuro do capitalismo, não o seu


Sempre gostei de ler autores que se arriscavam em exercícios de futurologia, ou seja, com base em indícios dos rumos do presente, prever por que transformações passará a sociedade nas próximas décadas.

Alvin Toffler, falecido no ano passado, foi um dos melhores de sua época, prevendo, especialmente no livro A Terceira Onda, no começo dos anos 80 com uma grande dose de precisão, como a era da informática (a terceira onda) iria suplantar aos poucos a segunda onda, a industrialização, exatamente como esta suplantara a primeira, a sociedade rural.

Hoje vivemos este mundo que muitos chamam de pós-industrial, pós-moderno ou pós-fordista, todos com o significado claro de uma mudança estrutural na sociedade em diversos aspectos das nossas vidas. Agora, depois do colapso do sistema a partir de 2008 numa crise mundial sem precedentes e que até hoje coloca em risco o nosso futuro, já há autores predizendo o fim do próprio capitalismo. 

É o caso do jornalista Paul Mason, que no seu livro Pós-Capitalismo, um guia para nosso futuro, propõe "um convite à imaginação", analisando fatos concretos com uma enorme profundidade para chegar à conclusão de que o capitalismo chegou a um ponto de saturação sem volta.

Segundo Mason, a informática e a tecnologia deixaram as velhas formas de sociedade em descompasso, e na verdade as suas tendências espontâneas são a de dissolver mercados, destruir propriedades e romper a relação entre salários e trabalho. Neste novo mundo que se apresenta, Estados, bancos e corporações monopolistas seriam incapazes de manter as coisas privadas, escassas e comerciais. É um ponto sem volta onde o capitalismo teria criado o seu próprio monstro destruidor.

No entanto, as elites do mundo financeiro não vão cair sem lutar pelos seus privilégios. No campo social, violência contra protestos pacíficos, armas, tiros de bala de borracha, vigilância invasiva, controle, espionagem, restrição de liberdade tentam manter o status quo funcionando, ou seja, um mundo de altas finanças, baixos salários, sigilo governamental, militarismo, propriedade intelectual e energia baseada em carbono, que é o mundo que está com os dias contados.

No campo econômico, eles ressuscitaram o mal fadado neoliberalismo, o mesmo sistema desregulado de mercado livre que levou o mundo à sua maior crise de todos os tempos, a crise dos subprimes de 2008, que liquidou 13% da produção mundial e 20% de todo o comércio do planeta de uma vez.

A partir de então, tudo o que os governos mundiais fazem é tapar os buracos cada vez mais frequentes da represa que ameaça desabar sobre nossas cabeças, dessa vez de forma definitiva no futuro. Os remendos vem em forma de ajustes conhecidos como programas de austeridade financeira, e aí que entra o nosso Brasil nessa história.



Mason explica em seu livro que o programa de austeridade que muitos países adotaram como solução para a crise capitalista de 2008 não significa meramente cortes de gastos excessivos. Ele traz o depoimento do diretor executivo do Prudential, uma multinacional britânica de seguros de vida e serviços financeiros, Tidjane Thiam, que definiu em 2012 no Fórum de Davos, o real significado de austeridade: os sindicatos, disse ele, são o "inimigo dos jovens" e o salário mínimo é "uma máquina de destruir empregos". Os direitos dos trabalhadores e a recuperação do poder de compra do salário mínimo são obstáculos no caminho da recuperação do capitalismo e, por isso, diz de forma totalmente cínica o homem das finanças milionárias, "devem acabar".

Mason afirma que este é o verdadeiro projeto dos programas de austeridade: "rebaxar os salários e padrões de vida no Ocidente ao longo de décadas até que eles se nivelem com os da classe média da Índia e da China".

O programa de austeridade chegou forte no Brasil ano passado através de um golpe, quando o PMDB chegou ao poder e desde então tenta emplacar a sua "ponte para o futuro". A edição do livro Pós-Capitalismo em minha posse é de 2017, mas Paul Mason o escreveu em 2015 — antes, portanto, da ascensão do PMDB ao poder. Num exercício de futurologia com precisão impressionante, o autor desvendou claramente onde a ponte do Michel Temer pretende nos levar:

Então, por meio de programas de austeridade, eles transferiram o ônus das pessoas que investiram dinheiro estupidamente, punindo em vez delas os beneficiários da previdência social, trabalhadores do setor público, pensionistas, aposentados e, acima de tudo, as gerações futuras. Nos países mais atingidos, o sistema previdenciário tem sido destruído, a idade para a aposentadoria  tem sido elevada a tal modo que quem está saindo agora da universidade só vai se aposentar aos 70 anos, e a educação vem sendo privatizada [...]. Os serviços estão sendo desmantelados e os projetos de infraestrutura, paralisados*. 

É um impressionante quadro perfeito da política econômica que Michel Temer vem lutando arduamente para emplacar no Brasil. Pois senão vejamos: sua reforma previdenciária pretende destruir a aposentadoria de milhões de brasileiros; a reforma trabalhista pretende acabar com os sindicatos e seu congelamento de investimentos por 20 anos paralisa a infraestrutura do país e acaba com o reajuste do salário mínimo acima da inflação. Tudo isso porque, como assumiu Tidjane Thiam no fórum dos magnatas de Davos, essas coisas atrapalham a recuperação do capitalismo.

E assim, embora jamais se diga algo parecido no Brasil com tanta sinceridade, fica nítido que a crise que a elite global causou nos cassinos neoliberais do sistema financeiro mundial será paga com o suor, o sacrifício e a vida de milhões de trabalhadores. Que o capitalismo está moribundo, mas enquanto estas mesmas elites puderem sugar a última gota de sangue do povo, eles vão manter os aparelhos que mantém o capitalismo vivo ligados.

E é por isso que o mundo precisa acordar e propor uma alternativa a este sistema vil e assassino, não sem antes colocar todos estes políticos e magnatas no banco dos réus de um tribunal revolucionário para que paguem pela covardia que fazem com 99 por cento da população mundial. Sem esquecer alguns jornalistas também, que não tem coragem de mostrar a verdade, porque são vendidos como capatazes dos barões do capitalismo mundial.
 *MASON, Paul. Pós-Capitalismo - um guia para nosso futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, pág.31

16 de outubro de 2017

Compra de votos do Impeachment. A esquerda estava certa mas ninguém prestou atenção



É chato ter sempre razão, mas sempre em retrospectiva. Essa é a sina das esquerdas. Especialmente na questão do golpe contra Dilma. Que, aliás, depois da delação de Lúcio Funaro, ninguém pode contestar mais. Foi golpe sim. Como falávamos desde sempre, confrontando os teimosos, os desinformados e os "politizados" de última hora do nosso dia a dia que insistiam em ver ali um puro ato de correção política. Ingenuidade grave.

E o pior é que os indícios já estavam todos lá, desde sempre. Não precisava o operador financeiro assumir em depoimento juramentado na Lava Jato que repassou 1 milhão de Reais para que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ídolo dos jovens ultrarreacionários de direita do Movimento Brasil Livre, comprasse os votos dos deputados em nome do Impeachment golpista.



Pedidos de Impeachment o presidente da Câmara tinha na gaveta como quem tem uma mão recheada de coringas no carteado, prontos para serem sacados no momento oportuno. E ele veio. Quando o PT anunciou que seus deputados votariam a favor da cassação de Cunha no Conselho de Ética.

Foi então que Cunha trouxe à baila aquela peça de ficção produzida por dois juristas de idade avançada e uma tresloucada que conseguiu a proeza de, pela primeira vez na história acadêmica desse país tirar a nota mínima num concurso para professora universitária. Janaína Paschoal, a própria, ainda receberia 45 mil Reais pela produção da fragilíssima e descabida tese das "pedaladas".

