20 de dezembro de 2016

O que os alimentos podem nos dizer sobre a “lógica” do capitalismo

O capitalismo não tem lógica
Estou muito longe de ser especialista em Economia mas vou me atrever a fazer alguns questionamentos baseados na minha observação de como anda funcionando o mercado capitalista, no caso específico dos alimentos saudáveis. Alguns deles exigem um processamento industrial menos elaborado (e mais barato, portanto) mas tem um preço maior. Vamos ver qual é a lógica disso.
 
Produtos de maior processamento industrial deveriam refletir um preço mais caro, correto? Não na lógica mercadológica capitalista. Pelo menos quando falamos de alimentos.
 
Tomemos dois exemplos: o pão e o arroz.

No processo de industrialização do arroz branco, são removidos a casca, o pericarpo e o gérmen, sua porção mais externa. As partes mais ricas em nutrientes são jogadas fora, e o que sai da fábrica é o miolo branco rico em amido (que vira açúcar no organismo).
No processamento do arroz integral, por sua vez, é retirada somente a casca, mantendo-se o pericarpo e o gérmen, altamente nutritivos.

O processamento do pão integral é mais ou menos análogo. A farinha de trigo do pão integral contém pedaços de grãos e gérmens do trigo, que são retiradas no processo de moagem da farinha branca, utilizada no pão branco. Apesar de demandar maior tratamento industrial, o pão branco é mais barato. Qual é a lógica do mercado?
 
A conclusão que nos é legítima chegar é que o preço não é determinado pela lógica capitalista nua e crua de mercado, de custos de produção, taxa de lucros, oferta e procura, etc. Há algo de muito subjetivo nessa suposta ciência exata do capitalismo.
De acordo com o site "Guia do Marketing",
O preço do produto também deve ser definido a partir do nível de renda dos consumidores, além do quanto estes estão dispostos a (e podem, também!) pagar pelo produto/serviço. Este conceito é parte da orientação para o mercado, e a organização deve sim, considerar seus custos para produção, distribuição e divulgação do produto, mas o que determinará um preço competitivo será um que equilibra o valor percebido pelo cliente, com o preço que é cobrado. O custo passa a não ser um determinante, mas apenas mais um componente da formação do preço final do produto ao consumidor.
A partir daí podemos aferir que os produtos mais nutritivos são destinados a uma camada da sociedade que pode pagar pelo quesito "saúde" embutido no preço, não obstante o produto exija um processamento mais simples (e tenha portanto, um custo menor). Por outro lado, os produtos pobres em nutrientes, mas que exigiram maior processamento (maior custo de produção) são destinados a uma parcela da sociedade que não pode se dar ao luxo de pagar o preço da mera sugestão mercadológica de "produto saudável".

 
A mesma lógica se aplica no caso do alimento orgânico. A desculpa para estes alimentos serem até 40 por cento mais caros é que eles são produzidos em pequena escala, entrando assim na questão da lei da oferta (baixa) e da procura (alta). Mas a verdade é que bastava acabar com o lobby das indústrias de agrotóxicos e mudar o sistema agrícola no Brasil através de uma Reforma Agrária que incentivasse os pequenos produtores em vez dos grande latifundiários, para que a oferta de produtos orgânicos (livres de agrotóxicos cancerígenos) fosse a regra, não a exceção.
 
Existe uma indústria gigantesca de agrotóxicos -- entre as quais a Monsanto, que produziu o famigerado "Agente Laranja" na Guerra do Vietnã, a Syngenta, a Basf, a Bayer, a Dow e a Dupont, que juntas dominam 68% deste mercado -- ligadas aos grande produtores rurais, que envenena nossa comida, enquanto que a solução óbvia era que existissem milhares de pequenas agriculturas familiares, livres deste tipo de produto tóxico.
 
