14 de julho de 2016

Hoje a direita se acha forte. Mas amanhã há de ser outro dia…

Hoje a direita se acha forte. Mas amanhã há de ser outro dia…

Para aqueles que entraram na conversa pós-moderna, a realidade brasileira prova a cada dia que sim, existe direita e esquerda na política, e que as radicalizações dos setores mais reacionários do espectro direitista afloram ainda um outro conceito que andava meio esquecido: o da luta de classes.

“A cadela do fascismo está sempre no cio”, é uma das frases famosas do genial Berthold Brecht que ganharam popularidade nos tempos de internet. E reflete a mais pura realidade. Os setores mais conservadores, autoritários e reacionários da direita sempre farejam oportunidades de colocar seus preconceitos, sua violência e o seu modo de pensar pra fora, de forma impositiva. E o momento brasileiro é o ideal para isso, segundo pensam.

Com os pilares da democracia enfraquecidos, com as esquerdas acuadas em torno de velhos preconceitos recuperados da época da Guerra Fria, alguns movimentos como o MBL, financiados por partidos de direita e empresários estadunidenses, políticos que fazem o nome defendendo conceitos retrógrados e uma classe média sempre reacionária propõem agendas bizarras ao país.

A área da Educação parece ser o setor preferido dos seus ataques. Depois de chegar ao governo de forma ilegítima. golpista e sem votos, o vice presidente trouxe no seu staff de governo alguns destes elementos. Primeiro, o ministro da Educação que recebeu das mãos de um dos maiores trogloditas da direita, sugestões que vão ao encontro do movimento que se denomina “Escola Sem Partido”. Nem Hitler ou Mussolini poderiam imaginar algo dessa estupidez colossal. E depois, algum funcionário de dentro do governo, do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) teve a petulância de alterar, de forma vil, a biografia do Wikipédia de um dos mais citados, conhecidos e renomados educadores brasileiros. Paulo Freire, que lutou a vida inteira para educar e libertar os oprimidos e cuidar para que eles não repetissem a crueldade dos opressores, foi acusado de ser o pai da “doutrinação marxista” nas escolas, além de ser o responsável por uma legislação que resultou num ensino “atrasado, doutrinário e fraco”. 

Hoje a direita no Brasil se acha forte o suficiente para atropelar a democracia, desrespeitar as minorias, os partidos de oposição, dar golpes de Estado disfarçados de Impeachment legal, perseguir pessoas de esquerda, e etc.  Mas a história mostra que toda ação gera uma reação. A Segunda Guerra Mundial é o exemplo clássico, quando o líder dos nazifascistas do mundo provocou a União Soviética e teve que fugir com o rabo entre as pernas, se borrar nas calças e se matar com medo de ser capturado pelo Exército Vermelho, como seria.

Mas no Brasil mesmo, temos um exemplo muito interessante: o episódio que ficou conhecido como “A revoada dos galinhas-verdes”.

Plínio Salgado era um tupiniquim brasileiro com ilusões de arianismo. Fundou um partido fascista no começo dos anos trinta que era uma cópia caricaturada do partido nazista alemão. Em 1934, juntou de 5 a 10 mil simpatizantes do movimento fascista na Praça da Sé, em São Paulo, para, como sempre, (tentar) imitar a “Marcha sobre Roma”, que levara Mussolini ao poder na Itália.

No entanto, não contavam com a mobilização das esquerdas para enfrentá-los. Anarquistas, socialistas, comunistas e até trotskistas, membros da Frente Única Antifascista, se posicionaram de modo a impedir a manifestação fascista. Depois de um grande confronto que deixou dezenas de feridos e seis mortos, os milhares de fascistas debandaram, jogaram fora suas camisas verdes e saíram correndo. Correndo, ou “voando” como ironizou o famoso Barão de Itararé. Desde então o episódio ficou conhecido como a “Revoada dos galinhas-verdes”.