Mesmo tendo sido praticadas, as pedaladas, por mais de 20 governadores em seus Estados, incluindo o tucano Geraldo Alckmin em São Paulo e não ser passível de crime de responsabilidade, ou em outras palavras, não poder ser motivo de Impeachment de presidente da República, eis que os deputados foram lá, diante dos microfones e diante da nação, bradar a plenos pulmões o sim ao Impeachment, devido aos mais descabidos motivos. Todos sem relação com o "crime". Pela baixa popularidade da presidenta, pelo "caso de Pasadena" (!??!), pela "família", pelo simples motivo de varrer o PT do poder, e principalmente contra a corrupção, a maioria dos deputados, hoje sabe-se, com os bolsos cheios de dinheiro sujo e voto comprado, tiraram uma presidente da República do seu legítimo mandato.

Não há de surpreender ninguém. A elite, neste país, sempre foi suja e hipócrita. Pra não ir muito longe, basta lembrar Auro de Moura Andrade, filho de ricos fazendeiros de São Paulo, quando sentado na presidência do Congresso, declarou vaga a presidência da República, num ato inconstitucional, pois o presidente Jango estava em território nacional e jamais havia renunciado.

E agora, depois desta delação grave, em se comprovando os fatos, como fica a cara dos milhões de brasileiros, especialmente aquela massa ignara de imbecis da classe média que protestaram "contra a corrupção" com suas camisas da CBF (piada pronta), e que agora assistem a farsa dantesca que apoiaram e pela qual bateram panelas? Como ficam aqueles brasileiros do povão que caíram também no conto do vigário, acreditando piamente que todo o circo que a Globo divulgou era pelo seu bem?

Será que esse povo aprende de uma vez?

18 de setembro de 2017

De Mourão a Mourão: general insinua golpe em 2017 para remendar o de 64


Em uma palestra na loja maçônica de Brasília, comentando sobre o momento político conturbado que vive o Brasil, o general da ativa Antonio Hamilton Martins Mourão disse que uma "intervenção militar" pode ser engendrada caso a justiça brasileira não atue com vigor contra os casos de corrupção que campeiam na política nacional:
 Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso

Mais um golpe militar?

Em 1964, outro Mourão atuou nas Forças Armadas para dar um golpe de Estado. Naquela ocasião, tanto os oficiais militares quando a mídia, setores da Igreja Católica e principalmente a alta burguesia e o empresariado temiam as Reformas de Base que o presidente João Goulart queria colocar em prática.

Tendo como pano de fundo o medo dessas classes de uma suposta e falsa infiltração comunista no governo, defenderam o golpe perpetrado por Olímpio Mourão Filho, que no fim das contas, significava a manutenção de um sistema político, jurídico e social que era um dos mais perversos e injustos do planeta.

Todos os políticos de então, de direita, conservadores, reacionários e com interesses econômicos acima dos nacionais foram colocados debaixo das asas protetoras das Forças Armadas durante os 21 anos de ditadura militar, ajudando a formar relações de poder que tinham a corrupção tolerada, desde que estivessem alinhados com o ideal liberal.

O resultado foi a perseguição dos melhores quadros da política, tidos como "subversivos" — por quererem mudar a ordem do status quo historicamente perverso — que foram então assassinados ou expulsos do país.



 Em 1985, eles, os protegidos, foram os responsáveis pelo processo de transição "lenta, gradual e segura", que iria passar o poder das mãos dos militares para os políticos. Quem eram esses políticos?

Sarney, Moreira Franco, Antonio Carlos Magalhães, Paulo Maluf, Jarbas Passarinho, Michel Temer, e tantos outros desta estirpe e seus afilhados, que vieram a dominar a política brasileira depois de estarem acostumados com as vistas grossas que a ditadura fazia para aqueles que não fossem "comunistas".

O que a ditadura militar nos legou do golpe de 64

Trinta e dois anos depois, essa geração de protegidos corruptos chegou ao seu momento mais abominável, onde duas situações acontecem simultaneamente: uma operação da justiça em conjunto com a procuradoria geral da República, do Ministério Público e da Polícia Federal que escancara os casos de corrupção mais hediondos que o país já assistiu, ao mesmo tempo em que um Congresso Nacional comprometido com um Supremo Tribunal Federal tentam varrer as maiores podridões possíveis para debaixo do tapete da impunidade.

E aí entra em cena o Mourão da atualidade.

Sem autocrítica, sem mea culpa, sem levar em conta o papel das Forças Armadas na criação do mito do comunismo perigoso que possibilitou essas pragas da direita assumirem o poder com carta branca, ele propõe agora, demagogicamente, outro golpe para remendar o soneto da ditadura de 64.

Pelo menos, foi imediatamente desautorizado a falar em nome das Forças Armadas pelo comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas.

Primeiro, que a intervenção militar de 64, com suas perseguições, ideologia conservadora e antidemocrática não foi a solução e sim a causa do Brasil ter ficado duas décadas para trás em comparação com as nações mais desenvolvidas; e segundo, ainda há um grande ressentimento dentro da caserna com relação aos empresários e jornalistas que apoiaram e se beneficiaram do golpe de 64, mas que a partir de um determinado momento, jogaram convenientemente nas costas das Forças Armadas toda a culpa pela derrubada do presidente Goulart. Já não querem incorrer no mesmo equívoco desgastante.

O Brasil não aguenta mais um Mourão imprudente. A única solução possível para este país continua sendo uma revolução armada comunista as eleições gerais de 2018.

5 de setembro de 2017

O que o PSOL deveria fazer nas próximas eleições em nome de um ideal maior


Vai chegando a hora de começar a projetar as possibilidades para as eleições de 2018. Aqui não vamos levar a sério os boatos de que as classes dominantes querem ou conseguirão cancelar o pleito. Então vamos analisar, de forma não tão exaustiva  porque uma postagem de blog não é um artigo, as possibilidades que se apresentam para a esquerda nesse cenário.

Definindo a esquerda com chances reais

De todos os partidos de esquerda que temos no Brasil, somente dois serão levados em conta. O PT e o lulismo aqui não serão considerados, por conta de sua atuação lastimável no poder, sua opção pela conciliação de classes, despolitização da política e da necessidade de superar esse modelo. Os critérios são a representatividade no Congresso; não ter se tornado um partido-apêndice do PT — o que exclui o PCdoB —, e ter alguma possibilidade de lançar candidatura relevante à presidência. Ficamos então com o PDT e o PSOL.

Alguns poderiam argumentar que o PDT também andou navegando no barco do lulismo nos últimos governos, mas sabemos que o PDT, como um partido de correntes, tem no seu interior ainda bons representantes do trabalhismo, do socialismo e do legado brizolista. Esses grupos parecem ter se aglutinado em torno da defesa da candidatura de Ciro Gomes para a presidência pelo PDT.

Ciro Gomes é o que tem pra hoje

Ciro Gomes faz muita gente da esquerda torcer o nariz. Um olhar superficial realmente nos mostra alguém que ajudou a fundar o PSDB, transitou por muitos partidos dos mais variados espectros, que tem trânsito com setores da velha política... No entanto, uma observação mais atenta mostrará um Ciro bastante coerente em suas decisões.



Rompeu com os tucanos quando o partido da social-democracia brasileira se transfigurou em partido da privataria neoliberal, denunciou Temer e Eduardo Cunha quando ainda era um jovem deputado muitos anos antes deles terem ganhado notoriedade, e foi apoiador de Lula em todos os momentos, desde os bons até os difíceis. O que nunca o impediu de denunciar seus erros.