Mais uma vez a lógica estranha do mercado: milhões de reais são gastos na aquisição destes agrotóxicos (uma média de 5,2 litros de agrotóxico por habitante no Brasil) para pulverizar as imensas lavouras dos grandes produtores. Uma pequena parcela da população compra alimento orgânico, livre destes produtos industrializados, pagando quase o dobro por isso, enquanto a esmagadora maioria da população se vê sem opção a não ser comprar produtos envenenados industrialmente, porquanto mais baratos. Acredito que nenhuma ciência econômica possa explicar esse fenômeno por um viés racional, lógico e objetivo. Apenas -- como foi dito no Guia do Marketing -- pela ideia subjetiva de que "preço do produto também deve ser definido a partir do nível de renda dos consumidores, além do quanto estes estão dispostos a (e podem, também!) pagar pelo produto/serviço".
 
Uma alimentação saudável deveria estar a disposição de todos no seu preço justo de mercado e não determinada para esta ou aquela faixa de consumo. Mas esta é apenas uma das irracionalidades abomináveis do suposto "capitalismo racional" defendido por aqueles que veem seu sistema econômico desmoronar nas sucessivas crises econômicas que eles mesmos não sabem controlar.

16 de dezembro de 2016

Como o livre-mercado prejudica países em desenvolvimento: o exemplo do futebol

Seleção Brasileira de gringos

Durante muitas décadas no nosso país, vigorou na legislação esportiva a chamada lei do passe, especialmente no caso da profissionalização do futebol ocorrida na primeira metade do século passado. O “passe” era o vínculo que o atleta tinha com o seu clube de futebol, que representava, na verdade, uma posse, uma propriedade sobre o atleta.

Muitos, por um lado, passaram a ver o passe, em determinado momento em que o mundo discutia a liberalização da economia internacional por conta da queda da União Soviética, no começo dos anos 90, como uma forma de escravidão. De fato, os atletas de futebol não tinham muita liberdade de escolher onde trabalhar. O futebol brasileiro de então representava um mercado fechado, e as transferências, tanto nacionais quanto internacionais eram mais raras.

Como consequência, era normal os principais jogadores de um clube atuarem por seus respectivos times durante muitos anos seguidos, às vezes mais de uma década, enriquecendo assim o nosso produto, qual seja, o futebol nacional. Para ver Pelé, Didi, Garrincha, Leandro, Júnior, Zico, Reinaldo, Romário e tantos outros craques famosos, ninguém precisava pagar TV a cabo para assistir, por exemplo, Barcelona x Real Madrid na Liga dos Campeões. Era só comprar um ingresso no Maracanã para ver um Flamengo x Botafogo no Campeonato Carioca.

O passe representava, então, uma espécie de protecionismo, pois impedia que os clubes mais ricos do exterior pudessem usar seu poderio financeiro para retirar do futebol brasileiro os melhores atletas.

A ideologia do mercado entra no futebol

A onda neoliberal que acossou o mundo no final dos anos 80 e começo dos anos 90 chegou ao futebol para liberalizar as relações entre clubes e atletas dos países em desenvolvimento. No Brasil, esse movimento culminou com a lei 9.615/98, propriamente chamada de Lei Pelé. Com ela, foram institucionalizadas normas gerais no desporto, e dentre elas, a questão do passe.

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Na verdade, o que a Lei Pelé fez foi extinguir a Lei do Passe. Em tese, aplicando a lógica neoliberal ao futebol, quebrou-se o protecionismo, abriu-se o mercado brasileiro, e de tempos em tempos durante o ano, em situações que se chamam “abertura de janela”, os clubes europeus, asiáticos ou de quaisquer outros lugares em que a economia seja mais forte do que a nossa, vêm aqui pesquisar pra levar alguns dos nossos melhores atletas, exatamente como numa feira de domingo, pagando uma multa rescisória e levando o jogador na hora.

Além disso, a Lei Pelé permitiu a criação de clubes-empresas. Qualquer empresário, seja ele do ramo do futebol ou não, pode abrir um clube, muitas vezes que só existe no papel, para aliciar jogadores da base dos clubes verdadeiramente formadores de atletas, prometendo o caminho mais curto para a Europa. Neste exato momento existem centenas de jogadores brasileiros atuando em clubes europeus que nem sequer jogaram uma única partida pelos profissionais de nenhum clube brasileiro.