Duas lições que podemos tirar destes episódios: a primeira, é que quanto mais a direita bota as “asas” de fora, mais a esquerda se reúne, se organiza e reage. E segunda, a democracia é um regime de poder que, apesar de representar a vontade da maioria, deve zelar, principalmente, pela proteção e defesa dos direitos das minorias. Pois se hoje a direita se acha fortalecida a ponto de impor seus conceitos retrógrados a todo o país como um trator, é porque passa por cima da legislação e dos direitos de terceiros. No entanto, como diz a famosa canção de Chico Buarque, “Amanhã vai ser outro dia”. E então, quando neste dia vivenciarmos um crescimento dos ideais de esquerda e de radicalizações, viveremos um momento em que as esquerdas, chegando ao poder, imporão o castigo e a retaliação? Depois não vão pedir clemência, quando, quem sabe hipoteticamente falando, nossas futuras polícias revolucionárias derem tiros, bombas de efeito moral  e efetuarem prisões arbitrárias contra os direitistas e as classes médias que saírem às ruas pedindo…. “democracia”… Do mesmo modo que a polícia burguesa militarizada hoje esmaga todo tipo de manifestação livre das esquerdas.

Também não vão reclamar quando nossos membros de esquerda apoiarem as retaliações dos umbandistas mais radicais, que colocarão abaixo vossas igrejas da intolerância, como hoje os evangélicos atacam terreiros de umbanda impunemente. Quem bateu ontem esquece, mas quem apanhou não.

Quando professores, médicos e funcionários públicos com visões direitistas que manifestarem opinião contrária ao pensamento estabelecido sofrerem retaliações e perseguições, quem poderá reclamar? Quando hoje aplaudem quem é perseguido por expor opinião em defesa de uma outra visão de esquerda.

Ou somos todos democráticos e respeitamos as diferenças, ou vamos para uma batalha campal para impor cada um o seu pensamento radical?

Lembrem Hitler, que se matou pra não ser humilhado como o outro fascista, Mussolini, que terminou perdurado de cabeça pra baixo numa ponte como castigo. Ou lembrem dos integralistas tupiniquins debandando e revoando pela Praça da Sé. Cadelas ou galinhas, os fascistas não passarão jamais.

11 de julho de 2016

Por que o brasileiro odeia tanto o Brasil

brasileiro colonizado

A crise política e econômica atual atacou a autoestima do brasileiro e fez ressurgir um dos seus hábitos preferidos: falar mal do país e de si mesmo. Basta uma simples olhada nas conversas de rua, de botequins ou de qualquer lugar onde o assunto seja o Brasil, e uma enxurrada de falácias surgirá na ponta das línguas. E o pior, com aquele balanço de cabeça e aquela risada de concordância dos ouvintes. Falar mal do país é quase um esporte nacional, assunto preferido junto com enredos de novelas e campeonatos de futebol. Mas por que temos esse costume de colocar pra baixo a nós mesmos, e que consequências isso acarreta em nossas vidas?

Pra entender essa questão, precisamos recorrer a alguns ilustres pensadores. O primeiro deles, o alemão Karl Marx, que dedicou uma parte de sua brilhante carreira no desvendar da ideologia em sua obra A Ideologia Alemã (1846), ou seja, procurou entender os meandros da produção de ideias, de representações e da consciência. Segundo ele, o pensamento da classe dominante é, em todas as épocas, o pensamento dominante. Com base nesta afirmação, já temos uma pista de onde procurar a fonte daquelas afirmações abjetas que escutamos por aí através do senso comum. Mas o que é o senso comum?

Quem nos responde essa é o sociólogo brasileiro Jessé Souza, em seu livro A Tolice da Inteligência Brasileira (2015). Neste livro ele afirma que o senso comum, aquilo que as pessoas repetem como verdades nos botecos, nas filas do banco, em conversas informais ou em qualquer lugar, são versões simplificadas daquilo que é produzido nos altos estudos acadêmicos, nas redações de jornalismo, nas salas de aula e nas palestras de grandes pensadores, a maioria ligada a algum tipo de interesse comum com as mesmas classes dominantes, que financiam estas instituições.