PSOL aposta numa cara nova e desconhecida do eleitor

O PSOL lançou recentemente a pré-candidatura do professor Nildo Domingos Ouriques para a presidência. O conheci ouvindo o programa de debate político na rádio bandeirantes, o Faixa Livre, onde fazia amplas análises sobre a situação política do Brasil e do Mundo. Seu foco é na América Latina e sua principal análise diz respeito à revolução brasileira, em como tirá-la do papel. O PSOL, por sua vez, prentende tirá-lo da sala de aula da Universidade Federal de Santa Catarina direto para sua primeira experiência prática na política.

Qual a melhor estratégia para a esquerda, de fato, ter chance de chegar ao poder?

Penso que o professor Nildo Ouriques desfruta de grande honra em ser o pré-candidato do PSOL nas próximas eleições e tenho a convicção que seria o presidente ideal. Mas entre o idealismo e a realidade existe uma conjuntura complexa no caminho.

Por isso, gostaria muito que as esquerdas pudessem se unir em torno de uma candidatura viável, e que, neste momento, penso ser a de Ciro Gomes.

Muitos andam a compará-lo com Lula, diagnosticando que ele faria o mesmo papel de gerente do capital que o ex-presidente petista se prestou a fazer. Mas essas afirmações não tem a menor base. Quem tem acompanhado, como eu, suas palestras pelo Brasil afora, tem visto um Ciro que mais está para Hugo Chávez, Rafael Correa ou Evo Morales do que Lula, ou seja, sua postura é muito mais à esquerda do que o PT jamais cogitou chegar.

Mais uma estação de cerejas vermelhas?

Há o risco de que Ciro esteja apenas praticando o que o filósofo Vladimir Safatle chamou de "a estação das cerejas vermelhas"? Sim. Risco de sermos enganados todos nós corremos. Campanha é campanha. No entanto, os riscos que Ciro Gomes, que não é o meu candidato dos sonhos, representa, é estatisticamente mais favorável do que defender uma candidatura que, sejamos francos e com todo o respeito ao querido professor, não tem a menor chance.

Dentre todas as opções realmente sérias de vitória, Ciro representa aquela de quem podemos extrair alguma coisa, mesmo que ele não venha a ser o revolucionário que desejamos.

Não há a menor dúvida de que o prof. Nildo é de longe o presidente que todos nós desejamos, mas alguém lá no passado nos ensinou que é preciso levar em conta a conjutura.

Neste momento, o que valeria mais:  uma candidatura rebelde, o voto de protesto inócuo, ou uma aliança com o PDT, e, na hipótese de vitória, pressionar de dentro do governo pelas reformas, além de, quem sabe, arrebatar a nomeação de Nildo para o Ministério da Educação ou  — por ser esta pasta de especial apreço do PDT — um outro? E então, depois de ficar conhecido nacionalmente pelo trabalho revolucionário naquele governo, estar muito mais habilitado para a próxima candidatura.

O que vale um PSOL brigando sozinho e cada partido de esquerda falando uma língua diferente? Temos que ser pragmáticos neste momento e analisar as condições de vitória real, e não apenas de colocar uma candidatura para levantar questões. Essa é a política real, que alguns setores da esquerda ainda não estão maduros para aceitar. Vamos pensar política pragmaticamente, como fazem os nossos adversários e não apenas sonhar.

Senão, tudo o que o PSOL vai conseguir é se prestar a fazer um belo trabalho para a burguesia, dividindo os votos da esquerda.

1 de setembro de 2017

Desmonte do Estado e democracia burguesa

A redemocratização do nosso país tomou corpo em paralelo com alguns acontecimentos importantes pelo mundo, naquele final de década de 80. Era o momento em que Mikail Gorbachev estava propondo reformas liberalizantes na União Soviética, que culminaram com um golpe que implodiu o chamado comunismo realmente existente. Neste momento, em 1989, nos Estados Unidos, tomava forma uma doutrina que servirá de cartilha para os países do terceiro mundo na nova ordem mundial: o programa neoliberal.

Preparando um presidente específico para isso

Em 1989 houve a nossa primeira eleição direta para presidente depois da redemocratização, e a nossa classe dominante, capacho, amestrada e controlada pelos interesses capitalistas do imperialismo americano, para o qual se prostra de joelhos, teve a missão de fabricar um Collor de Mello, saído das profundezas do nada, para se tornar presidente do Brasil e aplicar esse receituário no país, através, inter alia, do Plano Nacional de Desestatização. Começaria ali o nosso arroubo neoliberal, o mito fantasioso de que somente a economia aberta, o mínimo de intervenção do Estado no mercado e a privatização de estatais (lucrativas) poderiam ajudar o Brasil a alcançar um estágio de desenvolvimento ideal.

Estes sacripantas só pensavam em seus empreendimentos e seus negócios, o restante do país, que fosse tocado com o mínimo apenas para não entrar em um colapso social e estragar a farra financista.

Sai Collor, entra em cena o Príncipe da Privataria

Fernando Collor teria completado e saído do seu governo laureado pelas elites e pelos agentes do imperialismo capitalista se não tivesse abusado da sorte e sido retirado do poder como um cão sarnento. Como Sérgio Cabral Filho, ele roubou, mas roubou demais. Coube então ao "respeitável" intelectual sociólogo Fernando Henrique Cardoso tocar o projeto de desmonte do Estado brasileiro em benefício de uma meia-dúzia de empresários de olho no patrimônio nacional.

O povo brasileiro renega o projeto privatista

Como sempre, o governo FHC começou incensado pela mídia corporativa burguesa, mas, aos poucos, o mito do neoliberalismo racional foi indo por água abaixo, se tornando insustentável. Bastaram três das constantes crises cíclicas do capitalismo internacional para a nossa frágil economia de semiescambo ir para o limbo. Sem infra-estrutura a ponto do Brasil sofrer com casos de apagão e abastecimento, com a inflação saindo do controle e o desemprego batendo recordes mundiais, foi assim que o Brasil chegou em 2002, no fim do segundo mandato de FHC. Esse foi o legado de 8 anos de governo neoliberal, onde o bom humor do mercado financeiro importava mais do que a comida que o trabalhador brasileiro não conseguia por na mesa de sua família. E assim o eleitorado brasileiro disse um rotundo NÃO ao candidato tucano da continuidade, José Serra que, mesmo escondendo de todas as formas o impopular presidente FHC de sua campanha, perdeu para Lula, que conquistou o governo com a segunda maior votação presidencial da história internacional, só ficando atrás de Ronald Reagan na eleição estadunidense de 84.



A partir daí, começa o que hoje já podemos chamar de interregno antineoliberal. Durante cada nova eleição, desde 2002, o PT soube explorar a imensa rejeição nacional ao privatismo tucano, e bastava a mera lembrança do que foi a criminosa venda da Vale do Rio Doce nos debates eleitorais, para que os tucanos despencassem alguns pontos nas pesquisas.

Quando a democracia não atende os interesses populares

Aí está o cerne da questão. Por que, por exemplo, os Estados Unidos carregam como bandeira a "democracia" como justificativa de suas guerras, quando suas alianças com países autoritários, violentos e ditatoriais como a Arábia Saudita provam que a democracia não é um valor absoluto em si para eles?