O resultado é óbvio: com os melhores jogadores do mundo, as ligas europeias e seus respectivos clubes ganham destaque mundial, arrecadam bilhões de dólares em publicidade e compra de direitos de transmissão. Os clubes brasileiros, por seu turno, padecem com jogadores medíocres, ou em fim de carreira, sem mercado lá fora pela idade avançada, que por sua vez disputam um campeonato tecnicamente pobre com estádios vazios e que, pasmem, alcança cada vez menos índices de audiência na TV. Viraram meros fornecedores de matérias-primas, exatamente como o restante da economia brasileira inserida de forma dependente no mercado mundial. Nosso país desindustrializado produz carne, soja e jogadores para o mundo.

A questão é: num mercado mundial totalmente aberto em que as relações econômicas e de poder são gritantemente desiguais, alguém sempre vai sair perdendo. E é óbvio que os clubes brasileiros, mais fracos economicamente, perdem nesta relação.

Alguém poderia alegar, não sem uma dose de razão, que jogadores são pessoas e que ninguém deveria impedir as pessoas de escolherem onde querem trabalhar, onde lhe oferecerem as melhores condições. Então eu sou obrigado a lembrar de uma das maiores ironias do capitalismo globalizado e liberalizante: produtos, capitais e serviços circulam livremente no mundo capitalista, menos… as pessoas. Ninguém é livre no mundo para atravessar fronteiras e dizer “quero trabalhar na Noruega”, ou no Canadá, ou nos Estados Unidos, ou em qualquer outro lugar. Nesse caso, em todos esses países existem leis protecionistas que inibem a imigração. Não é curioso?

Transpondo essa lógica para a economia de modo geral, se não deveríamos impedir atletas de jogarem onde quiserem, deveríamos, pelo menos, criar restrições aos produtos estrangeiros, para que nossa indústria possa crescer e produzir, competindo de igual para igual com os outros países. Os ideólogos adamsmithianos do capitalismo mundial querem nos fazer crer que o Brasil tem apenas vocação agrícola e deve se manter assim, uma eterna grande fazenda. E encontra tolos no nosso próprio país dispostos a acreditar nisso, alimentando uma dependência, um atraso e uma defasagem tecnológica que nos coloca nas trevas no grande jogo geopolítico internacional.

Como diz um grande amigo, o futebol emula a vida.

13 de dezembro de 2016

Capital x Social: uma contraposição

  comparação entre capitalismo e socialismo

Meu amigo Sandro Ataliba tem dois dos blogs que eu mais gosto de ler: Perspiciência e Esquizofrenético Blues*. Neste último, ele toca num tema que é um dos mais caros e apaixonantes para mim: a comparação entre os sistemas capitalista e socialista, onde defende o primeiro em detrimento do segundo.

Na tentativa de contrapor uma perspectiva mais realista dessa dicotomia, eu achei que um comentário na sua publicação seria pouco, por isso resolvi transformar esse saudável debate numa postagem, para poder aprofundar mais os temas levantados, como se segue.

Logo no começo, o Sandro Ataliba já deixa claro a sua preferência: “por mais que o capitalismo tenha seus defeitos, enquanto a única opção for o Socialismo, eu continuarei a favor do capital”. Nada mais justo. Todos temos o direito de optar por uma posição política ou uma visão de mundo, desde que não fira os direitos de ninguém e que melhor condiga com nossas convicções. Mas o problema — e razão desse debate aqui — é o conceito que o Sandro cria de “socialismo” para fazer o seu elogio do capitalismo.

Para ele, o socialismo é o sistema “de quem não quer se esforçar”, que não oferece conforto nem liberdade, não possibilita que as pessoas tenham produtos de qualidade, nem veículos, apenas “transportes coletivos” (que mau isso!), que oferece sempre baixos salários, sendo esse o “socialismo do dia-a-dia”, enquanto que o capitalismo é aliado da “liberdade” e da “meritocracia”. Nesse sistema, o mercado opera o milagre do bem-estar, oferecendo a possibilidade das pessoas terem até quatro televisões (?!), para assistir os canais a cabo norte-americanos, o direito de ir e vir, o turismo e telefones celulares à vontade... Quem poderia ser contra o capitalismo num panorama desses?