Desta forma temos espalhadas por aí ideias preconceituosas sobre o brasileiro trabalhador, negro, pobre, a mulher, coisas como “nesse país ninguém gosta de trabalhar, só sabem ficar bebendo cerveja”, apesar do brasileiro trabalhar 44 horas semanais, em comparação com as 38 horas da Alemanha e 35 da França. Será que alemães e franceses são mais preguiçosos que nós então?

Nem no ranking de maiores bebedores de cerveja somos os maiorais. Somos apenas o décimo-sétimo em consumo por litro de cerveja, apesar de sermos o quinto país mais populoso.

Consumo de cerveja no mundo

fonte: Ranking dos países que mais bebem cerveja

Outros chegam a afirmar que o Brasil não possui uma verdadeira cultura nacional (?!!), que a nossa cultura é inferior ou emprestada dos outros. Simples assim.

O que dizer? Este pobre infeliz simplesmente não sabe o que é cultura, ou não conhece o Brasil. Ignorar tantas contribuições tipicamente brasileiras, transformações da cultura original indígena com influência da cultura negra e europeia para coisas absolutamente originais na nossa música, na nossa língua, na nossa culinária, nas artes e costumes, tantas que seria impossível de enumerar, chega a ser incrível.

Mas, lembram da nossa investigação sobre as raízes dessas ideias? Sim, as elites brasileiras, elas que são as culpadas por estes ataques à nossa autoestima. Logo elas, que devem considerar verdadeira cultura a cultura de massas pasteurizada dos Estados Unidos e seus fast-foods, seus super heróis, suas músicas comerciais e roupas padronizadas até quando se dizem fora dos padrões.

É claro que as elites brasileiras e as classes médias cooptadas odeiam o Brasil. Apesar de seu patriotismo tosco, representado pela tríade conservadora “deus, pátria e família”, que quer dizer o cristianismo como base de uma sociedade desigual e injusta acobertada sob um manto de “brasilidade” e da família tradicional burguesa, branca, cristã, onde o “chefe-de-família exerce sua autoridade descendo hierarquicamente da mulher até os filhos. Esse é o Brasil e o brasileiro dessa gente. Nesse modelo, ficam de fora as comunidades pobres, os brancos despossuídos, as mulheres das classes baixas, mães solteiras, os negros, e toda a “ralé” que é vítima dos preconceitos levantados aqui como exemplo. E como a ideologia da classe dominante é a ideologia dominante, logo vemos as próprias vítimas desses ataques fazendo coro contra si mesmos, muitas vezes sem nem perceber.

Poderíamos ligar a TV e ver um pouco dessa ideia negativa contrabalançada com as grandes realizações desse país e de seus membros. Pois acreditem, são muitas em áreas mais diversas como ciência, tecnologia e cultura. Mas a TV também reforça a ideia de um país que não dá certo, com violências e mais violências em programas policialescos especializados em violências.  Reforçam a ideia de que o brasileiro é violento por natureza, e tome mais preconceito. Para as classes dominantes, estes programas prestam um serviço maravilhoso. Pois quando se discute a solução para a violência, o que estes privilegiados propõem e que se reflete nas opiniões dos apresentadores é mais repressão, mais prisão, mais mortes, redução da maioridade, ou seja, um conjunto de fatores que só tentam remediar há pelo menos 30 anos a violência. As pessoas assistem na TV tanta violência que certamente se tornam propensas a aceitar que só mais violência acaba com a violência. Porque discutir o problema a fundo, ou seja, o fato de sermos violentos porque a distribuição de riquezas no Brasil é altamente desigual, seria prejudicial aos interesses das classes dominantes. Então de quem é a culpa da violência mesmo?

Esse post tem a única pretensão de fazer você repensar a ideia de que deu azar de nascer no Brasil. Pesquise outros países, veja se são mesmo tão melhores que nós, ou se apenas temos um conhecimento distorcido da verdade. Nos induzem a pensar que nos países lá fora não existem problemas, são maravilhosos e civilizados, e que nós somos tudo o que há de ruim na Terra.