Isso porque os capitalistas perceberam que o sistema burguês democrático é o mais conveniente. Não se iludam, o capitalismo já floresceu sob impérios e ditaduras. Mas na democracia, o poder econômico permite eleger sempre os candidatos do status quo, contra aqueles que não tem condições de levantar o mesmo financiamento de suas campanhas e não se comprometeriam com o sistema financeiro caso vencessem. A corrupção institucionalizada do sistema permite comprar deputados para suas causas. A desculpa de que a democracia pressupõe necessariamente o rodízio intermitente de mandatários no poder evita, por seu turno, que algum indesejável eleito por um acidente da natureza possa ficar muito tempo no controle do país. E caso ele dê muito trabalho, inventam-se pretextos para sua retirada, seja através de um processo político-jurídico (impeachment), seja através do incentivo a uma rebelião de setores de determinada sociedade (Venezuela e primavera árabe) ou um simples golpe militar à moda antiga.

Não foi somente assim que os privatistas conseguiram tirar o PT e voltar ao poder para tocar adiante seu projeto entreguista?

Pouco se importam se desrespeitaram a vontade do eleitor, se o governo tampão do vice não tem nenhuma legitimidade aos olhos do país, com mais de 80 por cento de rejeição. Seu governo golpista, entregista e lesa-pátria atua como se tivesse o respaldo de milhões de votos nas costas. O Ilegítimo no poder dorme e acorda pensando em duas coisas: o que eu posso vender do patrimônio público e que tipo de direito garantido pelo Estado eu posso desmontar hoje?

Infelizmente nosso país conta com essa estirpe de gente, brasileiros vira-latas sem auto-estima, individualistas a ponto de jogar nosso futuro enquanto nação no lixo, se puderem sair como bons cães amestrados perante os olhos dos imperialistas internacionais. São essas pessoas as primeiras a combater um levante popular legítimo, são as primeiras a colocar a tropa de choque contra o povo. E numa revolução, também são as primeiras a amanhecer penduradas pelas pernas de cabeça pra baixo num poste, símbolo da revolta de um povo cansado de ser vítima desses bandidos no poder.

Quando essa raça gananciosa acaba até com a ilusão popular de eleger um presidente pelo seu votinho na urna, nada mais é garantido nessa falsa democracia. 

31 de agosto de 2017

Rodrigo Janot termina seu mandato este mês. Foi uma grande surpresa em meio à mediocridade geral

O cidadão está prestes a deixar o cargo de Procurador Geral da República, mas com toda a certeza, vai deixar saudades. Isso porque, em meio a uma das maiores crises políticas por que já passou esta terra do bananil, com seus coronéis políticos travestidos de feirantes gritando para o mundo "quem dá mais" para levar nossas maiores riquezas -- que vão desde estatais lucrativas até a maior floresta tropical do planeta -- o cara tentou. Tentou até a última hora, com que os maiores corruptos da nação que assaltaram quase que literalmente o poder, pagassem por seus crimes.

Mas não só no executivo e no legislativo que a contaminação do que há de pior nesse sistema falido e corrupto se instalou. Os nobres togados dessa vez, também entraram na dança sem o menor embaraço.

Rodrigo Janot

Para cada ratoeira que Rodrigo Janot instalou para pegar os ratos da política e do empresariado, havia um Gilmar Mendes pronto para desarmá-la. E assim a ratazana-mor que se instalou na cadeira da presidência da República vem sobrevivendo, levando seu ilegítimo governo até onde ninguém esperava que pudesse mais chegar.



 As denúncias de Janot foram sérias, graves, bem embasadas em evidências e com testemunhas, uma ação da polícia federal que redundou em flagrante, apreensão material do delito, gravação em áudio e tudo o que precisava para produzir provas incontestáveis. Mais do que batom na cueca: batom, perfume e até o telefone da moça escrito à caneta. Não para o nosso Congresso. Não para o nosso executivo.

Agora, neste mês em que o mandato do Janot termina, cabe, inusitadamente, ao presidente ilegítimo escolher a substituta do atual procurador. Trocando em miúdos, Raquel Dodge, a substituta, terá a missão de dar continuidade às investigações contra aquele que a nomeou para o cargo. Pela primeira vez desde 2003, a primeira opção da lista de substitutos foi ignorada. Michel Temer tinha outra opção mais satisfatória para sua segurança.

E assim o bananil vai seguindo, rumo ao abismo. 

22 de agosto de 2017

Vamos! Enfrentar o atraso e mobilizar o Brasil para uma agenda progressista

vamos

O que acontece sempre que um país experimenta momentos prolongados de grave crise econômica? A história nos mostra que, quase certamente, a população desse país se torna mais egoísta, mesquinha e amedrontada, mais permeável a discursos fascistas que culpam imigrantes, negros, mulheres, gays, Fidel Castro, Hugo Chávez, etc., ou seja, todos aqueles que não façam parte da comunidade com base na família patriarcal do homem branco de classe média cristão e brasileiro-com-muito-orgulho-com-muito-amor.

Foi assim depois que alguns eventos tiraram esses fascistas do armário recentemente, na reação à ascensão das reivindicações dos grupos ditos “minoritários” (mulheres, negros e o grupo LGBT) por mais direitos e igualdade, potencializado por uma crise econômica mundial que só teve paralelo com a Crise de 29.

Foi assim que grupos fascistas e conservadores explodiram em diversos países do mundo, encantados com o discurso de demagogos que exploravam os medos das pessoas para se beneficiarem eleitoralmente, derrotando o discurso progressista da esquerda.

Mas pelo menos na Espanha, aconteceu uma exceção. O movimento Podemos, na esteira da revolta da população com a classe política e da crise de representatividade partidária simbolizada pelo movimento “Não me representa”, conseguiu disputar a hegemonia do discurso de mudanças, de propostas e de soluções para a crise e assim angariar adeptos que fatalmente se voltariam para a direita. E é esse movimento espanhol que serve de inspiração para setores da esquerda brasileira que dialogam e se organizam politicamente para enfrentar a ascensão do fascismo no Brasil.

Acaba de ser fundado o movimento Vamos!, organizado principalmente pela Frente Povo Sem Medo e que conta com a adesão de diversos setores da sociedade civil e política do país. A partir deste mês, uma série de encontros em diversos Estados brasileiros irá debater alguns grandes temas de interesse nacional, principalmente para os setores progressistas. São cinco grandes debates:

  1. Democratização dos territórios e meio-ambiente;
  2. Democratização da economia;
  3. Democratização do poder e da política;
  4. Um programa negro, feminista e LGBT;
  5. Democratização da comunicação e da cultura.

Segue abaixo a agenda dos debates, os locais e os temas que serão discutidos:

atividades

Para maiores detalhes acesse o site do movimento aqui: Vamos!

14 de agosto de 2017

Venezuela e Coreia do Norte: pelo direito de não se alinhar aos Estados Unidos sem sofrer retaliações

Trump destruindo o mundo

A livre determinação dos povos foi um dos maiores marcos do direito internacional conquistados pelos Estados soberanos.  A resolução da Assembleia Geral da ONU, n.º 2625 (XXV), de 24 de outubro de 1970, responsável por este acordo, trabalha em dois níveis. No nível “nacional” afirma especialmente o direito dos povos indígenas e da população em geral de buscar o seu bem-estar.

A nível internacional, define “o estabelecimento de relações amistosas entre os Estados, baseadas no respeito pelo princípio da igualdade soberana”. (fonte). É o direito de um povo à soberania e a liberdade de decidir, independentemente de influências estrangeiras, sobre sua forma de governo, seu sistema de governo e o seu desenvolvimento econômico, social e cultural. (fonte, artigo 1, parágrafo 1).

No entanto, muito antes e muito depois destas determinações, os Estados Unidos da América continuam violando constantemente a soberania e a liberdade de outros povos. Trump elegeu as bolas da vez: Venezuela e Coreia do Norte.