O problema é que esse apanhado está muito longe da realidade, e se a gente quiser enxergar os fatos com justiça tem que fugir da superficialidade.

Consumir produtos supérfluos é o sucesso?

 

Infâmias do capitalismo

Parece que meu amigo Sandro, por um lado, confunde o socialismo com as formas propagandeadas pelos suspeitíssimos veículos de comunicação do Ocidente, que colocam socialismo, marxismo, stalinismo, maoísmo e castrismo no mesmo saco, sem aprofundar as diferenças teóricas, as causas da repressão e da “falta de liberdade” na URSS, na China e em Cuba; e por outro, pega a face mais imediatista do capitalismo — o consumismo de produtos e serviços — como parâmetro de sucesso, esquecendo tudo o que o capitalismo, por seu turno, causou de destruição ambiental pela obsolescência programada destes mesmos produtos; fome pela desigualdade social que provoca; extermínio de povos pelas guerras de conquista; censura pelo medo da verdade; ditaduras para garantir matérias-primas baratas de governos subservientes;  repressão a ideologias rivais e miséria, tudo isso para que uma pequena parcela da população pudesse, dentro do que Fernand Braudel chamou de “redoma de vidro”, ter suas quatro televisões e seus três celulares. Provavelmente 80 por cento da população mundial (pra ser modesto) sob o capitalismo não compartilha essas maravilhas do sistema; outros, apenas de modo bastante superficial, como por exemplo, "ter celulares".

Segundo Sandro, no entanto, todos esses pontos negativos “não têm nada a ver com o sistema, mas com as pessoas que dele fazem parte”. Ora, mas essa lógica não deveria ser aplicada ao socialismo também? Todas as críticas ao socialismo poderiam ser perfeitamente refutadas com esse artifício. Dois pesos, duas medidas...

O que, de fato, representa o socialismo

As propostas socialistas são bastante claras e acessíveis para serem enumeradas aqui. Ao contrário do que é apresentado, o socialismo é o grande responsável por grande parte dos direitos e do bem-estar de que gozamos hoje. Basta uma leitura nos livros de História sobre a Revolução Industrial, que estabelece definitivamente o império do sistema capitalista no Ocidente, para vermos a realidade: pessoas expulsas de suas terras, obrigadas a se sujeitarem a vender sua força de trabalho nas cidades por salários aviltantes, trabalhando até 16 horas por dia em fábricas que empregavam até crianças de 6 anos, com capatazes prontos a dar chicotadas ao menor desvio, sem direitos nem benefícios, morando em casas insalubres, sem tempo de ter educação e muito menos lazer...

Se não fosse a organização dos trabalhadores em torno dos sindicatos — atacados de todas as formas pelos capitalistas, é bom lembrar — que defendiam os ideais de esquerda, como o anarquismo e o socialismo, ao contrário do que meu amigo pensa, hoje não teríamos televisão, nem carro, nem celular, porque sequer teríamos tempo. Não fosse a redução progressiva da jornada de trabalho para as atuais 8 horas, fruto das lutas socialistas, provavelmente nem ele, Sandro, nem eu poderíamos estar escrevendo nossos textos, porque além de não sabermos escrever, estaríamos enfurnados em alguma fábrica trabalhando numa situação que faria os escravos da lavoura canavieira do século XIX se sentirem abençoados por deus...

Sobre a Rússia, cujos dirigentes comunistas Sandro afirma que saíram ricos enquanto o povo saiu pobre, qualquer comparação dos dados sociais dos anos 80, década da crise do comunismo, com os dos anos 2000, vai deixar claro que a explosão de miséria da população russa começou exatamente com a implementação da economia de mercado. Aconteceu aquilo que todo brasileiro conhece muito bem: concentração de renda e o consequente aumento do abismo entre os biliardários e os miseráveis.