Pensa bem, alguém pode estar querendo tirar proveito do seu desânimo.

8 de julho de 2016

Dois anos depois do 7 a 1, continuamos perdendo dentro e fora de campo

Há exatamente dois anos, os brasileiros assistiam, atônitos, o passeio dos alemães em cima da seleção brasileira de futebol: 7 a 1, num desastre só comparado com a perda da final da Copa de 50 no Maracanã.

Há um amigo que sempre diz que o futebol emula a vida, quer dizer, o mundo do futebol é um pequeno microcosmo que reproduz muitas características do macro, ou seja, da vida em si. Muitas vezes, é o futebol que influencia a nossa vida, como veremos.

Pobre futebol brasileiro

Na área do futebol, a mesma Rede Globo de Televisão, sócia e maior parceira da corrupta CBF, hipocritamente passou a clamar por mudanças no futebol brasileiro depois do desastre no Mineirão em 2014, como se não tivesse nada a ver com isso. As mesmas mudanças que os movimentos sociais já pediam muito antes da Copa no Brasil começar.

Durante o evento, porém, a emissora contribuiu para a desconcentração e o oba-oba, fazendo matérias exclusivas com os jogadores; colocando atores e figuras globais dentro da Granja Comary; eventos com patrocinadores; Luciano Huck chegando de helicóptero com os filhos durante os treinos, tudo em troca da alavancagem do apoio da população a uma seleção totalmente despreparada, tanto técnica, quanto psicologicamente.

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A Copa que derrubou o governo

Na área política, hoje podemos dizer que a derrocada do governo Dilma e a crise política que vivemos começou ali, não por causa do resultado, mas do proveito que setores mais reacionários tiraram da insatisfação popular.

Senão vejamos: antes da Copa, com o país esbanjando bilhões com empreiteiras e prefeituras enxotando de forma fascista populações inteiras de suas moradias, os legítimos movimentos sociais criticaram o governo federal, sua gastança e sua atitude. A resposta, em vez de diálogo e tentativa de solução — coisas que nunca foram o forte de Dilma Rousseff, convenhamos — foi polícia, repressão, bombas, mutilações, prisões e criminalizações de protestos.

Dilma vaiada na Copa do Mundo

E qual foi o resultado disso? Com as esquerdas neutralizadas e fora de combate, para o deleite, na época, de muitos militantes petistas que hoje encontram-se sem rumo na vida, abriu-se caminho para as classes médias mais reacionárias e os partidos de direita tomarem conta do cenário. Chegou-se ao ponto daqueles críticos bem intencionados, como nós, que queríamos uma mudança de postura do governo Dilma, estarem apanhando fora do estádio enquanto a presidenta era vaiada dentro pelos coxinhas golpistas que puderam pagar os exorbitantes e segregantes valores dos ingressos. Ali, naquele momento, a popularidade de Dilma caiu na proporção em que as classes médias botaram a cara na rua, tomando o lugar dos legítimos movimentos sociais.

Este ano, com o apoio destas mesmas classes médias reacionárias, não precisamos dizer o que aconteceu com o governo Dilma. Uma lição que o PT tomou amargamente por não ter ouvido a voz daqueles que seriam os seus apoiadores naturais, mas que ficaram com o sentimento de traição no peito. Isso quando não ficaram com sequelas pela ação violenta das polícias militares Brasil afora, apoiadas pelo então Ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, que hoje, como advogado, se desdobra para salvar a pele da Dilma dos lobos no processo de Impeachment. A vida é irônica às vezes.