A alegação oficial é que aquele país norte-americano luta pela liberdade e pela democracia no mundo. Mas seria muita ingenuidade, mesmo para aqueles que não conhecem a história imperialista dos EUA, acreditarem nesse discurso. Em nome da liberdade e da democracia os Estados Unidos implementaram golpes e ditaduras na América Latina, derrubaram líderes que lutavam pela independência dos seus países pelo mundo afora, e até recentemente, sob o pretexto de derrubar “ditaduras” no norte da África e no Oriente Médio, patrocinaram grupos de fanáticos islâmicos que trouxeram o caos no Iraque, Afeganistão, Libia, entre outros.

Foram e são amigos das maiores ditaduras do planeta, desde que sejam alinhadas com seus interesses capitalistas, como o Chile de Pinochet e a Arábia Saudita dos príncipes do petróleo. E agora querem levar a liberdade e a democracia para a Venezuela e Coreia do Norte. Alguém ainda acredita?

Leia mais: lista de países que sofreram golpes ou invasões dos EUA

Venezuela não pode ter governo popular

Se o governo da Venezuela passa dificuldades é por causa de uma parcela da população, a classe média reacionária e a alta burguesia acostumadas a mamar nas tetas do petróleo venezuelano, que não aceitam um governo de cunho popular, que distribui a renda e que é sabotado de todas as formas, desde ao manipulável preço baixo do petróleo internacional, que cria imensas dificuldades à economia do país, até os empresários locais que estocam alimentos para criar o clima de convulsão social propício à baderna geral.

A partir do momento em que os EUA se meterem nos assuntos internos desse país, além de estarem cometendo um crime internacional, estarão contribuindo para colocar os capitalistas burgueses locais no poder, para vender petróleo barato aos EUA em troca de reconhecimento do governo golpista. Exatamente como no Brasil e nosso pré-sal, com a diferença que aqui não temos um povo instruído politicamente que possa ir às ruas enfrentar na mão os reacionários vendilhões da classe média que apoiam o golpe.

Coreia do Norte impedida de ter seu próprio caminho

Já o caso da Coreia do Norte é um pouco diferente e complexo. A Guerra Fria ainda parece ser o pano de fundo da divergência estadunidense com o país norte-coreano, onde todo país não alinhado com os interesses do liberalismo econômico mundial é considerado uma ameaça. Kim Jong-un é tratado como um louco ditador que manipula a população e coloca em risco a segurança do planeta. Mas a verdade é que o povo norte-coreano não é mais e nem menos manipulado do que o próprio cidadão dos Estados Unidos, estupidificado por uma mídia alinhada com os interesses do governo e do capitalismo, que mente sobre armas de destruição em massa e usa da desinformação como forma de garantir o apoio da população às inúmeras intervenções armadas dos EUA pelo mundo.

Veja mais: Conheça a farsa que levou os Estados Unidos para a Guerra do Golfo em 1991

O próprio governo norte-coreano é alvo das maiores mentiras que a mídia internacional pode produzir, que vão desde a obrigação de todo cidadão cortar o cabelo igual ao do seu líder, passando por crises de abastecimento nos mercados até assassinatos de parentes do líder local que aparecem bem vivos no dia seguinte.

Com relação ao poderio nuclear norte-coreano, alguém poderia culpá-los? Com certeza Kim Jong-un aprendeu com o erro fatal de Muamar Kadafi, que entrou em acordo para reduzir seu arsenal bélico e no fim foi arrastado pelas ruas e trucidado pelos “opositores” alinhados com os Estados Unidos, entregando a Líbia ao caos e à destruição.

Se existe algum país que represente um perigo para a ordem internacional, esse país é os Estados Unidos. Se existe algum líder louco e irresponsável a ponto de colocar o mundo na beira de uma guerra, esse líder se chama Donald Trump. Todos os países devem ter o direito de seguir o seu rumo sem serem atacados por ninguém em nome da riqueza e dos interesses políticos de terceiros.

3 de agosto de 2017

Se todos os bandidos tivessem as mesmas facilidades de Michel Temer? Veja alguns exemplos

sindicato dos ladrões

Ontem tivemos mais uma prova concreta de que o corporativismo na política é uma das maiores causas da impunidade no Brasil. Outra, é o foro privilegiado: além de responder no Supremo onde as chances de prescrição são quase certas, alguém pode ser julgado, ou no caso das acusações contra o Ilegítimo Michel Temer, ter a autorização de investigação julgada, por seus próprios colegas.

É o tipo de privilégio descabido que cria uma casta superprotegida de eminências políticas, praticamente intocáveis à lei, não importa os seus crimes nem o tanto de evidências devidamente levantadas contra eles.

Ontem à noite os portais de internet já noticiavam que o rato escapara de mais outra ratoeira. Dessa vez, com a ajuda dos amigos e correligionários no Congresso. Da pergunta “você é a favor do parecer da CCJ que determina o arquivamento das acusações contra presidente da República”, mais da metade dos deputados votaram pelo “SIM", notoriamente a bancada evangélica e os latifundiários. Muitos deles seduzidos por benesses e verbas do próprio governo.

Às vezes não conseguimos captar a essência exata de tamanha sandice. Por estarmos já anestesiados contra as bandidagens do sindicato de ladrões que tomou conta dos três poderes, não prestamos atenção no quão mais esse ato foi  indigno. Para nos ajudar a entender um pouco melhor, vamos recorrer a um artifício filosófico chamado “reductio ad absurdum”, que, dentre outras coisas, se refere a um tipo de argumento lógico no qual alguém assume uma ou mais hipóteses e, a partir destas, deriva uma consequência absurda ou ridícula, e então conclui que a suposição original deve estar errada.

Vamos ver alguns exemplos fictícios baseados no que aconteceu ontem no Congresso Nacional, através de algumas notícias falsas, pra entendermos como seriam as coisas se aquele corporativismo pudesse ser aplicado na sociedade de modo geral:

“Eike Batista escapa de prisão depois da votação na assembleia da ANP”

RIO - Direto da redação

O megaempresário Eike Batista, já acusado em crimes financeiros, escapou de ser julgado pelos crimes de corrupção ativa por ter pago pelo menos 16 milhões em propinas ao ex-governador Sérgio Cabral. Durante deliberação na Agência Nacional do Petróleo, ficou decidido que o ex-dono da petrolífera OGX não pode ser condenado, pois isso poderia afetar o preço do petróleo no momento em que o país experimenta alguma estabilidade no setor. Com esta decisão, a Lava Jato não poderá prendê-lo e Eike estará livre para voltar aos Estados Unidos, onde foi capturado.

Suspeito de matar e torturar estudante, Fernandinho Beira-Mar é inocentado por Tribunal do Tráfico

RIO – Seção Baixada Fluminense

O traficante Fernandinho Beira-mar, acusado de homicídio triplamente qualificado pelo assassinato do estudante Michel Nascimento dos Santos, teve seu caso analisado pelos traficantes do Tribunal Paralelo do Tráfico (TPT) em Duque de Caxias. Depois de se reunir com o acusado, que ofereceu um jantar de luxo para os colegas 24 horas antes do julgamento, além de prometer verbas e armas para as futuras incursões dos traficantes nas comunidades rivais, os membros do tribunal arquivaram o processo, que impede que o Conselho de Sentença do 2º Tribunal do Júri da Capital possa condenar o traficante a 30 anos de prisão. Fernandinho Beira-mar deu uma entrevista coletiva depois da decisão e disse que a justiça prevaleceu no país.