A preguiça está no conformismo da zona de conforto

Eu, sinceramente, não sei como duas das maiores peças de propaganda ideológica do sistema capitalista podem fazer sucesso através de correntes de e-mail: as ideias de que socialistas são jovens rebeldes e que o socialismo fomenta a preguiça, enquanto que no capitalismo, o trabalho duro e o mérito recompensam a todos... A esmagadora maioria das pessoas do mundo capitalista está apartada das “maravilhas” do capitalismo, e só por um acaso, elas também representam a classe trabalhadora, empregada ou desempregada. “Meritocracia” é um conceito tão inverossímil na realidade destas pessoas que não faz nenhum sentido pra elas. Embora o trabalho seja árduo, as recompensas ficam com terceiros...

Esses críticos do socialismo parecem que não sabem nada de Istvan Mészàros, Rosa Luxemburgo, Apolônio de Carvalho, Luis Carlos Prestes, Antonio Gramsci, Eric Hobsbawm, os novos movimentos sociais anticapitalistas, do povo francês que fez a Revolução e foi traído pelas classes burguesas, que depois fez a Comuna de Paris e foi massacrado pelas mesmas classes dominantes, mas que ainda assim lutou e conseguiu o sufrágio universal, o voto das mulheres, os direitos trabalhistas, a educação para todos... E provavelmente não sabem mesmo, mas só confirmam que a propaganda ideológica tem afetado com grande sucesso todas as camadas sociais, desde as mais altas, as verdadeiramente beneficiadas com o capitalismo, que entendem os complexos mecanismos de ganhar muito dinheiro sem trabalhar, até as camadas médias e mais baixas da sociedade, preocupadas com o imediatismo do consumo de bens supérfluos e serviços como parâmetro de bem estar. São consumidores, não cidadãos plenos que lutam pelos seus direitos. A zona de conforto do consumismo talvez seja a pior das preguiças.

Tudo o que se pode querer é uma alternativa ao sistema que hoje domina. O mundo já percebeu isso. Será que as milhões de pessoas que cada vez mais se rebelam contra o capitalismo e pedem um outro modelo no mundo, não gostam de conforto? Não gostam de bem-estar? Não gostam de liberdade? Pelo contrário, é justamente a favor de tudo isso que elas lutam. E elas sabem muito bem que isso não existe fora da redoma de vidro.

* Infelizmente, ambos os blogs mencionados aqui só estão acessíveis atualmente para convidados.

9 de dezembro de 2016

A direita brasileira duvida da sua inteligência

No episódio da votação do Impeachment de Dilma Rousseff no primeiro semestre deste ano, ganhou destaque um vídeo em que Jean Wyllys, deputado pelo PSOL-RJ, dispara uma cusparada em direção a Jair Bolsonaro, atualmente do PSC-RJ.

A justificativa para tal reação foi a constante provocação do deputado homofóbico contra Jean Wyllys. Naquela ocasião da votação, o deputado psolista fora perseguido e chamado de “viado”, “baitola” e “queima-rosca” por Bolsonaro. Quando Jean Wyllys foi seguro pelo braço, disparou a cusparada como a gota d’água de uma obsessiva perseguição que o deputado do PSC promove contra o psolista nas diversas sessões da Câmara.

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No dia seguinte ao episódio, tentando aliviar a barra do pai e incriminar Jean Wyllys, o filho do deputado do PSC, Eduardo Bolsonaro, divulgou um vídeo em que Jean Wyllys, supostamente, teria não reagido a provocações homofóbicas, mas premeditado a cusparada. Veja:

O filho do Jair Bolsonaro não se furta de manipular a ordem dos acontecimentos, além de atribuir uma legenda falsa ao deputado Jean Wyllys, que, segundo a versão manipulada de Eduardo, disse: “Eu vou cuspir na cara do Bolsonaro, Chico”.  E em seguida vem a cusparada.

Entretanto, ontem foi divulgado o resultado da perícia da Polícia Civil de Brasília sobre o vídeo, a pedido do Conselho de Ética da Câmara. Segundo os peritos, o que Jean Wyllys realmente diz, é: “Eu cuspi na cara do Bolsonaro, Chico. Eu cuspi na cara do Bolsonaro. Eu cuspi!”, depois que realmente cuspiu.

Agora, cabe ao Conselho de Ética condenar Eduardo Bolsonaro que apresentou essa estapafúrdia montagem como prova.