Futebol emula a vida: passos pra trás

Voltando ao futebol, depois do desastre, a promessa era mudar tudo. Mas, nossos velhos dirigentes, historicamente, seja na política, seja no futebol ou seja em qualquer área, tem pavor de “revoluções” e de mudanças bruscas. A única que conseguimos de relevância não fomos nós que fizemos, mas sim o FBI, que mandou prender o então presidente José Maria Marín e deixou o atual, Marco Polo Del Nero se borrando nas calças com medo de sair do país e ser preso, de tão envolvido em suspeitas de corrupção que está. Com isso, o presidente em exercício não tem legitimidade, é um interino chamado Coronel Nunes que não apita nada, não tem poder e não pode fazer as mudanças que o futebol brasileiro exige. Digamos que seja o Michel Temer da CBF…

Passados dois anos desde o fiasco dos 7 a 1, o Brasil foi eliminado precocemente de 2 Copas Américas, mandou embora o bravo Dunga, designado para ser o técnico da “mudança” (?!), e ostenta um embaraçoso e nada digno sexto lugar nas Eliminatórias (hoje estaria eliminado pela primeira vez da Copa do Mundo).

Tanto no futebol quanto na política, aquela Copa no Brasil nos trouxe um legado simplesmente lamentável dentro e fora de campo, pois nem a CBF nem o governo Dilma foram capazes de ouvir os verdadeiros apelos da população brasileira.

E agora vem aí as Olimpíadas… “Haja coração amigo”….

6 de julho de 2016

O Brasil comprova que a democracia é tão falha quanto qualquer outro regime

Nesta última segunda-feira (4/7), o historiador Leandro Karnal, entrevistado do programa Roda Viva, lembrou uma célebre frase do famoso ex-premier britânico Winston Churchill: “a democracia é o pior dos regimes de poder, com exceção de todos os outros”. Essa frase altamente controversa tem ajudado a consolidar a ideia da democracia como valor absoluto em si, universal, que deve ser implementada em todo o mundo indefinidamente. Mas essa noção acrítica só serve para ocultar as falhas e pontos negativos da própria democracia, mesmo em comparação com outros sistemas.

O capitalismo já provou que liberdade e democracia não são condições indispensáveis ao seu desenvolvimento. Seja em sistemas monárquicos, autoritários, ditatoriais ou abertos, o capitalismo sequestra as instituições de poder, representada pelos políticos, e as usa em seu proveito. E aí está o grande problema dos sistemas políticos sob a influência livre do poder econômico: mesmo os mais repressivos, como os do Oriente Médio, que seguem a Sharia rigorosamente, tem por trás a mão do imperialismo a lhe sustentar, principalmente por causa do petróleo nestes casos. Em outros, por outras riquezas, como os diamantes africanos. Seria ilusão achar que o sistema democrático está livre de influências e de interesses do sistema financeiro nacional e internacional, que contamina as decisões políticas de um sistema que significa em tese “poder do povo”, mas que, de fato, se tornou o regime que atende interesses de empresários, banqueiros e fazendeiros.

O próprio Leandro Karnal, em sua entrevista, deu um exemplo esclarecedor sobre como os nossos representantes não representam realmente a nossa vontade, e muito menos respeitam as leis estabelecidas. Segundo ele, o que determina o processo de Impeachment de um presidente da República não é necessariamente o quanto ele violou as leis e praticou crime de responsabilidade, e sim o quanto de “apoio” ele ganhou ou perdeu no Congresso.

corrupcion

Fernando Collor perdeu apoio, e foi impedido. Em compensação, Fernando Henrique sofreu uma enxurrada de pedidos de Impeachment devido as claras e abjetas irregularidades cometidas em seus dois mandatos, e a cada um deles respondeu com “benesses” aos deputados, barrando assim as investigações. O mesmo podemos dizer de Lula. Se não contasse com uma base política forte, comprada literalmente com muito dinheiro disfarçado eufemisticamente de “governabilidade”, só o mensalão já seria motivo mais do que suficiente para um processo. Já a Dilma, que conquistou a fama de “não dialogar com o Congresso” — ou seja, não ser muito adepta de negociatas — foi perdendo todo o apoio da sua própria base, que a levou, mesmo com acusações frágeis, a sofrer um processo de Impeachment, que é sempre um ato extremo.