“Acusado de mais de 37 estupros, Abdelmassih tem processo arquivado pelo Conselho Federal de Medicina”

SÃO PAULO – Sucursal.

O médico ginecologista Roger Abdelmassih, acusado de quase 40 estupros no exercício de sua profissão, teve ontem o pedido de investigação recusado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Depois de analisar as provas reunidas pelo Ministério Público, os conselheiros médicos chegaram à conclusão que não haviam provas suficientes contra o ginecologista. Com isso, o inquérito foi arquivado e não poderá ser julgado pela justiça. Não cabem recursos.

*  *  *

Todas essas manchetes, fictícias, seriam absurdas e causariam revolta, todos vamos concordar. Como alguém pode ser julgado pelos próprios colegas, ou ter a possibilidade de julgamento na justiça impedido pelos mesmos, como foi no caso do arquivamento das acusações contra Michel Temer?

Se todas essas manchetes especulativas causariam revolta, por que não a próxima, esta sim, verdadeira?

Congresso Nacional arquiva processo contra Michel Temer

Brasília – da Redação

Na tarde-noite de ontem deputados federais votaram contra o prosseguimento das investigações contra o presidente Michel Temer. Com o resultado o Supremo Tribunal Federal fica impedido de julgar o caso.

Embora a acusação fosse de corrupção, muitos deputados preferiram absolver o presidente com base na continuidade da estabilização da economia.

Temer passou a noite anterior com deputados, especialmente da bancada ruralista, prometendo verbas na casa de 9 bilhões para o setor. Também ofereceu um jantar a alguns parlamentares, onde não se discutiu a votação, mas ficava implícita a insinuação de apoio.

Depois do arquivamento, Temer fez um pronunciamento em que disse que “a rejeição da denúncia é uma conquista do Estado democrático”. 

Existe alguma diferença?

31 de julho de 2017

Por que as mudanças nas leis trabalhistas vão ser um tiro no pé do empresariado e do governo

Tiro no pé

Hoje, os empresários brasileiros estão rindo à toa com as reformas trabalhistas, dando brindes de champanhe em seus escritórios pelas novas regras aprovadas de forma apressada pelo governo e que, na prática, representam a destruição da segurança do trabalhador através da intermediação do Estado na relação entre empregado e empregador. E não é para menos. Afinal, das onze principais mudanças levantadas pelo site da EBC, todas representam algum tipo de perda de direitos do empregado.

Empresários capitalistas têm como base o lucro extraído do maior preço cobrado por seus produtos em relação ao menor investimento possível em salários, encargos e outras despesas. Mas, para isso, deve haver um equilíbrio. Quando se mexe de forma radical nessa delicada relação entre o que se “gasta” com o trabalhador e o que se lucra, o que hoje parece vantagem amanhã pode ser um desastre.

Quando a crise internacional de 2008 chegou ao Brasil, o presidente Lula tinha duas opções: propor as medidas draconianas e burras de austeridade, congelamento de investimentos e afrouxamento das leis das relações de trabalho, como queriam o empresariado, ou ir na contramão da cartilha neoliberal, incentivando o consumo de bens e serviços internos, para aquecer a economia. Ele ficou com a segunda opção.

Conclusão: nunca o país experimentou um momento de bonança tão grande como aquele, em que, sem mexer nas leis trabalhistas, o país cresceu, o desemprego caiu e os setores primário, secundário e terciário da economia nunca tiveram tanta prosperidade. O trabalhador estava empregado, estava seguro, e a economia girou perfeitamente.

Qual é o cenário de hoje? Aquele que os empresários queriam que fosse a resposta para a crise de 2008 que não veio, mas que foi dada agora quando, primeiro Dilma e depois Temer, implementaram as tais medidas de austeridade que o Lula recusou. O Brasil atolou na crise e criou o cenário perfeito para tirar direitos sob o pretexto de “modernizar” a economia, ou seja, propor remédios para a doença que eles mesmos causaram.

Mas a reforma trabalhista significa um tiro no pé para o empresariado. A longo prazo, surgirá uma legião de trabalhadores desamparados e sem confiança no dia de amanhã. Vamos lembrar que no governo Lula, quase 100 por cento da linha branca, ou seja, fogões, geladeiras, micro-ondas, ar-condicionados, entre outras coisas, foram compradas à prazo. Quem se arriscaria, a partir de agora, a comprar não só bens da linha branca, como casa, carro, móveis, ou qualquer outra coisa à prazo, sem saber se, amanhã, ele poderá ser mandado embora com uma mão na frente e outra atrás? E o lazer, o cinema, o shopping, o passeio no parque, como vai ser, ganhando menos e trabalhando mais?

No final das contas, tudo o que o empregador pensou que ia ganhar tendo menos despesas com o funcionário vai ser perdido quando este mesmo funcionário, que precisa comer, se divertir, se vestir, ou seja, consumir, perder a segurança no seu emprego, e passar a pensar cada vez mais no hoje e menos no amanhã. Como resultado, a economia não vai crescer, novos empregos não serão criados, e os desempregados dispostos a ganhar menos serão contratados no lugar daqueles que agora já não consomem por falta de segurança, agravando ainda mais o problema num círculo vicioso, até que algum gênio da lâmpada perceba que esta reforma trabalhista é um mal para o país que precisa ser revogada.

Getúlio Vargas já sabia o nível de estupidez da classe empresarial brasileira. Já naquela época, eles reclamavam das medidas a favor do trabalhador que deram na Consolidação das Leis do Trabalho, esta mesma que acaba de ser destruída pelos bisnetos daqueles empresários.

Getúlio Vargas já sabia naquela época o que os empresários não souberam enxergar: trabalhadores explorados não podiam dar em boa coisa pra ninguém, nem para eles, nem para os empresários, e nem para o país.  Uma lição que três gerações de empregadores ainda não aprendeu.

24 de julho de 2017

O dilema eleitoral de Jair Bolsonaro que o impedirá de ser presidente do Brasil

IMAGEM FODA

setores dos mais diversos espectros ideológicos do país já se preocupam com a possibilidade do polêmico deputado Jair Bolsonaro angariar um número de votos avassalador nas próximas eleições, algo que lhe permita ter condições reais de se eleger presidente da República. Para mim, no entanto, essa possibilidade não existe.

As chances de Jair Messias Bolsonaro envergar a faixa presidencial no próximo mandato são as mesmas que o outro malucão reacionário defensor da família tradicional e da pátria amada, Enéas Carneiro, tivera antes dele, ou seja, nenhuma.

Para uma pequena parcela da extrema direita brasileira, famílias conservadoras de base católica em fase de extinção, Bolsonaro é sim o seu representante legítimo. Votam nele com convicção e corroboram todos os seus preconceitos.

Para um outro tanto de eleitores, no entanto, o “bolsomito” é uma figura caricata, personagem que uns levam a sério, outros não. Apoiam o deputado porque também são machistas e não gostam de “esquerdistas”, mas essa parcela representa, no que eu posso perceber, jovens de classe média ou jovens da periferia urbana sem instrução e conhecimento político, ou seja, outro pedacinho da fatia do eleitorado.

Mas o que a grande maioria esmagadora de eleitores, aqueles de centro, sem paixões ideológicas exacerbadas sente mesmo por ele é uma tremenda rejeição, que, pela minha percepção, ainda vai crescer muito conforme as pessoas o forem conhecendo melhor.

O dilema: por que Bolsonaro está numa sinuca de bico

Digamos que, tal como Lula em 2002, Bolsonaro resolva contratar um marqueteiro para dar um upgrade na sua imagem negativa. A partir de então, surgiria um Bolsonaro repaginado, suavizado, sem aquele corte de cabelo à la Hitler e com todos os seus comentários fascistas do passado, em cada nova entrevista, relativizados. O que será que aconteceria? Fácil de prever.