Mas não é a primeira vez que a direita mente, inventa, manipula e espalha mentiras. É assim que ela vive, é assim que ela cresce. O próprio Jean Wyllys é uma das vítimas preferidas dos direitistas e sua rede de boatarias de internet, que espalham frases absurdas como se tivessem saído de sua boca.

Seria cansativo enumerar vários episódios em que a direita mentiu descaradamente para ludibriar seus simpatizantes. Mas algumas são verdadeiras pérolas da maior desfaçatez, e merecem ser lembradas.

O “atentado” da bolinha de papel

Serra vítima da bolinha de papel

Num dos episódios mais ridículos, e que entrou para o folclore da política como uma das maiores farsas já produzidas pela direita, o então candidato a presidente na campanha de 2010, José Serra, foi alvo de um “terrível” ataque com uma… bolinha de papel. Nos dias seguintes, emissoras de TV dramatizaram o “atentado” chamando até peritos para dizer como uma bolinha de papel poderia matar. A única coisa que mataram foram as chances de Serra vencer a eleição.

O aborto que “mata criancinhas”

Monica Serra

Nesta mesma campanha, que caracterizou-se por um moralismo exacerbado, o tema do aborto foi uma das estratégias da direita para tentar derrotar a candidata petista, Dilma Rousseff. Entrou em cena a esposa de José Serra, Mônica Serra, afirmando que Dilma era a favor de matar criancinhas, num ridículo e falso apelo emocional, porque era a favor do aborto. O que ela não contou, foi que confessou ela mesma ter feito um aborto, durante uma aula que ministrava.

Crianças são crianças, embriões são embriões e fetos são fetos. Chamar fetos de crianças é apelar para a ignorância alheia, por falta de argumentos verdadeiros. E ter feito um aborto e chamar quem aborta de matador de criancinhas é hipocrisia cretina.

O “perigo comunista” no Brasil

Marcha da Família

Essa retórica, acreditem, vai fazer 70 anos. Quando o mundo foi dividido na Guerra Fria, a Escola Superior de Guerra (ESG, fundada em 1949) importou baboseiras estadunidenses como a doutrina de segurança nacional, e com ela veio o medo dos comunistas. A partir de então, qualquer proposta, mesmo que vinda de setores conservadores, ou progressistas, ou de centro, ou de qualquer lugar, que visasse remediar um pouco das mazelas do capitalismo, meras reformas, era tachada de perigo comunista a ameaçar os valores cristãos da sociedade.

A Guerra Fria acabou, mas no imaginário das classes médias de direita, e na falta de uma atualização maior dos conceitos, esse perigo continua, e, acreditem se quiser, transmutado nos petistas! (!!)

“Bolsa Família sustenta vagabundo”

Mãos calejadas de trabalho

Essa é uma das melhores. Coisas que as pessoas, com muita preguiça de pensar ou sem tempo pra se informar, repetem de boca cheia. Mal sabem elas que estão apenas ajudando a disseminar falácias, sendo usadas como instrumentos de terceiros.

Mais de 75 por cento dos beneficiários do Bolsa Família são trabalhadores. Usam o benefício para aumentar a renda e custear os gastos com os estudos dos filhos e alimentação.

Além disso, quase 2 milhões de beneficiários já abriram mão do Bolsa Família, por entenderem já não precisar mais da ajuda.

Agora, enquanto a direita foca suas baterias no pobre trabalhador braçal que recebe cerca de R$170,00 de ajuda pra poder comer um pouco melhor, desvia a sua atenção do “Bolsa-Banqueiro”. Ou quem sabe dos super-salários do Judiciário. Ou da imoral “Bolsa-Filha-de-Militar”, que, desde que não se case, recebe pensão do Estado. Tudo isso saindo do nosso bolso. Muito mais custoso que o Bolsa Família.

O “Kit-Gay” que vai fazer seu filho virar “viado”

Bolsonaro contra cartilha anti homofobia

Com o simples intuito de confrontar o preconceito contra a homossexualidade, o material didático que atendia os requisitos do PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) foi defenestrado em 2011 pelo lobby da direita e da bancada evangélica no Congresso. Pouco se importam com as milhares de mortes violentas que acontecem todos os anos no Brasil, por conta da homofobia. Querem continuar mantendo as pessoas na ignorância (a ignorância gera o medo, e o medo causa reações violentas) e seu direito de ser preconceituoso, nem que para isso precisem manipular a verdade sobre o conteúdo do material didático.