Como podemos então defender uma democracia dessas como o melhor dos regimes, sem perceber que com ele todo um esquema de usurpação de poder pelos interesses econômicos causa escândalos e mais escândalos de corrupção no nosso país? Mais do que isso: lá na ponta, causa miséria, falta de recursos básicos na saúde e educação, entre outros problemas. Nos falta uma cultura crítica para observar que nada é bom ou mau a priori, e inúmeros interesses estão por trás daqueles que defendem um modelo em detrimento do outro.

A democracia não é a oitava maravilha do mundo, não é o sistema perfeito, nem ideal para todos os países. É apenas mais um, e ainda por cima cheio de defeitos. Muitos países do mundo não têm um regime que passaria na chancela de democracia segundo a ideia ocidental. No entanto, muitas vezes têm mais liberdade do que nós, ótimas condições de vida, mais oportunidades, níveis quase inexistentes de desigualdade social, alta participação social na política, baixos índices de corrupção, IDH elevado…

Então por que diabos nós, que não temos nada disso, havemos de defender cegamente um regime que pra nós, representa meramente ir numa urna eletrônica de dois em dois anos, encenar de forma farsesca  uma participação politica que se resume a apertar alguns botões e depois assistir passivamente nossos “representantes” tirarem e colocarem quem eles bem quiserem no poder, não obstante nosso voto?

Democracia pode até ser funcional em muitos casos, mas sem uma reforma política que vise depurar seus desvios, não deve ser defendida de forma incondicional como vemos por aí.

3 de julho de 2016

A esquerda precisa descobrir a zona oeste do rio

A esquerda precisa descobrir a zona oeste do rio

Neste domingo (3/7), duas da tarde, a deputada federal e pré-candidata do PCdoB à prefeitura do Rio, Jandira Feghali, ficou de vir em Padre Miguel, bairro da zona oeste da cidade do Rio, num evento promovido pela CUT e por um coletivo de mulheres ligado ao partido. Não sei se de fato veio, pois, nunca acostumado com o mau hábito do brasileiro com relação a atrasos, cheguei no local na hora indicada, e até as 15:30h a distinta parlamentar ainda não havia chegado. Naquele momento a vontade de assistir o jogo do Flamengo falou mais alto e eu não aguentei mais esperar. Se eu soubesse o que seria o jogo, teria ficado mais um pouco…

O fato é que, com ou sem atraso, os possíveis candidatos a prefeito da cidade do Rio com características progressistas ignoram o potencial da zona oeste. Maior e mais populosa região, naturalmente também é a que concentra o maior número de eleitores.

Desde muito tempo a direita e os partidos conservadores ligados a seitas evangélicas fazem de bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Inhoaíba, Paciência, Bangu e arredores, seus currais eleitorais. É daqui que saem os votos que elegem, por exemplo, um Eduardo Paes, um Cunha, um Pedro Paulo, um Pezão… Porque os políticos da região, geralmente de partidos nanicos que se vendem a coligações de quem paga mais — geralmente o PMDB, fenômeno que certamente se repete em diversas regiões do país — obtêm um verdadeiro monopólio da divulgação de material. Noventa e nove por cento de todos os santinhos e galhardetes apresentam um político da região numa fotomontagem ao lado de um desses citados políticos que dominam a política carioca e fluminense.

Há pelo menos 30 anos, basicamente os mesmos políticos, seus filhos e futuramente seus netos usufruem dos votos de uma população que só conhece a esquerda pelo que ouve falar na Globo, e acreditem, não são coisas boas.

É preciso penetrar de vez nos bairros da zona oeste, propor comitês, fazer palestras em universidades, clubes, comícios ao ar livre, carreatas… Mas, ao contrário dos coronéis que dominam a região, não apenas uma vez a cada eleição, e sim frequentemente, para que as pessoas possam conhecer de perto quem são os candidatos que podem fazer algo de diferente para essa gente sofrida.

Dizem que a cultura local é a do clientelismo, difícil de romper. Mas se você não tivesse nenhuma alternativa de pensar no coletivo e vivesse com necessidades imediatas, também não submeter-se-ia a essa prática? Antes de classificar toda uma região como adepta do clientelismo, é preciso oferecer uma reeducação política e opção de voto.

Quem se candidata?