Certamente Bolsonaro, nesse caso, ganharia o apoio de alguma parcela do eleitor centrista, mas obviamente perderia muito mais dos seus fiéis defensores radicais da extrema-direita. Talvez a troca não compense.

Então, ele resolve partir para a disputa do jeito que sempre foi, travestido de general anacrônico da Ditadura, um fóssil vivo de épocas vergonhosas. Bom, neste caso, seu pequeno eleitorado orgulhoso se manterá fiel, mas insuficiente para uma vitória, exatamente como Enéas nas três eleições presidenciais que disputou.

Existe alguma chance de Bolsonaro ser o presidente do Brasil?

Eu diria somente se, por uma outra aberração política inimaginável, mas que tomaremos aqui como hipótese, Jean Wyllys surgisse com reais chances de vitória na eleição. Isso porque o deputado do PSOL, homossexual, negro e “esquerdista”, carrega em si mesmo o alvo de quase todos os principais preconceitos do país e ainda mais rejeição do que o próprio Bolsonaro. Nessa estranha relação dialética que Bolsonaro e Wyllys mantêm entre si, a vantagem ainda seria do reacionário de direita.

Leia também: A falsa simetria entre Bolsonaro e Jean Wyllys

Mas, numa disputa realista, com Marina Silva, João Dória, Alckmin e Ciro Gomes (um pouco menos), todos comportados garantidores dostatus quo e do clima de paz e estabilidade que a alta burguesia precisa para o seus negócios, e não os extremismos radicais — que Donald Trump implementa nos Estados Unidos e já faz o país se arrepender, por exemplo — Bolsonaro seria vítima do seu próprio dilema.

Por isso, eu fico absolutamente tranquilo quanto à possibilidade de sua eleição. Nem as classes dominantes deste país chancelariam tamanha aventura. 

12 de julho de 2017

Lula condenado à prisão. Lava Jato encerra último ato de sua ópera bufa

Aécio, o protegido da justiça

Enfim, todo o processo da Lava Jato, que (não) por acaso, começa a ser desmontado com o fim da exclusividade de delegados da Polícia Federal envolvidos nas investigações, chega a seu ápice, sua razão de existência: a condenação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva a 9 anos e meio por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

E esse foi o resultado de apenas um dos processos, o referente ao chamado “triplex do Guarujá”, a reforma do apartamento feita pela empreiteira OAS que caracterizou a corrupção ora condenada pelo juiz Sérgio Moro.

Lula ainda pode e certamente recorrerá da sentença, mas podemos adiantar aqui, mesmo sem bola de cristal, que perderá também em segunda instância.

Isso não significa que o ex-presidente será encarcerado, sonho de uma parcela da população brasileira que tem verdadeira ojeriza não só ao ex-torneiro mecânico sem o ensino básico completo que chegou ao poder, mas a tudo o que ele representou durante o seu governo: a ascensão de amplas parcelas de miseráveis e pobres ao nível de consumo e de educação, uma população que o sociólogo Jessé Souza provocativamente chamou de ralé, e que historicamente tem merecido o desprezo das camadas sociais de cima.

Não, Lula não será preso. Até pela sua idade, já acima dos 70 anos. Mas para os fins da Lava Jato, isso não importa. O que é realmente importante é a condenação em segunda instância, com previsão de ser analisada daqui entre seis e nove meses, que já seria o suficiente para impedi-lo  de concorrer à presidência da República em 2018, com base na Lei de Ficha Limpa.

O repórter da Globonews, agora há pouco, nem teve a discrição de ocultar as verdadeiras razões do impedimento do ex-presidente. Não foram os lamentáveis mal feitos que Lula infelizmente se envolveu. Segundo disse no ar, ao vivo, o Lula de hoje não é o “Lulinha Paz e Amor” que venceu as eleições de 2002 e 2006. Suas opiniões têm sido bastante contundentes, o que colocaria em risco, segundo alguns analistas, todos os ganhos políticos da burguesia nesse período de vandalismo praticado pelo parlamento e o governo federal contra os direitos dos trabalhadores, e isso estava “assustando o mercado financeiro”.

A confirmação dessa ideia veio logo depois ao anúncio da sentença, com a Bovespa disparando e o dólar caindo vertiginosamente — sinais típicos do “bom humor do mercado”.

Não sei se teremos panelas comemorando a condenação do Lula nas varandas ou passeatas da burguesia verde e amarela na avenida Paulista, pois até para eles existe o constrangimento do descaramento que é a justiça brasileira, com seus dois pesos e duas medidas, dependendo do réu. Há meses o rato que ocupa a presidência da República consegue escapar de todas as ratoeiras colocadas pelo caminho com ajuda essencial de um STF que de vez em quando desarma algumas delas, enquanto o playboy mineiro mais delatado do Brasil, aquele que combina recebimento de propina e que manda matar se o seu testa de ferro for capturado, vai contando com a impunidade garantida especialmente por um correligionário político travestido de ministro do Supremo, pronto a libertá-lo das garras da lei sempre que necessário.

A única coisa realmente positiva de todo esse circo armado com o intuito de tirar o Lula da eleição de 2018 é que assim uma esquerda independente e moralmente isenta de qualquer promiscuidade com esses acontecimentos lamentáveis pode surgir, bater no peito e dizer que o lulopragmatismo, ou seja, o modelo lulista de governar se imiscuindo com o que há de mais podre na política, não cabe a ninguém da esquerda. É imoral e foi um erro. Novas lideranças podem assumir esse vácuo, de uma forma a juntar os cacos de confiança e esperança dos eleitores que o PT quebrou e espalhou por aí, e assim construir uma nova realidade para o nosso país. Aprender com os erros que o PT até hoje se nega a admitir, e saber que a luta de classes não permite concessões ao inimigo, a quem hoje está fraco mas que amanhã, com a sua própria ajuda, pode se reerguer, se virar contra você e te jogar no limbo, que é onde estão hoje Lula e o PT, depois de fazer alianças com quem deveria ter esmagado quando podia.

Façamos do pensamento do polêmico escritor russo Vasily Rozanov um guia nessa era pós-Lula: “das grandes traições iniciam-se as grandes renovações”.

6 de julho de 2017

Qual tem sido o papel do PT diante do governo e da crise política atual?

O Partido dos Trabalhadores foi, sem sombra de dúvidas, o maior prejudicado pela campanha reacionária que ficou ainda mais atuante no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Desde a vitória eleitoral questionada no Tribunal Superior eleitoral, passando pela tática de obstrução de governabilidade promovida pelo Congresso, até a aceitação da acusação, votação e condenação da presidente num Impeachment golpista, o PT foi atacado por todos os lados, na política e na opinião pública através de uma imprensa corporativa hostil. Era natural, portanto, que o partido fosse uma das vozes mais atuantes no atual momento de crise política vivido pelo governo usurpador e seus aliados políticos. Mas é isso que estamos vendo?

Estranhamente, não.

Mesmo que alguns militantes, sindicatos e movimentos sociais ligados ao partido estejam nas redes sociais e nas ruas engrossando o “Fora Temer”, a alta cúpula do PT resolveu contemporizar com os seus notórios algozes.

E isso já ficou claro desde o princípio deste ano, quando o próprio ex-presidente Lula se colocou à disposição de Michel Temer para dialogar soluções políticas para a crise, atitude que ultrapassou qualquer cordialidade republicana.