*  *  *

Poderíamos continuar até não acabar mais. São tantas as mentiras que a direita conta para enganar os mais ingênuos — “somos todos brasileiros, portanto todos iguais”; “direitos humanos são pra defender bandidos”; “cotas raciais reafirmam o racismo”; “não existe esquerda nem direita”, e por aí vai — mas acreditamos já termos dado uma boa ideia.

E você? Qual a sua falácia favorita?

7 de dezembro de 2016

Renan Calheiros comete crime ao descumprir decisão do STF. E abre precedente

Renan Calheiros será preso?

Segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, referindo-se ao até ontem presidente do Senado, Renan Calheiros, descumprir decisão do STF é crime ou golpe.

Em entrevista à uma jornalista, afirmou que, mesmo “falando em tese” e não mencionando diretamente o nome do presidente do Senado, destituído pelo seu colega, ministro do Supremo Marco Aurélio Mello, Barroso afirmou que o descumprimento é “inadmissível em uma democracia”.

O episódio faz parte de mais uma batalha entre Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, tendo como justificativa os supostos abusos do Judiciário, que estariam extrapolando suas competências, para “atender o clamor popular que quer o fim da impunidade e da corrupção”. Os deputados e senadores responderam então com o projeto sobre o abuso de autoridade, incluído no pacote anticorrupção sugerido pelos próprios magistrados da Lava Jato.

No Congresso, a sugestão de lei com apoio popular foi alterada para incluir punições a membros do Ministério Público e do judiciário, de forma geral, que venham a usar seus cargos públicos de forma política. Desde então, há um curto-circuito entre as relações institucionais do Congresso com o STF.

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O curioso deste imbrólio realmente complicado é ver como as esquerdas têm se posicionado. Mesmo os petistas que de esquerda não têm nada, mas são vítimas do ódio burguês nacional como se de esquerda fossem, se encontram ao lado dos políticos, mesmo os reconhecidamente corruptos, como o próprio Renan Calheiros.

Mesmo que Dilma Rousseff tenha sido vítima desse suposto abuso de autoridade do judiciário no processo de Impeachment, e mesmo a Lava Jato voltando a sua mangueira agora para o PMDB, os petistas se colocam contra o suposto “abuso de autoridade” do Judiciário.

Alguns dizem que políticos devem ser cassados por políticos. Como se isso acontecesse no Brasil. As denúncias muitas vezes são contundentes, baseadas em provas, e no Congresso, o político é acolhido e a denúncia engavetada. Quantas vezes vimos isso nos últimos anos?

Outros, como uma jornalista famosa posicionada no campo progressista, dizem que o STF pretende atender as demandas da população, ouvir a “voz das ruas”. Segundo ela, o STF não deveria “atender demandas” (?) e sim “ministrar justiça”.

Mas logo se vê a falácia neste argumento. Ora, com o povo brasileiro cansado de tanta impunidade, principalmente nos altos escalões do poder, quem disse que demanda do povo não é justamente que o STF  e os demais tribunais“ministrem justiça” onde até agora só imperou a impunidade?

Agora que a Justiça resolve entrar de sola nos homens do colarinho branco, nos até então intocáveis corruptos do alto escalão, seja da política ou do setor empresarial, a esquerda vai ficar do lado de lá? Taí uma coisa que eu não estou conseguindo compreender, sinceramente.

E por fim, só uma coisa: ou tratam de pegar o Renan Calheiros e prendê-lo por desobediência, desacato, descumprimento de ordem judicial ou seja lá o que for, ou então o STF será desmoralizado perante a opinião pública.

Pior do que isso. Todo cidadão se sentirá no direito de descumprir qualquer ordem judicial, porque o Renan Calheiros é apenas um cidadão comum como outro qualquer, tendo suas prerrogativas de foro privilegiado até a página 3.

Se o descumprimento é “crime ou golpe”, como diz o ministro Barroso, não pode ficar impune.