Veja em: Lula dá conselhos a Temer e diz estar à disposição para diálogo: ‘Me chama’...

Temer visita Lula

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Carlos Zarattini (SP) teve uma postura ainda mais surpreendente mês passado. Diante da enxurrada de evidências contra o senador Aécio Neves reveladas recentemente — um dos maiores algozes do PT e aliado do governo golpista — o deputado petista afirmou que “não podemos torcer por um ataque sem nenhum princípio às pessoas”.

Leia mais: ‘Torcer pela prisão de Aécio é equívoco’, diz líder do PT na Câmara

Ainda no mês de junho, o Partido dos Trabalhadores lançou uma nota contra a Lava Jato e a Procuradoria Geral da República, no exato momento em que ambas voltam suas baterias contra Aécio e Temer. Fato intrigante e curioso é que, em seu pronunciamento logo após ser denunciado por Rodrigo Janot, Michel Temer tenha feito a mesmíssima insinuação que Lula fizera mês passado, fazendo alusão a um procurador muito próximo de Janot que fora preso, para criticar os métodos da PGR.

“Eu não sei se o procurador-geral da República, que tinha um amigo procurador que foi preso, e que ele até pediu desculpa na televisão, ficou chateado porque o procurador era amigo dele, queria fazer jantar para o procurador, o procurador fazia jantar para ele, não sei se a teoria do domínio do fato vale pra ele, se ele sabia que o cara era ladrão” (Luis Inácio Lula da Silva. fonte: valor.com.br)

Além disso tudo, Dilma Rousseff, que poderia ser uma voz de legitimidade no meio do caos político que se instalou no Brasil pós-Impeachment, resolveu ficar totalmente longe dos holofotes.

No seu sexto Congresso realizado em junho, que elegeu Gleisi Hoffman como a nova presidente do partido, o PT lançou uma nota bastante crítica ao governo, ao cenário atual e propôs algumas medidas bastante progressistas. Mas diante deste cenário, como não pensar que todo esse discurso não faz parte de uma estratégia que o filósofo Vladimir Safatle classificou corretamente como “A estação das cerejas vermelhas”? Fora do poder, ou em campanha presidencial, o PT faz um belo discurso de esquerda, mas suas ações na prática não corroboram as intenções.

O PT e sua ambiguidade tem feito muito mal às esquerdas. Sobre a possível admissibilidade de acusação contra Temer na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, o jornalista Fernando Rodrigues afirma que

…o PT mostra ambiguidade. Chama a atenção que ninguém relevante do partido esteja à frente de 1 grupo para arregimentar deputados a favor da denúncia. Há algumas iniciativas, mas nenhuma “mainstream” que possa ser considerada uma movimentação orgânica e centralizada.

Ainda existe muita, muita gente boa e bem intencionada nos quadros petistas. Mas por uma série de fatores difíceis de compreender, estes militantes não são capazes de se desvencilhar da crença cega nos membros do alto escalão do PT, que não praticam o que pregam. Para estas pessoas, e para o bem da esquerda no Brasil, o PT deveria abrir mão de lançar candidato em 2018, fazer parte de uma ampla coalização nacional sem o intuito de liderá-la, e dirigir o seu capital eleitoral formado por estes petistas de bem para uma outra liderança, jovem, verdadeiramente comprometida com o nosso lado na história.

Não dá pra cair 5 vezes no conto do PT como partido progressista de esquerda.

30 de junho de 2017

Esquerda não tem nome a propor numa eleição direta


Lenin

Quando eu estava na faculdade, numa aula de sociologia, houve o debate sobre as novas formas de movimentos sociais. Na onda da queda de prestígio e representatividade dos partidos políticos, muitos estavam felizes com as novas formas de protestos e de movimentos sociais descentralizados, sem uma liderança clara e assumida, tendo a Aliança Zapatista de Libertação Nacional (AZLN) e seu relutante líder, comandante Marcos, como modelo ideal. Hoje vemos que esse tipo de mobilização não deu os frutos que se esperava.

A famosa Primavera Árabe causou revoltas “populares” que tinham como finalidade “tirar ditadores do poder” mas que no fundo não passaram daquilo que é conhecido como revoluções coloridas, cujo resultado foi guerra civil e ascensão de grupos radicais como o Estado Islâmico.

Nos Estados Unidos o Occupy Wall Street prometia ser um marco na luta contra a poderosa influência do setor financeiro naquele país, cuja quebra da economia em 2008 levou milhões ao desemprego. No entanto, sem um foco e uma bandeira definidos, hoje não tem a menor representatividade. E assim tem sido na Ucrânia, tendo como consequência o surgimento de grupos fascistas, na Venezuela, cuja mobilização favorece uma classe média altamente reacionária que não aceita a ascensão dos pobres, e assim por diante.

No Brasil, a onda de protestos começou em 2012 com manifestações contra o aumento das passagens e englobou tantas reivindicações, tão contraditórias entre si, que foi fácil para uma determinada camada social com o apoio da mídia direcionar o foco para a crítica interesseira ao governo Dilma. Assim a classe média reacionária brasileira também assumiu as manifestações com suas próprias demandas, e as legítimas exigências de reformas ficaram no caminho.

Com a crise prolongada causada por um Impeachment golpista e mal ajambrado, setores das camadas sociais progressistas e de trabalhadores, que andavam afastados das ruas, começam a voltar timidamente. Mas quais são as suas bandeiras? Quem lidera o movimento?

Parece que o grande consenso dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais e dos trabalhadores organizados é o inócuo “Fora Temer” e suas reformas draconianas. Mas aí está o cerne da nossa crise, do por que as massas não estarem envolvidas nas ruas nos protestos. Sai Temer, entra quem? Em nome de que causas? Em nome de quem?

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Sem liderança, os protestos no Brasil não têm futuro

Infelizmente, por conta da onda de manifestações descentralizadas, sem uma liderança clara, que engloba demandas não muito específicas e aliada à crise de representatividade dos partidos nestes tempos de pós-modernidade, não foi possível forjar uma liderança que guiasse e reunisse os anseios da massa de cidadãos, aquele que simbolizasse a esperança de um novo caminho. Você olha as manifestações e não é capaz de encontrar alguém que possa dizer: “este é o caminho, vamos juntos construir um novo modelo de país”.

A narrativa que impregna o senso comum de que todo político é igual, que a corrupção generalizada está em todos os partidos e que ninguém escapa faz muito mal ao Brasil, e nisso a imprensa tem uma responsabilidade muito grande. Na TV, vemos todos os dias listas de partidos que receberam “doações”, caixa 2 e participaram de esquemas de propinas em obras, onde os destaques são sempre PT, PSDB e PMDB, junto com outros que engrossam a lista. Mas veja como também seria um serviço ao país uma reportagem que dissesse: “Agora vamos mostrar também a lista dos partidos cujos políticos jamais apareceram em nenhuma lista de corrupção e propinas da Lava Jato”. Eles existem e estão aí, mas ninguém fica sabendo.

O que falta para que a população brasileira de modo geral, e não apenas seus setores organizados se engajem mais nas mudanças que o Brasil precisa promover é aparecer uma liderança. Sem um símbolo — a direita sabe disso e na falta de um, construiu o seu “caçador de marajás” nas eleições de 90, entre outros casos — as demandas dispersas não atingirão o núcleo do poder no Brasil, antigo, organizado e coeso, sempre pronto a defender seus próprios interesses, embora hoje não saibamos se é manter Temer ou tirar Temer. A própria direita se encontra dividida, mas a única coisa que sabemos é que ela sabe quem colocar para defender os seus interesses, caso Temer venha a cair. E nós, quem é o nosso representante?